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13 - Quando Fotos Não Bastam (Português)

Sean Doherty

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Neste episódio, eu falo sobre como a arte de contar histórias está hoje em dia cada vez mais ameaçada pelas redes sociais, pelos smartphones e, mais recentemente, pela inteligência artificial. Essa tecnologia é tão avançada e de alta fidelidade que, atualmente, quando alguém nos pergunta como foi nosso fim de semana, basta compartilhar uma foto. 

Vamos ver o que podemos perder se perdermos a capacidade de contar histórias e por que tudo isso é importante para nós como seres humanos.

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Acho que a arte de contar uma história está hoje em dia cada vez mais ameaçada pelas redes sociais, pelos smartphones e, mais recentemente, pela inteligência artificial. A tecnologia facilita tirar fotos e gravar vídeos que captam imagens das nossas experiências. Essa tecnologia é tão avançada e de alta fidelidade que, atualmente, quando alguém nos pergunta como foi nosso fim de semana, basta compartilhar uma foto. Eu não posso julgar, porque eu também faço isso com frequência.

Lembro-me do ditado: “uma imagem vale mais que mil palavras”. É verdade mesmo. Mas será que devemos escolher uma foto em vez das mil palavras? Fazer isso, portanto, além de ser preguiçoso, faz com que falte um aspecto muito importante. Câmeras podem captar o que percebemos na superfície, ou seja, as aparências. Elas podem até contar histórias, mas essas histórias transmitem apenas aspectos visuais e auditivos e, em geral, não contam histórias completas e profundas. O jantar numa foto parece bem bonito e gostoso. Porém, e quanto aos sabores e às texturas? E o que estava acontecendo nos bastidores por detrás da lente da câmera? Sim, basta mandar uma foto ou um vídeo para chegar a uma resposta, mas ainda é uma resposta rápida que não vai além do superficial. Vivemos num mundo apressado, onde a atenção é cada vez mais curta.

A tecnologia é uma ferramenta; porém, temos que prestar atenção para não parar de fazer o trabalho de pensar, escrever e criar. Perdemos algo quando dependemos da tecnologia para contar nossas histórias. Uma foto pode valer mil palavras, mas acredito que vale a pena compor mil palavras numa história com subtileza e metáforas. A imagem que essa história pinta pode até ultrapassar a realidade, porque nossas imaginações podem fazer muito mais que qualquer câmera.

A capacidade e o desejo de compartilhar nossas histórias fazem parte do que nos torna humanos. Antigamente, isso era necessário para compartilhar conhecimentos e lendas que ajudavam a tribo a sobreviver. Lendas, em geral passadas oralmente, eram importantes para transmitir lições. Por exemplo, uma história assustadora funcionava para ensinar às crianças o perigo dos leões. Da mesma forma, a habilidade de explicar detalhadamente onde ficavam as fontes de comida e como chegar lá com segurança era indispensável. No passado, as pessoas precisavam cativar seus ouvintes, não com aplicativos legais nos celulares, mas pela capacidade de evocar a experiência humana por meio das expressões faciais, do tom de voz, dos gestos e, com certeza, das palavras certas. Tudo isso criava uma imagem nítida e viva nas mentes dos ouvintes.

Relatar nossas realidades por meio do simbólico é fundamental ao ser humano. A capacidade para a arte e a abstração nos separa dos outros animais, que precisam ver objetos concretos com os olhos para compreender. Obras de arte, incluindo um desenho, um poema, uma canção ou uma dança, são uma extensão do nosso desejo profundo e da nossa engenhosidade para compartilhar histórias.

Então, imagina que legal seria se, na próxima vez que eu perguntasse para um amigo sobre o fim de semana dele, ele me mandasse um desenho ou uma canção em vez de uma foto. Eu não quero negar que uma foto pode ser criativa e pode ser arte, com certeza, mas não devemos usar a tecnologia em detrimento da capacidade de articular ideias usando palavras e criatividade.

Somos criaturas visuais — temos uma forte memória visuoespacial — e podemos gostar tanto da imagem que criamos na imaginação quanto de uma foto. Pessoalmente, acho que o processo lento de ler um romance e deixar minha mente construir um mundo visual me dá mais satisfação do que um livro com ilustrações ou imagens numa tela que limita as possibilidades. Da mesma forma, escutar alguém contar uma história bem — com humor, emoção e um excelente ritmo narrativo — é uma joia, e uma foto ou desenho seria desnecessário e só limitaria as possibilidades dessa história.

E essa perda não afeta apenas a forma como contamos histórias — afeta também a forma como pensamos. Numa época na qual as forças favorecem o imediato, o concreto, o pensamento preto no branco e a polarização, contar e escrever tornam-se essenciais. Essenciais para desenvolver a complexidade, a sutileza e a tolerância para contradições e para a pluralidade de experiências e opiniões. Penso que o ditado “A caneta é mais forte do que a espada” continua importante e verdadeiro, mesmo centenas de anos depois. Precisamos de mais canetas — agora mais do que nunca. Precisamos escolher dar respostas mais lentas, intencionais e ponderadas. Escolher escrever é escolher pensar.

Quanto mais escrevemos e contamos histórias, mais desenvolvemos essa capacidade de compartilhar quem somos — e de pensar com profundidade. Eu estou vivendo isso agora ao escrever episódios como este. O ato de escrever permite a clareza e o desenvolvimento de ideias mais ricas e complexas. Em outras palavras, relatar nossas histórias nos ajuda a lembrar quem somos e o que nos aconteceu.

Por pura coincidência, no mesmo dia em que escrevi este texto, encontrei duas citações de neurocientistas que articulam exatamente essa preocupação. Naquele momento, senti que tudo se conectou.

Eu gostaria de deixar vocês com esses dois pensamentos impactantes:

“A capacidade de usar símbolos e metáforas é um dos traços que nos distingue enquanto espécie. Através delas, conseguimos representar conceitos abstratos e planear o futuro, algo essencial para a sobrevivência e a cultura humana.”
António Damásio, O Livro da Consciência (2010)

“As novas gerações serão extremamente literais, porque o espaço da metáfora, da alegoria, da poesia e da filosofia está a ser drasticamente reduzido.”
Sidarta Ribeiro, neurocientista brasileiro, sobre o efeito das telas nas novas gerações.


Escrever esse texto no voo entre Salvador e o Rio me deu uma satisfação e um sentimento de bem-estar.

Espero que vocês tenham gostado do episódio e, na próxima vez que vocês tiverem o impulso de simplesmente compartilhar uma imagem ou um link, por que não adicionar um pouco de poesia?

Obrigado! Até mais!

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