Diário de Marias

Flores frescas

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

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Marias arrancam a semana mergulhando no universo da escritora argentina Camila Sosa Villada. "A Viagem Inútil" é o mote para uma conversa sobre sofrimento, beleza e a afirmação de todas as identidades.

SPEAKER_00

Diário de Marias de segunda a sexta na futura a todos aqueles que ouvem em Rádio Futura e noutras latitudes, por exemplo, Catar Catar é um dos novos países que ouvo eu ia dizer debaixo da língua de Maria, outros programas, outros tempos, outras vidas vamos falar de regressão. Hoje não, hoje nós vamos falar de regressão. Eu estava a reparar, para quem nunca viu a imagem da sala de Inês Maria Menezes, muita vida pulsante, muitas cores. Tu aprovas flores secas ou não aprovas secas?

SPEAKER_01

Evito, mas ofereceram-me sim, ofereceram-me essas flores. Uma admiradora? Uma admiradora. E continuam, mas prefiro sempre a frescura, o sangue novo, na galra também, não é? Pulsante, sim. Mas vão ficar algum tempo.

SPEAKER_00

um dia para comprar flores, na tua opinião?

SPEAKER_01

Não, mas um amigo veio entregar-me flores esta segunda-feira. Que amigo?

SPEAKER_00

Que estão na cozinha às flores. Ah, aquelas que eu vi. Sim. É engraçado quando não dizes o nome do amigo. Eu não tenho ciúmes, Inês. Está tudo bem. Eu sério.

SPEAKER_01

Eu gosto de manter o meu mistério.

SPEAKER_00

Toda a Maria tem o seu mistério. Ah, eu não sabia que este era o teu nome completo, nunca eu tinha lido, está aqui atrás.

SPEAKER_01

Eu tomei notas na folha inicial de um contrato.

SPEAKER_00

É o contrato para seres cara da Lancomo Mundial, não é?

SPEAKER_01

Claro.

SPEAKER_00

Claro. o meu nome, por favor. Inês Maria Araújo de Menezes. Exato, confirmo.

SPEAKER_01

Ora bem, o que é que nos traz aqui hoje?

SPEAKER_00

O que é que nos traz aqui hoje, para além das flores? Primeiro e segunda-feira, o meu dia preferido da semana, continua a ser assim, contundente, mas tu tens nas tuas mãos o olhar sobre viagem inútil, é como se chama?

SPEAKER_01

É a viagem inútil da Argentina Camila Sosa Vilada, anda meio o mundo doido com esta mulher e com razão, com esta escritora, atriz, toda a gente saberá nesta altura que ela também foi profissional de sexo. As pessoas começaram por ler As Malditas, o seu romance. Eu comecei por ler A Viagem Inútil e depois seguirei para as malditas.

SPEAKER_00

Ela nasceu em Las Faldas.

SPEAKER_01

Cada um usa a sua, não é? É muito curioso porque a Camila, mulher trans, fala sempre em travesti, em ser travesti, e usa até o termo travesti para, em termos gerais, travestir a vida, é muito curioso como ela se apropria de uma coisa que poderia ser estigmatizante, não é? E faz disso a cena dela.

SPEAKER_00

Sim, é um pouco como a lógica brasileira. O Brasil nisso é muito mais aberto, inteligente, maleável, como o país também é feito de todas essas identidades em simultâneo, de todas essas origens. Esse reclamar da palavra, usar a palavra bicha sem ser um insulto, por exemplo, um livro muito interessante Ética Bicha do Brasil. Em Portugal estamos a caminho daí, mas não temos a mesma leitura. Mas no contexto anglo-saxónico isso também acontece, que é tues buscar uma palavra que era um insulto, queer era uma insulto, ser queer era um problema, sobretudo na época vitoriana e depois mais tarde. E hoje em dia não, não é? Portanto, ser queer é ser estranho, esquisito, diferente, e portanto traveste e no Brasil tem outra leitura, em Portugal Estamos a falar da Argentina, mas por exemplo.

SPEAKER_01

Este livro fala da importância da escrita, da viagem útil que é a escrita, e este ela refere-se muitas vezes, obviamente, ao rapaz, ao rapaz que foi, não é? Ao miúdo que foi uma vida muito complicada, e eu acho que ela terá matéria para descrever a vida toda depois de ter passado pelo que passou.

SPEAKER_00

Queria dizer uma coisa, que é uma das coisas que não é pacífica é essa leitura sobre se foi um rapaz ou se foi sempre a Camila. Mas ela refere é diferente de pessoa para pessoa, ou seja, a sua relação com a identidade é sempre diferente. Eu entrevistei a Tita Maravilha, ela disse que o meu corpo sempre foi o meu corpo, mas a Tita existia. Mas eu nunca fui um rapaz, por exemplo, a Tita Maravilha, que é uma artista multidisciplinar brasileira que está em Portugal e que por estes dias fez os três irmes, que é a sua remontagem das três irmãs do Tchekov, que esteve agora no São Luís, com que ela ganhou o Bolsonaro e Rico Lass, é uma extraordinária artista, e esses pontos em comum, mas é como no fundo as mulheres têm uma experiência de todas diferentes do que é ser mulher, os homens identicamente.

SPEAKER_01

Eu gosto bastante desta leitura despodurada que ela faz sobre a sua origem, sobre a sua vida, fala desse rapazinho, esse miúdo, e ela fala sempre no feminino, evidentemente, mas quando fala dela na infância, fala do rapaz que foi, desse rapazinho que vivia com a mãe, sem comida, sem luz, mas que foi salvo pelos livros, esse rapaz pequenino que vestia as saias da mãe e viver com esse estigma, a dificuldade que foi num sítio com 5 mil habitantes e depois o poder salvífico da escrita, porque a mãe ia buscar livros para lhe ler. Eu estou verdadeiramente apaixonada pela escrita da Camila.

SPEAKER_00

Porquê gostas da escrita dela?

SPEAKER_01

Olha, porque é muito engraçado quando estavas agora a dizer, quase que franziste o sobreolho perante esta coisa de, mas refere-se a ela no masculino, ela ao mesmo tempo, e a utilização do termo travesti para tudo é como se tivesse, como se fosse conservadora na leitura que faz sobre si própria, mas eu acho que ela está a ser verdadeira. Ela é muito verdadeira e crua com as palavras, mas ao mesmo tempo tem uma intensidade natural de quem passou por muita dor. É impossível tu escreveres tão bem sem ter passado. Eu sei que a ficção existe, mas quando tu passaste pelas coisas, a escrita é outra coisa.

SPEAKER_00

A realidade supera a ficção, não é?

SPEAKER_01

Completamente. Vou-te ler aqui uma passagem escolhida porque achei que isto poderia agradar.

SPEAKER_00

Clube do Livre Marias.

SPEAKER_01

A solidão não é privilégio dos poetas e dos escritores. Não se está mais sozinho sendo-se escritor do que se pode estar em qualquer ato de comunhão da nossa raça. Algumas coisas na minha vida começam a ser depois de serem escritas. Por exemplo, o amor. É incrível como o sistema é sempre o mesmo. Posso sentir uma certa confusão ou desassossego em relação a um vínculo, então escrevo. E o amor revela-se nas palavras e apercebo-me de que era essa magnitude, o estado de incerteza tão parecido com o amor. Um desejo diz-se mais facilmente do que se escreve. Escrever um desejo é um ato de confirmação. Eu acho que te vais apaixonar.

SPEAKER_00

Eu nunca li nada dela, Camila Souza Vilhada.

SPEAKER_01

Muito, muito bom. Ela é muito forte, é uma mulher sem dúvida muito forte. E pronto, é uma sugestão que eu deixo para os nossos ouvintes e um bocadinho de paranormal nesta ou deixamos isso para outras.

SPEAKER_00

vamos, podemos deixar isso para outras nubes. Eu estava a pensar porque acho que este tema é bastante. Rico está ainda por cima, muito mais presente do que alguma vez esteve, eu acho, naquilo que é o léxico. De quem houve a futura não direi, mas quem vai ouvir isto em podcast, eu ainda me lembro de entrevistar pessoas trans, por exemplo, entrevistar o poeta André Tecedeiro na rádio comercial e no dia seguinte receber mensagens de pessoas a dizer foi a primeira vez que ouvi uma pessoa trans. Ou também a primeira vez que ouvi um poeta. E esta ideia de que nós achamos que é uma coisa muito mais transversal e afinal de contas não é. Ou seja, pessoas que utilizam as palavras e que ocupam o espaço, ou seja, não ficam apenas circunscritos a determinadas margens existem no centro das coisas. Essa é a verdadeira revolução, se quiseres, que é ter pessoas de todos os tipos. É o dentista, a Tita Maravilha dizia isso numa entrevista que eu lhe fiz pouco tempo, que é não, o dentista ser trans, a pessoa que está a conduzir o autocarro ser trans, não é apenas os artistas. Esta ideia de que não é nada de novo. Estas pessoas sempre existiram. E disso tu faz as várias culturas, existem os two spirits, por exemplo, na lógica nativo-americana, na América do Norte. Portanto, esta coisa de que o sofrimento existe, mas depois também outro lado da história, que é nas histórias que são queer, que é também não temos que ir sempre pela tragédia. Podemos contar histórias luminosas, agora é fundamental ouvir as histórias de todos, claro.

SPEAKER_01

Todos nós devíamos ter um contabilista trans, um temos todas as pessoas. Pois, mas percebes, ou seja, é muito engraçado teres ido buscar esse exemplo da rádio comercial por não ser habitual dar palco a alguém trans, trans, poeta.

SPEAKER_00

Sim, não era, e depois umas confirmações. Sem dúvida, mas eu acho que isso aconteceu em 2021 e estávamos num lugar mais aberto que hoje. O que para mim é muito revelador.

SPEAKER_01

As pessoas assustaram-se com a abertura em demasia.

SPEAKER_00

Será isso?

SPEAKER_01

As pessoas têm medo de ultrapassar aquilo que definiram como o seu limite. E agora, até onde é que eu vou? E depois de passar o meu limite, quem é que eu sou?

SPEAKER_00

Sim, o medo, o medo, o que é que acontece se eu pensar para da minha rua, não é? Sim, neste caso in particular eu acho que estamos a falar de uma percentagem muito pequena da população que é trans and se viu no centro de uma serem vilipendiados, a serem maltratados, maltratados e a serem objeto de como aconteceu ao longo da história com outros grupos. Eles são mal, eles estão a tentar desfazer a sociedade como ela é.

SPEAKER_01

Nós escolhemos sempre grupos para poder perseguir, não é? Porque também estamos a exorcizar os nossos medos, acho eu.

SPEAKER_00

Se tivermos um inimigo comum é mais fácil, sobretudo, ser controlados.

SPEAKER_01

Maria, vamos ficar por aqui.

SPEAKER_00

Ficamos por aqui hoje. Amanhã tenho de falar sobre Baiana. Baiana é a minha pessoa preferida do momento e amanhã explico porquê. Até amanhã. Até amanhã.