Diário de Marias
Maria está no meio deles. Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses falam dos seus dias, que se fazem de concertos, exposições, filmes, pensamentos obscuros, desabafos e pequenos delitos entre amigos.
Diário de Marias é um encontro diário na rádio, dez minutos que pedem sempre por mais.
De segunda a sexta na Futura, 10.30, com extensão nas plataformas digitais.
Diário de Marias
Pobres dos ricos que tanto têm
Use Left/Right to seek, Home/End to jump to start or end. Hold shift to jump forward or backward.
Marias navegam por "Your Friends and Neighbors", série da Apple TV e meditam sobre a enxurrada de histórias sobre milionários, o luxo e o fosso entre ricos e pobres.
Diário de Marias de segunda a sexta na futura boa quarta-feira. Tenho pena que o Mike Leão já não esteja connosco hoje. Ele está sempre disponível nas redes sociais.
SPEAKER_00Foi um ônibus decorado, você já viu?
SPEAKER_02Olha, hoje gostava de falar de uma série Your Friends and Neighbours Apple TV. Não era estou a querer ser a cara da duas temporadas. Porquê é que isto é importante? Porque o protagonista é o John Hamm, que conseguiu sair de Mad Men, para quem está a ver. Protagonista de Mad Men, coitado para sempre, Don Draper, não é?
SPEAKER_00Mas eu por acaso acho que ele se conseguiu emancipar, nem de toda a gente consegue.
SPEAKER_02Ele conseguiu com esta série, desculpa. É aí que eu consigo. Mas bora, catorce o rabo! Eu acho que ele só conseguiu verdadeiramente com esta série. Esta série é importante porque ele é um protagonista de peso e ele ganhou mais peso, de facto. Ele está um homem bastante introncado.
SPEAKER_00Ele é bastante pesado a todos os níveis.
SPEAKER_02Já não faz aquela cara de quando prova o seu whisky, lembras-te?
SPEAKER_00Sim. Eu os revi há pouco tempo tudo e fiquei com imensa vontade de voltar a fumar.
SPEAKER_02Eles não faças isso. Não, mas eles usam sempre para fumar. Eles bebiam às 8 da manhã, logo o whisky, e faziam aquela cara. Minha filha por acaso imita bem a cara de Zone Draper. Que série é esta? Duas temporadas, vem uma terceira. Ricos, gente rica. Pobres, ricos que tanto têm. Gente rica que vive em Westmont Village. Cena habitual.
SPEAKER_00Westmont Village, é tipo um subúrbio rico no estado de Illinois.
SPEAKER_02O que é que temos aqui? O clube, os amigos, os IAT, os amigos que são infiéis com os vizinhos. O clássico foi apanhámos o vizinho com a vizinha do casal que mora a dois quarteirões, os carros, os relógios de coleção, o luxo sem fim, sem contar demasiado, mas vale a pena ver a série a personagem do John M a dada altura vai dar uma volta à sua vida e torna-se um bandido, um bandido, um criminoso, um cafageste. Um cafageste que comete pequenos delitos, pequenos grandes delitos, porque põe a mão na riqueza alheia.
SPEAKER_00Na caixa de rapé do outro.
SPEAKER_02Temos rapé todas as semanas.
SPEAKER_00Tem que haver rapé e não falamos riquecastrada.
SPEAKER_02É verdade. Quanto é que ela está? Em Menorca. São pessoas com muito dinheiro que não percebem sequer que um relógio de 40 mil dólares pode ter desaparecido. É muito engraçado que quando ele está a roubar estes objetos, o objeto aparece com o preço, coleção, edição limitada, aparece uma espécie de identificação do objeto. Portanto, logo aí a série destaca-se, faz diferença, ficas a saber quanto é que custa um Pateco Filipe, quanto é que custa, não sei, carros, não percebo nada, mas carros também não se roubam, roubam- coisas mais de meter no bolso. É mais uma série sobre ricos, um filão que parece já muito explorado, não é? À partida, porque nós só temos séries sobre ricos, ricos, brancos, bem sucedidos ou não, que fornicam uns com os outros. E é aqui que a pergunta surge, porque é que os pobres deixaram de ser interessantes na ficção? Porque não fazem sonhar, porque dos pobres já ninguém se ri, porque não é ok rirmos?
SPEAKER_00O fluxo está maior do que nunca, não é? Entre pobres e ricos. Eu acho que também há qualquer coisa que está aí. Eu estava-me só a lembrar que estavas a falar das coisas que ele rouba. Há um fenómeno das pessoas muito ricas nas mulheres que é pátio jewelry. Joelharia só para usar em casa no pátio ou no jardim. Portanto, tipos de esmeraldas, diamantes que elas utilizam de trazer por casa. De trazer por casa, exatamente. Anéis e que colar de trazer por casa, que é tanto dinheiro como essas perlas. É tanto dinheiro que há coisas que são pelo menos uso só em casa. Isto nem sequer é um showê, não sei o quê, ou show parro, blá blá blá. É, ou seja, a riqueza é tal que eles não dão por nada e também usam, há coisas que usam só este tipo de colares assim em casa e são coisas impagáveis, 40 mil euros, 50 mil euros, 30 mil euros, seja o que for. O ponto é, a tua pergunta eu acho que é muito válida e acho que tem a ver com esta questão da ficção. Há a ideia do sonho, não é? O que é que acontece nas novelas? Um pobre, um rico, ou uma pobre, ou uma rica. Ninguém quer ver o pequeno almoço do pobre. Ninguém quer ver, mas querem sonhar a aspiração que vão conseguir. Ainda existe esta ideia do conflito entre a família rica à família pobre, ou a família rica tem uma empresa, mas ela é que vai herdar empresa, mas não devi. É sempre a mesma história. Ou seja, os arquétipos são sempre os mesmos. Nesta questão agora de tantas histórias sobre ricos, uma coisa é o Succession, série, que eu amo. Que saudades que quem me dera que de repente fizessem mais e não vão fazer, que é a história, se não estou em erro, do Madoff, não é? Sim. Pronto. Quando eu vi o documentário sobre o Madoff, que também está na Netflix.
SPEAKER_02Também vi, falámos disto.
SPEAKER_00Falámos disto, acho que noutro estamos a tocar um de um no outro. Falámos disto, eu acho que não falámos daqui no programa.
SPEAKER_01O próprio documentário já é baseado no Succession.
SPEAKER_00Aliás, aquilo começa. Quando eles viam o episódio de Succession e o pai morre, spoiler, eles dizem, nós não temos nenhum plano de contingência para a morte do pai. E o que é que vamos fazer? Portanto, esta ideia de. Vas a Merdhoff. Sim, exatamente. Mas há aqui essa pergunta. Eu acho que os ricos, eu acho que há sempre uma fixação porque o fosse é cada vez maior. Também. Também. Fosse é cada vez maior. Nós continuamos a engolir as histórias em que saiu há poucos dias uma espécie de índice dos criadores de conteúdo mais eficazes em Portugal e são mil nomes. O primeiro e o segundo nome são pessoas que têm milhões e milhões de followers e cujas vidas são inatingíveis. Em Portugal. Estamos a falar, por exemplo, de Margarida Curceiro, que é uma miúda muito bonita, ok, inatingível. Tem uma vida de classe média alta, mas ela está num circuito que não é muito comum, não é? Porque ela é muito bonita, tem um namorado internacional, faz filmes em Espanha, a carreira dela descolou, tem 24 ou 23 anos.
SPEAKER_02É boa atriz, é.
SPEAKER_00Eu acho que ela está a evoluir bem, portanto poderia ser aquela coisa que não tem talento nenhum, não é o caso, mas a vida dela é olhamos e vemos as coisas que têm vestidas, mas nós continuamos a seguir, não rejeitamos isso, ou seja, nós continuamos sempre interessados na riqueza, no fausto, no luxo, embora eu acho que de alguma forma isso vai dar a volta. Eu acho que isso nos vai cansar, porque é tão difícil estar viva, é tão difícil pagar as contas que é eu não quero voltar a ver um Aston Martin, não preciso saber desta gente.
SPEAKER_02Já nem sequer, a dada altura, já nem nos vai interessar a hipótese do sonho, porque nós estamos exauridos, fatigados. Eu estou cansada desse sucesso.
SPEAKER_00E queremos ouvir as histórias das classes trabalhadoras e as histórias de todos os dias, mas depois também há o outro lado de um cinema que é um, por exemplo, um cinema muito duro, por exemplo, do Pedro Costa, que são cinemas muito difíceis de digerir, extraordinários, brilhantes, mas com imensa dor. Queremos estar sempre a ver dor? Pois a pergunta é essa: queremos estar expostos à pobreza, à miséria, ao horror, ao incesto, às coisas horríveis que acontecem.
SPEAKER_02Então, onde é que estão as histórias da classe média no correr da manhã?
SPEAKER_00Bom, estão cada vez mais desaparecidas porque a própria classe média está desaparecida. Portanto, o que vai acontecer é ricos e pobres, não é? Nós estamos muito mais perto de sermos miseráveis e estar a pedir na rua e não termos onde viver do que estamos pertos de ser um milionário. Eu acho que as pessoas se confundem.
SPEAKER_02Será que quando deixarmos de, porque isso se cansa, como acabei de dizer, deixarmos de achar essa riqueza toda obscena, os ricos vão continuar a querer ser ricos.
SPEAKER_00Como se ficasse mal. Eu acho que não há problema em haver riqueza. O problema é e as pessoas gerarem riqueza e quererem ter vidas confortáveis.
SPEAKER_02A distribuição da riqueza.
SPEAKER_00É a distribuição, é isso. É preciso ser bilionário?
SPEAKER_02Não é preciso. Não é preciso mesmo, não é?
SPEAKER_00Se traz-me àquilo que te dizia há pouco, que há pouco foram revelados pela primeira vez os impostos que o Rei de Inglaterra pagou. Já se sabia que o Príncipe William tinha pagado não sei quanto, mas Carlos de Terceiro de Inglaterra pagou 50 milhões em impostos. Ele paga o máximo, o teto máximo, sendo que não sabemos o objeto de tudo, não sabemos o que é que paga impostos ou não, do que ele imagino que isso esteja disponível para quem quiser ler. Ele pagou um preço por estar com Camila.
SPEAKER_02Era só para dizer Camila, porque começámos a semana a falar de outra Camila.
SPEAKER_00Sim, e eu que estou a rever The Crown que vou na quarta temporada.
SPEAKER_02Ainda vês todos os dias, confesso-me. Por causa das tiaras e das perrolas.
SPEAKER_00Sou atraído por essa história. Sou atraído por aquele mundo que é. Eu acho que é um. Eu acho que as pessoas que. Eu tinha uma amiga que sonhava em ser princesa. Gostava imenso. Gostava imenso. Ela teria jeito para ser princesa. Mas ela queria, ela saberia mover-se nesta lógica protocolar, mas o que eu acho que as pessoas se esquecem é quando vives nesse sistema, tu não tens uma vida que é tua. Ok que podes ser milionário e teres as tiaras para usar. Mas quer dizer, houve quantas pessoas ao longo da história foram infelizes no amor porque não puderam escolher o seu casamento, porque não se puderam divorciar, ou que não puderam casar com a pessoa, por exemplo, a Princesa Margarida não casou com o amor da sua vida, a irmã da Rainha Isabel II, ou o Príncipe Carlos não casou com a Camila, casou com a Diana, não é? E portanto houve aquele desastre todo. As vidas não são esse sonho todo. Agora, sim, tem um dinheiro absurdo, a monarquia faz sentido.
SPEAKER_02Não faz sentido a monarquia.
SPEAKER_00Eu acho que é a distribuição da riqueza. Faz sentido pelas tiaras, não vou mentir.
SPEAKER_02Se pudéssemos distribuir as pérolas por toda a gente.
SPEAKER_00Elon Musk, que vale 350 trilhões. Nunca ninguém custou. Se talvez o Gengue Scan ou umas figuras assim do passado comparativamente, mas ele poderia acabar com a fome no mundo e não o faz. E depois dirão, mas eu é a riqueza dele.
SPEAKER_02Não seria interessante haver um milionário que fizesse a diferença.
SPEAKER_00Mas há milionários que fazem a diferença, há pessoas que doam grande parte das suas fortunas, que quando morrem as deixam em fundações, ou mesmo doam tudo. Há vários casos desses. O que estavas a sugerir é que é interessante, que é quando é que vai ficar mal ser obscenamente rico.
SPEAKER_02Sim, eu acho que provavelmente.
SPEAKER_00Mas ser rico não é ter uma casa com piscina. Mas há pessoas que acham que sim.
SPEAKER_02Ser rico é ter muito património, não te lembras que tens de um pateco Filipe que custa 150 mil e que alguém levou por não por descuido, mas intencionalmente.
SPEAKER_00Sim, claro, claro. E não tem mal as pessoas a almejarem, quererem ter vidas mais confortáveis e poderem fazer cumprir sonhos, não é? Mas depois há esta coisa muito obscena e estas histórias que continuamos a consumir que acrescentam a ideia de que é impossível, inatingível e andamos a pagar as nossas prestações das casas e achar que. e a ver estas histórias de pessoas que têm mansões com heliporto.
SPEAKER_02Acho divertido. Eu acho que acabou de aterrar um lá em cima.
SPEAKER_00Eu por acaso ouvi.
SPEAKER_02Voltamos amanhã?
SPEAKER_00Eu tensiono voltar.
SPEAKER_02Um beijinho para Mike Leão, onde quer que esteja, no meio do sábado.
SPEAKER_00Ai, os meus bichinhos! Até amanhã.