Entrementes

#89 | Fetiches e parafilias: Qual o limite?

Baioque Conteúdo Season 8 Episode 5

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Quase todo mundo tem fantasias sexuais. Muitas pessoas têm fetiches e algumas têm parafilias. Mas e quando o que dá prazer causa sofrimento?

Neste episódio, explicamos cada um desses termos e falamos sobre culpa, dependência, julgamento e conflitos internos que surgem quando o que excita também faz sofrer. 

Conversamos com Juliana Alves, psiquiatra e sexóloga da Unifesp. Link no destaque "Episódios".

Você sofre por vontades sexuais que te despertam? Este é um episódio para entender mais — e (se) julgar menos. 

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Aparte: Hermano Castro

Produção: Baioque Conteúdo
Roteiro e apresentação: Luiz Fujita Jr
Coordenação geral: Tainã Damião
Redes: Tainah Medeiros
Edição: Amanda Hatzyrah
Trilha sonora: Paulo Garfunkel
Instagram: @entrementespodcast
YouTube: @entrementespodcast

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Olá, sejam bem-vindos ao Entrementes, nosso podcast de saúde mental contra o estigma. Eu sou o Luiz Fujita e hoje a gente vai falar sobre fetiches sexuais. Eu acho que é a primeira vez, olha, que a gente fala sobre sexualidade, o que é incrível, né? Porque num podcast sobre saúde mental, sexualidade é uma coisa que tem tanto a ver, mas eu acho que em 80 e tantos episódios é a primeira vez que a gente vai falar sobre sobre fetiches, né, mas assim, com um determinado recorte. O DSM-5, que vocês já sabem, aquele manual que é meio que uma guia, né, tem muita controvérsia sobre ele, mas ele de qualquer forma é uma guia para diagnósticos, né, traz uma cobertura de vários tipos de transtorno. Ele tem um capítulo que é um pouco sobre o que a gente fala, sobre o que a gente vai falar, né, que é sobre, lá chamam-se parafilias, seriam assim desejos sexuais intensamente vinculados a alguma coisa ou algum tipo de comportamento específico. Específico, né. No caso, ele traz esses desejos no âmbito de configurar um transtorno psiquiátrico, né. Tem uns ali que ainda são bem controversos, tipo, tem o transtorno de travestismo, né, que seria aquela coisa de se vestir ou se comportar, se transfigurar como alguém de outro sexo, né. Mas aí o DSM sempre tenta dar uma driblada assim nessa coisa da controvérsia, falando que a questão é quando causa algum tipo de sofrimento, né. Como a gente já viu aqui, esse é um ponto que sempre faz uma diferença para diferenciar o que é saudável e o que é um transtorno. Mas ainda existe assim no senso comum a ideia de que qualquer coisa que seja um pouco mais diferentinha, sai um pouco de um padrão ou daquelas fantasias ou fetiches mais corriqueiros, já seja uma coisa tida como anormal. E é um pouco sobre isso que a gente vai falar. Onde está? O que é? Como se define esse normal? Existe normal dentro desse assunto? E quem vai ajudar a gente nessa conversa é a psiquiatra Juliana Alves, ela é psiquiatra e sexóloga da UNIFESP. Obrigado pela disponibilidade, viu, Juliana? Imagina, é um prazer estar aqui e poder trazer um pouquinho desse assunto. Como você disse, já passou da hora de estar aqui, né? Porque é uma coisa tão natural e tão do dia a dia, só que a gente vai deixando para baixo do tapete, né? Sim, vamos então cumprir, né? Fechar esse buraco agora. Para começar, Juliana, é sempre bom a gente colocar os conceitos na mesa para todo mundo ficar na mesma página, né? Então eu falei ali na introdução meio que como a mesma coisa sobre fetiche e fantasia, mas talvez não sejam a mesma coisa. Então eu queria que você explicasse assim, fetiche e fantasia são a mesma coisa? Quando a gente vai, eu acho que a gente vai falar mais de fetiche. Então o que que é exatamente isso? Tá, vamos lá. Na verdade a gente não vai falar nem de fetiche, a gente vai falar mais de parafilia, mas a gente vai explicar as diferenças de toda forma. Fantasia, vamos colocar assim, fantasia é uma coisa mais genérica que qualquer pessoa pode ter e ela não é uma coisa fixa ao longo da vida da pessoa. Então, ah, um dia eu fantasiei estar você tá na praia e fazer alguma coisa, ou então você tá num espaço outro, sei lá, eu tô numa fazenda e naquele

momento vem uma ideia:

putz, será que seria legal fazer alguma coisa aqui? Sempre já vi num filme, sempre pensei em alguma coisa a respeito, mas é uma ideia mais solta, um pensamento, um simbolismo mesmo, que mesmo que você não realize aquilo, tudo bem, é uma coisa pontual, passageira, e você vincula algo gostoso, ou seja, É alguma prática, alguma atitude, alguma roupa, alguma coisa para além do dito convencional que talvez torne aquele sexo mais gostoso. O fetiche, tem-se usado cada vez menos esse termo, porque ele é uma especificidade também do ato sexual, de uma prática sexual, mas ele não tem a ver com nenhum tipo de adoecimento e também não tem tantas relações com a parafilia, que é o que você quis dizer, de possíveis adoecimentos. Fetiche seria uma prática no ato sexual que envolva algum tipo de objeto. A definição é essa, apesar de parecer estranho, porque objeto seria vinculado ao nosso corpo. Então, alguma parte do corpo, é que fica meio estranho falar parte do corpo, né? Mas, por exemplo, a mão. Ah, eu tenho fetiches em mão. Então, assim, eu faço o ato sexual do dito convencional, sem nenhuma prática diferentosa, nada que mude aquele tipo de, ah, faço. Mas se envolver, olhar a mão da pessoa, tocar a mão da pessoa, tem uma certa especificidade. Se envolver aquele objeto, vamos chamar assim, que eu gosto muito, putz, o sexo fica mais gostoso. Toma sorvete normal? Tomo. Se tiver uma calda, fica mais gostoso? mais gostoso. Então sempre que tiver calda, vou pedir com calda. Vamos colocar assim, é uma especificidade que a pessoa não esquece ao longo da vida. Normalmente ela tem, e às vezes ela tem, e é um campo temático. Se eu gosto mais de mãos, às vezes eu gosto de pés, se eu gosto de algum acessório vinculado ao corpo, é tudo mais ou menos relacionado ao corpo, na teoria, uma parte do corpo ou uma extensão do corpo, um gargalho, alguma roupa que no corpo do outro me provoque alguma sensação. Então seria prática sexual dita não convencional, o fetiche, né, em que existe uma situação, um objeto de desejo que é inserido naquela relação que torna o ato mais gostoso. "Mas eu não deixo de me relacionar com alguém se essa pessoa ela ter tiche." E a fantasia, por definição, seria algo mais esporádico, bem mais lúdico mesmo, né? Não tem uma permanência, uma prevalência ao longo da vida. Tanto que petiche vem de feitiço, né? Então é uma coisa que fica, você não consegue tirar aquilo. Então ela vai permeando o seu imaginário e fantasia. Um encantamento, assim, né? Um encantamento, a palavra vem disso mesmo. Bacana. E aí, Juliane, e umas coisas tipo, ah não, que não tem a ver exatamente com objeto nesse sentido que você falou, né? O objeto, lembrando, não precisa ser um utensílio, né? Pode ser uma parte do corpo, que nem você falou. Utensílio? Prato sexual? É porque eu fiquei imaginando em coisas mais diferentes. Não, não, caralho, você tá direcionando a conversa. É que eu tô muito com a cabeça nessa parte. Colher, sei lá, qualquer coisa assim. Gosto é gosto. Sim. Mas e uma coisa que não seja objeto, mas tenha esse peso que você está falando um pouco, né, Juliana? Então, por exemplo, algo que tem a ver com o comportamento. Então a gente ouve falar muito de BDSM, não é exatamente um objeto, embora possa ter os acessórios, mas assim, a coisa é o ato, né? Isso se encaixa onde? Então aí a gente entra no campo das parafilias, né? Para de ao lado e filia de amor. Então para está para além do convencional, fora do convencional. Antes colocava-se todas as nomenclaturas fetiche, parafilia, tudo no mesmo balaio. Vamos colocar assim. E parafilia também estava no mesmo ramo temático que transtornos paraquímicos, igual você falou, transtornos traz adoecimento. A parafilia, o que é? Então vai pensando num funil, eu sempre falo para os alunos como se fosse um funil assim. Fantasia é uma coisa pontual que não permanece ali. No começo do funil, vamos colocar assim, está o fetiche. Está meio solto, se tiver melhor, se não tiver ok, mas não é determinante para o meu ato sexual. A parafilia também é uma prática, que é uma variação, né, é uma dita não convencional. A gente evita muito usar a palavra normal, né, porque depende de conjuntura, né, enfim, né, que é normal, papo chato. É a nossa discussão, inclusive, aqui. Mas a parafilia, pensa no funilzinho, né, a parafilia seria um estreitamento do repertório. Ou seja, se eu gosto de uma prática sexual, e aí não envolve só necessariamente um objeto, tem a temática, o campo temático daquela situação, né, ou daquele gosto. Então, se o sexo que eu vou fazer não é com alguém parafílico ou que gosta de práticas parafílicas, muito provavelmente meu relacionamento não vai pra frente sexual com essa pessoa. Porque não é que é uma coisa que quando eu faço é gostoso. Aí eu tenho sorvete, quando eu ponho a calda, gostoso, fetiche. Mas eu vivo sem aquela calda. Não, é uma restrição, é um estreitamento de repertório. Eu preciso daquela calda, senão eu prefiro nem tomar o sorvete muitas vezes. Então eu preciso preciso daquilo lá. E quando você fala de BDSM, a gente tá falando do universo temático. Então assim, geralmente não é uma coisa pontual, por isso que ele é um pouco mais específico, entendeu? Perdão. Então se eu gosto da questão da dor, eu gosto de várias práticas que envolvam dor. Se eu gosto da questão de poder, então pode ter degradação, submissão, que é questão do BDSM, né, que dentro desse acrônimo tem dor, tem submissão, sadomasoquismo, Ações, e não necessariamente uma estava vinculada com a outra. Mas o interessante do acrônimo, que ele já dá dica para gente do que que é parafilia, é que é o campo temático. Na parafilia, assim como no fetiche, na fantasia, não existe adoecimento. São práticas que talvez possam ser vistas como não convencionais do ato sexual ou do que envolve o ato sexual, não necessariamente uma penetração, entre outra coisa. O que acontece nesses, nessas três tipos de prática, todo mundo maior de idade, consente, todo mundo feliz, todo mundo querendo que não participar, não tem adoecimento, não provoca um sofrimento a ninguém. Então, ok, por mais que cause muitas vezes estranhamento no outro, né, mas são todas práticas saudáveis da sexualidade, só vai tendo esse funilzinho de estreitamento de repertório. Sim, ela é essa imagem que você colocou do funil, é muito bom para a gente entender, e ela me colocou um pouco essa questão, né. Mas então esse simples estreitamento um pouco, digamos, e que pode inclusive afetar a vida de um casal, digamos, que nem você falou, Ainda assim não é um transtorno. Não é um transtorno, porque assim, vamos colocar assim, se você é super vegano, se você não consome nada, nem uma bolsa de couro, você vai ficar com alguém, uma parceria que quer todo dia ir numa churrascaria? Não que você não possa acompanhá-la, pode dar certo, a gente consegue fazer dar certo, mas ao longo do dia a dia vai pesando, porque vocês têm um funcionamento, um, o que vocês acreditam como cotidiano, como gostoso e leve no dia a dia, tem uma discrepância. Então acaba tendo discussões, porque porque você vai envelhecer, você vai envelhecer, mas o seu desejo não vai envelhecer. Você vai continuar gostando de práticas parafílicas. Por exemplo, uma coisa mais pontual, mais específica. Ah, eu quero fazer, sei lá, a gente pode falar de tudo aqui ou não? Pode, pode, à vontade, totalmente livre. Uma coisa simples, vai, algo de fisting, né, que é colocar o punho. Eu gosto de um fisting, tá? Então no começo do relacionamento, ah, eu tô pá, a minha parceria gosta, não ia desagradar, Mas ao longo da vida, se não é uma coisa que eu gosto, eu não vou querer continuar fazendo. Só que a gente envelhece e o desejo não muda necessariamente. Vou querer continuar aquela prática parafílica. E aí vai tendo discrepância aí na questão do encontro da prática sexual entre os casais. Então não é adoecimento, mas as pessoas acabam buscando pessoas, por exemplo, aplicativo direcionado só para fetichista, para parafílico, acaba procurando uma pessoa que tem mais um estilo de vida parecido com o dela. Sim, não, essa analogia que você fez é perfeita. Assim, a gente entende com várias coisas, né? Quem gosta muito de atividade física, né, por exemplo, provavelmente acorda com alguém todo dia 4 horas da manhã para correr no parque. Psicopata, né, gente? Irnei para o NEM. Só o outro que vai. Nossa, gente, é domingo, sabe? Não, amigo, mas é uma opção, é o estilo de vida. E Juliana, Fechando assim agora então em fetiches e parafilias, né? Como que elas se distribuem? Não uma coisa muito exata, né? Uma estatística, uma porcentagem, mas naquela, numa medida assim, a maioria das pessoas tem algum dos dois ou parafilia um pouco menos. Como que você diria? Eu acho que muitas pessoas, quase todo mundo deve ter um fetiche, né? Tem alguma preferência, uma variação da sexualidade. Eu brinco que deve ser o normal teoricamente é ter um fetiche. Fantasia todo mundo tem ao longo da vida, seja mais romantizada, menos romantizada. A questão é, como é um assunto muito tabu, que é muito delicado, de foro muito íntimo, e as pessoas se sentem julgadas, porque se ela julga o outro, ela também se julga, né? A gente é nosso maior algoz. Ela dificilmente se permite experimentações. Então, muitas vezes a pessoa talvez tenha alguma prática dentro do universo das possibilidades na sexualidade, que talvez deixasse o sexo dela muito mais gostoso, mas ela nunca nem vai descobrir isso ao longo da vida. Fetichismo é uma coisa bastante comum porque pode envolver qualquer tipo de situação. E vou dar um exemplo, como você tem vários amigos fetichistas e eles te falam isso no dia a dia, você não percebe. Você tá num bar, sei lá, e tem um amigo hétero topzera lá, aí tem duas meninas quase iguais, duas moças ali basicamente iguais,

loira, peito, magra, um padrão mais ou menos igual. Você fala:

São bem

parecidas. Aí a senhora fala:

nossa, mas aquela ali tem uma bunda mais redonda, não sei o quê. Tem uma preferência por uma parte do corpo da pessoa. Você tá fetichizando o corpo dela. Se as duas são iguais, você escolheu por uma especificidade. Não deixa de ter um fetiche, que é uma coisa que você vive sem, mas poxa, se tiver na hora vai ser mais legal. Entre as duas, aquela tinha. A gente tem fetiche por mão, né, por várias coisas. Por suor é muito comum no Brasil, por suor é muito comum. Você vê as novelas da tarde assim, até das 7, aquelas mais caricatas, porque é do universo da América Latina, da objetificação do corpo. Quem é o mais, que faz sexo melhor? O moço engomadinho ou o cara da oficina suado, macacão? Porque remete ao ato sexual, remete a um fetiche, fetiche pelo corpo molhado. Então fetiche é muito comum. A parafilia, como ela tem um estreitamento maior de repertório, Já seria uma parcela menor da população. Isso que o Ju está falando, que tem um viés aí, que assim, se as pessoas nem sabem se elas têm fetiches ou não, como é que elas vão elaborando isso para saberem, inclusive, se têm parafilias? Então, é muito incomum. Uma pessoa vai conhecer a outra, apresenta o mundo do fetichismo, da parafilia para o outro, o mundo fetichista, perdão, da parafilia para o outro,

e aí ela fala:

"Ups, tô gostando disso aí, estranho, hein?" Mas então acaba sendo uma parcela menor, mas por falta de informação mesmo, eu diria, até de acesso. Sim, sim. Falando nisso, aliás, né, Juliana, essa coisa de a gente hoje em dia, embora talvez ainda círculos restritos, acho que dá para a gente falar que se conversa mais sobre sexualidade hoje em dia, né? Ou pelo menos um pouco mais abertamente. Ainda assim, queria saber se chega para você muita gente que tem algum fetiche ou alguma parafilia e que chega com sofrimento apesar daquilo na verdade ser algo saudável, ou pelo menos deveria ser, por qualquer motivo, né? Por culpa ou porque o relacionamento não dá certo, ou a pessoa esconde aquilo mesmo que não precisasse. Enfim, como é esse público que chega para você com algum sofrimento, mesmo que não seja um transtorno, né? Olha, infelizmente chega assim, quer dizer, felizmente que a pessoa tenha educação, né? Informação, informação é saúde, mas infelizmente chega porque é o desconhecimento, né? Então às vezes a pessoa fala

assim:

'Eu tô com uma pessoa, uma parceria, há 10 anos, há 8 anos, e eu nunca consegui falar do que eu gosto. E agora tá na moda.' Eu tenho paciente que eu atendi ontem, ele tem 50 e poucos anos. 'E agora tá na moda essas coisas de relacionamento aberto, cogitei propor para fazer essa prática específica com alguém, vou falar que descobri ela agora.' E ele tem essa vontade de fazer essa prática desde sempre, prática completamente saudável. Mas o que que acontece? Se a gente vive num mundo em que é muito vendido, né, e é muito todo dia a gente bombardeado do que é certo, que é normal— olha o peso dessa palavra, né? Normal do que pode, do que é sujo, do que é limpo. E o sexo de alguma forma é atribuído a algo imoral, algo sujo. Pensar, você comeu uma feijoada, você comeu uma esfirra do Habibis, tem um carro e você levou a caixinha no carro, tem um carro e tem um micro-ondas, vão ficar cheirando Habibis um ano. Agora, se você entra no quarto do colega ou de alguém e fez, ai, cheiro de sexo, hein, ah, a esfirra do Habibis vai ficar muito mais dias no micro-ondas incomodando mas não é sujo, sexo não é sujo, porque a gente coloca essa conotação de coisas vinculadas ao sexo serem "ugosto", imoral,"hypersexualidade". Então as pessoas, quando elas se veem com vontade de fazer algo que talvez os pares delas, pessoas ao redor dela, elas falam que não gostam, acham estranho ou julgam de alguma forma, essa pessoa se culpa, ela guarda aquilo. Só que é uma forma de ter prazer, é uma forma de ter desejo, e ela não consegue calar muitas vezes aquilo. Então ela vai adoecendo, que ela vai criando histórias. Aí, eu não posso propor, se eu propor a pessoa vai me achar isso, vai me achar aquilo, se eu propor mexer com urina, com fezes, ou sei lá com o quê, vai falar que eu sou porco e eu sou médico, então eu não posso ser assim. Olha como é o juízo de valor e o juízo moral da gente mesmo, né, inicialmente, e que impede a gente de exercer a nossa sexualidade.

Eu falo do exemplo clássico, né, não vou me delongar, mas o exemplo clássico é:

se você falar para todo mundo que tiver ouvindo aqui hoje, né, hoje depois desse podcast, daí todo mundo pegar o celular e na plataforma que quiser, no Pornhub, o que quiser, Pegar uma categoria que você não sabe nem o que é, vai clicar e vai assistir um vídeo. Eu posso chutar que 80% das pessoas, mesmo sendo homens, mulheres, não binários, que seja, vão pegar o celular em que elas pagam a conta, que tem senha, tudo, e vai abrir aba anônima e é capaz de limpar o histórico depois. Você tá limpando o histórico de quem se o celular é seu? É isso, é o que eu tenho de falar sobre. Então a gente se julga e as pessoas vêm sim ao consultório e a gente dá limite. "Não tá fazendo mal pra ninguém, todo mundo consente, todo mundo consegue decidir, adulto, maior de idade, vivo, humano." Que a gente trabalha com coisas outras, né, de crime. Tudo nos conforma, tá liberado, não traz mal pra ninguém, todo mundo consentindo, vai! "Ah, mas é diferente." Mas as pessoas são diferentes, né? Diversas.

E uma coisa que eu falo é:

"Ah, eu tenho medo dos outros me julgarem." Se você tá confortável, essa eu falo que é a dica de milhões, se você tá confortável com o que você gosta, o que você quer, o que te faz bem, A gente adoece ou não, ou seja, até onde eu vou para agradar o outro e até onde eu não vou, que é permissividade. Aí eu faço isso porque, sei lá, o Luiz gosta, não gosto tanto, mas não me é violento. Vai, relacionamento, ok. Se você sabe até onde eu não posso ir, se você tá confortável com quem você se tornou, independente do que esse eu goste, queira, você não tem receio de convidar o outro para o seu mundo e não se sentir julgado. Agora, se você tem dúvida, você convida o outro Você

já convida de uma forma que o outro fala:

"Puts, não sei." E aí você

se sente julgado. Então eu falo:

conheça a você mesma, permita-se ter experimentações, que você dificilmente adoece por isso. Porque o que o outro falar ou não falar, você não se importa, porque não é sobre ele, é sobre você. Sim. E Juliana, pelo que eu não sei se você chega a acompanhar às vezes os casos por um longo prazo, mas num caso desse que alguém chega, por exemplo, com alguma dessas coisas que a excita e na verdade não teria problema nenhum, ela poderia viver aquilo, né? Nos casos em que a pessoa consegue, né, e ela tem um companheiro, uma companheira, digamos, né, nos casos que ela relata aquilo e consegue se abrir, geralmente dá certo. E aí eu queria que você fosse bem honesta, né, porque a pessoa acho que tem medo justamente do relacionamento terminar, de ser mal visto, tudo isso que você falou, né? Mas às vezes acontece o contrário, né? Não, a gente vê muitas histórias que acontece o oposto. A gente se surpreende porque eu falo assim, Mas você, por exemplo, você, Luiz, você namora ou é casado? Namoro, sim. Bastante tempo? Sim, 4 anos. Se eu perguntasse a sua parceria, seja ela quem for, tem alguma parafilia?

Você vai falar não. Aí eu vou falar:

você tá falando não porque você acha que não ou não porque já perguntou para ela? Então a gente parte do princípio que a gente conhece as pessoas. Não, mas eu conheço exatamente o que ela gosta, o que eu não gosto, o que ele gosta. Será? Se a gente mesmo não conhece, a gente usa abanônimos, será que o outro conhece? Então eu falo, você convida, foi aquilo que eu falei da resposta anterior,

você fala assim:

olha, a gente não é o mesmo, a libido vai mudando ao longo da vida, eu vi uma coisa, me interessei, cara, eu acho que isso pode ser interessante, gostei dessa prática, o que você acha? Você topa, você não topa? Você acha estranho? Eu posso ver um vídeo e fazer se você não quiser participar? As pessoas de forma geral se importam muito menos do que

a gente acha que se importariam. Não incomumente a pessoa fala:

ah, "Não sei, não sei se eu vou gostar, mas só por tentar." Porque é igual vinho, por exemplo, é super chique falar que gosta de vinho,"I'm a Merlot," não sei, todo mundo acha super chique falar de vinho, mas ninguém entende muito de vinho, vamos combinar assim, é só mais chique falar do que... Só que muitas vezes, eu por exemplo, a Juliane, não sei nada de vinho, mas eu sei os que eu não gosto. Então eu falo, você convida a pessoa, normalmente ela pode não saber de tudo que ela gosta, mas ela tem noção do

que ela não vai querer. E se você fala assim:

"Olha, eu tô te convidando, não vou deixar de casar com você, não vou deixar de namorar, mas talvez essa prática pode ser interessante, tô jogando pro universo. Talvez eu me masturbe um dia, talvez eu queira ver um vídeo, você pode ver comigo." As pessoas normalmente elas não se incomodam. É tipo pedir pra ir num restaurante novo, elas não se incomodam. Inclusive ficam confortáveis pra falar sobre a sexualidade delas. É bem bacana. A resposta é muito mais simples que o previsto, muito. Sim, ótimo, é ótimo. É uma motivação porque acho que preocupa bastante as pessoas. Sempre tem esse desfecho catastrófico que a pessoa projeta, né? Não vai acontecer

isso. Muitas vezes não. Tem um paciente que ele fala pra mim assim:

é a melhor coisa você contar o seu universo pra pessoa. E eu já jogo lá no

eu achei que fosse escandalizar, de repente ela falou:

ai, que bom que você falou

disso. E ele falou assim:

Juliana, vou trazer. Juliana, eu não quero essa mulher não, não vou dar conta, bicho. Você abriu a portinha, né? Você falou

agora assim:

oh, Imagina, né, que as pessoas que estão num relacionamento, que nem você falou, muitas vezes chegam com 10 anos. Imagino que não seja um modo de falar, realmente acho que chegam com 10 anos, né? A gente imagina que haja uma parceria que contemple uma conversa desse tipo, né? Esse tipo de conversa é mais fácil do que previsto. Por quê? Porque se você tá falando de uma coisa muito íntima, as pessoas acabam não julgando tanto. Se você vai falar de vida, por exemplo, de comprar um carro mais

ou menos moderno, a parceria talvez fale:

ah, essa hora do campeonato querendo fazer isso?

Agora, sexo é uma coisa que é pulsão. Então a pessoa fala:

"Nossa, você já tinha isso antes? Nunca conversou. Como é que é esse negócio? Vou ver." Não costuma ter tanto juízo de valor, porque se você está se expondo, a pessoa, e você está confiante do que você está passando, essa informação, você não fica passível de julgamento. Vamos colocar assim. Porque ficar pelado é fácil, difícil se expor. Ficar pelado, você abre qualquer coisa, internet, celular, Instagram, vai ter alguém pelado. Agora exponha-se, mostre o que você gosta, o que não gosta, fique vulnerável. Quando a gente tem uma intimidade, o outro, de forma geral, mesmo sem perceber, respeita. Então acaba sendo uma conversa muito mais leve do que o previsto. Juliana, queria entrar num assunto que eu acho que perturba muita gente. E aí é agora entrando já nos transtornos parafílicos, né? Como você falou muito rapidamente, alguns dos transtornos, eles já entram no terreno não só do transtorno psiquiátrico, mas também da criminalidade, né, em alguns casos. E aí eu queria falar um pouco sobre, por exemplo, né, eu acho que o mais clássico é pensar em pedofilia, né. Ele tá inclusive, é um dos especificados lá no DSM. Ele nem tem tantos especificados, né, mas a pedofilia é um deles. Mas eu queria pensar, não, ainda não falando do transtorno, mas assim, por exemplo, uma pessoa que pensar sobre isso ou imaginar essa situação seja algo que a excite ou que a motive sexualmente. O pensamento mais, né? Vamos lá. Quando a gente fala em pensar, é que quando a gente fala em transtorno pedofílico, por exemplo, a gente pensa que engloba só quem tá praticando uma ação, né? Vamos colocar assim. Só que na como ação a gente pensa, a gente considera um pensamento, consumir algum conteúdo criminoso online, Não necessariamente estar com o objeto de desejo, uma criança, né, que não deveria ser objeto de desejo. O que que acontece? Sempre vai ser crime, sempre vai ser não interessante e causar adoecimento

para uma das partes ou ambas as partes, né, quando envolver as seguintes características:

não adulto, ou seja, crianças, menor de idade de forma geral. Eu acho que tem uns gays de 16 anos, a gente vê questão de de leis, mas assim, não adulto, menor de 18 anos não pode, tem que ser humano, tem que ser vivo, tem que estar vivo, né? E tem que poder consentir ao longo de todo o ato sexual. Ela centraria, né? Então, comecei, eu consenti, depois eu falei a palavra de segurança ali, não, não quero mais, continuou porque eu comecei. Não, tem que consentir ao longo de todo o ato. Se cumprir essas categorias, essas características, vamos colocar assim, não tem nenhum adoecimento. Agora, pensando assim, ah, eu uma vez na vida tive um pecado, quando eu vi, me peguei pensando num novinho, numa novinha, uma coisa pontual que vai até para o universo da fantasia, foi pontual, aquilo foi uma coisa efêmera, nem lembrava que tinha feito isso, ok, é, não é um padrão de comportamento. Quando a gente fala de pensamento com características de pedofilia, é uma pessoa que ela nunca exerceu nenhum ato, seja consumir pornografia, seja observar alguém, que é crime, né, sem autorização. Mas ela tem aquele imaginário que ela só consegue ter prazer, pra gente falar, ela tem um transtorno, tá? Tem um estreitamente, assim, lembra a paraphilia do funilzinho? Então, tem um estreitamente de repertório, ela só consegue ter prazer pensando naquilo. E de forma geral, se ela tem crítica que socialmente aquilo não é legal, ela adoece. Entendeu? Porque assim, as pessoas que ela tem percepção que ela não tem que pensar naquilo, ela adoece. Ela sabe que ela não consegue ter prazer talvez de forma outra, com outro tipo de pensamento. Então não é que todo mundo que tem esse pensamento, que tem esse desejo, vamos colocar assim, esse objeto errático de desejo, né, que não deveria ser objeto de desejo, vai cometer algum crime. Não, essas pessoas de forma geral adoecem ou estão adoecidas e não percebem. Ou elas não têm a percepção de que aquilo socialmente é errado. Então talvez elas tenham um adoecimento ou outro ali, principalmente de leitura social.

Né? Ah, a criança me provocou. Então as pessoas falam assim:

não é que ela tá mentindo, mas ela não tem a percepção de que aquilo não é correto, que a criança é só uma criança. Ou ela adoece porque ela sabe social e pensa em ética e moral, aquilo tá errado. Então ela tem essa questão de sofrimento, que é um transtorno. Então sempre que envolver essas características de não humano, não maior de idade, não vivo, que não pode consentir e tem crítica do que tá acontecendo ao longo de todo o processo, normalmente envolve transtornos. Transtornos. Perfeito. E aí, Juliana, queria que você detalhasse um pouquinho esse adoecimento, né? Essa pessoa que tem um adoecimento, como é? O que que envolve estar adoecido nesse sentido que a gente tá falando? Tá, é que envolve assim, por exemplo, é uma pessoa, ela tem como um desejo, uma pulsão, ela direciona o afeto dela, o desejo mesmo, vamos colocar assim, por um bicho, né? Até para não ficar falando muito, para não ficar tão pesado, não que bicho esteja menos pesado, né? Mas Não é juízo de valor,

enfim, não é uma competição, né, mas é um bicho. Aí é sempre assim:

ah, isso é feio falar, eu não posso pensar que seja, tá? Isso é o outro ouvindo. Agora pensa você como indivíduo, sei lá, desde os 12 anos eu já me masturbo, já comecei a entender mais ou menos ali o que que é gostoso, o que que não é. Se você tem 40, dos 12 aos 40, toda vez que você estava fazendo sexo com alguém, você estava se masturbando, você tinha Fingir que tava na situação e pensar num bicho para conseguir ter prazer, e ao mesmo tempo isso é errado, e se culpar por não conseguir estar naquele ato sexual. É horroroso, é um looping de adoecimento, porque você não quer sentir aquilo. Ouço muito isso, eu não quero pensar isso, eu não queria sentir isso, mas se eu tô fazendo sexo com alguém, se eu não pensar naquilo, eu não consigo. Fingir que já culei, entre outras coisas, é um adoecimento. Porque assim, muitas vezes a pessoa não consegue nem falar que eventualmente ela tem tido aquele tipo de pensamento, porque ela já vai ser tida como um monstro, uma criminosa, e ela não cometeu nenhum crime, talvez, né? Porque uma pessoa pode pontualmente cometer um crime e não ter um transtorno. Aí eu faço, e a vítima que tava ali por acaso era menor de idade, mas eu não tenho um aceitamento de perdoar, fazer aquilo. Ou assim como eu posso ter um transtorno parafílico e não necessariamente cometer um crime ao longo da vida. São diferentes. E pelo exemplo que você descreveu, Juliana, parece um sofrimento bastante intenso, né? Acho que é um grande sofrimento, a gente pode dizer. E aí, ao mesmo tempo em que ele parece intenso, dá uma impressão assim de que ele é muito difícil de ser tratado. Então queria que você falasse um pouco sobre isso, né? Quando chega alguém que você tem esse diagnóstico, o que que se faz? Precisa de uma equipe, eu falo que não é nem multidisciplinar, é interdisciplinar, em que a gente trabalha Integrado mesmo, né? Porque quando uma pessoa vai se tratar, a gente precisa ver, ah, vai ter indicação de algum remédio porque tem algum quadro de impulsividade. No Brasil atualmente existem algumas situações que pode fazer castração química, dita castração química, algumas situações bem específicas também de pedofilia, de recorrência e afins. É uma coisa que está iniciando aí, mas na verdade ela não tem grande eficácia. Pensar os países que existe isso, outro podcast. Sim, sim. Mais um episódio. Mas o tratamento integrado, o que acontece? Você vai ter que contemplar aquela pessoa como um todo. Então, a segurança de cena, onde ela trabalha, se ela tem um bom suporte social ou não, se tem algum adoecimento de impulsividade, depressão, alguma dependência química. Por quê? Porque essa intermulti— interdisciplinariedade, né? Que não é que só cada um no seu saber, é cada um com seu saber integrado ao outro. Porque a gente vai tratar pensando se tiver indicação de alguma coisa química, porque pensa, essa pessoa deprime, essa pessoa às vezes vai para álcool, vai para droga porque ela não é feliz com quem ela é. Ela acha um monstro todo dia também, né? Então essa pessoa facilmente deprime, fica mais inflexível, fica mais isolada. Então talvez a gente trata esses comemorativos assim ao redor do adoecimento dela, por exemplo, do transtorno parafílico, ao mesmo passo em que o serviço social, a psicologia vai trabalhando a questão da, principalmente na terapia cognitivo-comportamental, que trabalhando essas crenças, esse repertório, tentando trazer um prazer ou outro para a vida, trazer um prazer ou outro para a vida dessa pessoa, como se deixasse aquilo mais encapsulado assim. Então, isso é tratamento, sim, é um tratamento longitudinal, parecido com o de dependências de forma geral, porque é um funcionamento e que a pessoa vai tendo cada vez mais uma melhora da habilidade social. A gente vai fazendo medidas comportamentais adaptativas, vamos colocar assim. Então, se eu atuo assim, eu não vou trabalhar numa brinquedoteca, Então, poxa, eu tô sentindo que eu tô tendo um pensamento que tá vindo mais forte ou não,

uma coisa que tava mais contida, eu falo:

"Mãe, amor, irmão, não tá legal, fica comigo hoje", sabe? Então, o suporte social faz diferença. De forma geral, no Brasil a gente trata em grandes instituições. TCE tem um grupo, na FMUSP, algumas pessoas atendem em consultório, eu atendo transtornos para filhos, mas desde que a pessoa prove para mim e eu tenha esse feedback que ele tá acompanhando, a pessoa tá acompanhando, porque tem mulher também, né? Com serviço social, com psicólogo, e tá bem assistido assim. E suporte familiar, tem que ter acesso ao suporte familiar. É difícil, mas se a pessoa quer se tratar, dá. Sim. E em algum caso tem medicamento por algum motivo ou não? Normalmente os medicamentos são por coisas secundárias, vamos colocar assim, né, efeitos secundários. Ah, eu tô adoecido porque eu tenho esse transtorno e com isso eu fico triste. Então vai para um campo mais para o depressivo, a gente vai com antidepressivo, Algumas medicações acabam, querendo ou não, na hora que a gente vai escolher medicações, tendo como efeito colateral, por exemplo, diminuir libido. A gente não quer tirar a sexualidade dessa pessoa, a gente quer tornar adaptada socialmente, né? A gente não vai tornar ele uma mebinha, a pessoa uma mebinha, não, eu sou assexuado agora, não é o foco, né? São os médicos que decidem quem tem, exerce, expressa sexualidade ou não. Mas a gente tenta de alguma forma, principalmente no começo do cuidado, a gente escolhe medicações que dão uma diminuída de libido, contém impulsividade, que isso ajuda no manejo como um todo. Juliana, a gente já está até encaminhando aqui para o nosso final, né? Bem rápido. E aí eu queria fazer uma pergunta voltando a incluir o que a gente falou antes, né? Os fetiches, as parafilias e os transtornos parafílicos que agora estamos letrados em todos esses conceitos, sabemos do que a gente tá falando, que são coisas diferentes. Eu queria saber como que essas, como tudo isso, né, todos esses conceitos aparecem na vida de uma pessoa, né? Elas geralmente, desde que começa a vida sexual, a pessoa já identifica? Porque eu tinha uma dúvida assim, será que a pessoa pode em algum momento descobrir, que nem você falou, né? Às vezes um casal descobre em conjunto quando começam a conversar sobre alguma coisa ali que gosta. E aí, de repente, isso de alguma forma se desenvolver, sabe? Não é aquela coisa dada que a pessoa sempre sabe, sei lá, aquilo vai indo e aumenta. De repente, em algum caso, nossa, realmente fica fissurada naquilo e aí passa a precisar daquilo, sabe? E antes não, ou não? Quando chega já é pronto, a pessoa tem aquilo em si. É que assim, na verdade, essa ideia de desenvolver, a gente tem que tomar um cuidado, porque senão pode parecer que vai desenvolver para um adoecimento, né? "Ah, eu tenho um estreitamento de repertório tão grande que logo adoecerei." Existe uma parcela da população muito pequena que pode acontecer isso? Existe. Mas como é que funciona? Por exemplo, talvez ao longo da vida você vai tendo objetos de desejo e preferências."Ah, eu gosto mais de mulher mais magra, gosto de homem mais gordo, homem mais

peludo." Mas tem algumas características que você sabe, você fala:

"Não sei por quê, mas todos os meus paqueras são assim, parece que os que eu mais gosto são assim." A gente sabe mais ou menos o que norteia o nosso desejo, né? Apesar de poder mudar ao longo da vida. Só que com experimentações outras é possível sim que você passe a descobrir coisas outras. Só que aí, por exemplo, eu nunca soube nada de BDSM e comecei a namorar um dominador. Nossa, achei super legal essa parte da corda, mas assim, degradar, guspir não é para mim, mas achei legal. Então eu termino com essa pessoa, inclusive busco uma parceria outra. Sparring, que eu achei que coube na minha vida. Então isso não é que vai— e aí pode ser que, por exemplo, só para não ficar confuso, como eu gostei dessa parte, cada vez mais eu vou estudar sobre, vou ler sobre, fiquei com encantamento dos samurais que amarravam. E tudo bem, então era uma coisa que eu nem sabia que eu gostava e passei a ter como objeto de desejo ali, como prática sexual. De forma geral, você não consegue criar muito alguma coisa, tipo "Ah, isso não me é característico, então eu vou lá e vou forçar até eu gostar." Como tem muitas peculiaridades, muitos detalhinhos, normalmente já tem que ser uma coisa que te agrada de alguma forma, que você nem perceba, mas você não explorou esse universo. E a questão da dependência é muito relativa, né? Porque se você olha

para alguém e fala assim:

"Ah, essa pessoa só consegue fazer sexo assim, só gosta de sexo assim", talvez é porque ela chegou numa forma de fazer sexo, mesmo que não convencional, que traga um prazer para ela tamanho que por que ela vai gastar energia troca date, maquiagem, dinheiro com sexo. Então muitas vezes isso que a gente chama de dependência,

quando olha pensando que não existe adoecimento nenhum, né? Por isso que a gente fala:

nossa, ele só consegue fazer sexo com essa parceria tal. Porque talvez o sexo esteja tão bom para ele daquela forma que ele prefere não fazer. Você vai falar que o maratonista, por exemplo, uma pessoa que é um sommelier, só bebe vinho tal, vinho super chique, já que eu falei de vinho, ele vai para um

date mais, sei lá, risca faca, ele fala:

"Não quero beber vinho." "Ah, então você não gosta de vinho bom?" Não, é que ela não quer gastar o fígado dela com o fígado que você, com álcool que não é bom. São escolhas. Então pode ser que você não conhecesse um tipo de desejo e ao longo da vida você sendo apresentado e coubesse na sua vida algumas coisas daquilo, e aí você vai aperfeiçoando a prática. Por exemplo, para correr gostoso, eu corri assim como eu corro 42 km, acabou.

Mas não necessariamente que alguém vai falar:

vai aprender a ter prazer com isso. Aí já não cabe. Prazer e forçar já não combina tanto, né? E as coisas são meio fluídas também, né? Acho que descobriu uma coisa, tem um encantamento, gostou, né? Uma novidade. Sempre tem esse toque um pouco de novidade também. Aí depois volta para outra coisa, tem saudade de novo. Tem novidade que vira quase o campo da fantasia,

né? Porque se você pensa:

olha, a pessoa que eu tô namorando é super parafílica e ela é uma dominadora e vai pôr coleirinha, ela pode estar no seu campo da fantasia que você viu no filme, 50 tons de cinza, enfim. E aí você tem um relacionamento com ela e um outro sexo é gostoso. O problema é continuar, né? Para ela não é uma fantasia, é uma prática, é um funcionamento. Então mesmo parafilia e questões específicas podem surgir só como fantasia, como, vamos até forçando um pouquinho, a fetichismo pontual. Mas se não cabe na sua vida, você não sustenta, você não perpetua aquele funcionamento. Sim. Perfeito, Juliana, muito obrigado pela participação. Mas antes eu sempre peço uma mensagem final, porque a gente tenta dar conta de um panorama geral, mas a pessoa acho que tem sempre uma mensagem, o que considera mais importante, que às vezes as perguntas não deram oportunidade de falar, ou falou tudo e, putz, só que é bom reforçar que eu acho muito importante. Então deixa uma palavrinha final para quem tá ouvindo.

Putz, uma palavrinha final seria:

permita-se experimentações. Porque assim, você pode gostar de muita coisa e nem sabe que gosta. E o cuidado para você não se amargar ao gozar. Nossa, isso é feio. Tá, não tá fazendo mal para ninguém, aqueles critériozinhos de saudável, tudo bem. Porque talvez você cause até estranhamento. Nossa, eu vi isso e gostei, que absurdo. Tá, é só quem você é. Não é um juízo de valor, não é uma competição de quem é mais santo, menos santo, mais bonito. É só quem você é e tudo bem. E a frase mais difícil de hoje é o tudo bem, né? É aceitar. Sim, para si mesmo, né? Obrigado de novo, Juliana. Espero tê-la você em outros episódios, a gente combinar lá temas que te interessarem. Gostei muito, foi ótimo. E acho que para quem ouviu também, obrigado mesmo. Agradeço o convite, tamo aí quando quiser. Ah, deixa o seu Instagram, que você atua bastante no Instagram. Algum contato que você quiser deixar? Deixa o @julianaalvespsiquiatria, acho que é um ponto, @alves.psiq. Olha aí, parabéns! Psiquiatria. E lá é mais ou menos isso, é uma pegada, não é tão direcionado, mas é que eu falo, informação é saúde, né? A gente deixa de doer sempre informação, então o foco lá acaba sendo mais esse. O aparte de hoje é do Dr. Hermano Castro. O arroba dele é @hermano.castro_ Enquanto vocês seguirem solicitando, eu continuarei entregando lapadas carinhosas do psiquiatra, porque um tapinha nas costas pode ser falso,

mas uma pada gostosa no lugar certo é sempre verdadeiro. Número 1:

se você não tiver fontes sólidas de lazer e entretenimento, é bem possível que você acabe optando por tumultuar e dramatizar a sua própria vida para tentar satisfazer a sua necessidade de se entreter. Você sabe o que acontece com um cachorro quando você deixa ele trancado em casa sem brinquedos? Ele fica entediado e come os seus chinelos, os fios dos aparelhos e destrói sua casa inteira. Ou seja, se ele fica entediado, ele brinca com aquilo que não deveria brincar. E você faz a mesma coisa. A grande diferença significa que você provavelmente se preocupa mais com o bem-estar do cachorro do que com o

seu. Número 2:

não é sua responsabilidade manter a birra alheia sob controle. Especialmente se estamos falando da birra de crianças de 20, 30 ou 40 anos. O que talvez não tenham te ensinado isso, mas cada adulto deveria ser responsável por prezar pela estabilidade e regulação das próprias emoções. E vocês percebem como a internet a gente tem sido cada vez mais estimulado a tratar de forma superprotetora e submissa adultos que agem como crianças birrentas? Nossa, deixa eu calcular cada uma das minhas palavras e tomar todos os cuidados para ser o mais gentil e doce possível, porque senão eu corro o risco desse Marmanjo de 30 anos do outro lado da tela interpretar minha mensagem de uma forma errada e ele ficaria muito frustrado. Eu sentiria muita culpa se isso acontecesse, preciso me policiar. E se você leva uma vida onde você constantemente se policia, se vigia e se exige para com isso proteger adultos birrentos de se frustrarem e não receber deles críticas ou punições que você inclusive acredita que seriam merecidas, então imagina o quão tranquilo e livre de ansiedade sobre carga deve ser o seu dia a dia. Compartilhe esse vídeo e espalhe a palavra da lapada. Obrigado, pessoal, por terem ouvido mais esse episódio. Espero que tenha sido libertador para muita gente, né, para não ficar mais guardando para si com vergonha, com culpa, desejos que na verdade não tem problema nenhum a gente expressar, né, desde quando tudo aquilo que a gente sabe de consensualidade e tudo mais. E eu lembro a vocês que a gente tem uma campanha no Apoia.se, né, por favor Por favor, quem puder ajudar, é entrar lá no apoia.se/entrementes. Pode contribuir com quanto quiser, por quanto tempo quiser, né, tudo muito livre, e ajuda demais a gente porque a gente não tem nenhum tipo de patrocínio, tudo é mantido só com agarra da nossa equipe mesmo. Então cada ajuda vai realmente contribuir muito para a gente manter esse projeto de pé. Eu agradeço bastante a Fabiola, a Maia e a Clarissa que são nossas apoiadoras desde que a gente começou esse projeto, elas estão aí ajudando a gente e pedimos mais, né, pra gente conseguir deixar esse projeto aqui funcionando. Brigadão, gente, até o próximo! O Entrementes é uma produção da Baioque Conteúdo. Tem roteiro e apresentação minhas, Luiz Fujita, edição da Amanha Hatzyrah, coordenação geral da Tainã Damião e trilha sonora do Paulo Garfunkel, nosso querido Magrão. Quem cuida das redes sociais é a Tainah Medeiros. Siga a gente no seu tocador de podcast favorito e dê sua avaliação, que as estrelinhas são muito importantes pra nós. Se inscreva no canal no YouTube, que os episódios também vão pra lá em vídeo. Siga também no Instagram,@entrementepodcast, e conversa com a gente por lá, pelos comentários ou por mensagem. Um grande abraço e até o próximo episódio.