Diário de Marias

Pobres dos ricos que tanto têm

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

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Marias navegam por "Your Friends and Neighbors", série da Apple TV e meditam sobre a enxurrada de histórias sobre milionários, o luxo e o fosso entre ricos e pobres.

SPEAKER_02

Diário de Marias de segunda a sexta na futura boa quarta-feira. Tenho pena que o Mike Leão não esteja connosco hoje. Ele está sempre disponível nas redes sociais.

SPEAKER_00

Foi um ônibus decorado, você viu?

SPEAKER_02

Olha, hoje gostava de falar de uma série Your Friends and Neighbours Apple TV. Não era estou a querer ser a cara da duas temporadas. Porquê é que isto é importante? Porque o protagonista é o John Hamm, que conseguiu sair de Mad Men, para quem está a ver. Protagonista de Mad Men, coitado para sempre, Don Draper, não é?

SPEAKER_00

Mas eu por acaso acho que ele se conseguiu emancipar, nem de toda a gente consegue.

SPEAKER_02

Ele conseguiu com esta série, desculpa. É que eu consigo. Mas bora, catorce o rabo! Eu acho que ele conseguiu verdadeiramente com esta série. Esta série é importante porque ele é um protagonista de peso e ele ganhou mais peso, de facto. Ele está um homem bastante introncado.

SPEAKER_00

Ele é bastante pesado a todos os níveis.

SPEAKER_02

não faz aquela cara de quando prova o seu whisky, lembras-te?

SPEAKER_00

Sim. Eu os revi pouco tempo tudo e fiquei com imensa vontade de voltar a fumar.

SPEAKER_02

Eles não faças isso. Não, mas eles usam sempre para fumar. Eles bebiam às 8 da manhã, logo o whisky, e faziam aquela cara. Minha filha por acaso imita bem a cara de Zone Draper. Que série é esta? Duas temporadas, vem uma terceira. Ricos, gente rica. Pobres, ricos que tanto têm. Gente rica que vive em Westmont Village. Cena habitual.

SPEAKER_00

Westmont Village, é tipo um subúrbio rico no estado de Illinois.

SPEAKER_02

O que é que temos aqui? O clube, os amigos, os IAT, os amigos que são infiéis com os vizinhos. O clássico foi apanhámos o vizinho com a vizinha do casal que mora a dois quarteirões, os carros, os relógios de coleção, o luxo sem fim, sem contar demasiado, mas vale a pena ver a série a personagem do John M a dada altura vai dar uma volta à sua vida e torna-se um bandido, um bandido, um criminoso, um cafageste. Um cafageste que comete pequenos delitos, pequenos grandes delitos, porque põe a mão na riqueza alheia.

SPEAKER_00

Na caixa de rapé do outro.

SPEAKER_02

Temos rapé todas as semanas.

SPEAKER_00

Tem que haver rapé e não falamos riquecastrada.

SPEAKER_02

É verdade. Quanto é que ela está? Em Menorca. São pessoas com muito dinheiro que não percebem sequer que um relógio de 40 mil dólares pode ter desaparecido. É muito engraçado que quando ele está a roubar estes objetos, o objeto aparece com o preço, coleção, edição limitada, aparece uma espécie de identificação do objeto. Portanto, logo a série destaca-se, faz diferença, ficas a saber quanto é que custa um Pateco Filipe, quanto é que custa, não sei, carros, não percebo nada, mas carros também não se roubam, roubam- coisas mais de meter no bolso. É mais uma série sobre ricos, um filão que parece muito explorado, não é? À partida, porque nós temos séries sobre ricos, ricos, brancos, bem sucedidos ou não, que fornicam uns com os outros. E é aqui que a pergunta surge, porque é que os pobres deixaram de ser interessantes na ficção? Porque não fazem sonhar, porque dos pobres ninguém se ri, porque não é ok rirmos?

SPEAKER_00

O fluxo está maior do que nunca, não é? Entre pobres e ricos. Eu acho que também qualquer coisa que está aí. Eu estava-me a lembrar que estavas a falar das coisas que ele rouba. um fenómeno das pessoas muito ricas nas mulheres que é pátio jewelry. Joelharia para usar em casa no pátio ou no jardim. Portanto, tipos de esmeraldas, diamantes que elas utilizam de trazer por casa. De trazer por casa, exatamente. Anéis e que colar de trazer por casa, que é tanto dinheiro como essas perlas. É tanto dinheiro que coisas que são pelo menos uso em casa. Isto nem sequer é um showê, não sei o quê, ou show parro, blá blá blá. É, ou seja, a riqueza é tal que eles não dão por nada e também usam, coisas que usam este tipo de colares assim em casa e são coisas impagáveis, 40 mil euros, 50 mil euros, 30 mil euros, seja o que for. O ponto é, a tua pergunta eu acho que é muito válida e acho que tem a ver com esta questão da ficção. a ideia do sonho, não é? O que é que acontece nas novelas? Um pobre, um rico, ou uma pobre, ou uma rica. Ninguém quer ver o pequeno almoço do pobre. Ninguém quer ver, mas querem sonhar a aspiração que vão conseguir. Ainda existe esta ideia do conflito entre a família rica à família pobre, ou a família rica tem uma empresa, mas ela é que vai herdar empresa, mas não devi. É sempre a mesma história. Ou seja, os arquétipos são sempre os mesmos. Nesta questão agora de tantas histórias sobre ricos, uma coisa é o Succession, série, que eu amo. Que saudades que quem me dera que de repente fizessem mais e não vão fazer, que é a história, se não estou em erro, do Madoff, não é? Sim. Pronto. Quando eu vi o documentário sobre o Madoff, que também está na Netflix.

SPEAKER_02

Também vi, falámos disto.

SPEAKER_00

Falámos disto, acho que noutro estamos a tocar um de um no outro. Falámos disto, eu acho que não falámos daqui no programa.

SPEAKER_01

O próprio documentário é baseado no Succession.

SPEAKER_00

Aliás, aquilo começa. Quando eles viam o episódio de Succession e o pai morre, spoiler, eles dizem, nós não temos nenhum plano de contingência para a morte do pai. E o que é que vamos fazer? Portanto, esta ideia de. Vas a Merdhoff. Sim, exatamente. Mas aqui essa pergunta. Eu acho que os ricos, eu acho que sempre uma fixação porque o fosse é cada vez maior. Também. Também. Fosse é cada vez maior. Nós continuamos a engolir as histórias em que saiu poucos dias uma espécie de índice dos criadores de conteúdo mais eficazes em Portugal e são mil nomes. O primeiro e o segundo nome são pessoas que têm milhões e milhões de followers e cujas vidas são inatingíveis. Em Portugal. Estamos a falar, por exemplo, de Margarida Curceiro, que é uma miúda muito bonita, ok, inatingível. Tem uma vida de classe média alta, mas ela está num circuito que não é muito comum, não é? Porque ela é muito bonita, tem um namorado internacional, faz filmes em Espanha, a carreira dela descolou, tem 24 ou 23 anos.

SPEAKER_02

É boa atriz, é.

SPEAKER_00

Eu acho que ela está a evoluir bem, portanto poderia ser aquela coisa que não tem talento nenhum, não é o caso, mas a vida dela é olhamos e vemos as coisas que têm vestidas, mas nós continuamos a seguir, não rejeitamos isso, ou seja, nós continuamos sempre interessados na riqueza, no fausto, no luxo, embora eu acho que de alguma forma isso vai dar a volta. Eu acho que isso nos vai cansar, porque é tão difícil estar viva, é tão difícil pagar as contas que é eu não quero voltar a ver um Aston Martin, não preciso saber desta gente.

SPEAKER_02

nem sequer, a dada altura, nem nos vai interessar a hipótese do sonho, porque nós estamos exauridos, fatigados. Eu estou cansada desse sucesso.

SPEAKER_00

E queremos ouvir as histórias das classes trabalhadoras e as histórias de todos os dias, mas depois também o outro lado de um cinema que é um, por exemplo, um cinema muito duro, por exemplo, do Pedro Costa, que são cinemas muito difíceis de digerir, extraordinários, brilhantes, mas com imensa dor. Queremos estar sempre a ver dor? Pois a pergunta é essa: queremos estar expostos à pobreza, à miséria, ao horror, ao incesto, às coisas horríveis que acontecem.

SPEAKER_02

Então, onde é que estão as histórias da classe média no correr da manhã?

SPEAKER_00

Bom, estão cada vez mais desaparecidas porque a própria classe média está desaparecida. Portanto, o que vai acontecer é ricos e pobres, não é? Nós estamos muito mais perto de sermos miseráveis e estar a pedir na rua e não termos onde viver do que estamos pertos de ser um milionário. Eu acho que as pessoas se confundem.

SPEAKER_02

Será que quando deixarmos de, porque isso se cansa, como acabei de dizer, deixarmos de achar essa riqueza toda obscena, os ricos vão continuar a querer ser ricos.

SPEAKER_00

Como se ficasse mal. Eu acho que não problema em haver riqueza. O problema é e as pessoas gerarem riqueza e quererem ter vidas confortáveis.

SPEAKER_02

A distribuição da riqueza.

SPEAKER_00

É a distribuição, é isso. É preciso ser bilionário?

SPEAKER_02

Não é preciso. Não é preciso mesmo, não é?

SPEAKER_00

Se traz-me àquilo que te dizia pouco, que pouco foram revelados pela primeira vez os impostos que o Rei de Inglaterra pagou. se sabia que o Príncipe William tinha pagado não sei quanto, mas Carlos de Terceiro de Inglaterra pagou 50 milhões em impostos. Ele paga o máximo, o teto máximo, sendo que não sabemos o objeto de tudo, não sabemos o que é que paga impostos ou não, do que ele imagino que isso esteja disponível para quem quiser ler. Ele pagou um preço por estar com Camila.

SPEAKER_02

Era para dizer Camila, porque começámos a semana a falar de outra Camila.

SPEAKER_00

Sim, e eu que estou a rever The Crown que vou na quarta temporada.

SPEAKER_02

Ainda vês todos os dias, confesso-me. Por causa das tiaras e das perrolas.

SPEAKER_00

Sou atraído por essa história. Sou atraído por aquele mundo que é. Eu acho que é um. Eu acho que as pessoas que. Eu tinha uma amiga que sonhava em ser princesa. Gostava imenso. Gostava imenso. Ela teria jeito para ser princesa. Mas ela queria, ela saberia mover-se nesta lógica protocolar, mas o que eu acho que as pessoas se esquecem é quando vives nesse sistema, tu não tens uma vida que é tua. Ok que podes ser milionário e teres as tiaras para usar. Mas quer dizer, houve quantas pessoas ao longo da história foram infelizes no amor porque não puderam escolher o seu casamento, porque não se puderam divorciar, ou que não puderam casar com a pessoa, por exemplo, a Princesa Margarida não casou com o amor da sua vida, a irmã da Rainha Isabel II, ou o Príncipe Carlos não casou com a Camila, casou com a Diana, não é? E portanto houve aquele desastre todo. As vidas não são esse sonho todo. Agora, sim, tem um dinheiro absurdo, a monarquia faz sentido.

SPEAKER_02

Não faz sentido a monarquia.

SPEAKER_00

Eu acho que é a distribuição da riqueza. Faz sentido pelas tiaras, não vou mentir.

SPEAKER_02

Se pudéssemos distribuir as pérolas por toda a gente.

SPEAKER_00

Elon Musk, que vale 350 trilhões. Nunca ninguém custou. Se talvez o Gengue Scan ou umas figuras assim do passado comparativamente, mas ele poderia acabar com a fome no mundo e não o faz. E depois dirão, mas eu é a riqueza dele.

SPEAKER_02

Não seria interessante haver um milionário que fizesse a diferença.

SPEAKER_00

Mas milionários que fazem a diferença, pessoas que doam grande parte das suas fortunas, que quando morrem as deixam em fundações, ou mesmo doam tudo. vários casos desses. O que estavas a sugerir é que é interessante, que é quando é que vai ficar mal ser obscenamente rico.

SPEAKER_02

Sim, eu acho que provavelmente.

SPEAKER_00

Mas ser rico não é ter uma casa com piscina. Mas pessoas que acham que sim.

SPEAKER_02

Ser rico é ter muito património, não te lembras que tens de um pateco Filipe que custa 150 mil e que alguém levou por não por descuido, mas intencionalmente.

SPEAKER_00

Sim, claro, claro. E não tem mal as pessoas a almejarem, quererem ter vidas mais confortáveis e poderem fazer cumprir sonhos, não é? Mas depois esta coisa muito obscena e estas histórias que continuamos a consumir que acrescentam a ideia de que é impossível, inatingível e andamos a pagar as nossas prestações das casas e achar que. e a ver estas histórias de pessoas que têm mansões com heliporto.

SPEAKER_02

Acho divertido. Eu acho que acabou de aterrar um em cima.

SPEAKER_00

Eu por acaso ouvi.

SPEAKER_02

Voltamos amanhã?

SPEAKER_00

Eu tensiono voltar.

SPEAKER_02

Um beijinho para Mike Leão, onde quer que esteja, no meio do sábado.

SPEAKER_00

Ai, os meus bichinhos! Até amanhã.