WDM Podcast SHOW
We Don’t Mystic Podcast Virtual de estudos compilados de Kabbalah.
Hosts: Tony e Fátima - agentes virtuais criado por IA que são fascinados por Kabbalah e Espiritualidade.
Esse podcast é independentemente e administrado por estudantes do The Kabbalah Centre. Não há vínculo social e judiciário com o centro.
WDM Podcast SHOW
O Que Existe Por Trás da Atração Que Você Sente?
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Neste episódio introdução, exploramos Yesod, a esfera da Árvore da Vida ligada ao desejo, aos vínculos e à força criativa que transforma o que sentimos em experiência.
A partir de sua emanação, Fátima e Tony - seus hosts virtuais criados por IA - conversam sobre o tema principal inerente a essa emanação: O Sexo.
Entre libido, intimidade e autoconhecimento, um papo leve, instigante e cheio de boas perguntas sobre aquilo que nos move, nos conecta, nos faz eróticos e nos faz crescer.
Dê o play e venha descobrir por que, às vezes, o que mais desejamos talvez esteja tentando nos ensinar algo sobre quem realmente somos.
Fontes: Compilação de nossos estudos do Kabbalah Centre Brasil e Internacional ; E livro: Cabala e arte de apropriação do sexo - Nilton Bonder
Podcast não contém vínculo social e nem judiciário com o Kabbalah Centre e os autores citados no podcast.
E se eu dissesse que o objetivo final da sexualidade humana, sabe, aquele ápice absoluto de conexão que todo mundo procura, na verdade, não tem absolutamente nada a ver com a pessoa que tá ali na Camolado?
SPEAKER_02Nossa, isso soa quase como uma heresia pra nossa cultura, né? Porque a gente é bombardeado com essa ideia de que o outro é o centro de tudo.
SPEAKER_00Exato. Tipo, a sociedade ensina pra gente aquele roteiro clássico e intocável. A ideia de que o sexo e os relacionamentos são uma ponte gigantesca, uma ponte majestosa que a gente constrói pra chegar até a outra pessoa, pra viver aquela fusão definitiva de dois mundos.
SPEAKER_02É a premissa de basicamente qualquer filme romântico, de quase toda a música pop que toca no rádio. Tudo sustenta essa narrativa de que o destino final da intimidade é o parceiro, é o outro.
SPEAKER_00Hoje a gente vai dar um mergulho profundo nos textos do rabino e escritor Newton Bonder, focando especificamente na cabala do sexo. A nossa missão com essa análise profunda é desconstruir toda essa visão romântica tradicional.
SPEAKER_02E desconstruir com força, porque nessas fontes, essa ponte romântica que a gente tanto imagina, vira na verdade um espelho.
SPEAKER_00Um espelho, exato. O objetivo do texto é desvendar o sexo não como uma interação física simples ou só relacional, mas pasmem como a ferramenta mais vital, logo depois da própria existência, para o que o autor chama de apropriação de si mesmo.
SPEAKER_02É um conceito muito denso, né? Apropriar-se de si mesmo.
SPEAKER_00Sim, e eu tô fascinada por isso. Então, pra começar a destrinchar essa ideia, como assim o parceiro não é o destino final da relação íntima?
SPEAKER_02Bom, pra entender o tamanho dessa quebra de paradigma, a gente precisa dar um passo para trás. Não dá pra olhar para a biologia pura ou para a psicologia moderna logo de cara. A gente precisa ir lá no mapa místico da Kabala, que é a famosa árvore da vida.
SPEAKER_00Aquela estrutura clássica que muita gente já deve ter visto pelo menos um desenho por aí.
SPEAKER_02Essa mesma. A árvore da vida funciona como uma espécie de planta baixa da psique e da própria existência humana. E. hum. O que é realmente intrigante nisso tudo é a posição exata do sexo nesse mapa milenar. Pensa bem, se o sexo fosse puramente sobre interagir com o ambiente ou, sei lá, chegar até o outro, ele estaria posicionado nas colunas laterais dessa árvore.
SPEAKER_00Ah, claro, porque as colunas laterais, tipo, pelo que eu entendo, são exatamente aquelas que lidam com a nossa relação com o mundo exterior e com as outras pessoas, certo?
SPEAKER_02E nesse mapa, é a emanação mística chamada de yesod, que quer dizer desejo. Ele simplesmente não está nas laterais. O sexo está encravado bem no meio, na coluna central da árvore da vida.
SPEAKER_00E o que isso muda na prática?
SPEAKER_02Muda tudo, porque essa coluna central é um território estritamente interno. É a coluna que lida com a vontade, com o desejo e com a satisfação do próprio indivíduo. Ou seja, sistemicamente falando, o sexo serve, antes de qualquer coisa, a estrutura do próprio ser que está desejando.
SPEAKER_00Nossa, isso é muito forte.
SPEAKER_02É muito forte. O texto argumenta que sem acessar esse desejo central, uma pessoa simplesmente não consegue habitar a própria identidade por completo.
SPEAKER_00Tá, mas peraí, pausa rápida, porque eu preciso fazer o papel de quem questiona isso - de ser a advogada do diabo aqui. Porque, olha, isso soa extremamente polêmico. Se a gente pensar na prática, se eu chegar em casa hoje e disser pro meu parceiro que a nossa intimidade serve, no fundo, pra mitigar minha própria solidão cósmica e pra eu me encontrar, olha, a pessoa vai arrumar as malas e ir embora na mesma hora.
SPEAKER_02E com razão, se não entender o conceito completo.
SPEAKER_00Pois é, tipo, isso não é uma forma de narcisismo místico disfarçado, não sou a meio egoísta usar alguém apenas como um espelho pra se achar?
SPEAKER_02Olha, essa é literalmente a armadilha mais comum quando a gente esbarra nesse conceito pela primeira vez. Mas a fonte faz uma distinção que salva tudo. Se alguém usar o parceiro como um objeto, tipo, como um mero instrumento utilitário para benefício próprio, a mágica simplesmente não acontece. Não funciona.
SPEAKER_00E por que não funciona?
SPEAKER_02Porque um objeto inanimado, ou alguém tratado como objeto, não cura a solidão essencial do ser humano. A tradição mística resgata aquela frase famosíssima do Gênesis que diz que não é bom que o humano esteja só. E a sacada do texto é que isso não é sobre aquele mutualismo animal, sabe?
SPEAKER_00Como assim, mutualismo animal?
SPEAKER_02Aquela coisa de sobrevivência básica. Tipo, ah, eu preciso de alguém para me ajudar a caçar. Ou nos dias de hoje, eu preciso de alguém pra dividir o aluguel e pagar os boletos.
SPEAKER_00Ah, entendi. É um buraco muito mais embaixo, né?
SPEAKER_02Muito mais embaixo. É descrito como uma nostalgia metabiológica. A fonte sugere que essa saudade profunda de não estar só, essa dor no peito, é uma herança direta do próprio criador. Metaforicamente, a criação do universo surge dessa mesma saudade cósmica. Então, para curar essa solidão existencial, o outro jamais pode ser um objeto.
SPEAKER_00Ele tem que ser um participante ativo.
SPEAKER_02Exato, ele precisa ser um coadjuvante absolutamente essencial, vivo, complexo e imprevisível. O desejo humano não se sacia no outro, como se o outro fosse um copo d'água. Ele se sacia com o outro. É uma jornada conjunta.
SPEAKER_00Caramba, isso faz muito sentido agora. O parceiro, então, não é um meio de transporte que a gente usa e descarta. Ele seria tipo uma chave complexa que abre portas internas que sozinhos a gente nunca conseguiria abrir.
SPEAKER_02Essa imagem da chave é perfeita. Mas tem um detalhe: essa abertura de portas internas não acontece num passe de mágica num encontro de fim de semana. É um processo contínuo e trabalhoso de autodescoberta. O humano tenta se apropriar de si mesmo através do sexo em várias camadas diferentes que vão evoluindo.
SPEAKER_00É, o texto divide isso em quatro dimensões bem claras, né? E tudo começa na camada mais rudimentar, mais ruidosa de todas, que é a dimensão física, é a febre da libido.
SPEAKER_02A libido, pura e simples. Aquele estado de um sendo um, a febre ativada pelo toque, pelo olhar, pela presença física.
SPEAKER_00E o que mais me deixou intrigada nas anotações sobre essa primeira fase física é uma explicação que parece totalmente contraintuitiva, porque o autor menciona a ideia do impulso ao mal. O texto diz que, para a pessoa se apropriar do próprio corpo e da própria existência, ela precisa acionar o que as escrituras antigas chamam de impulso ao mal, e que, curiosamente, os sábios descrevem como algo muito bom. Como assim o mal é muito bom?
SPEAKER_02É que quando a gente lê a palavra mal nesse contexto místico antigo, a gente não está falando de crueldade, de cometer crimes ou de psicopatia. A tradição tem uma definição bem específica. Eles definem o impulso ao bem como a nossa capacidade de cooperar, de ser dócil, de se adaptar às regras da tribo.
SPEAKER_00Aquela coisa de ser bonzinho, de não incomodar ninguém.
SPEAKER_02Isso. Já o impulso ao mal é a força competitiva. É a nossa virilidade, a teimosia, aquele ímpeto impetuoso de bater no peito, se impor no mundo e dizer que a gente existe. Sem essa energia meio egoica e vital, a humanidade não iria a lugar nenhum.
SPEAKER_00Ninguém faria nada novo, né?
SPEAKER_02Ninguém construiria uma casa, ninguém ousaria cruzar um oceano, ninguém nem teria coragem de convidar alguém para sair ou fundar uma empresa. Exige uma certa quebra de harmonia.
SPEAKER_00Nossa, é a energia da ruptura. Tipo, se a gente pensar num exemplo bem prático para o dia de hoje. Imagina um jovem que cresceu numa família super tradicional de advogados. A expectativa inteira da família, dos avós até os pais, é que ele assuma o escritório da família.
SPEAKER_02Um peso enorme nas costas dele.
SPEAKER_00Exato. Se ele agir puramente pelo impulso ao bem, como o texto define, ele ia baixar a cabeça, ser o filho perfeito, cooperar com a tribo, se formar em direito e ser secretamente miserável e deprimido a vida inteira.
SPEAKER_02Ele seria sugado pela expectativa do outro.
SPEAKER_00Pois é. Então o impulso ao mal nesse cenário é aquela energia visceral que faz ele bater na mesa no meio do jantar de domingo e dizer: olha, eu não vou ser advogado coisa nenhuma, eu vou ser músico. É uma espécie de maldade com a expectativa e os sentimentos da família, mas é uma força a favor da própria vida dele. Ele está se impondo.
SPEAKER_02É o grito de independência dele. E trazendo isso para libido, para o sexo puramente físico, é preciso ter essa mesma coragem de imposição. Sem essa imposição, não rola a apropriação do corpo. A experiência íntima tem que ser vivida na primeira pessoa, enfrentando o atrito da realidade, o medo da rejeição, a fisicalidade.
SPEAKER_00O que nos leva àquela história fantástica que o autor traz, a metáfora do mestre e do pêssego. Eu acho essa história genial.
SPEAKER_02Ah, essa metáfora é brilhante e muito ilustrativa para essa fase.
SPEAKER_00Pra quem está acompanhando a gente não perder, a história é mais ou menos assim. Tem um discípulo que questiona o mestre num monastério. Ele pergunta, sabe, por que o mestre sempre usa metáforas, parábolas misteriosas e não entrega as respostas logo de uma vez, tudo mastigadinho, direto ao ponto.
SPEAKER_02Ele queria um atágio para o conhecimento.
SPEAKER_00Isso. E o mestre não responde com palavras. Ele simplesmente pega um pêssego fresco e suculento e oferece para o aluno. O aluno aceita, claro. Aí o mestre pergunta se ele quer que corte o pêssego para ele. O aluno responde que sim, seria ótimo. E é nessa hora que o mestre dá aquele golpe final e pergunta se ele permite que ele entregue o pêssego já mastigado para ele. O aluno, obviamente, sente um nojo absurdo e recua.
SPEAKER_02A lição ali é brutal, é um tapa na cara. Explicar o sentido direto das coisas da vida ou tentar viver a vida através da experiência de um terceiro é exatamente oferecer e aceitar uma fruta mastigada por outra boca. O vício, a textura, o choque térmico e o sabor do fruto só pertencem a quem faz o esforço físico e o risco de mastigar.
SPEAKER_00E se a gente trouxer essa metáfora do pêssego mastigado direto para a nossa realidade digital de hoje, olha, fica assustadoramente evidente o que está acontecendo com as pessoas.
SPEAKER_02Com certeza. A gente vê isso em todo lugar.
SPEAKER_00Tipo, consumir pornografia de forma crônica ou viver as relações de forma parasocial, acompanhando a vida alheia pelas redes sociais, é exatamente isso. É o cérebro da pessoa aceitando o pêssego já mastigado por algoritmos e por atores de estúdio. A pessoa quer a recompensa química da febre física, da libido, mas sem o menor risco da imposição vital que a gente acabou de discutir.
SPEAKER_02E o resultado disso é uma desconexão gigantesca do próprio corpo. Porque sem a coragem para se expor de verdade no mundo físico, a pessoa inevitavelmente cai nas disfunções dessa primeira fase. E a fonte aponta duas principais, que são o abuso e a repressão.
SPEAKER_00Como o texto diferencia essas duas?
SPEAKER_02O abuso é basicamente a tentativa de roubar a vitalidade do outro pela força ou pela coerção, justamente porque a pessoa não tem a coragem interna de se vulnerabilizar. É tentar consumir o olhar do outro, dominar, sem se deixar ser visto de verdade. E no extremo oposto, a gente tem a repressão absoluta, o celibato forçado pelo medo, não por escolha espiritual, mas por pavor. Isso. E ambos impedem que o indivíduo acesse sua verdadeira nudez. E a nudez aqui, segundo Bonder, não é só tirar a roupa. Ela só surge de verdade quando a gente se despeda as nossas defesas infantis, perde a tal da inocência e aceita a vulnerabilidade pesada de ter um corpo de carne.
SPEAKER_00Mas, mesmo quando alguém domina essa confiança física toda e consegue essa apropriação corporal plena, a gente vê que eventualmente rola um esgotamento. Porque a conexão puramente física, por mais alucinante, incrível que seja, se ficar só nisso, deixa um eco de solidão.
SPEAKER_02Deixa um vazio. O corpo está nu, está exposto, mas o indivíduo lá dentro ainda está escondido atrás de um muro.
SPEAKER_00Exato. E é justamente essa insuficiência, esse tédio físico, que acaba empurrando a gente naturalmente para uma necessidade mais sofisticada. A gente sai do choque puro da libido e passa a precisar desesperadamente de um refúgio. E aí a gente entra na segunda evolução, o terreno da intimidade.
SPEAKER_02A dimensão emocional. Se na primeira fase o foco era eu me sentindo vivo, um, sendo um um, agora a dinâmica muda para o que o texto chama de você no outro. Trata-se do espaço emocional que se cria nessa relação. É a descoberta de partes da própria personalidade que, olha que loucura, misteriosamente ficariam adormecidas pra sempre no escuro se não houvesse o atrito e o acolhimento de uma parceria.
SPEAKER_00É como se o outro iluminasse uma sala nossa que a gente nem sabia que existia. E isso me traz pra um trecho sobre o mito de Adão e Eva que me deixou completamente fascinada, porque quebra uma ideia que a gente engole desde criança.
SPEAKER_02Ah, a questão da costela.
SPEAKER_00Isso. Existe um erro de tradução milenar que moldou muito mal a cultura ocidental. A gente cresce escutando que a mulher foi tirada da costela de Adão. E isso já carrega um subtexto péssimo de subordinação, como se a mulher fosse um anexo, uma peça sobressalente secundária do homem. Mas o autor traz a interpretação de um mestre chamado Ravsmuel sobre os textos originais do Gênesis e a palavra hebraica original ali não é costela.
SPEAKER_02Nem de longe. O termo hebraico é mitzalotav, e essa palavra tem uma tradução muito mais rica e precisa, que é lados. A tradução mística argumenta com muita força que, na origem, a criação da parceria humana não aconteceu com um na frente e o outro atrás.
SPEAKER_00Até porque a posição física dita muita coisa, né?
SPEAKER_02Exatamente. Porque estar na frente de alguém é bloquear o caminho. É ofuscar a visão. Estar atrás é ser puxado, empurrado ou subjugado. A figura primordial, a verdadeira essência da parceria, foi criada literalmente lado a lado.
SPEAKER_00A lateralidade. É lindo isso. A verdadeira intimidade emocional, então, não é um confronto cara a cara, como se os dois estivessem num ringue de boxe, discutindo a relação o tempo todo, e também não é um seguindo as pegadas do outro submissivamente. É o caminhar lado a lado, olhando na mesma direção.
SPEAKER_02E nesse espaço lateral seguro, a dinâmica do que o desejo muda completamente. O grande afrodisíaco dessa fase emocional já não é mais o toque físico frenético lá da primeira fase. O afrodisíaco supremo aqui é a escuta.
SPEAKER_00Mas o texto deixa claro que não é qualquer tipo de escuta, né? Não é só ficar em silêncio esperando a própria vez de falar.
SPEAKER_02Com certeza. É uma escuta profundamente embasada na empatia e não na simpatia. Tem uma diferença brutal aí. A simpatia é quando a gente tenta consertar o problema do outro, quando a gente quer dar um conselho rápido ou tenta conter a dor da pessoa dizendo que vai ficar tudo bem.
SPEAKER_00Que é o que a gente costuma fazer o tempo todo por ansiedade.
SPEAKER_02Sim, a gente quer resolver. Mas a empatia real apenas cria o espaço aberto para que a pessoa se escute enquanto fala. O afrodisíaco absurdo de ser acolhido sem nenhum julgamento, de ter alguém caminhando ao seu lado no escuro, segurando a barra, é o que permite a uma pessoa se apropriar das próprias emoções bagunçadas.
SPEAKER_00Só que, assim como a dimensão física tem suas armadilhas e disfunções, o campo emocional também tem as dele. Quando essa lateralidade bonita é corrompida, a gente esbarra nas disfunções da intimidade. E o autor usa uma metáfora ótima para descrever esse engate emocional. Ele diz que é como uma flora.
SPEAKER_02Uma vegetação bem delicada.
SPEAKER_00Isso. Uma vegetação que precisa de muito tempo e paciência para crescer. E a disfunção acontece justamente quando entra um mercantilismo oculto, uma vontade gananciosa de possuir o outro.
SPEAKER_02O exemplo clássico que ilustra isso é aquele momento sutil que todo mundo já deve ter presenciado ou vivido. Pensa num toque, num abraço ou num olhar longo que deveria ser de puro acolhimento. De repente ele se prolonga por alguns segundos a mais do que o adequado. A intenção da pessoa muda no ar, dá pra sentir.
SPEAKER_00Fica pesado, né?
SPEAKER_02Fica pesado. Deixa de ser um simples estar lado a lado, desinteressado e passa a ser uma transação. A pessoa quer, de alguma forma, manipular a emoção do outro, prender a pessoa ali pra garantir a própria segurança emocional dela. Vira uma cobrança.
SPEAKER_00Eu anotei uma analogia pra isso que me veio à mente quando eu li. É a diferença exata entre você cheirar uma flor lindíssima no meio de um jardim e, sei lá, tentar arrancar essa flor e colocar ela num pote fechado a vácuo pra não perder o aroma. A obsessão de prender a emoção acaba sufocando e matando exatamente aquilo que criou a atração inicial.
SPEAKER_02Destrói a lateralidade na hora. E falando em destruir, a fonte usa a história da mulher de Ló, lá da Bíblia, para ilustrar a versão mais trágica dessa quebra de intimidade.
SPEAKER_00Nossa, essa análise da mulher de Ló é muito profunda. Pra quem não lembra, a família tá fugindo da destruição das cidades de Sodoma e Gomorra, e eles recebem uma regra muito clara dos anjos não olhar pra trás em hipótese alguma. Mas a mulher de Ló não aguenta a curiosidade. Ela para no meio da fuga e olha. E o texto enxerga essa atitude não só como desobediência, mas como o pecado do voyeurismo.
SPEAKER_02Exato. Ao olhar para trás de forma puramente curiosa, de forma isoladamente voyeurista para ver a tragédia alheia, ela é transformada instantaneamente numa estátua de sal. E é fascinante quando a gente pensa no significado que o sal tinha para o mundo antigo.
SPEAKER_00É verdade, o sal preserva, mas também mata.
SPEAKER_02Hoje em dia, a gente tem o plástico como grande símbolo do que é artificial, estático e inorgânico. Mas naquela época, o sal absoluto, aquele solo salgado onde nada cresce e que impede o desenvolvimento de qualquer planta, representava a morte total do que é orgânico e vivo.
SPEAKER_00Então, metaforicamente, ela virou uma boneca inorgânica, uma estátua sem vida, porque o voieirismo é o extremo oposto da intimidade. É a vontade de observar a vida do outro, fuçar a emoção do outro, sem nunca correr o risco de caminhar ao lado da pessoa na vida real.
SPEAKER_02É viver através da festa da porta.
SPEAKER_00Sim. E se a gente pensar bem, é exatamente o que acontece quando a gente passa horas e horas consumindo a vida alheia pelas telas dos celulares, espionando as histórias do lado de fora, mandando mensagens sem nunca encontrar. A gente não constrói nenhuma lateralidade real. A gente vira estátua de sal.
SPEAKER_02Perfeito. A gente se congela. Mas olha que interessante. Mesmo se a pessoa consegue superar tudo isso, se ela tem a segurança física e atinge aquele acolhimento emocional perfeito e seguro, a mente humana é um bicho inquieto. O conforto emocional contínuo acaba gerando tédio.
SPEAKER_00O famoso comodismo.
SPEAKER_02Isso. A biologia e as emoções pedem passagem por uma área mais instável, que é o campo intelectual. O previsível precisa ser urgentemente quebrado pela imaginação, senão a relação morre de inanição.
SPEAKER_00E aí a gente entra na terceira evolução do texto, que explora a dimensão intelectual associada à dimensão do gênero. E aqui, gente, a gente precisa ser absolutamente rigoroso na explicação para não causar mal entendidos, porque as palavras carregam muito peso hoje em dia. Quando a fonte fala de gênero aqui, ela não está falando de normas biológicas ou de heteronormatividade. O texto vai fundo na raiz etimológica hebraica da coisa.
SPEAKER_02Uma raiz que revela muito por sinal.
SPEAKER_00Demais, a palavra original para homem é ish e a palavra para mulher é Ixá. E o que é surpreendente é que ambas derivam de uma terceira palavra muito mais antiga, que é ISH, e que significa literalmente fogo.
SPEAKER_02E o que isso diz pra gente? Diz que, na sua essência mística mais profunda, a polaridade intelectual que gera aquela atração elétrica entre duas pessoas não vem dos cromossomos, vem do fogo humano. O gênero, nessa dimensão intelectual, é a nossa capacidade imaginativa. Totalmente. É a imaginação que nos arranca daquela programação instintiva de pura reprodução. Um animal não imagina como vai ser o futuro com o parceiro no ano que vem. Ele não cria cenários fantásticos na cabeça, ele não planeja. O ser humano usa esse fogo da imaginação para exercer o livre-arbítrio real.
SPEAKER_00O livre-arbítrio para escolher não só com quem a gente está, mas principalmente quem a gente deseja ser dentro daquela relação. E a forma como o Bonder costura isso com a história do Gênesis de novo, sério, parece roteiro de um thriller psicológico. Porque ele faz uma releitura da história da serpente no paraíso totalmente através da lente do erotismo intelectual.
SPEAKER_02É uma visão bem ousada e muito inteligente do mito.
SPEAKER_00Imagina a cena. Adão acabou de descobrir a Eva, ele está completamente encantado e diz aquela frase clássica. Ele está no auge da zona de conforto. E aí o que ele faz? Ele se acomoda. Adão simplesmente deita e dorme o sono erótico preguiçoso de quem encontrou a segurança identitária perfeita. Ele está satisfeito com o emocional e o físico. Mas enquanto ele dorme e baba nessa pasmaceira confortável, o que a Eva faz?
SPEAKER_02Ela sai andando e vai bater papo com a serpente. E na leitura cabalística desse texto, essa conversa não é só sobre uma simples desobediência moral ou gula por uma maçã. Essa conversa com a serpente representa a grande aventura imaginária humana.
SPEAKER_00Ela quer mais?
SPEAKER_02Exato. A isha, que carrega o ish, o fogo intelectual inquieto, sente que aquela segurança estática do paraíso é limitante demais para a alma. O erotismo intelectual exige exploração, exige questionar os limites da parede, exige flertar com novas possibilidades lá fora, mesmo que isso custe a zona de conforto.
SPEAKER_00E é bem aí que entra aquele conceito fortíssimo que o texto explica do termo yadá. Yadá é a palavra bíblica para conhecer. Porque no hebraico antigo, copular fisicamente e conhecer alguém intelectualmente usam a mesma palavra.
SPEAKER_02Sim, é uma fusão de ideias. O conhecimento não é só mental, é íntimo.
SPEAKER_00Conhecer profundamente alguém exige uma exposição absoluta de ideias. Exige debate acalorado, exige a interpenetração de intelectos. Não tem como a gente conhecer a fundo a mente do parceiro sem colocar nossas próprias convicções em risco de serem alteradas.
SPEAKER_02E dá muito trabalho fazer isso.
SPEAKER_00Dá muito trabalho, dá muito medo. E justamente por causa desse medo do confronto de ideias e da rejeição mental, o ser humano cria um atalho terrível para evitar essa fadiga toda. E o texto chama esse atalho de a disfunção do fetiche.
SPEAKER_02E mais uma vez a gente precisa limpar o conceito. O fetiche, sob essa ótica mística do livro, não é sobre ter práticas alternativas no quarto ou usar fantasias. O fetiche é classificado como uma espécie de pornografia. Como assim, pornografia intelectual? Porque o exercício pleno da imaginação e do intelecto exige duas pessoas inteiras, complexas, cheias de defeitos interagindo, o que traz um risco enorme de rejeição ou frustração. No fetiche mental, a pessoa substitui o indivíduo real e imprevisível, que dá dor de cabeça, por um recorte seguro e congelado.
SPEAKER_00Um personagem de papelão.
SPEAKER_02Exatamente. Ela troca a complexidade assustadora do outro por um roteiro fixo na própria cabeça, por uma imagem controlada ou por uma recompensa que ela já sabe qual vai ser e que é garantida. Ela interage com o próprio controle, não com o parceiro.
SPEAKER_00Nossa, e tipo, se a gente pensar no flerte moderno, é exatamente isso que a gente transformou os aplicativos de relacionamento. Aquele negócio de ficar deslizando tela sem parar, julgando a vida inteira de uma pessoa por causa de uma foto numa lancha ou de uma frase de efeito copiada do Google. É a institucionalização pura do fetiche mental.
SPEAKER_01É o mercado do fetiche, onde todo mundo vira catálogo.
SPEAKER_00Sim. A gente quer o prêmio, a sensação gostosa da conexão intelectual rápida, mas a gente não quer ter que correr a maratona exaustiva de sentar num café com o estranho, com todas as falhas, as pausas constrangedoras e contradições dele e tentar realmente escavar e conhecer ele. Acaba virando uma relação de avatares com avatares, não tem humano de verdade ali.
SPEAKER_02E o prejuízo maior é para o próprio indivíduo, porque ao não expor a própria mente ao atrito do conhecimento real do outro, o indivíduo perde a grande chance de descobrir do que a sua própria imaginação é capaz. Ele não cresce, fica estagnado numa adolescência intelectual.
SPEAKER_00E o que tira a gente dessa estagnação é justamente o último degrau dessa escalada enorme. Vamos recapitular: a gente dominou o corpo físico, a gente encontrou o abrigo lateral no emissional e acendemos o fogo do debate no intelectual. Mas a psique humana anseia por algo que consiga resistir à passagem cruel do tempo, o que nos joga de cabeça com tudo na quarta e última camada, o campo espiritual.
SPEAKER_02Que é onde a dinâmica misteriosa da nobilidade entra em cena.
SPEAKER_00E a palavra nubilidade engana muito, né? Porque geralmente ela invoca toda aquela burocracia civil, a idade noob, o contrato em cartório, ou aquela cerimônia de casamento gigantesca e cara. Mas da fonte original, a nobilidade é descrita de uma forma muito mais profunda e visceral.
SPEAKER_02Sim, o foco não é a festa de casamento. A nobilidade é definida como um ímpeto, uma luxura espiritual genuína, uma força absurda de transcender o próprio indivíduo para de fato construir o futuro junto com o outro.
SPEAKER_00É a necessidade vital de edificar, de polinizar a história, como eles dizem. E isso é lindo porque não significa necessariamente só ter filhos biológicos. Pode ser a criação de um lar com raízes profundas, a fundação de um projeto comunitário juntos, uma obra de arte que só poderia ser criada a dois ou até um negócio.
SPEAKER_02Construir um legado que sobreviva aos dois.
SPEAKER_00Mas, e sempre tem um mas, o preço dessa edificação é absurdamente alto. Porque para que dois indivíduos se tornem algo maior do que a simples soma das partes, os dois precisam ser quebrados e desconstruídos de quem eles eram antes daquele vínculo. E a explicação cabalística de por que tanta gente foge aterrorizada desse sacrifício, bem na metade do caminho. Nossa, é o paralelo mais brilhante de todo o texto pra mim: a metáfora da fome e da sede.
SPEAKER_02Essa metáfora fecha todo o raciocínio com um chave de ouro. Se a gente conectar tudo o que a gente discutiu até agora, a diferença entre aquela primeira camada da libido e essa última camada da nobilidade fica gritante através dessa comparação.
SPEAKER_00Explica como a libido é igual à fome.
SPEAKER_02Bom, a libido, que é aquela energia física inicial, opera psicologicamente exatamente como a fome que a gente sente no dia a dia. O interessante da fome biológica é que ela traz um erotismo antecipado e embutido nela. Imagina sentir o cheiro do banquete sendo preparado no forno. Ou sentar num restaurante chique e ler o cardápio com calma, a antecipação de que você vai comer. Tudo isso já é extremamente prazeroso.
SPEAKER_00A gente saliva só de pensar.
SPEAKER_02Exato. A fome tem um gozo inerente a ela muito antes de ser saciada. É uma tensão gostosa.
SPEAKER_00Só que a nobilidade, essa vontade de construir para o futuro, não é a fome, a nobilidade é a sede.
SPEAKER_02A sede é radicalmente diferente da fome. A sede não oferece absolutamente nenhum prazer na antecipação. Ninguém fala: hum, que delícia! Eu estou com a boca seca duas horas. Sentir sede profunda é uma experiência terrível, é angustiante, dolorosa, é um incômodo que domina e desestabiliza todo o seu sistema nervoso. O único momento de deleite e prazer da sede ocorre no exato milissegundo em que o copo d'água toca a garganta, lá no ato final da saciedade. Todo o processo antes disso é puro sofrimento e privação.
SPEAKER_00Cara, isso explica tanto, mas tanto sobre o nosso comportamento moderno nas relações. Porque construir algo de longo prazo, edificar uma vida inteira com alguém, não é matar a fome. É enfrentar a sede de peito aberto. Exige suportar o atrito diário, o desconforto das diferenças, as crises financeiras, os sacrifícios de noites mal dormidas. E isso dura anos a fio.
SPEAKER_02É um teste de resistência espiritual.
SPEAKER_00Total. Os dois ficam apostando que o gozo espiritual, lá no futuro, quando olharem para trás e virem o que construíram, vai valer toda a pena. E como a nossa sociedade contemporânea é completamente viciada no prazer antecipado da fome, na notificação do celular que dá dopamina, no match imediato no aplicativo, daquela febre instantânea do primeiro encontro, as pessoas simplesmente fogem da sede na primeira gota de suor.
SPEAKER_02Elas não suportam o desconforto prolongado. E quando elas fogem da sede dessa forma sistemática, elas caem na última grande disfunção apontada pelo livro, que é a promiscuidade. E mais uma vez, as fontes não estão aqui fazendo julgamento moral ou ditando regras sociais de castidade. A promiscuidade é diagnosticada puramente como uma forma grave de frieza espiritual.
SPEAKER_00Uma recusa à vida.
SPEAKER_02Isso. É a recusa absoluta e teimosa de canalizar a sua imensa energia vital para frutificar algo consistente no tempo. A pessoa prefere ficar patinando eternamente nas febres daquelas fomes menores lá do início, vivendo de prazeres intensos, mas muito passageiros, para evitar a todo custo o vínculo que exige a dor da transformação.
SPEAKER_00Em resumo, é a recusa covarde de deixar que a alquimia do encontro com o outro produza algo inédito no mundo. Uau! Olha, é muita informação densa para processar, mas a arquitetura de todo esse pensamento é simplesmente espetacular.
SPEAKER_02E é uma jornada ascendente.
SPEAKER_00Sim. A gente começou lá na base da árvore da vida, na atração animal, e foi subindo degrau por degrau até chegar na espiritualidade. E olhando para tudo isso, fica muito claro que o sexo e a intimidade na visão cabalista nunca foram uma rota de fuga. A gente não usa a cama e a companhia do outro como um esconderijo anestésico para esquecer dos nossos problemas e de quem a gente é.
SPEAKER_02Muito pelo contrário, é o caminho mais direto e doloroso para a gente lembrar quem a gente é. Se a gente resumir a ópera, primeiro, a gente usa o atrito puro do toque físico na primeira fase para reacender a coragem vital no próprio corpo, para sentir que está vivo.
SPEAKER_00Depois, a gente usa a empatia para currar nossa solidão emocional profunda, tudo através do acolhimento lateral e daquela escuta desarmada.
SPEAKER_02E em seguida, a gente é provocado e instigado pelo fogo do intelecto a imaginar coisas novas e a expor as nossas próprias ideias, abandonando os fetiches e os roteiros de controle que a gente inventa.
SPEAKER_00E por fim, a gente enfrenta a agonia dasértica da sede espiritual, suportando as crises, para edificar o futuro e conseguir se expandir para muito além da nossa própria pele. Então o parceiro não é, nunca foi e nunca será a linha de chegada. O parceiro, com todos os defeitos e a complexidade que ele traz, é o farol.
SPEAKER_02Um espelho em um farol.
SPEAKER_00Um farol indispensável que vai iluminando aqueles quartos escuros e úmidos da nossa própria psique. Quartos que, se a gente ficasse sozinho a vida inteira, a gente nunca ter nem a coragem, nem a capacidade de abrir e explorar.
SPEAKER_02E o resultado de passar por todas essas provações com outra pessoa não é dominar o outro, é a apropriação total e absoluta do seu próprio ser. A Kabbalah diz que só após atravessar essas camadas e se doar dessa forma é que a gente pode finalmente bater no peito e dizer que realmente existe em plenitude.
SPEAKER_00Nossa, isso tem o poder de mudar a textura de absolutamente cada interação que a gente tem. Faz a gente perceber que cada impulso que a gente sente no peito, no fundo, é um mapa apontando para dentro de nós mesmos e não só para o outro.
SPEAKER_02É uma mudança de perspectiva violenta e libertadora.
SPEAKER_00Totalmente. Então, para fechar essa nossa exploração de hoje, que foi super densa, fica aqui uma provocação pesada para quem acompanhou e aguentou essa escalada até o topo com a gente. Da próxima vez que bater aquele desejo repentino e incontrolável, seja a urgência química de checar o celular agora atrás de atenção, seja aquela fome de uma conexão física imediata na balada, ou até aquela vontade misteriosa e silenciosa de finalmente sentar e construir algo de real valor ao lado de alguém, faz um favor pra você mesmo.
SPEAKER_02Para por um único segundo e analisa o que tá por trás.
SPEAKER_00Exato. Para e faça pra si mesma a pergunta mais profunda de todas. Qual é a parte exata do seu próprio interior, lá no fundo, que tá no escuro agora, gritando, implorando desesperadamente pra ser finalmente encontrada, acolhida e habitada.