Diário de Marias
Maria está no meio deles. Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses falam dos seus dias, que se fazem de concertos, exposições, filmes, pensamentos obscuros, desabafos e pequenos delitos entre amigos.
Diário de Marias é um encontro diário na rádio, dez minutos que pedem sempre por mais.
De segunda a sexta na Futura, 10.30, com extensão nas plataformas digitais.
Diário de Marias
Gata em telhado de zinco quente
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Amanhece o país a caminho de muitos graus de calor e Marias sugerem livros para o tempo dos Ananases. "Fruit Fly" do britânico Josh Silver com paragem na Tailândia e suas terapêuticas com peixes.
Diário de Marias de segunda a sexta na futura Maria para quinta-feira, já no verão, agora outra vez na canícula, hoje previsão de 38 graus para Lisboa.
SPEAKER_02Tu gostas disso a canícola, não é?
SPEAKER_00Canícula enche muito bem a boca. Pois é, canícula e tem.
SPEAKER_02Não é a mesma coisa que calígula, mas anda ali perto.
SPEAKER_00Lutamos a calígula, também noto que tens uma fixação. Hoje, dia 2 de julho, dia ótimo, primeiro para estar com os pés do molho. Não estou a dizer na que. Ah, aquela coisa dos peixes. Tu parias os teus pés dentro daquelas coisas tailandesas com peixes a comer a pele.
SPEAKER_02Não, nem pensar. Eu não me lembro se já fiz, eu acho que já fiz. Tu já deves ter tido peixes a comerem teus pés, mas de outra forma, não é?
SPEAKER_00Não, fui à Tailândia com Raquel Strada.
SPEAKER_02Consegui! Olá, Raquel Estrada!
SPEAKER_00Fomos à Tailândia!
unknownOlá!
SPEAKER_00Fomos à Tailândia os dois juntos. Já contei esta história que utilizámos, fingimos que íamos casar, que tínhamos casado para ter benesses, e lembro-me de estarmos em Bangkok, cidade que íamos gostarmos muito, e a Raquel tinha muitas vezes o que ia fazer o cabelo de manhã e eu ia passear.
SPEAKER_01Como é que ela dizia? Vou ali ao cabaleiro. Não aviso mal.
SPEAKER_00Não, não, está tudo bem.
SPEAKER_01Está bem, até já.
SPEAKER_00Duas horas depois, linda. E por cima Barbie tropical. Bom, isto para dizer que pus os pés e tenho esta ideia vaga, mas tu não podias.
SPEAKER_02Não. Eu já dormi com peixe, mas de signo.
SPEAKER_00Eu já namorei com peixe, mas era desses peixes que eu estava a falar. Bom, a canícula acontece, boa altura para andávamos a dizer, a gozar um bocadinho com a Inglaterra e com a França, que estavam com muito. Eu não andava a gozar porque aquilo foi muito difícil para eles, coitados.
SPEAKER_02Aquelas casas pequenas no centro de Paris com aqueles telhados de zinco.
SPEAKER_00Só imagino as pessoas a fritar. Viste um homem fritar ovos na sua varanda?
SPEAKER_02Não vi.
SPEAKER_00Eu vi assustador. E depois as pessoas a passar muito mal, eu estamos a brincar, mas sobretudo as casas inglesas estão desenhadas para manter o calor dentro de casa, portanto não arrefesso de facto. Eu, quando vivi lá, achava que eles eram exagerados, mas depois percebi que o calor é mesmo diferente. Muita gente a dormir ao ar livre, não é? Sim, é muito agressivo o que se viu. É uma boa altura para ler livros novos. Vou sugerir hoje Fruitfly, que é um livro de George Silver. George Silver, acho que estou a dizer bem o nome dele. Este livro é sobre um homem e uma mulher, uma mulher escritora que tem um bloqueio criativo e um homem gay trabalhador do sexo. Deixa-me confirmar que este é o nome dele. George Silver é o nome dele. Ele é bem giro. Estás a ver aqui? Eu acho giro. Pronto, Fruitfly é o que a tagline é Go gay, go sad, go dark.
SPEAKER_02Chama por ti.
SPEAKER_00Chama muito. Eu adorei o livro, é muito engraçado, mas não só é engraçado como está sempre a mudar o ponto de vista do narrador. Ora ela, ora ele. E portanto, cada capítulo é diferente porque tu estás sempre a ver o lado de cada um. Ela tem uma vida aparentemente perfeita, mas aquela coisa do a pessoa que põe os livros da Virginia Wolf na casa de banho, meios dobrados, para as pessoas acharem que ela esteve a ler, ela nunca liu o livro da Virginia Wolf. Escreveu um livro bom.
SPEAKER_02Voltamos sempre à mesma questão, que é tão fácil parecer interessante.
SPEAKER_00Tão fácil aparecer interessante. Ela é casada com o executivo de uma plataforma de streaming bem sucedido, o homem perfeito, depois ao longo do livro que ele desenrola e tu percebes com aquela relação tal longe de ser saudável.
SPEAKER_02À podridão!
SPEAKER_00Ah! E depois é a história dele, que é um rapaz que é adito a metafetaminas e outras coisas, e portanto faz sexo para e vende o seu corpo para poder continuar a consumir, e ela conhece-o e fica fascinada com ele, e então começa a fingir que é psicóloga e vai até, vai a uma reunião de AI quando sabe que ele vai só para ouvir as histórias dele, para socar as histórias, está o tempo todo a fingir, ou seja, ela também começa a viver uma vida paralela e ela inscreve-se no Grinder e tira fotografias ao marido enquanto ele dorme e publica as fotografias no Grindr, e depois é convidada para uma festa e aparece, e de repente percebe que aquilo aí não é nada da cena dela e que aquilo é perosíssimo. Uma festa dessas de CemSex, CemS é fazer sexo, é de resto um dos flagelos da comunidade gay atual, que é pessoas que estão a consumir durante 3 dias e não param. Sempre não querem que aquele dia há caro, não é? Portanto, consomem GHB, consomem várias drogas e depois aquilo continua uma espécie de maratona sexual. Muita gente vai trabalhar na segunda-feira, como se nada fosse, mas é uma adição dura.
SPEAKER_02E o livro é sobre estas adições e sobre até onde é que vamos por uma boa história, portanto, ela encontra ela encontra aí a forma de desbloquear a sua falta de criatividade e fica viciada na vertigem que é a vida dele e ele é a vida dele, ele está a sobreviver só queremos viver a vida do outro?
SPEAKER_00Lá está, essa é a pergunta. Portanto, Fruitfly é um livro que eu adorei ler, está em todo lado, eu acredito que um dia seja adaptado à televisão porque é muito visual e.
SPEAKER_02Mas não está ainda, provavelmente não está traduzida em Portugal.
SPEAKER_00Não acho que não está traduzida em português, mas é vendido, por exemplo, comprei naquela livraria muito simpática em Lisboa chamada Good Company, que fica ali perto da Caixas já depósitos, numa esquina, e que só tem livros em ingleses. Exatamente.
SPEAKER_02Boa companhia.
SPEAKER_00Portanto, é um bom, eu acho que é uma boa sugestão para quem para a canícula, embora tenha algum calor.
SPEAKER_02Tu passas bem com a canícula. Passo.
SPEAKER_00Eu normalmente tenho bastante calor, mas eu acho que ter 40 graus em Lisboa, por mais que seja impossível de digerir, nós no limite estamos habituados, não é nós sabemos o que é. Eu acho que é muito mais grave nestes países onde eles não estão habituados e de repente são surpreendidos por 45 graus. Mas eu acho que isto vai começar a acontecer cada vez mais.
SPEAKER_02Dormes vestido.
SPEAKER_00Inês. Desculpa, Maria. Sim, mas nestas alturas do ano talvez não.
SPEAKER_02Talvez não. Nem uma peça de roupa.
SPEAKER_00Por acaso trazes-me um tema importante para cima da mesa.
SPEAKER_02Saltou água para cima do equipamento, mas não é importante.
SPEAKER_00O equipamento está o teu equipamento hoje? Olha, o meu equipamento estava. O que eu não gosto é quando estou numa fase de quero impressionar a pessoa com quem estou a dormir, estou a conhecê-la melhor, e é inverno e esta pessoa dorme nua e eu acho então que também tenho de dormir nu. Não.
SPEAKER_02E vem aí outro amigo da Lite.
SPEAKER_00Ai, pois é.
SPEAKER_02Portanto, nesta altura dormes com o equipamento coberto, ainda assim.
SPEAKER_00Sim. Eu tenho muito frio à noite.
SPEAKER_02Até.
SPEAKER_00Acabou! Acabou?
SPEAKER_02Foi tão rápido.
SPEAKER_00Quando nos estamos a divertir, eu tenho boa.
SPEAKER_01Como é que estão os bichinhos no sertão? Não tem ido muito, não é? Estão esperando o ovni. Aquela luz que nunca se apaga.
SPEAKER_00É a luz que nunca se apaga. A light that never goes out.
SPEAKER_01Smith. Até manhã.