Diário de Marias

Frangamente Bom

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

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Marias conversam sobre um ataque homofóbico em Lisboa. Onde nasce a homofobia? Será o medo de gostar do outro? 

SPEAKER_01

Diário de Marias de segunda a sexta na futura. Olá Maria.

SPEAKER_00

Olá Maria, quinta-feira, um dia frangamente bom. Enquadramos? Enquadramos, sim.

SPEAKER_01

Eu vinha numa viagem sufocante de Flixbus.

SPEAKER_00

Tu és tão próxima, és tão acessível, iré. Sou, sou.

SPEAKER_01

Num autocarro cheio de gente que provavelmente iria ver Linkin Park nesse dia. Mas isso é um detalhe. Mas o que é a vida sem detalhes, Maria? E de repente passou um veículo de grande porte que transportava carne branca. Aves. Aves. Aves. E o. Como é que se diz? O slogan?

SPEAKER_00

O slogan, sim, o man.

SPEAKER_01

É frangamente bom.

SPEAKER_00

O que é genial? É genial. Parabéns. Parabéns a essa marca que até podia pagar Diário de Marias, se quiser macidar.

SPEAKER_01

Se chama Luzi Aves.

SPEAKER_00

Luz e Aves. É frangamente bom.

SPEAKER_01

Somos aves raras, isso é frangamente bom.

SPEAKER_00

Isso eu acho que rivaliza com um dos centros funerários mais reconhecidos do país, um sítio onde podemos cremar com alguma alegria, talvez. Calma, estou a fazer estas piadas, mas respeito muito a questão fúnebre. Chama-se Fan Foge, que é um centro de crematório na figueira da Foge. Portanto, Fan Foge onde desagoa o cinzalhómetro, não é? Sim, as cinzas, as pessoas são enviadas com um sorriso na cara.

SPEAKER_01

É fã. É e é Foge.

SPEAKER_00

É um pão. Sairemos destas areias mortiças, não querendo antes das 11 da manhã criar problemas a quem houve a Rádio Futura. Muito bom dia. Ontem trouxe para cima da mesa um tema que fiquei que me entristeceu bastante e que partilhaste comigo em boa hora. Em boa hora, em hora buena, porque houve um rapaz que se chama André Cabrita que fez um vídeo explicando que tinha sido vítima de uma agressão na Avenida de Roma. Portanto, à frente, o Frutal Maders saiu do carro e foi ao multibanco e é atacado por dois homens que começam a insultá-lo, ele não percebe que é com ele automaticamente. Uma pessoa queer, também como uma mulher no espaço público, muitas vezes pensa, eu não vou sequer dar qualquer reação porque isto pode ser incitar a que continuem. Ele não não participa, como a ignora. Até que pergunta-me estou a falar comigo. E depois atacam-no e tiram-no ao chão e dou-nos pontapés no abdomen. Isto na Avenida de Roma. Penso durante o dia.

SPEAKER_01

Pois não sabemos a que horas é que isto aconteceu.

SPEAKER_00

Se foi às vezes.

SPEAKER_01

A minha dúvida é que o Frutalmeidas e a Avenida de Roma são dois pontos que estão sempre apinhados, não é?

SPEAKER_00

Mesmo que tenha sido à noite, é uma zona tão. Tem tanta gente, acho que 10 da noite na Avenida de Roma tem pessoas. Centro de Lisboa, a ideia de que a corpo queer pode ser violentado. São two homens que entretanto as imagens andam pelas redes sociais, mas a polícia acho que foi impecável, segundo aquilo que o André relata. Embora tenha demorado muito tempo a chegar, ele contou que a polícia foi a because não tinha carros disponíveis. E a violência em qualquer sentido. Gratuito.

SPEAKER_01

O ódio gratuito é sempre gratuito, embora ele possa ser muito elaborado, consequentemente não faz sentido.

SPEAKER_00

Foi porque lhes abeteceu e porque era uma pessoa queer, gay, que estava ali naquele momento. Podia ter sido outra pessoa qualquer, podia ter sido um imigrante, podia ter sido uma mulher, podia ter sido. E a ideia de não haver consequência, e a ideia disso não ter uma reação automática, não sei onde é que estavam os heróis para ajudar o André neste momento, se calhar não estava ninguém, mas eu lembro muitas vezes de atravessar a cidade e isto estas coisas passam pela cabeça, sempre me passaram pela cabeça. Por isso, quando às vezes ouvi às minhas amigas a dizer que tinham medo de ir para casa a determinada hora, para mim isso não era assim, era mais distante, ou seja, não tenho a expectativa que me façam mal, mas não é assim tão distante, porque de facto estes acontecimentos, istas coisas acontecem. O facto de ter acontecido no centro de Lisboa, não muito longe de sítios que nós frequentamos diariamente, é para mim a prova que as coisas estão cada vez a escalar mais.

SPEAKER_01

Gostava de ter mais detalhes sobre o caso, não é? Tu partilhaste comigo, ouvi o vídeo e fiquei muito chocada por esse lado gratuito, ficaria sempre chocada com uma agressão, não é? Mas quem são estas pessoas, não é? Em que é que a presença do outro os incomoda? E como é que se sentem tão fortalecidos para atacar?

SPEAKER_00

Mas este é o país onde o neonazisimo atacar a casa do Primeiro Ministro, não é? Portanto, aqui um contexto, um barril de póvra que toda a gente tinha alertado que ia começar a ficar cada vez mais cheio, não é? Que falta acender e isso tem vindo a acontecer. E nós escolhemos sempre, muitas vezes, eu e tu, se calhar não falar tanto destas coisas porque achamos que pode estimular, fala por mim, pontualmente vou estes temas, mas não vou assim tanto porque sinto que também é quase como estar a dar palco ao ódio e não queremos isso. O que eu achei curioso na reação do André foi o André que eu não conhecia, nunca tinha ouvido, aparentemente acho que tinha falado com ele no Instagram, mas nunca tinha visto, não sabia bem quem era. O André não incita a violência. Uma das coisas que diz no seu vídeo é, por favor, não façam o mesmo, agora apanhando os homens e estraçalhando os que ele pede até para os homens mais velhos.

SPEAKER_01

Ele pede para se alguém conseguir identificar estes homens para o informar, mas por favor.

SPEAKER_00

Sim, reportar.

SPEAKER_01

Reportar, mas para não haver qualquer tipo de ajuste de contas, é isso?

SPEAKER_00

E é estranhíssimo como é que estranhíssimo, não é? É prova com homofobia. Sempre li umas declarações de um escritor espanhol uns dias em que dizia o primeiro insulto homofóbico que recebes, no fundo nunca sai da tua vida, porque todos os sistemas que existem ainda têm homofobia. E a homofobia aparece assim nestas coisas. É um comentário que está fora, é alguém que está no teu trabalho e que leva as coisas longe demais, uma brincadeira longe demais e não sabe parar, é uma piada que ninguém corrige, e nós achamos todos que somos todos muito sofisticados e se calhar quem houve a futura acha isto dantesco, jamais o faria, mas o mundo não é apenas aquilo que acontece dentro das nossas casas, ou com as pessoas que são como nós. E eu sinto um recrudecimento dessa virulência, desses dentes afiados. Sim, acontecia nos países todos, a Inglaterra está igual, a Espanha também teve esses momentos. É muito estranho, é muito triste. And imagino tu que viste mais detrás as mudanças em Lisboa ainda seja mais dos anos 90, não tenho certeza que não era um cuidado.

SPEAKER_01

Quando vi este vídeo pareceu uma coisa antiga, muito antiga, até porque os senhores têm um ar antigo também. Se tivesse que explicar a uma criança o que é a homofobia, como é que explicavas?

SPEAKER_00

É o medo da alegria do outro.

SPEAKER_01

Eu ia dizer é um medo de gostar do outro.

SPEAKER_00

É o medo de gostar do outro. É um medo. Porque isso depois a homofobia é filha da misoginia, filha do machismo. E são todas estas coisas que nós não interpelámos devidamente, não é? Portugal é um dos países europeus onde mais morrem mulheres vítimas de violência doméstica todos os anos. Porque temos sempre os mesmos dois problemas, incêndios e violência doméstica. Sempre os mesmos.

SPEAKER_01

E estamos agora com esta dúvida de tentar perceber se de facto temos mais casos ou se temos mais denúncias, não é? Porque todas as semanas temos de facto um caso.

SPEAKER_00

Mulheres que morrem, crianças que são mortas também, ou retiradas aos pais. É muito estranho porque acho que no fundo nós não estamos a interpelar as raízes dos problemas e portanto nós fazemos.

SPEAKER_01

Mais uma vez, voltamos à questão, estamos soterrados, estamos a receber demasiada informação e não paramos para pensar no essencial. Porquê é que isto acontece?

SPEAKER_00

Acontece porque nós nunca não fizemos a são tantas as razões, não descolonizaste a cabeça, não fizeste muitos homens estes fenómenos de red pill e a manosfera e de repente miúdos que têm 17 anos, 16 anos são mais retrógradas do que os pais. Como é que isto é possível? Como é que de repente as mulheres têm que estar na cozinha? Todas as thread wives que estão no Instagram. Agora de repente vamos fazer manteiga from scratch e não tem mal nenhum a ver estilos de vida alternativos, não estou a dizer que as pessoas não podem fazer a sua manteiga, mas qualquer coisa de são pessoas que não têm a memória. É a mesma coisa que pedir pá, o que isto precisa mesmo é três salazares. É falta de memória e a memória fica em risco se ninguém falar dela. E portanto, de repente estas coisas podem acontecer mais. uma grande comoção à volta desta história do André e fico muito contente porque significa que as pessoas estão atentas e voltamos à mesma conversa, que é os direitos nunca estão garantidos, como aconteceu agora com o pacote laboral, que felizmente não foi aprovado, mas estas coisas estão sempre em cima da mesa.

SPEAKER_01

Não vamos fazer nenhuma piada com o pacote porque isto não é uma revista.

SPEAKER_00

Agora chamaste a atenção, não consigo não ver.

SPEAKER_01

Bom, voltamos amanhã.

SPEAKER_00

Sim, sim.

SPEAKER_01

Amanhã, sexta-feira, hoje o tema foi um pouco mais sério. Eu me ri o suficiente também esta semana e.

SPEAKER_00

Iremos com força para sexta-feira. Está a acabar junho. Houve o suscício de inverno, nem eu nem tu dançámos ao da Lua. Não sabes, não te contesto. Dançaste em mim dele.

SPEAKER_01

O que é que achas que eu venho tão sorridente?

SPEAKER_00

Eu vi imagens de Stonehands e precisas-me tu.

SPEAKER_01

Até amanhã.

SPEAKER_00

Tchau, Laura.