Diário de Marias

Fui Tramadol

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

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A culpa é das Estrelas? Maria, na Toscânia, e Maria, em Lisboa, falam de relatos de abduções, a libertação de documentos do Pentágono pelo FBI, e Maria italiana revela o seu avistamento de um Ovni numa Serra portuguesa. 

SPEAKER_00

Diário de Maria de segunda a sexta na futura: Olá Maria, Olá Maria, tchau, podias inovar um pouco no vocabulário mesmo.

SPEAKER_01

Não, não, eu também não me queres ticar, não quero retiar, se calhar temos muitos ouvintes italianos, que é um bocadinho aquela coisa de ouvirmos pessoas a tentar falar português e pronto, e falarem muito, não é? Mas nós gostamos desse esforço, não é? Quando as pessoas tentam falar português.

SPEAKER_00

Olha, mas tu ficaste de contar uma história.

SPEAKER_01

Pois fiquei. Então, eu durante algum tempo vários ouvintes e famílias que nos escreveram. Primeiro, convém que me confesso, eu adoro fenómenos do paranormal, tudo o que tem a ver com espíritos, fadas, aliens, sou um verdadeiro aquário, sou uma criança indigo, uma criança cristal, eu sou o que quiserem. E então tenho muita disposição para este tipo de universos. Tenho estado atento àquilo que têm sido as reflexões feitas pelo FBI, para quem está mais distraído, foram divulgados pela Casa Branca alguns registros com décadas de eventos paranormais no ar, paranormais, não, objetos ovnis, objetos voadores.

SPEAKER_00

Tu continuas a ser a única pessoa no mundo interessada nesse DOC.

SPEAKER_01

Provavelmente ou seja, eles lançaram isto para distrair os Emsting Files e a única pessoa distraída de facto. Fas tu. Fui eu, olha, mas vou ver muitas vezes. Não com uma pessoa, sim, olha, menos mal. Pronto, e eu tenho um histórico de achar que vejo aliens. Então vi uma vez na Serra da Rábida as luzes à noite que eu não percebi do que era, sendo que fizeram uma. Era uma espécie que parecia umas lanternas em cima da serra. Eu com uma lanterna de volta e depois pensei, eu se calhar estou aqui a no sinal qualquer, isto pode ser tráfico de droga, e parei e não fiz mais isto. Depois houve outra noite em que de facto vi um objeto que eu não sei o que era, a sobrevoar a serra com luzes vermelhas a piscar, mas ficava imóvel por cima da serra. muitas histórias na Serra da Rábida, muitas histórias na Serra de Sintra, e eu vi aquilo e pensei, vou filmar, como todo antes sabe, para poder filmar um OVNI, tenho que ir com uma batata com câmara dentro. Portanto, se tiver a pior imagem possível no vosso telemóvel, é esse o telemóvel em que usar. Porque é proibitivo, é proibido se quer que se possa ter uma imagem que não tenha muito grão, e não pareça de 1978. Portanto, eu fui tentar filmar o que estava a ver em cima da Terra, pensei, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, é agora, e desapareceu este objeto. Fiquei inês, Maria, danado. Depois pensei, a minha oportunidade escapou-se contra as mãos. Decidi ligar alguém para comunicar o que me havia acontecido. Naquela altura uma pessoa da minha família estava a fazer uma mediação muito pesada, então eu liguei esta pessoa e esta que estava à tramadolo e eu liguei e disse: acabei de ver um óvni acima da serra, e do outro lado ouvi assim, a sério? Eu pensei, sim, não, ouvi mesmo, vi mesmo, e as luzes estavam a paiar, e eu tenho a certeza que era, e do lado fosse assim, que bom, que bom, viste a tua sorte, eu pensei, eu não acredito que acabei de ligar a pessoa que está ela própria, não, é que é que eu, como é que eu ligo isto a alguém a contar? Era uma pessoa que estava na minha família Ricada, tramadótico, tinha feito uma intervenção cirúrgica e eu estava traumadológico, mas também, como é entusiasta destes fenómenos, eu achei que ali colher apoio, não colhi apoio nenhum, até fiquei um bocado chateado e desguei o telefone porque do outro lado não colhi o poi que esperava. Tu não estavas a tramadol, não estava a tramadol, mas durante a dia descobri uma sessão de esquecimento que acontece online, tipo Zoom, da Sociedade Portuguesa da Ovenologia OVNIologia, e muitas pessoas corretavam, era uma coisa fascinante que eu ia ver, mas tem o meu nome verdadeiro, confesso aqui, que me confesso. E ouvi as histórias das pessoas, então muitas pessoas em Portugal que têm histórias de abduções e de terem visto fenómenos inexplicáveis. Como é que se explica? Não se explica. Não se explica. Não negar partido, mas ciência que desconhece.

SPEAKER_00

Sim, um objeto que não conhece, não é? Confesso que o assunto não me fascina. Não? Não? Eu lembro-me que cresci a ler, eu e o meu irmão límos, o meu irmão comprava um jornal que era o Jornal do Incrível. Os teus pais lembraram-se desse jornal. Que saudades do Jornal do Incrível. Como as coisas eram tão inocentes ao mesmo tempo, não é? Um jornal que chamar-se apenas Jornal do Incrível.

SPEAKER_01

E era um jornal com mentiras, ou era ficção científica?

SPEAKER_00

Não, havia muitos relatos de gente abduzida, de óVNIs avistados, porque era o jornal do Incrível. E portanto, tu devias ter vivido nesse tempo. Sim, sim.

SPEAKER_01

Eu devia ter vivido ao de Roswell.

SPEAKER_00

Não, isso então, claro.

SPEAKER_01

Tinha afrontamentos, não via outras coisas.

SPEAKER_00

Pois não sei que te diga, porque não tenho respostas para te dar.

SPEAKER_01

Tudo bem, eu estou habituada a fazer um caminho solitário, Maria.

SPEAKER_00

Solitário, sim, sim, sim. Sozinho na galáxia. É assim que tu segues, Maria. Mas isto vale a pena restituir alguma dignidade neste programa. Queria contar-te que, e contar aos nossos ouvintes, estou a ler o novo livro da Patty Smith, que se chama Pão de Anjos, e um livro sobre a memória da família, memórias muito detalhadas, muito descritivas, também com algumas pequenas fotografias muito antigas, fotografias de família e não só. E um detalhe que desde guardei para a nossa conversa, ainda li 40 e tal páginas deste livro. A dada altura, a Petty Smith fala da avó da mãe, a quem todos chamavam vovó. Que era reptiliana, a mãe não era reptiliana, se saiba, não é mencionado esse facto no livro. Todos lhe chamavam vovó, sendo que ela era bisavó da Patty Smith, and essa mulher era muito castigadora para a sua mãe, portanto, a mãe da Petty Smith, e mimava os irmãos, portanto, castigava a mulher e mimava os rapazes. E eu pensei, repara que eu destas 40 e tal páginas reto este detalhe e fiquei, andei a pensar nisto because isto fica tão fundo gravado em nós como é que as coisas pouco felizes ou mesmo infelizes neste caso deixam tanta marca em nós.

SPEAKER_01

Sim, eu acho que muitas vezes são frios essenciais que passamos o resto da vida a tentar resolver, não é? O estingar. E é muito difícil porque sem querer, depois às vezes continuamos numa espécie de caminho do ódio ou caminho do julgamento, não é? E às vezes isso está-nos mesmo no sangue. Mas depois assim umas pessoas a quem parece que foi dada a hipótese, ou se calhar, a responsabilidade de travar essa maldição familiar, ou esse mínimo esquisito que nos está nos ossos. Eu acredito um bocadinho nisso, acredito que nos é dada a possibilidade, pois obviamente depois faremos com isso o que podemos, aquelas histórias das pessoas cujos pais eram muito duros, muito difíceis, mas depois as pessoas são assim, umas espécies de lâmpadas com pernas e são muito luminosas e escolhem ali, escolhem não ficar violentados por esse trauma.

SPEAKER_00

Claro. Mas o que é fascinante é um detalhe, não vou ser rigorosa a descrever o episódio, mas a avó, a mãe, lavava a roupa toda à mão da avó, etc., portanto, empenhava-se em cuidar dessa mulher, e a Petty Smith relata um episódio em particular, ao fim do dia, a avó entrega umas geluseimas aos rapazes, e quando elas as duas estendem a mão para receber a geluseima, ela fecha o frasco. E portanto, isto é tão forte, porque ela conta que depois a mãe nessa noite compensou, deu-lhe uma moeda, no fundo, para aliviar o sofrimento da miúda da criança que tinha presenciado aquilo, e pelo menos a mãe adulta tinha conseguido ter algumas ferramentas para lidar com a situação, se calhar pelo menos é isso que nós passamos aos filhos. Mas como é que um episódio destes fica tão gravado com tanta nitidez em nós? Sim, que é nas grandes coisas, pronto.

SPEAKER_01

Sim, no caso da Pathy Smith, cuja vida depois se desenhou de forma tão extraordinária, mesmo com aquela dificuldade toda, o início da sub em Nova Iorque e por fora, mas uma beleza tremenda na escolha pela beleza, na escolha de ok, essas coisas constroem-nos, mas não são a nossa definição. Depois a grande dúvida é vivemos a partir da história, vivemos a partir da imaginação. E eu acho que viver a partir da imaginação, no meu caso, é sempre mais salutar, porque eu acredito que casas nas estrelas.

SPEAKER_00

Bonito, bonito Maria, bonito términos desta conversa, deste encontro de hoje, contigo longe. O som, pedimos as nossas desculpas, o som não é o melhor, mas nós estamos aqui de, eu ia dizer de corpo e alma, pelo menos de almas estamos.

SPEAKER_01

De almas estamos, devo dizer que também a culpa é das estrelas, Maria. Ou sempre da estrelas. É sempre das estrelas. Amanhã voltamos numa versão diferente. Dança com as estrelas. É que no Diário de Marias. Até amanhã. Tchau, tchau, tchau!