Diário de Marias

In Memoriam

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

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O asfalto ferve e Marias também. Última página do Diário da semana com reflexões sobre a idealização dos pais, a incapacidade de expressar amor, e os fossos entre gerações.

SPEAKER_01

Diário de Marias de segunda a sexta no futura. Olá Maria está a passar o avião das 10h32? Oi, ainda em Mike Leão.

SPEAKER_00

Mikey está na minha vida para sempre agora. Ele continua a fazer o que se chama no Brasil publiche, que são anúncios, ele não para. Eu acho ótimo. Tudo tem a ver com aliens, tudo tem a ver com OVNIs. Eu, se não seguem Mike Leão, M A Y Kleão, por favor, façam-no.

SPEAKER_01

Achas que poderá haver uma semana em que tu não falas de OVNI seres abduzidos, naves que vão aterrar? É este ano, não é?

SPEAKER_00

Supostamente era agora em julho.

SPEAKER_01

Mantens essa esperança, em julho.

SPEAKER_00

Era em julho, por isso é que nós estamos em julho, não é? E aquilo que me ficava na cabeça quando eu entusiasmei, entusiasmei-me com voo para a Ana, porque pensei, olha agora, imaginei o que seria de facto uma nave espacial aparecer no meio de um jogo do Mundial.

SPEAKER_01

O que é que nós faríamos à nossa vida?

SPEAKER_00

Como é que isso mudaria a nossa vida?

SPEAKER_01

Presos à televisão, isso é um.

SPEAKER_00

Sem dúvida, mas se calhar faríamos uma vida diferente do gente. Se temos de ser abduzidos a qualquer momento. Será que CMTV conseguiu um exclusivo? Com um Elien. De certeza que teve a haver um Eliane. Também gostei, e quero trazer esta nota: que as manhãs da CMTV são feitas por Luciana Abreu que publicou.

SPEAKER_01

Você contracionou com Lucy?

SPEAKER_00

Já, ela entrou no Filho da Mãe e foi um grande episódio em que eu e ela somos um casal. Bom, Luciana tem muitos talentos, no entanto, ainda tem que aprender uma coisa como apresentadora. Que foi, ela fez um post a dizer isto do terremoto, but the show must go on. E ao ouvi-o dela a cantar e divertida de manhã. E lamento imenso. Diria isto a Luciana Abreu se me cruzasse com ela. Isto o terremoto é um bocado triste. Mas let's go on! É.

SPEAKER_01

Pronto? O que eu ando a perder. Mas felizmente porque é que nós estamos a fazer este programa? Porque me trazes esse sabedoria.

SPEAKER_00

E tu traz-me também sabedoria. Sabedoria, o que é que a idade traz?

SPEAKER_01

Pois é, por falar em idade, o meu pai fez 90 anos.

SPEAKER_00

Muito parabéns.

SPEAKER_01

Muitos parabéns ao Sr. Menezes e dias, a propósito deste aniversário, porque passei um fim de semana a observá-lo. Nós escrevi uma crónica sobre isso, sobre as perguntas que nós nunca fazemos aos nossos pais e sobre os silêncios que nunca são digeridos andam partilhados. Os pais, eu dizia na crónica que os pais levam uma vantagem em relação aos filhos porque os pais viram neles o medo, o primeiro sorriso. And the pays. Claro que aqui um efeito protetor, os pais não querem que os filhos sigam determinadas. I devo dizer que a minha filha também serviu para refletir, se eu escrevo estas cronicas também aproveito para me resolver, but a minha filha sabe.

SPEAKER_00

É verdade. Ou ficas à espera do OVNI.

SPEAKER_01

Sabes que a minha filha sabe tudo sobre a minha vida. Ela podia fazer o top sobre a minha mãe. Aquilo que eu não posso partilhar com algumas pessoas a Maria Inês sabe. Ela também faz parte de Diário de Maria, porque é mais uma Maria.

SPEAKER_00

Mas isso foi uma escolha consciente tua de não. Ou seja.

SPEAKER_01

Sabes que eu sou muito obcecada sempre com a verdade, não é? Isto às vezes é quase doentio porque nós nunca sabemos a verdade toda em relação aos outros e nós próprios às vezes temos que contornar a verdade até para não sermos cruéis, até para não nos magoarmos a nós e aos outros, mas eu sou um bocadinho obsessiva com a verdade. Eu acho que inconscientemente partilhei desde sempre a minha vida toda com ela.

SPEAKER_00

Não querendo que houvesse entre vocês zonas mal explicadas.

SPEAKER_01

Mal explicadas, não fosse, não queria que ela me idealizasse, ou seja, se ela me idealizar ainda bem porque está a idealizar-me com a minha imperfeição, não é?

SPEAKER_00

Mas sim, não queria que ela tivesse Ou seja, a mãe és mãe dela, mas és uma pessoa. E um momento, eu acho que isso um momento, deves também ter vivido isso, como quem estava a vir, não é? Quando nós nos apercebemos que os nossos pais são pessoas e não são figuras. Sim, que isso aconteceu-me tarde, sabes? Aconteceu-me quase nos 20. Perceber que eles têm falhas, que eles escondem coisas que têm dores. Têm dores, eu dores sempre percebi que tinham e acho que era perspectiva ao ponto de perceber isso tudo, e como tive na minha história familiar doenças das minhas irmãs, e aquilo foi sempre muito revelador das nossas dinâmicas andas dores. Ter um filho doente é a família toda doente, sobretudo quando é a anorexia, que é à mesa, a doença é à mesa. Todos os dias és relembrada da doença, não é escapável. Um dia poderemos falar sobre isso, sobre como a anorexia é uma doença particularmente é uma espécie de flirt com a morte, porque é uma coisa básica da tua sobrevivência que tu consegues controlar o nível de capacidade de força para tu conseguires eu não vou comer, que é uma coisa básica a retração da partilha, aquilo que é a mesa significa partilha da conversa aos alimentos é a subtração dessa partilha. E não só, é a vida, é tu conseguires controlar-te e ao teu corpo de uma maneira que é para de eu não consigo imaginar sequer, mas ou melhor consigo porque vi e vi uma anorexia infantil e uma anora que sea quase adulta. E são dois momentos muito diferentes, mas isto para dizer que esses são acontecimentos bomba, dinamite, que revela, revelam, todos nós temos isso nas nossas vidas a morte de alguém, uma doença, uma traição, um divórcio, todas essas coisas são uns espelhos em que nós nos vemos, mas que do outro lado são as pessoas que nós idealizamos ou não. E o que tu dizias sobre o teu pai, eu acho muito curioso, porque é um homem de outra era, o meu pai viveu muitas vidas e muitas dores que tu se calhar nem imaginas, ou ele foi comunicando ao longo do tempo.

SPEAKER_01

Nesta fase final da vida apercebi-me de coisas muito graves pelas quais ele passou e que de certa forma o definem. E portanto, se eu tivesse sabido isto mais cedo, também eu tinha compreendido melhor. Percebes a importância de revelarmos aos nossos filhos aquilo porque passamos, quem somos, porque tu podes passar a vida toda numa teia de incompreensões várias, sem nunca chegar ao que foi a essência do teu pai ou da tua mãe, porque ele nunca se revelou para te poupar, para te poupar, para te proteger.

SPEAKER_00

coisas que eu soube sobre o meu histórico familiar um ano. Coisas dos meus avós, ou coisas que aconteceram, coisas que aconteceram antes até, e na minha lógica familiar esta coisa de estamos a falar do lado do meu pai, por exemplo, de pessoas que perderam uma vida inteira, desapareceu aquela vida que ele tinha em Angola e uma vida muito feliz, muito segura, mas ao mesmo tempo também muito privilegiada, porque eram brancos num contexto colonial português, portanto um dia também podemos falar sobre isso, mas para o meu pai a pátria dele é Angola. O meu pai de esquerda queria construir a Angola do Futuro, não a construiu, vive até hoje com essa mágoa. Mas isso ele nunca escondeu de nós. Eu sempre percebi que ele tinha essa tristeza. Minha mãe trae outras dores.

SPEAKER_01

Mas isso ainda assim é vago, percebo. É importante às vezes chegar ao dia em que doeu e onde é que doeu.

SPEAKER_00

Mas as pessoas que nasceram nos anos 50 não têm o mesmo vocabulário para poder relir. E o teu pai nasceu o quê? Não têm o mesmo vocabulário.

SPEAKER_01

30, 30?

SPEAKER_00

Sim, mas a minha avó que morreu com 93 nasceu em 1930 e morreu 5 anos, para mais ou menos a mesma década. Imagina, foi quase 100 anos.

SPEAKER_01

viste a impotência para verbalizar a dor. Tu podes ficar soterrado na tua dor. Isto é assustador, não é?

SPEAKER_00

Muitas ferramentas não estás instruído e depois podes ter imensa capacidade de amor, mas depois talvez não saiba exprimir. Isto nos homens é muito particular.

SPEAKER_01

E continua a acontecer, não é? Ninguém nos diz na escola que podemos partilhar as nossas dores, ou o que é que é ok dizer, ou chorar, e chorou em frente a toda a gente.

SPEAKER_00

pouco tempo tive assim um expor muito aqui, mas era alguém que tive um date com uma pessoa cuja cara parecia o Ans Day Adams, não tinha emoções. Eu na altura falámos sobre isto, e rimos com ele, dele, e ele dizia, coisas que eu não consigo exprimir. And não é um defeito, simplesmente depois quando falei mais com ele, me contou coisas da vida dele, percebi de onde é que ele vinha, and ele também, ou seja, ele faz essa reflexão. Se calhar 10 ou 15 anos essa pessoa não faria reflexão nenhuma. So assim, acho que neste momento as pessoas estão muito mais disponíveis, porque a terapia também passou a ser uma coisa também aspiracional. Toda a gente tem que ir à terapia. Terapia faz muito bem, mas não temos que passar 45 anos na terapia. A terapia deve servir para nos potenciar, melhorar, ajudar a curar, mas não é como ir ao ginásio.

SPEAKER_01

Sobretudo, eu gosto quando Deus se manifesta em cima, não é? A ira de Deus, the Deus do Antigo Testamento. um molde de uma certa apatia que se perpetua. pessoas que vivem nessa apatia andem que podem manifestar quente e frio, não é? Essa apatia é uma defesa, mas às vezes nem sequer é consciente.

SPEAKER_00

É como alguém que está a insultar alguém ou ofender alguém, mas nem se percebe que o que está a dizer é mau ou cruel. Nunca lhe foi dito que era.

SPEAKER_01

A crueldade inconsciente tem perdão? Ora, isto é um tópico interessante para a próxima semana.

SPEAKER_00

O que é que vai fazer a Madrid, Maria? Vou finalmente gravar aquela série de que falei, onde me scanaram a cara. São vários dias porque tenho provas de roupa, tenho provas, vão ter que me pintar o cabelo outra vez. Vou ter que ficar cruela de vilo outra vez. Fiquei um bocado triste porque não tenho 20 anos e o cabelo demora a recuperar.

SPEAKER_01

Fico à espera de fotografias suas.

SPEAKER_00

Entraremos, mas segunda-feira ainda estou e depois falaremos como sempre Diário de Marias, que não se esqueçam quem estava a ouvir agora de manhã. um compacto para os mais preguiços. Como eu gosto de compactos. Até amanhã.