Colo de Longe
Bem-vindos ao Colo de Longe, o podcast que fala sobre os desafios, vitórias, perrengues e descobertas de ser mãe fora do Brasil.
Apresentado por Giovanna Borges, cada episódio traz conversas sinceras com mães brasileiras espalhadas pelo mundo, compartilhando vivências reais sobre maternidade, saudade, adaptação e identidade.
Se você está grávida, é mãe ou vive essa jornada longe da terrinha, esse espaço é seu. Porque quem disse que rede de apoio precisa estar por perto? Aqui, o colo chega — mesmo de longe.
Colo de Longe
Aprendendo a Ser Mãe e Imigrante ao Mesmo Tempo
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No episódio de hoje, eu converso com a Paula Freitas — neuropsicóloga, brasileira, mãe do Nilton e uma mulher que, na prática, percorre os caminhos da expatriação. Nascida em São Paulo, ela já viveu mais de três anos em Praga e hoje mora em Bruxelas, onde constrói sua vida em família ao lado do marido, Alexandre.
Mas a história da Paula não é só sobre mudar de país.
É sobre o que acontece quando duas grandes transformações chegam ao mesmo tempo: a maternidade e a imigração.
Ao sair do Brasil, ela se deparou com um processo profundo de reconstrução — profissional, emocional e identitária. Entre a necessidade de revalidar seu diploma, de se adaptar a um novo idioma e de reconstruir sua carreira, veio também uma pergunta difícil e muito comum entre imigrantes: “quem sou eu agora?”
E foi nesse mesmo contexto que ela se tornou mãe.
Longe da rede de apoio, enfrentando o silêncio de um pós-parto sem referências conhecidas, a Paula viveu a maternidade no exterior em toda a sua intensidade — entre vulnerabilidade, solidão e uma força que se revela ao longo do caminho.
Falamos sobre identidade, saúde mental, filhos bilíngues, maternidade longe de casa e o encontro, muitas vezes inevitável, com a própria sombra quando tudo ao redor muda.
💌 Quer participar? Esse espaço é nosso. Me encontra no Instagram (@colodelonge) ou por e-mail colodelonge@gmail.com para mandar sua história, sugerir um tema ou só dar um alô.
A gente se encontra no próximo episódio.
Um beijo,
Giovanna
Bem-vindas ao Colo de Longe, o podcast que fala sobre os desafios, as vitórias, os perrengues e as trocas de quem é mãe fora do Brasil. Eu sou a Giovana Borges e a cada episódio nós vamos conversar e conhecer histórias reais de mães brasileiras espalhadas pelo mundo. Quem disse que rede de apoio precisa estar perto? Aqui o Colo chega, mesmo de longe. Se você também é mãe, está grávida ou se aventura na maternidade fora do Brasil, este é seu lugar. Vamos juntas nessa jornada de acolhimento, conexão e muito mais. Às vezes a maternidade chega ao mesmo tempo em que a vida muda de país, de idioma e de referências, and a gente precisa aprender a construir um novo lar enquanto também aprende a ser mãe. No episódio de hoje, I converso com a Paula Freitas, neuropsicóloga, mãe do Newton, de um ano e cinco meses, esposa da Alexandre e uma brasileira que conhece bem os caminhos da expatriação. A Paula nasceu em São Paulo, já viveu mais de 3 anos em Praga and Bruxelas, na Bélgica. Hoje a nossa conversa vai passar por temas como maternidade longe da rede de apoio, filhos bilingües, saúde emocional da vida expatriada e o que acontece com a gente quando a experiência de ser mãe se mistura com a experiência de viver entre culturas. Paula, seja muito bem-vinda.
SPEAKER_01Obrigada, Giovana. É muito bom participar do podcast que eu ouço, que eu me identifico, né? Tá aqui hoje, assim, é, nossa, é muito importante pra mim. Obrigada.
SPEAKER_00Tô muito animada pra nossa conversa. Acho que você tem muita coisa pra compartilhar e muitas mães vão se identificar com essa história. Mas antes da gente falar, né, ali do pico da maternidade, da expatriação, eu queria saber quem era a Paulans da Maternidade e antes de sair do Brasil, quem você era e como que surgiu essa oportunidade de sair do Brasil. Me conta esse processo.
SPEAKER_01Nossa, já fui tantas versões antes de eu sair do Brasil. Parece que eu já vivi várias vidas em uma só, né? Pra entender o quanto as mudanças me impactam, eu acho importante falar que eu senti que eu tinha realmente um lar e uma casa no momento em que eu casei, que foi um pouco antes da mudança. Então a casa que eu morava pra mim era um lugar muito importante. Sair de lá foi um luto imenso. Às vezes a gente pensa, nossa, mudou pra tal lugar, pra tal lugar, é uma pessoa desapegada. E não, né? Então, antes dessa mudança toda, eu já era casado. Eu e minha esposa estamos juntos há 16 anos, contando namoro anda, né? E logo que nós nos casamos, nós mudamos um apartamento, que a gente arrumou tudo do nosso jeito. E ali foi a primeira vez que eu senti que eu realmente tinha uma casa, que eu tinha um lar, né? Era o lugar que eu achava que eu ia ficar pra sempre. E aí nós adotamos os gatos, adotamos os cachorros, e assim, não era uma coisa que a gente pensava em nossa, um dia a gente não estaríamos mais nesse país, estaremos fazendo coisas diferentes. Nós planejamos a nossa vida ali de acordo com o que estava acontecendo. Andemia, depois da pandemia, a empresa que o meu marido, meu marido é engenheiro automotivo, e aí a empresa que ele trabalhava na época mandou todos os funcionários, a maior parte dos funcionários para trabalhar no interior de São Paulo. E aí foi o primeiro choque, a primeira mudança. Nós chegamos na cidade em que nós íamos morar, e algumas semanas depois, meu marido chegou e falou, Paula, recebi uma proposta para trabalhar na República Tcheca. Então a gente não tinha nem terminado de desencaixotar as coisas nessa nova cidade, nós já começamos a planejar uma mudança ainda maior. Então foi um luto atrás do outro, né? E naquela época eu já era formada, eu já tinha os meus pacientes no Brasil, eu atendia presencialmente perto da minha casa, mas isso mudou com a pandemia. A pandemia mudou muita coisa, né? Nós já estávamos acostumados naquele mundinho meio que só nós dois e fazendo as coisas online. Acho que isso ajudou um pouco também. Mas eu tinha meu ritmo, né? Tinha os pacientes, tinha meu trabalho, e aí no final do dia, às vezes, eu queria desestressar, eu ia no shopping, eu fazia unha no salão toda semana. Aquela coisa que a gente só percebe o quanto a gente tá imerso na forma de consumir também, depois que a gente sai do Brasil, né? Como a gente descansa no Brasil, muitas vezes. E aí nós fomos para Praga, foi uma mudança muito difícil. Porque você sai do Brasil muitas vezes pensando em pegar toda a sua vida, colocar numa caixinha e abrir essa caixinha no novo país e viver a sua vida lá, só que em outro lugar. E não é assim. E como nós nunca planejamos uma mudança desse tamanho, eu não fazia a menor ideia de que esse tipo de desafio ia acontecer, né? E nunca tinha pisado na República Tcheca. Foi a primeira vez, chegamos assim, com duas malas. E foi um choque muito grande. Você chega num lugar que o idioma é totalmente diferente. No centro, assim, nos lugares mais turísticos, o pessoal ainda fala inglês, né? Você ainda consegue. Mas quando você vai pros bairros, que é onde a vida acontece, né? Quando você não é turista. E ali dificilmente você ia no mercado e alguém falava inglês com você. E a gente dizia, nossa, vai ser difícil. E aí o primeiro desafio que eu acho que todo mundo enfrenta quando muda de país, né? Procurar um lugar para morar. Um apartamento. Que na minha cabeça, pegando a vida do Brasil e levando pra outro lugar, ah, vou chegar lá, eu vou escolher um apartamento, eu vou conversar com o corretor, eu vou pensar, eu vou. Não. E nós temos três cachorros, né? E, nossa, foi assim. devastador, porque a gente não tava conseguindo achar um apartamento que aceitasse os três cachorros. E aí naquele... Meus cachorros estavam com meu pai no Brasil até então, porque depois que eu voltei pra buscá-los, né? E aí então chegou aquela realidade de, gente, quem eu sou agora? Porque a minha casa, que era o meu lugar, que era o lugar que eu amava, já não tem mais. Com as minhas coisas, os meus móveis, as coisas do meu jeito. Nem casa eu tenho mais. Tava morando num hotel. Como que eu vou viver sem os meus cachorros? Porque, assim, a minha identidade, a identidade vai se esvaindo, né? Como que eu vou continuar os meus atendimentos? Eu preciso validar meu diploma aqui, eu preciso. E aí você vai entrando em contato, nu e crua, assim, né? E agora? Quem sou eu? Estou aqui despida da minha personalidade, pronta pra começar a construir uma coisa do zero. E aí começa a jornada de verdade, né? Quando esse choque vem, quando você vê que você não tá com a sua caixinha do Brasil, ia só abrir em outro lugar. E aí, só foi choque atrás de choque depois disso. Conseguimos um apartamento muito pequenininho que aceitava os cachorros. E aí, ah, legal, né? Fizemos toda a documentação com uma empresa especializada, tudo direitinho. Chegou no dia de buscar os cachorros. Os cachorros não estavam lá, não tinham desembarcado, tinham ido parar na Alemanha. Deu um problema com o documento deles, assim, foi culpa da empresa que a gente contratou. E ali o meu mundo caiu. Eu acho que eu já tava tão sobrecarregada da mudança pra outra cidade, da mudança pra outro país, do choque de quem eu sou agora. E aí eu olhava e falava, gente, quando eu acho que as coisas finalmente vão dar certo, de novo, um problema enorme pra resolver - burocracias, coisas que a gente não entendia. Olha, foi terrível. Eu tive uma crise de ansiedade no aeroporto, foi bem difícil. Começamos de uma maneira bem difícil. Mas levamos os cachorros pra casa e aí a vida começou a acontecer. A República Tcheca é um lugar maravilhoso pra viver, é um lugar seguro. Parece um conto de fadas, então é lindo lá. Acho que é o lugar mais bonito que eu já tive em toda a minha vida. Viajamos bastante. Comecei a estudar tcheco na universidade. Tinha um curso que ele era assim, das oito e meia da manhã às duas da tarde, de segunda a sexta. E aí eu encarei isso, fiz dois anos de tcheco. Porque você começa a perceber que você tem que começar a montar a sua vida ali. Você tem que começar a conhecer as coisas, você tem que falar o idioma do lugar, porque o pertencimento é um sentimento fundamental para que você se adapte a um novo lugar. And I penso que ele nunca virá por completo. But if it is in certaint, creio que o processo se torna insustentável. O pertencimento precisa vir de algum joe. Então precisa saber o mínimo do idioma, para poder se comunicar, for entender as coisas como funciona. Precisa fazer uma rede de apoio, conhecer pessoas, entender um pouco das leis. Murar num lugar novo não é só visitar os pontos turísticos.
SPEAKER_00Sim, com certeza. É difícil mesmo, porque a gente. Eu acho que o que você falou de levar a caixinha e tal, eu acho que é uma expectativa que muita gente tem. Ah, eu vou continuar minha vida, mas em outro lugar. E não é assim, né? É uma coisa que... A gente não sabe nem aonde tá o mercado. Coisas muito básicas que no Brasil você pegava o carro e dividia seu GPS, né? Assim, aí depois você não sabe nem o nome da rua pra colocar no GPS. Então parece que a gente volta muito, né, assim, em habilidades até, né? A gente se sente muito, muito, mas muito vulnerável. E aí tem gente que fala, ah, mas isso é de menos, a sua vida tá melhor. E realmente, assim, tem pontos muito positivos. E aí era uma das coisas que eu ia te perguntar. O que te surpreendeu? Claro, né, o que você acabou de falar, teve muitos baixos, né? A questão dos cachorros, a questão do apartamento, quem eu sou. Mas eu queria que você contasse, pelo menos nessa bolha de Praga, né? O que também te surpreendeu nesses três anos que você morou em Praga. Que depois a gente passa pra parte da Bélgica, mas queria que você falasse dos pontos positivos também, que a gente sempre fala do quanto vulnerável, do quanto que a gente não sabe, do quanto é difícil mesmo. Mas e o resto, né? E a parte boa, porque às vezes a gente foca tanto no ruim, e não é que não é ruim, mas e o bom, assim, pra talvez motivar alguma seguidora que tá ouvindo a gente aqui falando, nossa, mas agora eu tô com medo, não sei se eu vou. Com certeza teve coisas muito boas, né? Como você acabou de falar, que a cidade é linda, né? É um conto de fadas. Então, me conta como o que te surpreendeu positivamente nessa primeira experiência e até ao longo dos anos.
SPEAKER_01Eu acho que não teve experiências ruins, eu acho que tiveram experiências que foram difíceis. Eu acho que a gente adquira um autoconhecimento, a gente percebe o quanto a gente pode expandir em tantas coisas, né? Das mais insignificantes às mais relevantes. Então, por exemplo, lembra que quando eu cheguei lá e falei, gente, onde é que eu vou fazer a minha unha? Porque eu não tava vendo o salão ali pra fazer. E aí você vai fazer e você percebe, pelo menos no meu caso, que, nossa, eu já não me sinto tão bem fazendo as coisas aqui como eu fazia no Brasil. O resultado não fica como eu gostaria, ou não é tão agradável estar aqui, porque não consigo me comunicar direito. E aí você começa com as novas habilidades, né? Você começa a perceber que você pode fazer um monte de coisa sozinha. Hoje quem faz a minha unha sou eu, né? Ainda não arrisquei de cortar o meu cabelo, mas a unha ficou por conta disso. Então você vai percebendo quantas coisas antes você terceirizava no Brasil, dentro das suas possibilidades, aí vai ter quem tenha mais, quem tenha menos, mas eu percebo que no Brasil a gente terceiriza muito os serviços, né? Então a gente vai percebendo muito essa capacidade de se virar, de fazer as coisas, de estar no lugar de aprendiz. Ela te coloca naquele lugar que você não sabe nada. Você tá aqui pra aprender sobre você, sobre a sua nova vida, ando todo na humildade do lugar de aprendiz. Quando eu pisei na universidade pra aprender o Tcheco, I don't know pra mim dentro das minhas capacidades intelectuais. É um idioma muito difícil. No primeiro semestre a professora até recomendou que eu procurasse uma outra classe, porque eu realmente era uma aluna que tinha muita dificuldade. E eu falei, não, vou aprender isso aqui, porque eu vou fazer isso aqui dar certo. E aquilo foi uma experiência muito positiva, porque eu me superei. Tanto que no dia da formatura, eles premiaram o aluno que teve maior destaque no fim do curso, né? Com a regularidade de presença, que fazia as lições, que se interessava e eles deram o prêmio pra mim. E aquilo foi tão significativo, porque eu lembrei lá da primeira semana, quando a professora sugeriu que eu frequentasse a sala dos alunos com dificuldades, e eu pensei que, nossa, isso aqui não é pra mim. O tempo todo assim, aí eu vou voltar pro Brasil. Aí já deu. Então, eu acho que é muito positivo o quanto você vai descobrindo sobre si mesmo. Quando você não tem outra opção, você só precisa expandir, caminhar pra frente, continuar nadando, né? Fazer as coisas por si mesmo, resolver. Eu acho que a nossa capacidade de resolver problema, ela se expande demais nessa situação. Porque você precisa sair de casa, você precisa aprender a pegar o ônibus. Qual que é o aplicativo do ônibus? Como você paga. Gente, são coisas tão pequenininhas que no Brasil a gente faz de forma tão automática, né? A gente precisa aprender onde faz serviço de cartório, onde. Entende? Então eu acho que a gente se surpreende, a gente fala, nossa, como nós somos potentes, né? Como no Brasil, muitas vezes, eu acabava usando tão pouquinho de habilidades que ficavam silenciadas porque não tinha necessidade, né, de fazer.
SPEAKER_00Não, concordo super. E eu acho que tem que dar certo, né? Assim, lógico que sempre existe a opção de você voltar pro Brasil e certo se não deu certo mesmo, tem gente que tenta, tenta, e no final vai embora, enfim. Mas eu acho que quando a gente tá nessa situação, existe muito, tem que dar certo. E no Brasil a gente sempre procura maneiras, né? Assim, ah, eu não consigo, então vou terceirizar. E, enfim, eu acho que é muito cultural também, né? De. Ah, eu vou. A pessoa faz isso, a pessoa faz isso, então tem a moça que passa, a moça que cozinha, a moça que limpa, tem a babá, tem a manicure, a gente tudo terceiriza. E quando a gente vai pra exterior, a gente vê que, primeiro que culturalmente falando, não é assim. Segundo, que são serviços muito caros, né?
SPEAKER_01A moça sou eu, nesse caso.
SPEAKER_00Se torna a moça mesmo, né?
SPEAKER_01Faz tudo. Banho nos cachorros. Gente, se eu tivesse planejado uma vida onde eu sairia do país, eu jamais teria três cachorros. Ter três cachorros na Europa é muito complicado. Você fazer esse serviço de banho, de pet shop, é um serviço caro. É muito ruim de você agendar, porque você vai agendar. Tem tanta gente assim que acaba indo lá pra duas, três semanas meus cachorros e quase toda semana eu tomo banho. Hoje em dia eu tenho que dar banho neles em casa. E é um serviço a mais que eu não contava, né? Veterinário, essas coisas aqui é muito caro. Então, se eu tivesse planejado sair do Brasil, eu não teria planejado ter três cachorros. Mas são meus, é minha família, a responsabilidade que eu assumi, então agora é até o fim, né?
SPEAKER_00Não, exato. E aí muda muito essa. Realmente, assim, não existe outras mãos, né? Uma minha mão lava a minha outra mão e a do meu marido vem e ajuda, e uma mão lava a outra, e aí seguimos, né? E é muito fazer dar certo. E aí, enfim, você passou por esses anos em Praga, já entrou nesse ritmo de uma mão lavar a outra, de fazer tudo. E aí você passou, então, por duas, duas imigrações de alguma forma, assim, várias. Em São Paulo, pro interior, do interior, pra Praga, e depois você foi pra Bélgica. E aí eu queria que você contasse um pouco desse processo de como que foi depois de você fazer checo, ganhar premiação, se adaptar àquela língua super difícil, diferente, e aí, putz, vamos pra Bélgica, que é outra língua, outras línguas, né? Não é só uma. E, enfim, se readaptar e procurar apartamento e tudo isso. Como que você se sentiu na época de ai não, não tô acreditando que eu vou passar por isso de todo? Como que foi?
SPEAKER_01Isso aconteceu no purpério, né? E eu acho que intensificou ainda mais. Em outubro de 24, eu tive o meu primeiro filho. Foi uma experiência difícil também, onde eu pude resgatar um pouco dos frutos de ter estudado Tcheco e de ter sido perseverante, porque no hospital onde eu fiquei internada, a equipe, a maioria quase não falava inglês, o pessoal falava tcheco. Então teria sido muito difícil para mim ficar uma semana no hospital sem conseguir me comunicar basicamente com os profissionais. Foi uma experiência muito, muito, muito desafiadora - o parto em outro país, entender sistema de saúde, vacina, todas essas coisas que no Brasil é automático. Então essa situação passou, eu tava meio assim. Gente, eu engatei a primeira e eu fui. Passei o parto. E aí, quando eu tive o neném, a moça que cuidava dos meus cachorros tinha viajado. Então meu marido não conseguiu dormir no hospital comigo. Ele teve que ficar em casa com os cachorros, eu fiquei sozinha. Tinha dia assim que a enfermeira entrava no quarto e ela perguntava, mas e a sua família? Tem alguém pra vir aqui? Eu falava, gente, a gente não tem consciência do quanto a gente faz as coisas sozinho, nesse sentido, né? E aí eu passei assim, por Péro, me recuperando um pouco dessa sentimento de solidão muito grande que veio, por conta da situação, por Péro no inverno da República Tcheca, todas essas questões. E aí, quando foi ali em março, abril, mais ou menos, o meu esposo recebeu uma proposta pra vir pra uma empresa aqui da Bélgica, que é a mesma empresa que ele tinha trabalhado no Brasil antes de nos mudarmos. Uma proposta muito legal. E aí a gente pensou, caramba, vai ser muito traumático mudar de novo. Como é que a gente vai fazer apartamento pra cachorro? E tudo isso, né? Já vem aquele trauma. E eu passando ali pelo purpério e aquela loucura. E eu percebo que existe uma coisa também no processo da imigração. As coisas quando elas têm que ser, mas é uma crença minha, tá? As coisas quando elas têm que ser, parece que elas vão acontecendo, elas vão se encaixando, assim, você fazer muito, muito, muito esforço, sabe? Quando eu falo de muito esforço, é um esforço sobrenatural, assim. Ele lembrou de um amigo dele que morava aqui. E, na verdade, ele entrou em contato com esse amigo pra. Isso também é muito importante. A gente precisa falar com as pessoas. Quando a gente muda pro outro país, se você não tem essa habilidade, você precisa desempenhar em obtê-la. Porque é muito importante que você converse com as outras pessoas, que você ouça as outras experiências. Porque isso vai te trazendo informação. Então ele foi perguntar para esse colega dele como era a vida na Bélgica, se era tranquilo, questão da segurança. E compartilhou também essa angústia, né? De encontrar apartamento, já aconteceu o que aconteceu em Praga. E esse amigo falou, Alexandre, eu estou saindo do apartamento que eu moro. Ele também tinha cachorro, tinha criança. Se você quiser, eu recomendo você pro dono do apartamento, né? E foi pro apartamento que nós estamos hoje. Quando a gente chegou na Bélgica, a gente já tinha alugado o apartamento, a gente já chegou, a empresa trouxe as nossas coisas. Então foi muito mais tranquilo. Eu teria me arrependido de ter dito não pra essa oportunidade se eu ficasse focando só na experiência ruim anterior. Dar novas chances também é importante porque você não está com a cabeça e a experiência de quando você chegou. Então você precisa também dar novas opportunidades dentro desse contexto que as coisas podem acontecer de uma forma melhor, de uma forma diferente. E aí chegamos na Bélgica, um lugar muito diferente de principalmente It's a city grandeur, there are belgas much receptivos. A República Tcheca tem uma cultura a introspectiva, você tem a impression that are receptivos when you compare with the culture do Brazil, and the impression that's different. Aqui você encontra coisas do Brasil, você encontra produtos, você encontra muito brasileiro na rua. Eu fico até pensando, se a experiência tivesse começado pela Bélgica teria sido muito mais fácil, né? But talvez ela só esteja sendo mais fácil porque eu tenho a comparação do que pelo que a gente começou ali, que foi tão difícil, né? E é isso, assim, a Bélgica é um lugar maravilhoso também, muito seguro, né? A gente tá gostando de morar aqui.
SPEAKER_00E Paula, acho que é um ponto interessante. Você fala assim, ai, se eu tivesse começado com a Bélgica, talvez não teria sido tão difícil. But se você for pensar, se você tivesse saído da Bélgica, que você falou, ah, eles são super receptivos, tem muito brasileiro, tem produto brasileiro. Eu acho que talvez o caminho inverso de ter entrado na Bélgica muito bem, eu acho que não teria sido tão traumático. But sair da Bélgica pra ir pra Praga teria sido muito mais difícil do que o contrário. Ainda mais com o filho. Então você ia chegar e falar, gente, mas eu tinha produto brasileiro, eu ouvia português, as pessoas eram mais calorosas de alguma forma, e agora eu tô no porpério, numa língua que eu não entendo nada. Enfim, o inverno é bem mais regroso em Praga do que na Bélgica, de forma geral. Não encontro nada aqui do que eu gosto de comer, enfim. Então, talvez, a gente sempre pensa, né? Acho que talvez teria sido, mas o contrário, potencialmente, poderia ter sido mais difícil do que foi, né? Então, eu super acredito nisso que você falou. As coisas acontecem da forma que tem que ser e vai abrindo o caminho, né? Assim. Eu acho bem legal o que você falou também, que você, se você tivesse falado não, você ia se arrepender por conta de um trauma. Porque cada mudança é diferente e a gente também vai calejando também. Não é nenhuma. A gente vai aprendendo que algumas coisas vai doer mesmo, mas assim, doeu, mas não morri, sabe? E aí você vai passando. Então, se vocês um dia tiverem que mudar da Bélgica, você vai falar, ah, já passei por tantos, então assim, vambora, pra terceira. E lógico, sempre é difícil emocionalmente falando também, né? O filho também agora é bem mais complicado que a gente pensa muito na criança. Mas eu acho que a gente vai escalejando um pouco emocionalmente, vai estudando, criando casca mesmo, né, Pim?
SPEAKER_01E criando ferramentas. Eu acho que a gente vai criando ferramentas para se adaptar e eu acho que em uma dessas ferramentas, eu acho que a rede, conhecer pessoas, participar das coisas, se incluir na sociedade. Eu acho que isso vai deixando o caminho um pouco mais fácil e ao mesmo tempo também mais dolorido quando você parte. Logo que eu ganhei o neném, eu tava me sentindo muito sozinha. A maternidade no exterior, ela é o encontro com a própria sombra, né? Como diz aquele livro. É o encontro com a própria sombra. Você se depara ali com todas as suas vulnerabilidades, você se depara também com a sua força, do olho você tem que fazer, você tem que dar conta você pode e o quanto isso custa. E com um sentimento de solidão muito grande. Então eu precisava fazer alguma coisa pra sair um pouco daquilo. Foi quando eu fui buscar trabalho que eu pudesse realizar, porque eu não tava mais atendendo, né? Quando eu ganhei o neném, eu ainda não tinha voltado. E aí eu fui conhecer os projetos que tinham lá em Praga, porque começa a vir um monte de coisa na nossa cabeça. Poxa, eu tive um filho aqui, com quem o meu filho vai brincar? Como que o meu filho vai aprender as coisas? Daqui a pouco ele vai estar falando tcheco na escola e como que eu vou conversar com ele? E aí eu descobri que não só em Praga, mas em vários outros países, existem uns programas que motivam a cultura brasileira e o português como língua de herança. E lá em Praga tem o Clubinho Aquarela, que eu faço parte até hoje, eu ainda ajudo eles, é um projeto maravilhoso. E aquilo ali foi me trazendo. Porque ali eu fui conhecendo outras mães. Até então eu não tinha, não conhecia mães, eu não era mãe, eu não dava muito com as outras mães. Então eu fui conhecendo outras mães, eu fui identificando a minha dor, né? Olhar pra outra pessoa e falar, caramba, não é só comigo que isso acontece. Olha como essa dor também existe pra outras pessoas. E como essas pessoas lidam com isso. É muito importante, né? Traz muita paz pra esse momento que você se sente perdida na maternidade, longe de casa, né? Foi muito importante estar naquele grupo. Quando eu cheguei na Bélgica, a primeira coisa que eu fiz foi procurar um projeto similar. E hoje eu tô fazendo esse trabalho com o programa Voar, que é o daqui, né? Eu faço a leitura para os bebês de 0 ou 3 anos. Clube do livro, né? Dos bebês, e ajudo nas festas. E também conheci um monte de mães, conheci como. Aí elas vão contando, porque você vai perguntando como é que funciona a escola, quais são os desafios. E aí a informação vai te dando contorno. A informação vai te trazendo para o agora e você fica mais tranquila, né? A ansiedade não toma conta da maternidade no exterior. Quando você se informa, quando você tem essa rede. Foi importante também nessas opções.
SPEAKER_00Muito. Mas assim, quero muito voltar no tempo e pegar bem no coração nesse podcast do podcast. Vamos falar sobre a maternidade longe do Brasil. Vamos entrar bem no tema. Você falou várias vezes que você se sentiu sozinha. Mas eu acho que é importante entender, assim, todo o contexto. Você falou no comecinho que você nunca pensou em morar fora do país. Eu não sei qual é o seu contexto familiar no Brasil. Ah, se você tivesse tido filho no Brasil, se você ia ter sogra, avó, avó, tios, tipo, uma comunidade ali pra te ajudar, fora amigos de infância, enfim, né? A gente tem uma comunidade diferente do Brasil. Quando você nunca imaginou, como você nunca imaginou sair, não era um sonho de você sair. E aconteceu, também você teve que ressignificar o como que teria sido se eu tivesse tido o filho ali no Brasil. Então me conta, como que foi pra você, né? Você falou da solidão e tudo mais, mas genuinamente, como que foi viver a maternidade longe do Brasil, sabendo que não era um sonho seu, que você não sabia como que seria, não sabia, enfim, ainda tinha o padrão de comparação ali, né? Você falou várias vezes, ah, eu vou largar tudo e vou voltar pro Brasil, chega, né? Ah, foi, velho. Desculpa, sua cabeça 60 vezes no dia. Tome conta como que foi. E se você sentiu muito essa ausência da rede de apoio, ou se foi uma coisa assim, ai, cara, já tô aqui, então vambora, sabe?
SPEAKER_01A solidão que a gente sente no porpério, e eu vejo muitas mulheres falando isso, muitas vezes ela não é a falta de alguém específico. Solidão não é saudade, assim, é diferente, sabe? É uma solidão que parece que é realmente um encontro com você mesma e aquilo te deixa tão introspectivo que. Então, quando eu falo dessa solidão, eu acho que ela não é tanto a falta de alguém específico da rede e tudo mais. É um sentimento que realmente gera porque você está se voltando muito pra dentro, né? A minha família, assim, eu não tenho uma relação com a minha mãe, né? Então, assim, eu não falo com a minha mãe. Minha mãe não fala comigo, assim, a gente não tem uma relação, não existe uma relação entre eu e minha mãe. Então foi muito difícil me tornar mãe vindo de um contexto onde eu nunca tive uma boa relação com a minha mãe. E aí vem aquela coisa do quem cuida de quem cuida. Porque você olha pra suas amigas, ai, a minha mãe veio ficar comigo, a minha mãe passou uns dias, a minha mãe é minha mãe. E aí você fica, cara, quem é a minha mãe? Quem é essa pessoa que vai cuidar de mim? Porque apesar do meu marido ser muito cuidadoso, muito carinhoso, presente, ele não é minha mãe, né? A minha sogra é uma avó super presente, apesar de não morar com a gente. Ela liga todos os dias pro meu filho, à noite, antes de dormir, assim, eles têm uma relação, um laço muito bonito. Mas ela é minha sogra, ela não é minha mãe, né? Então ficou muito aquele vazio que a gente vai levar pra vida inteira, que nada vai substituir, né? Na maternidade isso veio, assim, jogando na nossa cara, né? Quando você é mãe, quando você precisa de uma mãe, você não tem. E aí foi o vazio que a gente foi levando. Então, eu acho que pra quem tem uma relação próxima com a mãe, que tem uma relação de confiança nela, deve ser muito difícil você se ver numa situação e, ai, cadê ela? Eu queria muito que ela estivesse aqui. Mas quando essa figura não existe pra você, é um vazio. É um vazio, não é uma saudade, é um vazio, né? Tô falando da figura da mãe, porque geralmente é a figura mais importante nesse momento, né? Mas eu tenho uma boa relação com o meu pai, com a minha avó, com as minhas tias, né? Eu sempre fui muito cercada de amigos. Os meus amigos, eles são de longa data, né? São amigos que eu fiz na escola, eu tenho uma família, né? E aí pegou. E aí pegou aquela coisa. O meu filho está crescendo longe das referências às pessoas que eu amo e que eu sei que o amam também, né? E aí pegou demais. Como eu que... O hospital. O hospital foi assim. Eu sei que se eu tivesse no Brasil, eu teria recebido tantas visitas das pessoas que eu amo, né? Das minhas amigas, da minha tia. E o hospital foi um completo silêncio. Não teve flores, não teve uma voz conhecida. Não teve. Minha sogra não pôde estar aqui com meu sogro idoso. I tenho certeza que ela estaria se ela pudesse. Não teve ninguém que pudesse, né? And the contexto de morar fora te ensina um pouco isso. Porque no fim das contas, no Brazil or not, the responsibility that you assume for a sua vida são suas. É muito bom ter uma rede de apoio, alguém que vai segurar o seu neném fora no banheiro, but pensando friamente, essa responsibilidade é minha. Entende? É o meu filho, I preciso cuidar dele. As I think as pessoas dão muito peso para essa rede de apoio. Andere ter, todo mundo tem que ter, mas a responsabilidade é minha. E é duro encarar isso de maneira tão nuícola. E eu senti muito. Ele foi crescendo, porque eu não fui pro Brasil no primeiro ano. Ele foi crescendo e eu fui percebendo, nossa, se estivesse passando a Páscoa lá, né? Principalmente com a família do meu marido, que eles são bem presentes, é uma família bem grande. Como seria diferente? Chegou o aniversário, não tinha ninguém pra cantar parabéns a eu e meu marido. E aí essas coisas vão pegando. Nossa, meu filho, ele não tem. Ele não conhece as pessoas. Ele não. É um sentimento. Eu não sei descrever, não sei dar um nome pra esse sentimento.
SPEAKER_00Eu acho que, assim, quando eu. É engraçado que, assim, a experiência, as experiências são muito únicas, né? Você falou da questão do hospital. Nossa, se eu tivesse no Brasil, um monte de gente ia me visitar. E eu já pensei, cara, ainda bem que eu tô aqui, porque eu não vou. Se eu tivesse no Brasil, eu não ia querer receber ninguém. E no Brasil é inconcebível você não receber ninguém, né? Você faz a lembrancinha e você recebe, tipo, uma galera no hospital. Não ao mesmo tempo, mas assim, várias amigas e tios, não sei o quê. E assim, tudo que eu queria era não receber ninguém. Eu tinha até planejado receber alguns amigos aqui. E eu deixei... Me conhecendo, eu já falei, gente, olha, a hora que nascer e tal, eu aviso vocês se eu quero receber as pessoas, tipo, a visita, né? E aí eu percebi que eu não queria. Porque eu falei, nossa, não quero, cara, eu tô exausta. Eu não tô afim, sabe? E foi muito libertador eu fazer essa escolha mesmo, assim, de não ter ninguém no hospital, de ficar na minha bolha, comendo meu sushi pós-parto, na minha bolha, sabe assim, era aquilo que eu queria. E eu acho que no Brasil eu teria que me montar muito, e me maquiar, e aí a foto, e aí o medo do vírus, das pessoas e tal. E eu nunca sei por isso, sabe? Então, não me fez falta, mas te fez falta. E com a gente ver realmente que assim, ser imigrante, estar fora do Brasil, não é necessariamente sentir as mesmas coisas, né? Mas a questão do aniversário que você falou é muito importantíssimo, que até o meu marido é francês. E ele sempre fala, ah, eu nunca tive festa de aniversário, tipo, não era uma coisa, não era uma coisa, culturalmente falando, né? Eu falei, tá, só que assim, você tem quatro irmãos, você tem, não sei quantos primos, porque cada de um lado do pai teve nove irmãos. Do lado da mãe teve oito irmãos. Então, assim, quantidade de tio, quantidade de primo. Então eu falei, meu, independente de você fazer festa de aniversário, sempre tinha muita gente te rodeando. Independente, se era só os seus irmãos, já são cinco ali juntos. Mas os seus pais já são sete pessoas. A sua avó, oito. Então, assim, era uma. Podia ser uma coisa pequena, mas tinha gente ao redor que fosse família. Então a gente não pode deixar de fazer uma festa de aniversário que seja com pequenos amigos que a gente tem aqui pra celebrar o nosso filho, porque nosso filho precisa ser celebrado pelos amigos, porque senão ele vai realmente só ter eu e você, e ponto final. Então, e ele falou, ah, mas qual é o problema dele? Eu falei, o problema é que todo final de semana é isso. Todo final de semana, todos os dias são assim. Então, se eu fizer um passeio especial no aniversário dele, eu poderia ter feito esse passeio em outro dia também. Porque não ia mudar, mas a celebração dele com pessoas que estão lá por ele muda muito. E eu sei que no Brasil existe essa questão. Mas o Brasil tem a avó, tem a tia, tem os amigos, e aí a nossa pequena rede ali já é uma festa. Aqui é, igual você falou, né? Você, seu marido e seu filho. E aí é isso, vem esse conceito de, mas e a galera que tá celebrando? Quem que tá celebrando meu filho? É só a gente, mas óbvio que eu vou celebrar meu filho. Mas eu acho que isso.
SPEAKER_01Isso é muito da personalidade também, né? Eu sou a pessoa da festa. Então, assim, eu gosto, eu gosto de uma festa, eu gosto de ter uma decoração. Nossa, não ter feito as lembrancinhas no hospital e assim, chá de bebês, eram coisas que eu gostaria muito de ter feito, sabe? Porque eu gosto. O meu marido, ele é uma pessoa muito reservada, ele é bem introspectivo, ele é muito sério. E ele é filho de português, né? E ele vem de uma cultura onde realmente ele fala, Paula, mas a família somos nós, né? A gente tá aqui, e isso que é o importante, ele não entende esse lado também. E aí vai dada da personalidade de cada um. E você molda um pouco a sua personalidade quando você muda, né? Porque mesmo que você vá fazer uma festa, olha as festas como elas são fora do Brasil e como elas são no Brasil. Aqui o modelo é bem diferente. Tudo muda, né? Mas como eu contorno essa falta da família pro meu filho? Constantemente eu mando foto, né? Então, eu optei por não colocar fotos, uma série de motivos, do meu filho na internet. Mas, pras pessoas que a gente tem mais contato, pra nossa família, a tia, a madrinha, enfim, tudo que acontece, a gente manda a foto do que tá acontecendo, dele aprendendo a andar, né? E isso é pra estabelecer um vínculo entre ele e a pessoa. Também não dá pra obrigar as pessoas no Brasil a terem um vínculo, um determinado sentimento pelo seu filho, porque também eles não convivem, né? E vice-versa. Então, incluir dessa forma foi o jeito que eu encontrei de contornar a falta.
SPEAKER_00Sim, eu entendo, porque a gente também não publica fotos do nosso filho nas redes. E é isso também, e eu queria saber isso de você. Às vezes eu sinto que, por eu não compartilhar, apesar de eu ser 100% segura da nossa escolha de não compartilhar, parece que quando a gente não compartilha, a gente tá afastando a criança, né? E aí, esses dias, eu tava conversando com o meu marido. Ai, às vezes eu me sinto, eu tô muito feliz no Canadá, né? Eu acho que eu tô dando coisas pro meu filho que eu não conseguiria dar no Brasil, que segurança, enfim. Mas eu também tô tirando coisas dele, né? Então, assim, é uma escolha egoísta de alguma forma de pensar que seria melhor aqui, porém, eu também tô tirando contato com a voz, tô tirando contato, assim, escolhendo um lado, no caso, né? Mas quando você manda as fotos e tudo mais, você sente que quando se você não manda, as pessoas te buscam por essas fotos, elas procuram por essas fotos, ou vocês têm esse sentimento que, assim, sempre eu que tenho que ficar nesse criando esse vínculo é um desafio pra você, porque eu já ouvi de outras mães, ah, se eu não mando foto, ninguém pede. E aí parece que isso é uma obrigação minha, e aí o vínculo parece que assim, cara, se eu não sustento isso, e que também pode ser muito mentalmente cansativo, assim, emocionalmente, assim, gente, se eu não mando nada, a pessoa não se interessa se eu não falo, se eu não ligo, ninguém me liga, como que você sente, assim, em relação a essa construção, que não é fácil, né? Construir uma coisa à distância com uma criança que, cara, não fala, ainda, né, no caso do seu filho, não fala, e demora muito pra entender, pegar o celular e conversar, vai demorar anos pra isso, né? Então como que é pra vocês?
SPEAKER_01As pessoas tendem a achar que porque você saiu do Brasil, você é responsável por manter o vínculo. Isso parece que tá no inconsciente das pessoas, não é nem de forma pensada, né? Se você foi embora, você tem que mandar mensagem. Se você teve filho e optou por ter em outro país, você tem que mandar... Não sou obrigado, né? E assim, aí vai de cada um, né? Não vou entrar no mérito aqui. Eu penso que você é responsável por manter vínculos com as pessoas que você ama. Se elas estão perto de você ou longe e ponto, né? Então se eu sou prima, tia, avó e eu quero estabelecer um vínculo com o meu neto, essa obrigação também é minha. Quando você opta por não colocar fotos do seu filho na internet, parece que realmente você tá afastando ele mais ainda, porque ele já não mora lá e aí você ainda não mostra pras pessoas. Mas quem são essas pessoas que estão realmente interessadas em ver o seu filho? Tem pessoas na família e nos amigos que vêm, que pedem, ai, manda foto do New Tim, eu quero ver como é que ele tá. E tem pessoas que realmente, assim, você manda, responde aqui bonitinho e tal, mas não vem, né? Mas eu gostaria muito que ele tivesse um vínculo com essas pessoas, porque entendo que são pessoas importantes pra ele, né? Pro futuro dele. Então, ainda assim, pra algumas delas, eu ainda compartilho, eu ainda insisto um pouco nesse contato, mas a maioria faz questão, assim. Pelo menos ele tem um ano e meio, né? A gente não sabe como isso vai ficar daqui pra frente. Mas a maioria, assim, olha, assim, a família do meu esposo, eles são muito presentes na vida dele, assim, né? A madrinha do meu marido, as primas, elas sempre perguntam, tem uma prima dele que todo dia 25, que ela sabe que é a data de aniversário dele, ela lembra, até hoje, ela manda mensagem. Então eu prefiro olhar pra essas pessoas, eu prefiro olhar pra isso ainda, né? A madrinha do meu filho, ela é uma amiga minha, e é uma amiga que eu fiz ali no fim da adolescência, né? Recente, uns 20 anos. E ela é a pessoa que ela me acompanha nessas minhas mudanças. Ela é aquela amiga que ela não soltou da minha mão. E ela tá presente na minha rotina. Ela não ouve a minha rotina, né? Porque às vezes a gente sai contando a nossa rotina por. Ela vive a minha rotina. Então ela sabe quando meu filho tem consulta no médico, ela sabe quais são os Passinhos que ele tá dando, ai, você viu a tal escola que você falou que você ia ver, você. Ela escolheu fazer parte da vida dele. Quando eu não mando mensagem, ela manda, né? E é assim, desde antes de eu engravidar, quando eu fiquei grávida, agora mais ainda. Então eu prefiro focar nessas relações. Porque no fim, Giovana é o que vai ficar. Mesmo morando no Brasil, com certeza existiriam relações que a gente ia incentivar, mas que também nosso filho precisa aprender. Que não depende só dele, que relações é uma via de mão dupla. Sendo com parentes, né? Sendo com amigos. E eu percebo também que a gente romantiza muito essa. Nossa, se meu filho estivesse no Brasil, ele ia ser muito amado pela família inteira e pelos amigos. E quando a gente viaja pro Brasil, a gente percebe que não é assim que a banda toca, né? Isso é um. A gente romantiza um pouco. Então, nós fomos pro Brasil e aí a gente fez o batizado dele. Que aí, nossa, né? O chá de bebê que eu não fiz, as lembrancinhas que eu não fiz, tudo que eu não fiz, eu fiz no batizado dele, tudo que eu podia fazer. E você percebe que você passou o ano inteiro planejando pra que ele conhecesse as pessoas, mas muitas pessoas não passaram o ano inteiro planejando pra conhecê-lo ou pra estar com você, né? A minha família não foi na cerimônia, né? Porque a minha mãe não ia, então acabou não indo meu pai, acabou não indo a minha avó, acabei perdendo partes muito importantes pra mim que não estiveram lá. E aí você pensa, então assim, se eu estivesse no Brasil, não seria um mar de rosas. E eu preciso lidar com a realidade. Não é porque eu estou distante, não é porque eu moro fora. São as coisas como elas são, aqui ou lá.
SPEAKER_00Faz muito sentido. E o que mais te surpreendeu sobre ser mãe do exterior?
SPEAKER_01Ah, a nossa capacidade de dar conta das coisas sozinha. Que, de novo, a gente não pode romantizar isso porque tem um custo. Mas olha, antes de ser mãe, quando eu tinha enxaqueca, às vezes eu tenho enxaqueca. Era um dia que eu não conseguia fazer nada. Então eu tomava remédio, dormia, eu não conseguia atender, eu desmarcava meus compromissos. It was muito tempo que não me dava enxaqueca, eu tive recentemente. E era um dia que eu ia ficar com ele o dia inteiro. E eu fiquei com ele o dia inteiro com enxaqueca. E eu não tive outra pessoa pra falar, olha, toma! E de novo, você fala, caramba, como a gente vai além da nossa capacidade, como a gente se expande pra dar conta de outra pessoa aqui fora.
SPEAKER_00Uhum. Muito. E pensando nessa questão da maternidade, eu acho que veio muito da questão dos filhos bilingües, né? Que a gente pensa um pouco dos projetos. Bom, seu filho tá aí nesse processo de começar a falar mais e mais e mais. E eu queria saber, assim, um pouco dessa perspectiva que você traz em relação a filhos bilingües. O que muda na criação de uma criança que cresce entre duas línguas? Então, falando até um pouco da neuropsicologia, né? E quais são os desafios emocionais or até cognitivos, né? Que as famílias precisam considerar. E eu sei que talvez você não passe até então muito na prática, que o Newton ainda tá nesse processo de oito meses, né? De notar falando muito, né? Falando aqui ali, mas eventualmente, né, logo em breve, ele vai começar falando mais. Então, eu queria saber um pouco dessas perguntas que eu fiz e como que você também planeja fazer na sua casa.
SPEAKER_01No Brasil, eu trabalhava fazendo avaliação neuropsicológica infantil. Então vinham as queixas escolares, muitas queixas escolares, e fazia esse trabalho. Então, o que eu percebia antes de ter essa experiência aqui fora é que as crianças que eram expostas a duas línguas, elas tinham um. Elas demoravam um pouco mais pra falar. Não pra falar, mas pra construir as frases de uma maneira tão fluída quanto as crianças que que eram criadas em apenas um idioma, né? Lógico, hoje existem estudos que falam que isso não é relevante, que a longo prazo isso não faz diferença. Mas ali na pequena parte que eu lhe dava, no pequeno número que eu lhe dava, eu percebi que havia esse padrão. Então, acho que a primeira coisa quando você vai criar filhos bilíngues, sendo no Brasil ou fora, né? Porque você pode colocar seu filho num colégio internacional, é a expectativa. Então, se você está criando em dois idiomas, tem a expectativa que talvez a fala dele não seja tão fluída quanto de uma criança de uma língua só. E eu acho que os pais não têm muito isso. Não tem muito essa. Eles querem que seja igual e não funciona, né? Aqui fora, trabalhando com as crianças que são bilíngues também, porque os pais colocam essas crianças nesses programas, porque elas vão pra escola, elas falam, aqui no caso da Bélgica, ou o holandês ou o francês. A família do pai ou da mãe também, os amigos do bairro ali, e aí o português fica aquela coisa muito com a mãe, ou com o pai, com o falante da língua, e vai se perdendo um pouco, né? Principalmente os bordões, as formas, né? Como a gente fala. E aí elas trocam algumas palavras por outras no meio de uma frase, colocam outros idiomas no meio da frase. E eu acho que o pai e a mãe precisa desenvolver esse olhar mais paciente, né? Compreensivo, que pra ele também é difícil. Ele tá entendendo o mundo em vários formatos, em diferentes perspectivas. E muitas vezes os pais não têm muita paciência, né? Pra eu percebo, assim, né? Que os pais têm um pouco de pressa pra que o filho se desenvolva como era como ele se desenvolveu na vida, né? E é diferente, é uma situação diferente.
SPEAKER_00Sim. E é muito olhar também, né? Meu filho, ele fala três línguas. Ele tem dois anos e quatro meses. Mas ele mistura tudo. E a gente não. Gente, eu não me importo, porque eu entendo que assim, ele tá aprendendo três idiomas ao mesmo tempo. Então é lógico que ele vai misturar. Não sei se no Brasil, com uma língua só, ele seria muito mais desenvolvido e faria. Construiria frases, mas é lógico, você só tem um vocabulário, né? Ele tá aprendendo três vocabulários. Então, quando ele mistura, eu e meu marido, a gente tá risada. E pro meu marido é mais desafiador porque às vezes ele, ele, como ele mistura as três e eu falo as três, mas meu marido não fala português, às vezes ele olha pra mim, o que ele tá falando? E aí eu, ah, ele tá falando isso, isso, isso. Porque ele não sabe nem se ele tá falando, tentando falar algo em francês, em inglês, ou se ele tá falando efetivamente alguma coisa em português. E meu marido, eu falei, ah, ele tá pedindo isso aqui. Porque ele tava falando em português, meu marido que não tava entendendo. Então eu acho que é muito isso, né? Olhar pro seu filho e falar, lógico, ele tá aprendendo três línguas diferentes. É lógico que ele não vai fazer uma construção de frase de uma criança que tá aprendendo uma só. É muito diferente quando você coloca em colégios bilingües, porque aí realmente é uma imersão da criança. Mas uma criança que 99% do tempo é português. E às vezes a mãe ensina os números em inglês, às vezes a mãe ensina as cores. Não é a mesma coisa, né? Então eu acho que essa paciência é muito importante até pros pais não se frustrarem, porque a gente não tem como a gente depositar a frustração na criança, né? Principalmente quando a gente escolheu isso, né? A gente escolheu estar fora do país. Exato.
SPEAKER_01E estar fora do país, criar seu filho fora, né? Você tem que lidar com a parte complicada dessa escolha também, né? Com a parte que não vai suprir as suas expectativas. Você tem que entender também que as coisas não vão sair como você gostaria. Acho que o principio básico da mudança de país é soltar o controle das situations. Esses programas que promovem português como língua de herança, eles são muito importantes because o vocabulário em português, o que vai expandir muito o conhecimento da criança. Eles vão trazer conhecimentos específicos do Brasil que essa criança não terá aqui. Andes eles estavam estudando sobre a fauna e a flora nas aulinhas lá, né? Então são coisas que ele não vai se aprofundar. Ele não vai estudar, por exemplo, sobre o cerrado, sabe? E são importantes por isso, porque traz o Brasil de uma forma mais imersiva. Você realmente. Porque assim, eu não sei falar essas coisas aqui da Bélgica. Eu não faço ideia, né? Outro dia eu vi uma raposa, tem raposas na frente da minha casa. Eu nem sabia que tinha raposa na Bélgica. Você não tá imerso nas informações desse país desse jeito. E esses programas trazem esse tipo de informação pras crianças que fazem com que elas se tornem ainda mais brasileiras, né? Sabendo coisas mais profundas sobre o país.
SPEAKER_00E também, lógico que não dá pra saber se todos os países têm, né? Às vezes a gente fala, ai, que legal e tal, né? Mas, assim, tem muitos países, muitas cidades que têm esses programas, né? De leitura, de cursos. O meu filho faz aula de música em português. Então, claro, eu poderia ter escrito ele em uma aula de música daqui, né? Mas eu falei, não, a gente tem o programa de música brasileira e é muito legal, porque são músicas em português, com outros brasileiros, com professor brasileiro. Então as músicas, ele sai cantando as músicas em português e eu acho incrível, porque realmente. Aí ele volta da creche cantando música em francês. Então, é lógico, assim, eu tô tentando expandir o mundo dele, mas não só. Ai, como que você fala gato em português? Isso é importante, mas eu acho que expandir o mundo da criança, tentar fazer parte, né? E existem muitas coisas online também, né? Então, assim, se você mora em uma cidade que não tem, sei lá, aula de música, que não tem esse clube do livro, existem tantas coisas que você pode comprar online, né? Assim, cursos ou até mesmo, assim, atividades que você imprime na sua casa mesmo, que você consegue ensinar a criança, claro, que é apropriado pra cada idade. Mas eu acho que é uma dica, assim, que é muito valiosa, né? Tentar incluir o português. Eu também queria saber, assim, do seu lado, como que você indica esse contato pra mães que talvez não tenham tantos recursos, né, assim, quais suas sugestões. Eu acabei de dar algumas, né, assim, online. Mas eu sei que tem muita gente que tem dificuldade, principalmente quando o parceiro não é brasileiro, né? No meu caso, por exemplo, o português depende 100% de mim. E ele fala super bem português. Mas é porque eu insisto mesmo, assim, mas eu acho que tem mães que. Ai, gente, não tá entendendo mesmo, então larga a toalha, mas acho que tem recursos, né, Paula, pra me integrar.
SPEAKER_01Eu acho que a internet, né, apesar de todos os. Apesar de todo o mal que ela representa em alguns aspectos, né? Os perigos que ela traz, ela também hoje em dia é uma ferramenta incrível pra tanta coisa, sabe? Nós estamos aqui hoje por conta das redes sociais, do que de bom existe na internet. Eu acho que ali é um lugar de troca. Existem inúmeros perfis que falam sobre educação bilingüe. Eu tenho uma colega que ela compartilha atividades para as mães imprimirem no perfil dela, tem um grupo no WhatsApp. É incrível o perfil dela. Tem também lojas de livro em português e chama Livros for Kids. E aí vai ter de bruxelas, vai ter da Holanda, vai ter de vários lugares que são livros em português. E se não tem isso na sua comunidade, crie você isso na sua comunidade. Porque é como o programa lá de Praga, não existia. Os pais se juntaram, não foi uma coisa, nossa, super bem elaborada, não, vamos fazer acontecer. Os pais se juntaram e começaram a fazer contação de história na biblioteca, que é de graça, né? Então, também se juntar com outras mães, gente, fazer uma contação de história aqui para as crianças, vamos fazer uma atividade, imprimir, usa a internet. Eu acho que a gente também precisa ter busca ativa. A gente tem também que ter vontade, vontade de fazer as coisas. Porque se a gente quer uma receita de alguma coisa, se a gente quer procurar um curso de alguma coisa, a gente entra na internet e a gente acha, né? Então usa esse recurso a seu favor também. A favor do seu filho.
SPEAKER_00E volta muito no ponto que você falou, né? Quando a gente tá fora, a gente percebe que a gente pode fazer um pouco de cada coisa. É realmente ser muito proativa e ir atrás, entender, que seja dar unha à cozinha a imprimir PDFs online, né? A gente tem o poder, que você falou, né? A internet tem o poder de ensinar a gente a fazer coisas muito boas. Então, mães, né, que estão ouvindo a gente, moram fora, sejam mais proativas, vão atrás de materiais, não larguem, né? Não joga a toalha porque, ai, meu filho só fala inglês e tal. Tem muita coisa legal hoje em dia pra fazer, né?
SPEAKER_01Porque então, essa criança vai chegar na adolescência e você não vai conseguir conversar com ela de forma que ela te entenda completamente. Que ela entenda o porquê você tá falando algo, que ela entenda o seu contexto, que ela entenda exatamente o que você quer dizer. Muitas vezes a gente não acha nem palavra em outro idioma pra traduzir aquilo que a gente quer comunicar. Então manter a sua língua de herança com o seu filho te aproxima dele, faz com que ele te compreenda melhor e que você também entenda muito mais o mundo dele. Não é excluir a língua do país onde ele nasceu, mas é incentivar esse laço entre você e ele. Eu acredito que manter o português como língua de herança vem muito nesse sentido. Bastante.
SPEAKER_00E, Paulo, vamos lá. É um tema bonito e reflexivo que a gente tá chegando aqui no finalzinho do podcast. No começo você falou lá quando você tinha sua casa, do seu jeito e tal. E foi muito edifico pra você sair de lá, né? E, enfim, pra onde eu vou, tava tudo muito bem aqui. Depois de viver tantas experiências, a solidão do maternar, sem rede de apoio, de mudanças, etc., o que significa lar pra você hoje?
SPEAKER_01Olha, o lar onde eu tenho paz. Lar onde eu tenho paz. Sempre foi. Por isso que eu digo que eu percebo que eu só tive um lar, né? Quando eu tive a minha casa quando eu casei. Eu acho que esse conceito sempre foi isso. Lar onde eu tenho paz. Não tem uma semana na minha vida nos últimos quatro anos. Nos últimos quatro anos, que ontem fez quatro anos que eu cheguei de mudança pra República Tcheca. Que eu não falo em algum momento, gente, eu vou sair daqui, eu vou voltar pro Brasil. Não tem um. Nossa, ele vira e mexe, isso acontece. Mas todas as vezes que esse sentimento vem, eu preciso trazer pro presente o meu porquê. Então aqui, eu ando na rua, eu não ando em estado de alerta o tempo todo. O meu marido dirige e ele não fica. Porque assim, no Brasil você fica muito estressado no trânsito, né? Ele ficava horas pra poder chegar em casa e tudo mais. Hoje em dia é 15 minutos do trabalho, vai e volta. Eu ando na rua com meu filho, eu não tenho medo. Isso pra mim é paz. Eu vou colocar o meu filho numa escola, uma escola super legal. Que eu não sei se eu teria condições de pagar uma escola assim no Brasil. Eu não sei se eu morasse no Brasil, se eu teria condições de visitar tantos lugares legais. Vai pra França, vai pra não sei aonde, né? Sair do Brasil pra ir pra esses lugares é mais difícil. Então, se eu me sinto em paz aqui, se eu consigo fazer essas coisas, se eu consigo ter um consumo mais consciente, se eu consigo andar mais, caminhar mais. Em São Paulo, tudo que você vai fazer você tem que ir de carro. Sempre no estado de alerta, tudo de carro, sempre ansioso, sempre naquela pressa. Então, eu voltei no Brasil no fim do ano e eu tive muito essa percepção de eu acho que esse não é mais o meu lar. Porque eu já não compactuo com muitas coisas que eu vivo que eu vivia aqui. A vida é diferente agora. A Europa trouxe um pouco mais de presença pros meus dias. Me trouxe um pouco mais de tranquilidade, de silêncio. Então a gente não ouve. Os ruídos são diferentes, né? Até pela cultura das pessoas. O som ligado, pelo menos não aqui na minha bolha, né? Então eu tô em paz, eu me sinto em paz aqui. Consigo fazer as minhas coisinhas. E o lar pra mim é isso. Se eu tiver que mudar um dia aqui da Bélgica, eu quero ir pra um outro lugar onde eu encontro o mesmo sentimento. O lar virou um sentimento, não um lugar, né?
SPEAKER_00E pra gente finalizar, qual conselho você daria pra uma mãe brasileira que ainda tá aí no Brasil, né? Pensando, meu Deus, mas tudo aqui tá muito completo. Como você se sentia lá, né? Assim, com os meus cachorros, os meus gatos, meu lar, né? Eu tenho tudo aqui, agora meu marido tá com uma proposta. Não sei. Tô em dúvida, tô ansiosa, tô insegura. Qual o conselho você daria pra essa mãe?
SPEAKER_01Eu acho que você tem que pensar no seu porquê. No seu porquê. O meu porquê é por conta da instabilidade que o Brasil oferecia naquela época, né? Oferece até hoje, né? Um pouco dentro do que a gente fazia. E a gente achou que na Europa nós teríamos um pouco mais de estabilidade no trabalho, nas oportunidades. Então, esse foi o nosso porquê inicial. Chegou aqui, outros porquês aconteceram, né? Mas às vezes as pessoas querem, ah, eu vou fazer porque fulano fez, ah, eu vou fazer porque acha que. Entender qual é o seu porquê, se o seu porquê realmente tem a raiz, né? Questionar, fazer terapia, entender, né? E quando você tem o porquê, você consegue achar o caminho, aí você vai entender por que eu tô me desfazendo disso aqui, por que eu tô deixando isso aqui pra trás, por que eu tô sentindo saudade das pessoas que eu amo. Por quê? Por quê? Porque eu tenho um porquê, eu tenho um motivo. E esse motivo vai se expandindo positivamente. Chegou lá na Europa, nos Estados Unidos, qualquer lugar. Você sentiu que você não tá feliz, que aquele porquê não se sustenta, não é uma sentença, né? Você sempre terá pra onde você voltar e se reconstruir no Brasil ou em outros lugares.
SPEAKER_00Obrigada por acompanhar mais um episódio do Colo de Longe. Se essa conversa tocou seu coração, compartilhe com outras mães que também estão vivendo essa experiência fora do Brasil. Não esquece de seguir a gente no Instagram, arroba Colo de Longe. A gente se encontra no próximo episódio. Um beijo e até lá!