Colo de Longe

Parentalidade Imperfeita: Menos Cobrança, Mais Evolução

Giovanna Borges Season 3 Episode 32

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No episódio de hoje, eu converso com a Emanuelle Rech — ou, como muita gente conhece, a Manu, da @manu.parentalidade.imperfeita. Nascida em Brasília, ela vive em Montréal desde 2007, é casada e mãe da Ingrid, de 11 anos. Hoje, atua como terapeuta e orientadora parental no Canadá, ajudando famílias a construir relações mais conscientes e respeitosas.

Mas a maternidade não fazia parte dos seus planos. Por muitos anos, a Manu foi uma workaholic assumida, passou por diferentes áreas profissionais e buscava um propósito. Foi só aos 33 anos, quando decidiu tentar engravidar, que sua vida tomou um rumo completamente diferente. Dois meses depois, veio a notícia da gravidez — e, com ela, uma transformação profunda.

Nesse episódio, falamos sobre o choque de realidade da maternidade, a culpa que nasce com o maternar, o impacto de um parto que deixou marcas e a decisão de não ter mais filhos. Também mergulhamos na experiência de criar uma filha longe da família: o estado de alerta constante, a solidão de não ter uma rede de apoio e as perguntas silenciosas que atravessam muitas mães imigrantes — “como teria sido se fosse no Brasil?”

Ao mesmo tempo, a Manu traz uma reflexão potente sobre a parentalidade possível: menos perfeição, mais evolução. Um convite para olhar para a maternidade com mais gentileza, respeitando tanto as necessidades da criança quanto as do adulto.

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A gente se encontra no próximo episódio.

Um beijo,

Giovanna

SPEAKER_01

Bem-vindas ao Colo de Longe, o podcast que fala sobre os desafios, as vitórias, os perrengues e as trocas de quem é mãe fora do Brasil. Eu sou a Giovana Borges e a cada episódio nós vamos conversar e conhecer histórias reais de mães brasileiras espalhadas pelo mundo. Quem disse que rede de apoio precisa estar perto? Aqui o Colo chega, mesmo de longe. Se você também é mãe, está grávida ou se aventura na maternidade fora do Brasil, este é seu lugar. Vamos juntas nessa jornada de acolhimento, conexão e muito mais.

SPEAKER_02

No episódio de hoje eu converso com a Emanuelle Hash, ou, como muita gente conhece, a Manu, the contact parentalidade imperfeita. Manu nasceu in Brasília, passou por different caminhos profissionais, do RH ao audiovisual, do marketing a busca por propósito, and for much time a maternidade nem part of his plans. Workaholic assumed, decided to sort of engravidar aos 33 years. Two years ago, Ingrid, who has 11 anos, and the other thing is that the other thing is. Ai, também, as duas em Montreal, né? A gente já está conversando, vão ser muitas coisas similares, além de duas mães fora do Brasil na mesma cidade, então vai ter muita coisa. Mas vamos lá, Manu, eu queria que você me contasse quem é você antes da maternidade, porque uma coisa que você deixou muito clara é que a maternidade nem era uma coisa. Normalmente as mulheres, ah, já sabia que eu ia ser mãe, sempre quis, não sabia quando, mas sempre quis. E você deixou muito, assim, categórico, nem era uma pauta na minha vida, né? Então me conta quem era a Manu antes da maternidade. E também eu queria saber, assim, como que mudou os seus planos, o que veio na sua cabeça, assim. Eu acho que eu quero ser mãe, né? Quando que veio esse switch na cabeça?

SPEAKER_00

Então, né? Eu, a Manu, antes de ter filho, era da farra, da bagunça. Saía aí de quinta a domingo antes de vir pra cá. E aí chegou aqui também com o marido, nossa, a gente fazia muita farra ainda, meio que esticamos a adolescência chegando aqui, né? Que a gente chegou com. Eu tinha 25 na época. Então, trabalhava muito mesmo, assim. E eu sempre trabalhei meio que buscando a minha missão, porque eu era o orcaholic por uma questão de compromisso, não necessariamente por paixão, entendeu? Então eu comecei a formar em psicologia que eu trabalhei com RH durante um tempo, aí depois eu decidi voltar pra publicidade e marketing, que era uma coisa também que eu já vinha fazendo no Brasil. E gostava muito, cheguei a trabalhar na publicidade de um jogo virtual pra crianças. E coisa da qual eu não me orgulho muito, porque eu me lembro de eu ficar nesse conflito, assim, sabe, gente, tem criança aqui que passa o dia utilizando esses negócios e será que isso é normal, será que isso é bom, mas ah, problema do pai, eu falava sempre isso, assim, sabe? Até que chegando ali por volta dos 30, eu acho, começou a bater, sabe? Uma vontadezinha, os amigos, assim, mais próximos também começaram a ter filho. Aí a gente começa a conviver com as crianças, começa a ver, né, que não é só fase de. Porque assim, a gente, eu e meu marido, a gente andava no shopping, a gente era daqueles que viam a criança chorando e falava, ai meu Deus, ainda bem que a gente não tem filho. E aí a gente começou a conviver com outras crianças e vendo que, nossa, tem muita coisa boa também, enfim. E aí foi batendo à vontade, tanto em mim quanto nele, sabe? Durou um tempinho aí. Só que foi muito preparo. Eu já comecei a ler sobre maternidade desde antes de decidir engravidar. Eu lia blogs sobre isso, eu li as coisas, procuravam os blogs mais realistas da época. Blog entrega na cidade, né? Mas. E aí então, aos poucos, eu fui e a gente foi começando a se interessar, eu compartilhava com ele uma coisa aqui, ele compartilhava outra lá. E aí, com 33, a gente falou, não, então vamos. Até porque ele falou assim, é agora ou nunca, porque eu tô ficando mais velho. Ele já tem sete anos. Ele é sete anos mais velho que eu, né? E aí eu falei, cara, então vamos tentar, mas assim, sem pressão. Eu não ia entrar naquela coisa de ai, vamos fazer five, não sei o que, vamos deixar rolar, a gente tenta ir por um ano, mais ou menos. Se não der, não deu. E aí eu acho que a gente tava tão relaxado que em dois meses veio a Ingrid e veio mudar tudo na minha vida, de fato. Mudou tudo, virou minha cabeça, meu mundo de cabeça pra baixo e. E é isso. Eu acho que, na verdade, eu voltei às minhas raízes. A verdade é essa. Com a maternidade eu acabei voltando pras minhas raízes de algumas coisas que eu fui me distanciando durante a vida, né? É isso.

SPEAKER_02

Então, Manu, você acha que foi muito uma pressão externa, de certa forma, meio que assim, ah, e se vocês quiserem, meio que o timing da mulher. Porque querendo ou não, né? Hoje em dia tá bem mais comum a mulher engravidar mais tarde. Eu acho que é uma tendência do mundo mesmo. Eu não vejo muitas pessoas engravidando aos 25 anos, como era antigamente, né? Hoje em dia tá tudo muito mais caro. Então as pessoas casam aos 32 e pra ter filho aos 37, sabe? Hoje é uma tendência do mundo, né? Mas infelizmente a questão da natureza joga muito contra a mulher. Então você acha que também foi um período quando vocês 30 ali, que bateu muito, tipo, gente, porque eu acho que também tem isso, né? Bate 30 na mulher, a mulher. A gente acha que a gente tem que estar com tudo resolvido, né? Falta pressão, né? Casa, trabalho, tem que estar tudo muito alinhadinho. E aí só falta o filho. Então você acha que também vem muito dessa cultura da sociedade mesmo de falar, ó, é agora ou nunca, mas pelo timing biológico ou também? Porque você. Você mencionou, né, dos seus amigos tendo filhos, e aí você se sentiu um pouco pressionada de ir contra a maré. Como que foi?

SPEAKER_00

É uma pergunta interessante. Eu acho que eu nunca pensei muito sobre isso, assim. Eu acho que a gente existe a pressão. Até porque eu não sei em português como é que é o termo, mas aqui a mulher que engravida depois do 35 é gravidez, que eles chamam de geriátrica, né? Então, por aí, você já vê o peso que é. Acho que é a partir dos 37, eu acho, que começa a ser considerado como gravidez geriátrica, ou seja, já começa a ser uma gravidez de risco. Mas sim, existe essa pressão. No meu caso, eu acho que foi mais a convivência que fez a gente entender que não era tão ruim quanto parecia. Entendeu? Foi mais nesse sentido, assim. E aí, por isso que a gente vai buscar se informar. Mas definitivamente, essa pressão existe, e existe inclusive depois que a gente se torna mãe também, né? Eu acho que a pressão e a cobrança com a mulher, com relação à mulher, tá aí o tempo inteiro, qualquer que seja a sua fase de vida.

SPEAKER_02

Não, total. E não só, assim, se você tem filho, é uma cobrança. Quando você vai ter, porque o timing, que não sei o quê. Se você tem um é porque você teve um só, se você tem dois, tá ótimo. Se você tem três é demais, se você não tem. Então, né, no final das contas, realmente a gente é sempre muito impressionada, né?

SPEAKER_00

Muita pressão o tempo todo.

SPEAKER_02

Não tem muito caminho, né? Mas quando você viu o teste positivo, né, apesar de vocês estarem super relaxados, meio que assim, queremos e tal, mas quando você viu o positivo, porque eu queria muito, né? Eu sempre quis ser mãe e tal, mas eu também enrolei super no meu marido, ó, não tô pronta, não tô pronta, meu marido é 5 anos mais velho do que eu. A gente casou, tinha 23, então assim, na cabeça dele, meio que, por que a gente vai demorar tanto pra ter filho, sabe? E eu não, agora não, agora não tô pronta, agora não tô pronta. Todo ano era tipo um ano que vem, aí chegava ano que vem, não, esse ano não. Até eu me senti pronta, ele respeitou meu tempo e eu falei, olha, ano que vem eu vou fazer 30. Então, acho que é o momento, já estamos consolidados e tal. E aí, realmente, em dois meses eu me engravidei. E aí, quando eu peguei positivo, me veio muito um fio na cabeça. Ai, meu Deus, será que era isso mesmo que eu queria? Meu Deus, agora não dá mais pra voltar atrás. E ao mesmo tempo que eu tava muito feliz, eu também tinha muitas questões. Eu fico querendo muito um filho. Tipo, o conceito na minha vida sempre foi querer ser mãe. Então eu queria saber de você, que, assim, queria, mas não era o grande tópico da sua vida. Não, não conseguiu. Foi um grande sonho. Foi um surto, assim, como que você reagiu com isso?

SPEAKER_00

Nossa, eu paniquei demais da Conta, eu paniquei muito, não foi pouco, não, foi muito. E eu me lembro que a gente olhou, eu fiz junto com o meu marido, Alexandre, lá na hora, a gente olhou, aí ele fez sim, a gente se abraçou, aquela coisa, mas olha, logo depois eu comecei. Meu corpo vai mudar. E eu me lembro de eu andando de bicicleta, nessa época eu ia de bicicleta pro trabalho. E eu andando de bicicleta e pensando, eu não vou mais poder fazer bicicleta daqui a pouco. Sabe umas coisas assim, é realmente em volta. E o medo da mudança no corpo, o que vai acontecer, e esse serzinho crescendo aqui, meu Deus, será que vai estar saudável? Nossa, definitivamente, assim, uma coisa é o que você imagina e outra coisa é o que você vive já desde a gravidez, né? E todas as concessões que a gente já faz a partir da gravidez, né? Já deixa de consumir vinho, já deixa de comer sushi e aquelas coisas todas, né? Então é uma mudança brusca, é uma surpresa gostosa, mas ao mesmo tempo, definitivamente assusta. Assusta. Muito.

SPEAKER_02

E, Manu, você mencionou que a maternidade te trouxe de volta as suas raízes e que te transformou além do esperado. Em que momento você percebeu? Você acabou de comentar, né? A questão da bike, de meu Deus, eu não vou poder mais andar de bike, meu Deus, eu não vou poder mais tomar meu vinho. Transforma a gente realmente no momento que a gente pega o teste e eu acho que a gente nunca mais volta ao normal. Não existe o que a Manu e a Giovanna eram antes de pegar o positivo, não existem mais, não existe mais, né? A gente pode manter algumas versões, a versão que trabalha, a versão esposa, but ainda assim são versões adaptadas do que antes era, né? Então eu queria saber qual foi o momento que você percebeu que realmente a maternidade veio como um avalanche in your moment da gravidez, do parto, do desparto.

SPEAKER_00

Eu acho que demorou um pouco pra eu realizar isso. Primeiro porque, assim, eu estudo muito nessa área, então hoje eu entendo que o nosso cérebro já começa a mudar desde a gravidez. O cérebro da mulher vai se transformando pra receber esse serzinho. O cérebro da mulher, ele se transforma e ele se adapta para o maternar. O grande problema é o sistema onde a gente vive, de toda a cobrança de performance. Então, assim, não tô dizendo que jamais, não tô negando, não sou negacionista em relação à depressão pós-parto, muito pelo contrário. But todas as questões de saúde mental que a mulher vem a desenvolver depois do parto, com frequência, tá muito mais associado à nossa história e ao sistema onde a gente vive, do que a maternidade em si. Porque, naturalmente falando, fisiologicamente falando, nós somos preparadas pra receber nosso cérebro se transforma. Por isso que a gente fala do Mom's Brain, por exemplo, né? O cérebro, ele tá literalmente, com toda a atenção dele, direcionada para alimentar, cuidar, transmitir segurança pra aquele serzinho ali, mamífero, que tá ali na nossa frente, que a gente produziu, né, durante nove meses ali, cresceu, a gente muda junto com o. Não tem como a gente não mudar, né, junto com o bebê. Mas eu acho que, pra mim, o grande X da questão foi quando ela começou na garderie, na creche. Porque, gente, a Ingrid passou por cinco gareris aqui. Ela não. Eu não encontrava um lugar onde eu me sentia em confiança, em segurança pra deixar ela. E sempre aquele conflito, assim, né, de. Será que sou eu? Será que é cultural? Será que sou eu que sou muito merpulho, né? Eu sou muito protetora. Porque o primeiro lugar onde ela ficou, ela tinha 10 meses. A gente começou aquela coisa da adaptação, que a mãe não pode entrar, na garderie, não pode ficar e tal. Aí eu saía por uma, duas horas, quando eu voltava, ela tinha chorado horrores, horrores. Aí pegava, levava pra casa, eu me lembro dela no carro, assim, dormindo, e ainda. Sabe, aquele choro e do io falando, gente, não é possível, isso tá normal e tal. E aí, muito doida que eu tava, com os hormônios à flor da pele, dei um jeito de espionar a creche na época. Entrei por trás, assim, pra ver, não é possível. A Ingrid não é de chorar esse tanto. O que que tá acontecendo? Anda, infelizmente, eu percebi que ela era a única que tava chorando, and eu contei no relógio. 15 minutos, 20 minutos, 28 minutos foi o máximo que eu aguentei esperar, sem fazer nada, falando com a Alexandre, meu marido, eu não tô acreditando, é a Ingrid, é o choro dela. Eu não ouvia uma palavra de consolo pra ela, eu não via, não tava entendendo o que tava acontecendo, que eu tava só ouvindo. Quando eu decido chegar lá, tá uma educadora lavando a janela, assim, os bebês todos sentados ali pra comer nas cadeirinhas, e a outra educadora preparando o lanchinho ali e tal, e a Ingrid literalmente aos pés dela, chorando, assim, desesperada. E ela nem aí pra ela, assim, tipo, não falava nada. Ela só começou a falar quando eu cheguei, aí ela começou, já vai, Ingrid, já tô acabando aqui, não sei o quê. Aí eu peguei a Ingrid e falei, ó, pra hoje já deu, obrigada, não sei o que lá. Aí eu me lembro que a resposta da diretora que tava passando no momento foi o que mais me chocou, porque ela falou a velha frase que hoje, né, eu abomino, que é Ah, tá manipulando, ah, pequeninha manipulatrice, a manipuladorazinha e ó, não caiu uma lágrima desse rosto e tal. Eu falei, gente, mas será que isso é manipulação? Dez meses isso é manipulação? E fiquei com aquilo na cabeça, assim, de um jeito, sabe? Tirei, resolvi tirar. Comecei em outra. Piorou a situação, porque aí o povo era tipo grande e eu queria que fosse perto do meu trabalho, porque eu comecei assim, duas semanas antes de começar a trabalhar. Então, isso foi um grande erro, hoje eu vejo, pra mim, assim, com relação ao perfil da Ingrid. Não tinha informação, corri, achei uma ali perto do trabalho. Horrível. A Ingrid chegava exausta, dormia no caminho de volta pra casa. Passei por outra que era uma CPE. Aí uma colega falou, ó, essa CPE é ótima, vai lá que você vai gostar e tal. A Ingrid já tava com 18 meses nessa época. A gente deu a sorte de cair numa educadora que se nomeava Hitler. Ela era a Hitler da Garderry com muito orgulho. Porque as crianças de 18 meses, ou seja, um ano e meio, aprendiam a andar na reta com ela e tal. Ficava chocada, porque a Ingrid, toda vez que eu pegava ela, já colocava a mãozinha, assim, sinalizando que queria mamar. E aí falava pra mim, você não pode ir na frente dela, demonstrar insegurança, você não pode e tal, não sei o que lá. Então, tudo isso aí foi acumulando, foi acumulando, e eu me perguntando, gente, tem um trem muito errado, tem um trem muito errado. Eu voltei pro trabalho, perdi o meu cargo, coisa que a gente pensa que nunca vai acontecer no Canadá. Aconteceu comigo, perdi reestruturação da empresa, então eu era chefe de três equipes, me colocaram lá, manteram, mantiveram o cargo de chefe, mas me colocaram lá no serviço à clientela que não tinha nada a ver comigo, com a minha formação, com a minha especialidade, nada. Meio que pedindo pra eu sair já mesmo, sabe? Depois de um ano que eu tava fora. Então, comecei a me questionar um monte de coisa. Não tá legal, ainda consegui ficar um ano lá nesse cargo, sofrendo horrores. Cada vez que eu deixava a Ingrid na galeria, ela chorava horrores também e tal. Até que chegou um dia que eu falei, não aguento mais, não aguento mais, eu preciso parar e me reorientar, porque essa vida pra mim não tá dando mais, sabe? Se eu já questionava antes a questão de trabalhar no mundo virtual, imagina agora e tal. Não dá, não quero mais também, não sei mais também se eu quero trabalhar com marketing. Vou dar uma pausa. E aí, saí do trabalho, fiquei mais de um ano sem trabalhar. E pesquisando muito, né, não sabia exatamente ainda o que eu queria, buscando ali quais são as minhas aptidões, quais são minhas forças e tal. Aqui em Montreal a gente tem sorte, porque tem muito organismo bom que ajuda nessa reconversão, na reorientação de carreira. Então eu acabei decidindo que eu queria trabalhar com pais. Só que antes de trabalhar com pais, eu precisava passar por uma creche, porque minha filha era muito tranquila, muito fácil. Então, foi aí que eu me reoriento, eu comecei a trabalhar primeiro com, graças ao meu diploma de psicologia, eu me reoriento e comecei a trabalhar com intervenção em escola, no primário ali, primeiro ano, maternal e tal, com crianças que tinham dificuldade de aprendizado, e ali eu fui me reencontrando na psicologia, fui me reencontrando, descobri a pedagogia Motessori. Isso eu já tinha descoberto antes, né? Já vinha me formando e tal. Até que eu comecei a trabalhar numa creche Motessori aqui, uma escolinha Motessori. E aí foi, assim, foi ali que eu vi que dá pra fazer diferente, porque eu me questionava muito, gente. Será que isso é uma visão muito limitada de mãe, que não tá dentro da Garderie e que fica, né, sei lá, panicando ou querendo que seja perfeito e tal? Mas dentro de uma creche que era cuidadosa, que era respeitosa, que escutava as crianças, que acolhia o choro, eu vi que não, que na verdade o mundo ainda não entendeu essa importância. O mundo não entendeu que é acolhendo a criança, é dando segurança, que ela vai ficar mais tranquila e vai se desenvolver bem. Então durante cinco anos eu trabalhei forte ali com crianças de todos os tipos de perfis, de todos os tipos de desafios e forças que cada uma tem. Fui me especializando nisso até chegar no atendimento aos pais, sabe? Então foi um caminho muito grande, assim. E foi um processo de cura, eu acho. Quando eu comecei a trabalhar, que eu via os bebezinhos chorando, eu ia colher com o maior prazer, e assim, era inevitável. Toda vez eu pensava, minha filha não teve isso. Minha filha não teve isso. Foi duro, sabe? Foi muito duro. Mas, assim, quero acreditar que em casa a gente compensou.

SPEAKER_02

Então foi basicamente assim, o período que você me teve que largar a Manu pro mundo, né? Vai pro mundo, porque eu também tenho que voltar pro meu mundo. Que foi aí que você começou a perceber, nossa, né? Virou o mundo de cabeça pra baixo. Eu tenho algumas amigas também que sempre foram muito do trabalho, do CLT, de trabalhar das 9 a 6 ali e tal. E depois de ser mãe, começaram a perceber que não era muito isso que elas queriam, assim, né? Que elas queriam efetivamente estar mais presentes. Acho que a gente tem muita sorte que aqui, pelo menos em Montreal e Quebec, eu percebo que tem um balanço muito bom de trabalho com vida, né? Mas falando de uma bolha, por exemplo, São Paulo, Brasil, cara, as pessoas trabalham até muito tarde, aí volta super tarde pra casa, nem fica com os filhos. Então, é super compreensível a maternidade vir como essa avalanche de, meu, eu não sei se faz sentido, eu ficar mais no trabalho do que com o meu filho, né? Então, realmente, assim, foi muito difícil esse início, né, com a Ingrid, por conta do choro, da falta de acolhimento e tudo mais. Mas teve algum momento que você pensou, cara, ninguém me avisou sobre isso. Teve algum momento que você falou que eu vou fazer.

SPEAKER_00

Desde o parto, essa parte aí tá um volta. Ninguém me avisou sobre as sequelas que eu tive, porque o meu parto foi muito difícil aqui. Foi muito difícil, zero humanizado. Parto no Canadá, zero humanizado. Fala e repito, pra quem quiser ouvir. Porque foi um grande choque pra mim, sabe? Eu tava com 41 semanas e cinco dias. A gente teve que provocar, porque não tinha nenhuma abertura, não tinha nada. E assim, aqui é, você escolheu a médica ou o hospital, né? E a gente preferiu escolher a médica que tava acompanhando a gente, então você vai pra tal hospital. Só que chegou lá no dia do parto e era um outro médico que eu nem sei, nem vi a cara. Eu fiquei 18 horas ali nesse trabalho de parto super difícil, inclusive já falei num outro podcast também, compartilhei. Um trabalho de parto super difícil, ninguém me acompanhando ali, zero acompanhamento. A Ingrid acabou saindo no Fórceps. E eu tive várias sequelas depois. Várias, eu e ela, inclusive, que ela saiu cortadinha aqui por causa do Fórceps, Maxilac não abria direito pra amamentar. Eu toda aqui, cara, estragada mesmo e tentando me recuperar. Um trauma, um verdadeiro trauma pra nós três, assim, sabe? Então ali já começou, gente, nunca ouvi falar de tudo que eu vivi, não ouvi nada das coisas que eu vivi, não sabia que seria possível, entendeu? Descolamento de órgão e não sei o que lá depois. Confesso que eu também não me informava muito, que eu morria de medo, sempre tive medo de parto. Então, eu falei, eu vou confiar, meu discurso era, estou no Canadá, médicos aqui de primeira linha, vou confiar, vai dar tudo certo. Só que a gente sabe hoje em dia que a realidade não é. É essa, então hoje eu considero que eu vivi violência sobre estétrica sim, sabe? Eu não conhecia direito meus direitos, eu não conhecia coisas que eu podia dizer não or que eu poderia exigir, sabe? E em seguida a amamentação também foi um grande desafio pra mim. Não imaginava que seria tão difícil. Eu sempre quis amamentar, mas eu não imaginava. E aí eu acho que tem os dois lados, positiva e negativa, porque apesar de ter sido difícil, eu busquei ajuda, consultei lá com uma Marine da Letman, uma madrinha de amamentação. Ela chegou a vir em casa. Eu me lembro, gente, ela era uma voluntária de um organismo comunitário, por isso que eu digo, não subestimem o poder das ONGs aqui. Era uma voluntária de um organismo comunitário num domingo. Eu liguei aos prantos chorando, porque minha filha não mamava direito e tal. Ela foi lá em casa, passou três horas comigo, tentando todo tipo de posição, tenta assim, tenta assado, vamos ver ela, como é que ela fica melhor e tal. Não sei o que lá. Foi muito graças a essa pessoa, depois ela me referiu lá pro CLSC. Aí eu encontrei uma consultora de amamentação, tudo gratuito, tudo muito atencioso, mas isso é para a criança, né? A mulher adulta que tá recebendo os serviços ali, são outros 500. Então, depois que a criança nasce, a gente tem um atendimento melhor, assim, pelo menos foi a minha experiência. Então tudo isso é choque que a gente vive e que fala, gente, eu não imaginei que seria tão difícil. Eu tinha que ir. E tava todo mundo dormindo, a cidade inteira dormindo, e eu lá tirando leite pra aumentar a produção, aquela sensação de, gente, tá todo mundo dormindo e só eu aqui nessa. nessa ralação mesmo, né? Que é. E a coisa do sono à noite, apesar da gente ler sobre, viver é diferente. A gente lê, a gente se informa, mas, gente, não adianta. A vida é diferente, você não sabe como é que sua criança vai ser, você não sabe. Cada criança tem um desafio. Então a Ingrid demorou muito pra dormir à noite. E dormir, quando eu digo dormir, era porque ela acordava quatro, cinco, seis vezes, até quase três anos de idade. Então tudo isso, sabe, realmente não se explica, não se fala. E também não se desmistifica, porque tem muita coisa que é normal e esperado, só que a gente não sabe de fato. Então a gente fica ali com aquela noção, com aquela imagem de uma maternidade meio romantizada, enfim, por mais que você se informe. Então tem muito choque, não tem como dizer que não.

SPEAKER_02

Então, Emanuel, uma coisa que você falou, né? Que você tinha medo do Parto e tal, e acabou que talvez você não pegou tanta informação por você, por bloqueio, né? Assim, de meu, não vou, não quero e tal. O que eu posso falar, que, às vezes, eu não sei se passou culpa na sua cabeça, tipo, ai, se eu tivesse pesquisado, se eu soubesse, talvez teria sido diferente. Às vezes a gente se culpa, né? Mas o que eu posso falar pra você é que assim, eu era a pessoa mais informada do mundo. Eu tinha, tipo, plano de a Z. Ai, fiz 10 mil cursos com meu marido e tal. Meu parto também foi caótico. Eu não diria que foi não humanizado, eu me senti muito bem acolhida. Só que também foi uma indução que demorou 40 horas. Depois de 40 horas eu pedi a Cesária, porque eu não aguentava mais, então eu tive todo o psicológico do cara um parto normal ali, no vaginal, e não consegui, porque não tava latando, tava exausta, sem comer, porque depois que você toma epidural já não pode mais comer. Todo aquele processo. E aí ainda tive a Cesare. Então, tive basicamente dois partos em um, tive a dor da pós. E a gente se culpa muito, assim, né? Tipo, será que eu teria feito diferente? Se eu soubesse e tal. Só que hoje eu olho pra trás e falo, mas tudo que você sabia, podia ter feito, eu fiz ali, né? E realmente, tem coisa que podem falar tudo, até a gente viver, não dá pra saber. A amamentação homêmica foi caótica, caótica, mesmo tentando como consultora, cara, não rolou. E a gente também se culpa, né? Gente, o que eu tô fazendo de errado? O que tá acontecendo comigo e tal? Hoje é um assunto muito bem resolvido, eu falo, ai, não rolou, não rolou, tá tudo bem. Porque existem, assim, existe também o processo do desmame, que pode ser muito complicado no futuro pra quem mama há muito tempo, né? Tem um processo do desmame que pode ser muito doloroso pra criança mesmo, doloroso pra mãe. Então, aí você fica pensando, tipo, putz, tá, eu não aumentei quanto que eu queria, mas também não sofri num processo de desmame. Nunca tem um ponto positivo, sabe, em tudo. Sim. Então, tem esse ponto também, né? Eu queria que você me falasse da questão da culpa, se você é bem resolvida com isso, meio que assim, ai, não pesquisei. Se tivesse pesquisado talvez seria diferente, mas foi o que foi, tô bem resolvida.

SPEAKER_00

Seguimos. Como que foi isso pra você? Cara, eu acho que na verdade isso é um trauma que vai ficar pra vida. Eu não. Eu sinto que eu não digeri. Eu simplesmente botei numa gavetinha, escondi e foi. Sabe? É uma coisa assim que se eu penso demais, me dá vontade de chorar ainda hoje. A culpa, gente, nasce uma mãe, nasce uma culpa, né? Já diz a frase. Então é essa sensação de culpa e muita culpa pelo que ela viveu nas creches também. Muita culpa por isso, assim, porque é a coisa da performance que eu te digo, né? A gente se bota tanta pressão, a gente quer tanto não errar, a gente quer tanto ser mães e pais perfeitos, que qualquer coisa que acontece com a criança, a gente vai levar pro nosso lado e vai se culpar e vai se cobrar pro resto da vida, enfim. E isso eu tento trabalhar também, sabe? Essa. Porque uma coisa é o trauma e outra coisa é a culpa, né? Então, entender que foram traumas, tanto a questão do parto quanto a questão da Garerry, e que justamente por ser traumático, não adianta eu querer me culpar, sabe? Assim, tipo, tava totalmente fora do meu controle. A gente não tem como prever o que vai acontecer. A gente não planeja viver essas coisas, né? Então, quando a gente racionaliza, a gente até entende, é. Realmente, não tem muito por que se culpar e tal. Mas o psicológico fica abalado definitivamente, assim, pro resto da vida, sabe? Tanto é que a gente não teve outro filho. A esse ponto. Decidimos não ter.

SPEAKER_02

Eu queria perguntar isso se. É muito difícil essa cobrança, é uma pergunta muito difícil até eu fazer pra você, porque às vezes a pessoa quer um filho e acabou. Não, sempre quis um em ponto final. Mas eu queria saber, assim, se esse trauma vem ao ponto de vocês não quererem outro filho. Foi tão ruim que a gente até considerava dois, mas depois disso, nunca mais, assim, não, foi um não categório, foi a decisão do segundo veio desse trauma mesmo.

SPEAKER_00

Foi. Eu me lembro que quando eu cheguei lá depois pra fazer a consulta de acompanhamento, né? Depois, poucos dias depois, que a médica perguntou: e aí, como foi? Eu falei, ah, você quer saber como foi? Então você vai ouvir agora. E aí falei tudo o que acontece. Ela falou: Não, daqui a pouco você esquece, quando você tiver o segundo, eu falei, por aqui não sai mais nada. Só que isso aí bateu arrependimento depois, assim, porque a gente falou, a gente não quer, Deus me livre, nunca mais, não sei o quê, até porque a gente queria dedicar esse tempo que a gente não tem aqui pra Ingrid como a gente gostaria e tal. Só que aí o tempo foi passando, foi passando, ela foi crescendo, e aí, poucos anos atrás, a gente até tentou, mas aí já não rolou e a gente falou, cara, vamos deixar passar. Então, teve aí por muito tempo, isso foi um impedimento. Por muito tempo mesmo. Ingrid hoje tá com 11, né? Então, assim, por uns bons seis anos aí, nem me passava pela cabeça, porque essa história de que esquece a dor do parto, minha filha, eu não esqueci, não. Tá aqui ainda, então.

SPEAKER_02

Nossa, eu falei isso pro meu marido, acho que foi essa semana. Eu falei, nossa, eu acho que assim, a gente só entende que é uma dor que você passa pra ter um presente, né? Pra ter filhos. A gente aceita que isso acontece. Mas eu falei, eu, pelo menos assim, como eu vou ser induziu também, né? Eu não sei como foi essa indução, mas a minha foi muito dolorosa. Muito. Tanto que todas as minhas amigas que falam, ah, eu vou induzir, eu falo, tenho certeza que você quer isso. Porque, meu, pra mim foi muito doloroso. Mas assim, num nível que eu nunca vou esquecer dessa dor. Porque eu não, assim, eu não sabia mais o que fazer. Eu cheguei a ter contração, assim, a cada um minuto, numa contração muito pesada de indução, que é uma incronação mais dolorida do que uma contra, né? Então, eu. Você sabia disso? Porque eu não sabia. Eu sabia, mas eu sabia, mas era aquela coisa, tipo, ah, tá bom, melhor que cesárea, então vamos tentar. Mas assim, aquela coisa também sabia que ia ser mais doloroso, mas quanto mais? Porque Douro também é relativo. Você não conhece. É, tem um monte de gente que vai falar, induzi, deu tudo certo, foi ótimo, maravilhoso. Mas a gente vai ter parto vaginal e vai falar, ai, doeu, mas ok. A minha indução, pelo menos, foi extremamente dolorosa. Então, eu nunca mais esqueço e eu nunca mais induzo. Então, se, assim, um segundo filho, quando viesse, vier, for opção cesárea ou indução cesárea. Já vamos ali, já cortei uma vez, vão cortar duas, já sei o que eu já sei o que esperar. Agora, indução nunca mais na vida. Porque pra mim foi uma. Não vou falar que é trauma, mas assim, foi uma dor, num pico de dor que eu nunca mais quero passar na minha vida. Exatamente.

SPEAKER_00

Não esquece. Exatamente. Não esquece mesmo, não. Eu também não esqueço, não. Não esqueça. Eu lembro até hoje da sensação que era desesperadora. É desesperador. E eu, assim, a anestesia não pegou, não funcionou. Então, gente, era assim, chegou uma hora que eu tava alucinando, eu já não falava mais francês, eu já tava completamente fora de mim, entendeu?

SPEAKER_02

Eu tava acontecendo isso comigo também. Eu falava e as pessoas entendiam mais. E eu nem lembrava, depois meu marido falou: você lembra que você entrou na banheira desesperada? Eu não. Como que eu pai? É outro estado de consciência, né? Já é outra coisa. Hoje eu lembro da banheira, mas pós-parto, assim, depois da adrenalina, ele falou, você lembra que você entrou desesperada na banheira e gritava pedindo pela água quente? Eu não. Quem me tirou da banheira? Como que eu cheguei naquela banheira? Ele. Você não lembra? Não, não lembro. Porque realmente a gente tava num estado de dor que você não consegue ter mais capacidade em nada, né? Não tem outra palavra. É muito. Então, é complicado. E eu queria saber que assim, a Ingrid nasceu aqui e o seu marido é brasileiro, você é brasileiro, enfim, a família tá no Brasil, aquela coisa toda. Como que impactou a sua experiência? Passou na sua cabeça, assim? E se eu tivesse tido a Ingrid no Brasil? Passou alguma. Ah, eu não teria passado por isso? Existiu também uma parte de você que pensa, porque querendo ou não, a gente vê a amiga nossa no Brasil tendo filho, com uma experiência muito diferente da que a gente vive aqui, não só na questão de hospital, na questão de visita, na questão de. Ah, enfim, tudo muito diferente no Brasil. Mas você parou assim pra pensar, putz, se eu tivesse tido no Brasil, teve algum momento que você refletiu sobre isso?

SPEAKER_00

Eu acho que eu pensei mais sobre isso com relação à rede de apoio. Sabe? Porque minha mãe veio, depois outras pessoas vieram, enfim, minha irmã chegou mais um pouco mais tarde e tal. Mas em termos de parto, confesso que não me passou pela cabeça, porque eu sempre tinha muito medo de ter que fazer a cesárea. Só que aquela coisa, mais uma vez, isso é mais pressão do que outra coisa, entendeu? Porque tem toda aquela coisa, ah, no Brasil eu sou cesárea, no Brasil eu sou cesárea, talvez seja. Só que assim, pelo menos, minha gente, não tem esse trauma que fica, entendeu? Então, tipo, dois P's, duas medidas, como é que fica, né? Porque se de fato aqui é gratuito, eles tentam fazer o parto normal o máximo possível e tal, mas a que preço, né? A que preço. Então, é, hoje pensando assim, mas é porque eu não conhecia mesmo, foi muita falta de conhecimento. Pra você ter uma ideia, eu não sabia nem que tinha doula gratuito aqui, que tinha Saj Fame gratuito aqui. Eu não tinha essas informações. Só fui descobrir isso tudo depois que eu já trabalhava na área. Então eu falei, gente, poderia ter sido, entendeu? Talvez só o fato de ter tido alguém que me acompanhe com mais escuta, que ouça os meus medos, que fale sobre isso, porque isso não foi falado a hora nenhuma, talvez tivesse sido diferente. E isso no Brasil muito provavelmente teria, né? De fato, isso no Brasil o atendimento é mais cuidadoso, o atendimento é mais. Tem mais escuta, né? Tem mais presença, tem um vínculo que se cria ali. Porque a gente pare e a gente não sabe nem quem é que tá ali tirando seu bebê. Você não tem ideia de quem é. Você me perguntar quem foi o nome, não faço ideia. Então, triste você pensar isso, né? No Brasil, de fato, tem um vínculo maior que a gente cria. No Brasil a gente, né, a médica depois vira pediatra, enfim, com frequência acontece isso, né? Então, ela acaba quase sendo uma segunda pessoa da família ali. Butra que fez bastante falta, assim, até hoje faz, né? Não dá pra dizer que não, é a família por perto. As vezes eu me pego pensando, minha mãe tá lá envelhecendo. Cara, e a Ingrid tá crescendo aqui longe dela, tá crescendo longe dos primos, né? Tá crescendo longe das tias, da avó. É um preço que a gente paga por estar morando aqui. Porque também eu não me vejo hoje voltando pro Brasil. Nossa vida aqui tá bem estável, tá tranquila, tá. Não posso dizer que tá mil maravilhas, tem suas dificuldades, mas não vejo. A gente não se vê voltando pro Brasil. Inclusive até por uma questão de educação da Ingrid, assim. Então, é isso. Acho que não pode ter tudo também, né?

SPEAKER_02

Sim, não, é total. É sempre um conflito entre criar o longe dos avós, ali da nossa rede, né? Nossa aldeia de pessoas, mas também querer proporcionar uma vida diferente, uma qualidade de vida melhor, uma educação, uma mentalidade, enfim. Então, a gente não vai ter tudo, né? A gente tem que escolher nossas batalhas. Porque realmente no dia a dia, né, Manu, é muito difícil, né? Não ter rede de apoio, não ter nossos pais, não ter nossos tias. Eu tenho avó ainda, então assim, não ver a minha avó convivendo com meu filho. É uma dor muito grande, né? Assim, que a gente não racionaliza no dia a dia, porque, né, também é isso, escolha. Não acordo pensando, ai, meu Deus, como queria muito. Não é isso, mas. Eu acho que quando a gente para e reflete, a gente fala, ai, que dorzinha, né? Assim, de não conseguir conviver tanto. Mas isso é um peso na maternidade, mas eu acho que o que pesa mais é o dia a dia, né? A questão da urgência. E aí eu queria chegar nesse ponto. Desde que eu me tornei mãe, por não ter rede de apoio, eu me sinto num constante estado de alerta. E eu queria que você falasse um pouco sobre isso, assim. É engraçado que até eu e meu marido a gente brinca. Quando eu acordo ele, assim, chacoalhando, ele acorda assim, sabe? Quando ele faz a mesma coisa, eu já acordo parecendo que eu, tipo, assim, sabe, defunto. O que aconteceu? Sabe? Ele morreu. Aí ele, não, calma, só tô te acordando. Eu te acordo, assim, num. E antes da maternidade, não acontecia isso, porque, ai, né, não tem filho e tal, não tem preocupação. E parece que desde então eu não tenho backup, né? Então assim, eu não posso falhar, eu não posso ficar doente, eu não posso. Claro, meu marido é mega parceiro, mas é só eu e ele, né? Então, assim, se um falha, só tem uma pessoa pra cuidar, né? E, enfim, a gente fica constante no medo, né, assim, de, sei lá, a gente sair de carro, sofreu um acidente de carro, e quem que busca meu filho na creche? Assim, uma série de coisas que quem mora no Brasil nem passa na cabeça, né? Então, eu não sei se você sente, assim, esse constante alerta, de sempre acordar em alerta, tocou o celular de madrugada, meu Deus. A gente já fica assim, nesse pânico, mesmo que internalizado. E aí eu queria me sentir mais normal. Se isso acontece com você também, me conta, porque parece que a gente nunca mais é a mesma, né?

SPEAKER_00

Não, não. Tem a famosa história que eu achava que só acontecia comigo, que você vai tomar banho quando o bebê é pequeno, você vai tomar banho e escuta o bebê chorando e, na verdade, não tá chorando. Você tá no chumês? É o que eu digo, o nosso cérebro mudou, mudou. E esse estado de alerta aí que você tá falando, a gente chega a chegar, a gente pode chegar até um estado de exaustão mesmo. Exaustão. Eu encontro aí, às vezes, algumas mães nos meus atendimentos que falam, ah, se questionam, eu acho que eu não amo mais minha criança. Eu acho que eu não devia ter sido mãe. Com muita frequência eu escuto isso. Só que, na verdade, você vai analisar tudo é pura exaustão. É puro estado de alerta, porque tem tanta coisa pra fazer, é tanta carga mental, é tanto peso, é tanta cobrança por si mesma e da parte de outros, que a gente entra em exaustão mesmo, sabe? Então, definitivamente isso daí acontece e a gente tem que ficar atento a isso, porque são sinais de alerta pra gente também, sabe? De tentar trabalhar isso de alguma maneira, tentar buscar coisas que vão nos acalmar e coisas que vão nos ajudar mesmo, assim, a ter uma certa rede de apoio, porque de fato, de madrugada, você tem uma ideia? A Ingrid, com 7 anos, realizou que estávamos só nós três aqui. Realizou, entendeu que somos só nós três. E aí ela acorda um dia e fala, mamãe, se acontecer alguma coisa com vocês dois, o que eu faço? Pra quem que eu ligo? Começou a chorar. Então a gente escreveu num papel quem são as pessoas de confiança em francês, né, obviamente. Se em caso de emergência, quem são as pessoas? Aí botei a vizinha de cima, botei a amiga da escola que morava perto e tal, não sei o que lá. No Brasil, botei o nome das irmãs, das tias e tal. E aí ela ficou um pouco mais tranquila. But nossos filhos vão crescer with essa sensação de estamos só nós aqui. Eu penso demais nisso. É a única coisa que me faz me arrepender de não ter um segundo. É isso. Porque a Ingrid está crescendo sozinha aqui, sem família. In a long moment, não estaremos mais aqui pra ela, né?

SPEAKER_02

And this question of sozinho-solidão, é muito. É uma linha muito fina, né? Entre você se sentir nessa bolha também privilegiada, né? Só os três, mas dando o melhor que eu posso andar. And uma solidão. So me fala sobre isso. Como que você lida com isso? Igual você acabou de falar, né? É difícil pra mim, porque hoje eu percebo que ela tá crescendo sozinha. E é um sentimento de solidão mesmo, de ter criado a bolha, que também é um privilégio, mas é uma bolha de solidão. Você está isolados, e eu me coloco nesse lugar também, que são só nós três, eu, meu marido e meu filho. Então, como que você lida com esse sentimento? Você tenta contornar ele, você aceita, abraça, tenta explicar pra Ingrid hoje em dia de alguma forma.

SPEAKER_00

Eu confesso que eu nunca cheguei a conversar com ela sobre isso. Eu tento transmitir confiança pra ela. Mas, de fato, e aí vem a culpa de novo, gente. Olha como é que a coisa fica. Porque ao mesmo tempo em que a gente tá desenvolvendo a nossa vida aqui, tá trabalhando e tá se estabelecendo e tá tendo aí alguma dignidade, digamos assim, pra viver, coisas que são difíceis no Brasil, a questão da segurança e tal. Fica a culpa de pensar. E lá no Brasil, tudo que eu tô perdendo da minha família também, tudo que eu tô perdendo de não poder ajudar com a minha mãe, por exemplo. Sabe? Então, a sua pergunta é sobre. Desculpa, volta aí. Você perguntou sobre. Da solidão. Da solidão. Então, é tipo assim, são as duas facetas da solidão, eu acho. É a faceta da solidão da gente estar no perrengue aqui, da gente estar aqui. Quem tá no Brasil, acha que a gente tá na minha maravilha, mas só a gente sabe o que é essa correria. De 7 horas da manhã até nove horas da noite ali. É a pura correria, né? Independente da idade da criança, é correria, porque a gente não tem praticamente ajuda pra nada, assim. Então, quem cozinha somos nós, quem faxina somos nós, quem lava roupa somos nós, quem faz de tudo aqui somos nós. Quem marca médico e tem que levar, somos nós. É tudo. Quem leva e busca na escola é nós, é tudo nós. Então, tem muito essa solidão e tem também essa solidão de pensar: tá todo mundo lá vivendo junto, momentos especiais, e eu tô aqui. Tá todo mundo lá cuidando da minha mãe e eu tô aqui. Tá todo mundo lá presente, minha irmã, que é a tia, né? Não tem filho, mas é tia e a tia é muito presente. Tá lá o tempo inteiro vendo os sobrinhos, os sobrinhos. Minha filha ama, idolatra, mas assim, tá lá. E o tempo tá passando. E ela tá crescendo, né? É um preço bem caro que a gente paga, eu acho. Esse lado da solidão. Andar com o quê? Com amigos, mas umas amizades mais sólidas. And revisited this, not my mother but I, and I decided to afast people who had much to do. It was judgment, I think, with that transformation of maternity. And reencontration was a process of discovery and levels for confiance and I want to say that we had poured sólidos that if there is a problem, a girl. It's not in this sentiment, it's in quest of valores, bater questão de valores, bater questão de como a gente vive a nossa vida, questão do dia a dia mesmo, valores. É bem mais complexo que isso. Então eu acho que é isso. Eu acho que a gente, para lidar com a solidão, é descobrir recursos que existem aqui nas cidades. Na cidade, por exemplo, tem restaurantes aí que vendem porções individuais de comida, de refeição, que são saudáveis e que não são tão caros. Então eu descobri isso há pouco tempo, comecei a utilizar o serviço. A coisa de trocar, uma amiga deixa a criança aqui um fim de semana pra gente cuidar, no outro fim de semana, a gente deixa a ingridinha lá pra amiga cuidar. Essa troca, né? Então os amigos acabam meio que virando a nossa família daqui. É a nossa rede de apoio, né? A gente acaba contando com essas pessoas também. Sim.

SPEAKER_02

E, Manu, a gente, você falou em algum momento, a gente tem que fazer tudo, né? A gente dá conta de tudo, é cozinha, é não sei o quê. E essa pressão de dar tudo, de dar conta de tudo, eu acho que ela existe em todas as mães, né? Assim, não é só a mãe no exterior, então toda a mãe, a carga mental da mãe. Mas eu acho que quando a gente mora no exterior, é ainda pior. Porque não tem nem, como você falou, como deixar com a minha avó, com a minha mãe. A cultura do Brasil de terceirizar serviços é muito grande, porque são mais acessíveis do que aqui. Então, uma faxina, uma babá, manicure, coisas que são mais acessíveis, óbvio que por conta da desigualdade social, o que é muito ruim, mas que é assim que funciona, né? É assim que a banda toca. Então a gente acaba se cuidando um pouco mais, às vezes. A gente consegue terceirizar coisas pra ficar menos sobrecarregada, porque são mais acessíveis. Então, eu queria perguntar assim, e são cobranças invisíveis, né? Parece que quando a gente nomeia, você consegue, você coloca numa lista e essa lista só cresce. Só que, querendo ou não, parece que essas cobranças são invisíveis, que tem que fazer. Quem vai comer o quê? Vai ficar com a casa suja? Quem que vai levar a roupa? São cobranças invisíveis, mas quando você nomeia elas, elas não são nada invisíveis. Então eu queria saber o que te pesa hoje. É mais a questão da casa, da comida, ou é também não ter alívio em relação à Ingrid mesmo, há 11 anos, apesar de você ter falado, né, que tem amigos que hoje em dia, né, consegue ficar um pouquinho com ela, no começo não era assim. Quando as crianças têm dois anos, três anos, cara, é muito difícil, né? E a gente vai acumulando. Então eu queria saber o que te pesa mais hoje, nessas tantas cobranças que a gente tem.

SPEAKER_00

Pra mim hoje, como você falou, a Ingrid já tá com 11 anos, então é diferente. Hoje o que pesa muito é a logística da coisa. E corre pra cá e corre pra lá pra não chegar atrasada na escola. Aí depois eu tenho que ir pro trabalho pra não chegar atrasada no trabalho. Aí sai correndo pra não ficar, senão o serviço de gardia vai fechar, a escola vai fechar, então corre pra pegar a menina na escola, volta pra casa. Tem que fazer jantar correndo, porque senão vai deitar muito tarde. Tem que estudar a matemática que não tá bom ainda, vamos fazer não sei o que lá. Hoje em dia é isso. Essa é pra mim a parte mais cansativa, sabe? Eu acho que ali na primeira infância, por muitos anos, é a questão do sono, que a gente não dorme direito. É a questão de não ter um tempo pra se, né? Até o banho tem que ser na pressa, tudo ali muito corrido. But I medida em que o tempo vai passando, hoje, pra dar esperança aí pra algumas mães, eu tenho mais tempo pra mim. Eu tenho mais tempo pra me cuidar. Mas não tô nem por isso menos cansada. Acho que eu não ajudei na esperança que eu queria dar. Nem por isso eu tô menos cansada, porque as responsabilidades continuam. E aí tem outras coisas, tem que levar no esporte, tem que buscar no esporte, tem que comprar presente pra não sei quem. E tem que fazer uma tarefa de casa que tem que comprar material e ter que. Então é a logística que eu acho que é. que é mais difícil, assim, sabe? De ter que lidar com tudo além da logística de cada casa. Eu tenho muita sorte, porque meu marido faz muita coisa. Como ele trabalha de casa, volte bem, ele tá passando uma vassoura no chão, ele aproveita ali a pausa dele rapidinho e bota a roupa pra lavar. Então, assim, nesse ponto tá até bem equilibrado, eu acho. Eu penso muito na parte da logística, eu penso muito, sou eu só que cozinho, mas ele faz o resto. Então a gente meio que se equilibrou, foi achando também esse ajuste. E aí eu acho que entra um ponto muito importante. Como o casal é a única rede de apoio praticamente, esse ajuste no casal é essencial pro negócio dar certo. É essencial. Porque a gente vem de uma cultura que a gente não tá acostumado, né, necessariamente, a estar todos incluídos nos cuidados e tal. E à medida em que a criança vai crescendo, incluir a criança também, por que não? Sabe? Pra diminuir esse peso. Eu não sou só eu ou meu marido responsável pela roupa limpa dela. Então, ele lava, mas ela vai lá e dobra. Hoje em dia foi um custo, trabalhando bastante tempo. Mas pelo menos dobrar e guardar, ela pode fazer. A louça suja, hoje em dia, com 11 anos, ela já pode ajudar ali, ia botar na máquina e depois tirar o que ajudar a guardar pelo menos os talheres. Alguma coisa tem que começar a participar, porque é isso, porque senão fica tudo pra gente. Então a gente tem que aprender também a. E nesse ponto, o fato de viver aqui ajuda, que é porque a gente vê que outras famílias fazem isso. Na escola, eles encorajam isso. O outro dia ela chegou aqui falando, que perguntaram na escola o que cada um faz em casa. Tem gente que prepara lancheira, tem gente que faz não sei o quê, tem gente que dobra roupa, tem gente que lava a louça, tem gente. E isso é uma coisa que é uma grande quebra de paradigma pra nós, porque no Brasil, quem é que cresceu fazendo isso? Tem que. Quem tem aí uma condição, vende uma renda um pouco mais média ali, não tô nem dizendo que é ricaço, não. Mas por conta da desigualdade no Brasil, a gente tem essa pessoa lá que ajuda. Então, aquilo é muito mais justo, tudo aqui é muito mais caro, enfim, não tô colocando isso em questão, mas é hábitos nossos, cultura nossa que aqui não tem, né? Então, isso aí a gente tem que buscar pra poder contrabalançar essa correria toda e. E a gente acha que tá fazendo bem pra criança também, sabe? Aprendendo, assim. A gente vê que eles crescem muito mais independentes, muito mais autônomos em várias coisas. Isso é até algo valorizado na cultura desde pequeno aqui. Então, incluir a criança também é uma coisa que pode ajudar, sabe? Nessa falta de rede de apoio, assim, porque responsabiliza, né? Ajudar a responsabilizar a criança.

SPEAKER_02

Muito, e criar adulto funcional no fim do dia, né? Acho que o brasileiro a gente tem muito a cultura, como a gente falou algumas vezes aqui, de ter ajuda, de ter a faxineira, de ter a diarista, de ter uma cozinheira, às vezes. Eu tenho amiga que tem cozinheira, babá, faxineira, tipo, tem a cadeia inteira. Então, assim, lógico, né, tá acostumado e tal. Mas aí eu fico pensando, tá, mas o seu filho, sua filha, vai fazer o quê? Porque se tem tanta gente pra fazer por ele, por ela, como que ele vai se tornar funcional, né? E aí o que acontece? Muitas, muitas esposas, maridos casam com entender poucos anos e não sabem nem usar a máquina de lavar louça, porque nunca tocou no botão, né? Nem sabe como funciona.

SPEAKER_00

Eu cheguei aqui, eu não sabia fazer um arroz, amor. Não sabia. Eu me lembro que meu cunhado, na época, me ajudou, me deu umas dicas, então eu aprendi um pouco a fazer arroz, aprendi um pouco a fazer as coisas de base. Mas quanto arroz eu queimei aqui no início? Jesus!

SPEAKER_02

Eu digo o mesmo, digo o mesmo. Quando eu saí na. Eu lembro o primeiro dia na França. Meu marido, que já tinha costume e tal, né? Que é criado de outra forma, ele é francês, falou pra mim, vocês sabem fazer? Eu falei, não, mas eu fiquei, gente, eu coloquei no YouTube como grelhar um frango, porque eu nunca tinha um feito. E aí hoje eu olho pra trás e eu falo, gente, me sinto, eu me sinto. Hoje, eu dei risada na época, mas hoje, olhando pra trás, 10 anos atrás, que idiota, né? Porque 22 anos não sabe grelhar um frango. Pelo amor de Deus, né?

SPEAKER_00

Mas a gente no Brasil cresce assim.

SPEAKER_02

Cresce assim, então, lógico que eu nunca tive a oportunidade de grelhar um frango, porque se não era a faxineira lá em casa, a Diarissa lá em casa era minha mãe. Então, eu não sabia fazer, né? Então eu acho importante, eu acho legal essa cultura canadense mesmo, de tornar as crianças independentes. Não é da responsabilidade fora do comum, mas assim, o meu filho tem dois anos e quatro meses, e antes dele subir pra tomar banho, eu falo, pode guardar esses brinquedos aqui. Eu não vou ficar guardando aqui. Pode espalhar, mas eu não vou guardar, eu posso te ajudar a guardar.

SPEAKER_00

E daí que vem a exaustão depois. Quando a gente responsabiliza por tudo isso o tempo todo, né? Exatamente. Então, definitivamente, incluir a criança desde pequena em pequenas tarefas que ela é capaz de fazer, a gente tá fazendo bem, inclusive, pra ela. A gente tá fazendo. A escola da Ingrid agora, na semana de recesso, eles deram como trabalho fazer, cozinhar alguma coisa. Com 11 anos, né? Cozinhar mesmo, fazer uma receita. Então, cada uma foi na biblioteca, pegou um livro de receita e a gente fez aqui um waffle. Então ela que fez tudo. O ovo, bater, não sei o que lá, mas sozinha, porque ela tá acostumada a me ajudar, mas lá o negócio tinha que ser sozinha, entendeu? Fazer tudo sozinha. Temperar e tal, fazer as coisinhas lá do jeito que tinha que ser. A gente precisa, isso é uma coisa legal daqui, eu acho, de encorajar mesmo essa. Até porque as crianças aqui, os filhos saem cedo de casa, né? Espero que não a minha. Mas essa coisa da liberdade, da independência, né, é muito valorizada aqui. Muito.

SPEAKER_02

E, enfim, e aí eu queria também falar sobre como a gente falou que é muita rotina, sobrecarregada e tal. E o autocuidado, né? Porque a gente falando muito da maternidade, da função mãe, né? Que é uma função, função esposa que você falou, né? Tem que estar muito alinhada. E aí, a mulher, né? Como que tá a Manu? Mulher, eu acho que é até um pouco mais fácil com a Ingrid, agora é de 11 anos, que ela é mais independente. Então, ai, fica aqui assistindo um negócio que eu vou fazer uma outra coisa. Hoje, hoje em dia, eu não consigo, porque dois anos, quatro meses, imagina, eu saio do ambiente e ele já vem atrás, mamãe. Então, hoje, na minha bolha, é muito diferente da sua. Mas eu queria saber como que foi essa questão do autocuidado. Você conseguiu encontrar um balanço nesses anos, ou demorou pra encontrar? Quando você conseguiu priorizar o autocuidado, você se culpou de alguma forma? Porque eu um pouco. Quando eu me priorizo, eu me culpo. Ah, eu vou deixar ele um pouquinho mais cedo na creche pra eu conseguir ir na academia uma hora ali, eu já falo, ai, mas eu poderia estar com ele, né? Por que eu deixei ele 15 minutos antes? Sendo que eu poderia ter deixado 15 minutos depois. A gente fica, né? Então me conta quando você, se você encontrou um equilíbrio até hoje, quando que você conseguiu se priorizar, enfim.

SPEAKER_00

Eu acho, Giovanna, que mais uma vez depende muito do parceiro. Porque eu me lembro que eu queria sair com as amigas e tal, mas eu não me sentia, não tinha coragem, não queria deixar aquela coisa, ela chorava quando eu saía e tudo. And nesse ponto, o Alexandre foi muito bom, assim, porque ele era muito paciente, ele tinha todo um cuidado, ele mostrava e andava pela casa quando ela tava chorando pra mostrar, a mamãe vai voltar, ela não tá aqui agora, vamos dormir, nananã. E à medida em que ela foi crescendo, também, sabe, a gente sempre se equilibrou. Ele joga o jogo dele e eu fazia as minhas coisas. Hoje a Ingrid de 11 anos, meu bem, não é nem ficar na televisão, ela se vira, ela tá fazendo lá a vida dela. Tá nem lembrando que eu existo, verdade. So esse momento chega, só pra te dizer. Mas nesses primeiros anos de vida é muita parceria. A gente precisa ter parceria. De como você falou, você vai fazer sua academia de manhã, talvez ele vai fazer à noite ou vice-versa, mas assim, a presença do outro pai, do parceiro, da parceira, é essencial pra gente ter um mínimo de autocuidado mesmo. E aí, quando você fala de autocuidado, eu queria também lembrar as mães que estão aí nesse período mais crítico, primeiro ano, segundo ano da maternidade, que mais do que sair pra fazer uma academia, mais do que fazer essas coisas que demoram muito, a gente precisa buscar um autocuidado nas pequenas coisas do dia a dia pra baixar esse estado de alerta aí que você tá falando. Como a gente tá muito em estado de alerta o tempo inteiro, a gente precisa encontrar pequenas coisas no dia a dia que envia a mensagem pro nosso cérebro, olha só, tá tudo bem. A gente tá em segurança, não tem perigo nenhum, pode acalmar. Então, cada pessoa pode achar aí o que faz bem pra ela. É uma automassagem que vai ajudar, e aí você bota um alarme aí, você faz três vezes no dia. É na hora que você vai tomar seu banho e você aproveita pra, sei lá, massagear mais o couro cabeludo, dar uma relaxada. É passar um creme cheiroso que você vai se sentir bem, vai se sentir cheirosa, pelo menos ter um bem-estar físico. Sabe? Então, assim, buscar pequenas coisas. Porque nos primeiros anos de vida, não é muito realista quando a gente mora fora, não é realista a gente querer fazer academia três vezes por ano, por semana. Ainda mais com esse tempo. Já ia falar um palavrão aqui, com esse tempo, ponto. Porque não desencoraja, desanima, que não gosta de frio, enfim. Então, ir pra sair com o bebê, carregando, e bota no carro, e tira do carro. É um trampo, e tira a neve do carro, e não sei o que lá. Então, acaba sendo mais carga do que qualquer outra coisa. Então é pensar em coisas que te façam bem no dia. A criança tá fazendo uma soneca, o que você vai querer fazer ao invés de lavar a louça? Pensa ali, aproveita e deixa essa louça pro marido quando puder. Ou divide, um dia é você, outro dia é ele. Sabe assim? O pai, gente, a gente precisa lembrar que o pai também pode fazer essas coisas. Porque acho que a pressão sobre a mulher é tão grande que até nessas horas a gente esquece. A gente esquece. E se o pai não tomar iniciativa, a gente também não passa e pronto, o tempo vai passando e a gente tá ali, sobrecarregada e exausta. Eu tô falando de exaustão mental mesmo, não é só corporal, não, é exaustão do cérebro, tá? Então eu acho que a primeira coisa pra gente diminuir aí o nosso estado de alerta é encontrar esses pequenos momentinhos. Fazer um chá gostoso pra tomar enquanto eu tô ali do lado da criança. Pequenos prazeres, nada que leve muito tempo. Isso já são pequenos autocuidados. Porque banho, gente, é necessidade básica, tá? Banho não é privilégio, não. Banho é necessidade básica. A gente deixa de tomar banho, às vezes, deixa de lavar a cabeça, porque tá com pressa da coisa, mas isso assim não pode acontecer. A gente tem que se praticamente se obrigar a fazer isso e aprender a deixar. Ela tá bem. Eu lembro que eu tomava banho com um boxe aberto, assim, porque meu marido demorava pra chegar. E eu ficava, tô tomando banho. Mas tomava, porque se a gente deixar, passa. Passa nessa correria e nesse cansaço, né? Então, é também fazer essa distinção do que é necessidade básica e o que é um pouquinho de cuidado, que não deixa de ser uma necessidade também, né? Não sei se eu tô sendo clara.

SPEAKER_02

Sim, super, faz muito sentido. E, Malu, quando a gente fala de parentalidade imperfeita, que é. Vamos falar um pouquinho do seu trabalho agora, acredito que muitas mães reportam pra você exatamente esse problema, né? Eu não consigo me interligar, eu não consigo. Às vezes também tem até problemas de delegar, né? Assim, que às vezes a gente cria um sistema, assim, e aí quando chega a maternidade, é mais uma coisa pra adicionar e você já não delegou, não teve parceria, and muitos casamentos acabam por isso, porque a system of the time doesn't have to be a good idea.

SPEAKER_00

Exatamente.

SPEAKER_02

Então, falando da questão do seu trabalho, me fala um pouquinho como você trabalha, a maior queixa as mães, você fala muito ofiguando, então me conta.

SPEAKER_00

Então, o que é isso? É a gente ter consciência ofraide, do nosso contexto de vida também. Então, eu sou formada em neurociência afetiva e dentro da neurociência a gente vê isso, a gente vê que o respeito, mais uma vez, é a base. E quando eu falo de respeito, não é só um respeito de, sei lá, de pedir por favor ou de dizer obrigada, é um respeito de prestar atenção no como a gente se dirige pra criança, um respeito de como é que a gente encosta nessa criança, como é que a gente pega ela, como é que a gente às vezes chama atenção. Porque a gente quer ser respeitado e muitas vezes a gente não respeita a criança, mas a gente não se dá conta, porque mais uma vez a gente não vem dessa cultura. E hoje tá muito na moda a coisa da inteligência emocional, de administrar as emoções, de tomar cuidado com questões aí de trauma e tal. Só que nós, a nossa geração, a gente não aprendeu isso. A gente não teve, a maioria de nós, pelo menos, não teve uma educação de escuta, de aceitar o nosso choro, de aceitar ali uma crise emocional, batendo o pé no chão. Não tivemos isso. Então hoje a gente quer oferecer pras crianças coisa que a gente não teve, coisa que a gente não aprendeu. Então, a imperfeição vem muito desse sentido aí, desse lugar de deixa eu acolher primeiro a minha imperfeição, deixa eu entender isso aqui, tudo que a gente tá falando, todo esse contexto, e deixa eu ser um pouquinho mais paciente comigo mesma também, porque é uma evolução aos poucos. A gente não vai conseguir ser esse respeito todo o tempo inteiro. Inclusive se as minhas necessidades não estiverem sendo respeitadas. Como é que eu consigo ter paciência com a criança se eu não dormir a noite inteira? Como é que eu consigo ter paciência se eu tô com fome e tem, sei lá, eu meu almoço tá esfriando lá em cima da mesa há três horas. Então, é perceber, olhar pra si e se acolher mais também, sabe? Ter mais compaixão por si e menos cobrança com relação ao corpo, porque a gente para e o corpo muda muito, com relação a meu filho ainda não faz isso, meu filho ainda não faz aquilo, que a gente tá o tempo inteiro se comparando. Então eu falo muito de menos perfeição e mais evolução. Então a gente busca uma evolução constante, uma evolução com respeito mútuo. Eu respeito a criança e a criança me respeita, né? Sem permissividade, não é uma questão de fazer tudo o que a criança quer, não é o fato de se eu acolho, eu tô deixando ela fazer o que ela quer, não é isso. A gente tá buscando limites e educação, mas com respeito, com escuta, permitir que a criança possa se expressar, possa falar o que ela não concorda, possa falar aí como ela se sentiu, se ela se sentiu injustiçada. Então é dentro disso daí. E tá ok, a gente vai ter dias que a gente vai reagir de uma maneira mais acolhedora e vai ter dias que não. Porque é isso aí, a parentalidade não é linear, a vida não é linear. Então a parentalidade vai ter dia que o meu top zera tá aqui, ó. Mas tem dia que o meu top tá aqui. E é se acolher, e é entender que hoje não tô bem. Inclusive nomear, pedir ajuda pro parceiro, pra parceira, não tô bem hoje, eu preciso que você entre mais aí e faça, porque eu não estou em condições hoje de ser tão respeitosa como eu gostaria. E tá tudo bem. É a gente ter essa consciência, trabalhar essa auto-observação, né? E se acolher mais, se cuidar mais. Isso é muito importante. And eu vejo, de fato, nos meus atendimentos, assim, que a maioria das mães, dos pais, estão exaustos, estão cansados, estão muito se cobrando. Com toda agora essa nova teoria de traumas ando, não tô dizendo que não existe. Mas virou assim, as pessoas estão perdendo a espontaneidade no cuidado, estão perdendo, sabe, o prazer to cuidar, porque é pura performance. It's tudo, não pode this, not this, not that, faith, faith, faith. Calma, we're respirating, we're the reality, and we'll see what a gente does dentro do our context, dental. It's the message that I'm trying to pass.

SPEAKER_02

Ah, no Brazil. You don't want to potentially no Brazil. And it's difficult, as well, a gente aceitar this, essay a bolha. I'm muito tranquila em relação a isso, porque eu nunca nem pensei em voltar pro Brasil. Mas eu acho que tem. Quando a pessoa tem esse conflito entre será que eu volto, será que eu fico? Porque no Brasil e tal. Eu vi até um vídeo esses dias de uma menina falando assim, ai, dependente que eu voltei pro Brasil, eu tenho uma melhor qualidade de vida, porque eu consigo me cuidar mais, porque eu tenho mais tempo pra esporte, que não sei o quê. E ela morava em Londres, e em Londres não tinha. E eu falei, tá, mas você também não tinha um monte de coisa. Você tinha um monte de coisa lá que no Brasil você não tem, por exemplo, segurança, né? Começando por aí, violência. Então, assim, tudo não terás, mas eu acho que assim, quando a gente vira pai e mãe, né, eu acho que esse conflito interno pode ser muito grande pra algumas pessoas, né? O que eu tô ganhando, o que eu tô perdendo, principalmente se vem uma depressão pós-parto, se a vida realmente muda de cabeça pra baixo, mas num sentido negativo, porque você falou, né? A minha vida mudou de cabeça pra baixo, mas pra você foi pra melhor. Não é uma coisa ruim. Mas tem gente que, putz, realmente se perde no caminho e é muito difícil voltar, né, assim, pra você. E eu acho que esse trabalho é muito legal por isso mesmo.

SPEAKER_00

Obrigada, e é isso mesmo, a gente tentar entender que eu sou eu e a minha realidade. Eu sou eu e a minha realidade, e a sua realidade é diferente da minha. E cada um, que cada criança é diferente também. E aí, eu sempre bato nessa tecla de que quando a gente tenta ser perfeito, a gente acaba botando uma pressão, inclusive, na criança. Meu filho não dorme ainda, meu filho não desmamou ainda, meu filho não anda ainda, meu filho não sei o que lá ainda. Calma, gente, cada um no seu tempo, sabe? Vamos devagar, não tô falando que, ah, se tiver alguma questão de desenvolvimento e tal, beleza, vamos investigar. Mas é isso, é parar de ficar olhando pra grama do vizinho, sabe? E valorizar mais a sua própria graminha ali. Valorizar, olhar o que tem de bom. Eu, ultimamente, aqui a gente instalou aqui em casa o tal do hábito de pra cada coisa ruim que a gente fala, a gente tem que falar que bom que três vezes. E não é fácil. No início, não é fácil. Se você tentar fazer esse exercício, não é tão fácil assim. Mas é uma forma de mudar um pouquinho aí, né? O pensamento e a forma de ver as coisas mesmo.

SPEAKER_02

E, Manu, pra gente finalizar, o que você gostaria que as mães que estão vivendo longe, seja aqui no Canadá, seja em outro lugar, o que você gostaria que elas soubessem, assim, no pico do pós-parto ali, sabe? Quando você acha que a sua vida não vai voltar ao normal, quem é você, tantos questionamentos, porque realmente existe. Fases, né, do game, existe o pós-parto imediato de um recém-nascido que não dorme, aquela coisa toda. Existe a fase da amamentação, existe a fase do Terrible Two, existem outras fases que vão vindo ali e desafios diferentes, né? E toda vez que a gente acha que tá no pico do desafio, é porque a gente esquece o que passou e não sabe o que vem, né? Então, toda fase que a gente vive hoje, pra gente é o maior desafio, né? E ainda tem adolescência. Não, fala não, fala não! Você tá chegando lá. Então, eu queria que você, dependente da fase que a pessoa tá vivendo, eu queria que você desse um conselho, um recado, enfim.

SPEAKER_00

Eu acho que o meu conselho primeiro de todos é olha pra você. Olha pra você, olha até onde você já chegou, olha até, olha essa criança que você fez, olha todo o esforço que você faz por ela, todo o trabalho que você, toda a dedicação que você tem, mesmo nos dias que você tá sem força andar, mas você tá ali porque a gente não tem muito como fugir disso. Então, isso é a primeira coisa. Secondo, confia no seu coração, escuta o seu coração. This is a cool that I could have. Nossa, mas comigo não foi. Nossa, but the culpa is mine. So I who so much protetora, so you queu. So escuta mais the intuition. When a girl, for example, that's conflito cultural, vai se informar mais, porque não necessariamente é. Vai se informar sobre os seus direitos. Independente do país onde você mora, to informa sobre seus direitos. Seja com relação ao parto, seja com relação a amamentar or not amamentar, seja com relação à adaptação à escola, pouco importa, se informe sobre seus direitos. Because ajuda a gente a fazer escolhas mais claras, escolhas com consciência. And when you for consultar algum profissional, busque profissionais que tenha atualização in neurociência. Isso aí é o principal hoje em dia. Porque tem muito profissional ainda desatualizado e obsoleto e falando coisas que hoje a ciência já prova que não é assim que funciona. Como, por exemplo, deixar chorando pra criança aprender a parar de fazer birra. Procure profissionais que vão te aconselhar, mas que sejam formados em neurociência afetiva. Eles estão mais atualizados, estão mais aptos, capacitados e atualizados para atender essas questões do desenvolvimento infantil.

SPEAKER_01

Obrigada por acompanhar mais um episódio do Colo de Longe. Se essa conversa tocou o seu coração, compartilhe com outras mães que também estão vivendo essa experiência fora do Brasil. Não esquece de seguir a gente no Instagram, arroba Colo de Longe. A gente se encontra no próximo episódio. Um beijo e até lá!