Diário de Marias
Maria está no meio deles. Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses falam dos seus dias, que se fazem de concertos, exposições, filmes, pensamentos obscuros, desabafos e pequenos delitos entre amigos.
Diário de Marias é um encontro diário na rádio, dez minutos que pedem sempre por mais.
De segunda a sexta na Futura, 10.30, com extensão nas plataformas digitais.
Diário de Marias
Diário de Marias, a Sexta Semana
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Enquanto grande parte da Europa frita ovos na varanda, Marias mergulham nos universos literários da argentina Camila Sosa Villada e do britânico Josh Silver, tremem com a abdução alienígena falhada na Copa do Mundo, reflectem sobre a série "Your Friends and Neighbors", peroram sobre a idealização dos pais e visitam os bichinhos de Mayk Leão.
Vai querer um OVNI estrelado ou mexido?
Diário de Marias de segunda a sexta na futura a todos aqueles que ouvem em Rádio Futura e noutras latitudes, por exemplo, Catar é um dos novos países que ouvo eu ia dizer debaixo da língua de Maria outros programas, outros tempos.
SPEAKER_05Outras vidas vamos falar de regressão.
SPEAKER_02Hoje não, hoje não vamos falar de regressão. Eu estava a reparar, para quem nunca viu a imagem da sala de Inês Maria Menezes, há muita vida pulsante, muitas cores. Tu aprovas flores secas ou não aprovas flores secas?
SPEAKER_05Evito, mas ofereceram-me sim, ofereceram-me essas flores. Uma admiradora? Uma admiradora. E aí continuam, mas prefiro sempre a frescura, o sangue novo, na galra também, não é? Pulsante, sim. Mas vão ficar aí há algum tempo.
SPEAKER_02Há um dia para comprar flores, na tua opinião?
SPEAKER_05Não, mas um amigo veio entregar-me flores esta segunda-feira. Que amigo?
SPEAKER_02Que estão na cozinha às flores. Ah, aquelas que eu vi. Sim. É engraçado quando não dizes o nome de um amigo. Eu não tenho ciúmes, Inês. Está tudo bem. Eu sei.
SPEAKER_05Eu gosto de manter o meu mistério.
SPEAKER_02Toda a Maria tem o seu mistério. Eu sabia que este era o teu nome completo, nunca eu tinha lido, está aqui atrás.
SPEAKER_05Eu tomei notas na folha inicial de um contrato.
SPEAKER_02É o contrato para seres cara da Lancomo Mundial, não é?
SPEAKER_05Claro.
SPEAKER_02Lê o meu nome, por favor. Inês Maria Araújo de Menezes. Exato, confirme.
SPEAKER_05Ora bem, o que é que nos traz aqui hoje?
SPEAKER_02O que é que nos traz aqui hoje, para além das flores? Primeira e segunda-feira, o meu dia preferido da semana, continua a ser assim, contundente, mas tu tens nas tuas mãos o olhar sobre viagem inútil, é como se chama?
SPEAKER_05É a viagem inútil da Argentina Camila Sousa Vilada, anda meio mundo doido com esta mulher e com razão, com esta escritora, atriz, já toda a gente saberá nesta altura que ela também foi profissional de sexo. As pessoas começaram por ler as Malditas, o seu romance. Eu comecei por ler A Viagem Inútil e depois seguirei para as Malditas.
SPEAKER_02Ela nasceu em Las Faldas.
SPEAKER_05Cada um usa a sua, não é? É muito curioso porque a Camila, mulher trans, fala sempre em travesti, em ser travesti, e usa até o termo travesti para, em termos gerais, travestir a vida, é muito curioso como ela se apropria de uma coisa que poderia ser estigmatizante, não é? E faz disso a cena dela.
SPEAKER_02Sim, é um pouco como a lógica brasileira. O Brasil nisso é muito mais aberto, inteligente, maleável, como o país também é feito de todas essas identidades em simultâneo, de todas essas origens. Esse reclamar da palavra, usar a palavra bicha sem ser um insulto. Por exemplo, há um livro muito interessante chamado Ética Bicha do Brasil. Em Portugal, estamos a caminho daí, mas não temos a mesma leitura. Mas no contexto anglo-saxónico, isso também acontece, que é tues buscar uma palavra que era um insulto, queer era uma insulto. Ser queer era um problema, sobretudo na época vitoriana e depois mais tarde. E hoje em dia não, não é? Portanto, ser queer é ser estranho, esquisito, diferente, e portanto traveste, e no Brasil tem outra leitura. Em Portugal estamos a falar da Argentina, mas por exemplo. Na Argentina, sim, na América Latina.
SPEAKER_05Este livro fala da importância da escrita, da viagem que é a escrita, e ela refere-se muitas vezes, obviamente, ao rapaz, ao rapaz que foi, não é? Ó humilde que foi, uma vida muito complicada, e eu acho que ela terá matéria para descrever a vida toda depois de ter passado pelo que passou.
SPEAKER_02Queria só dizer uma coisa, que é uma das coisas que não é pacífica é essa leitura sobre se foi um rapaz ou se foi sempre a Camila. Ela refere, mas é diferente de pessoa para pessoa, ou seja, a sua relação com a identidade é sempre diferente. Eu entrevistei a Tita Maravilha e ela disse que o meu corpo sempre foi o meu corpo, mas a Tita já existia. Mas eu nunca fui um rapaz, por exemplo, a Tita Maravilha, que é uma artista multidisciplinar brasileira que está em Portugal e que por estes dias fez os três irmes, que é a sua remontagem das três irmãs do Tchekov, que esteve agora no São Luís, com que ela ganhou o Bolsonaro Ricolas, é uma extraordinária artista, e há esses pontos em comum, mas é como no fundo as mulheres têm uma experiência de todas diferentes do que é ser mulher, os homens identicamente.
SPEAKER_05Eu gosto bastante desta leitura despodurada que ela faz sobre a sua origem, sobre a sua vida, fala desse rapazinho, esse miúdo, e ela fala sempre no feminino, evidentemente, mas quando fala dela na infância, fala do rapaz que foi, desse rapazinho que vivia com a mãe, sem comida, sem luz, mas que foi salvo pelos livros, esse rapaz pequenino que vestia as saias da mãe e viver com esse estigma, a dificuldade que foi num sítio com 5 mil habitantes e depois o poder salvífico da escrita, porque a mãe ia buscar livros para lhe ler. Eu estou verdadeiramente apaixonada pela escrita da Camila.
SPEAKER_02Porquê gostas da escrita dela?
SPEAKER_05Olha, porque é muito engraçado quando estavas agora a dizer, quase que franzisto o sobreolho perante esta coisa de, mas refere-se a ela no masculino, ela ao mesmo tempo, e a utilização do termo travesti para tudo é como se tivesse, como se fosse conservadora na leitura que faz sobre si própria, mas eu acho que ela está só a ser verdadeira. Ela é muito verdadeira e crua com as palavras, mas ao mesmo tempo tem uma intensidade natural de quem passou por muita dor. É impossível tu escrever tão bem sem ter passado. Eu sei que a ficção existe, mas quando tu passaste pelas coisas, a escrita é outra coisa.
SPEAKER_02A realidade se supera à ficção, não é?
SPEAKER_05Completamente. Vou-te ler aqui uma passagem escolhida porque achei que isto poderia agradar-te.
SPEAKER_02Clube do Livre Marias.
SPEAKER_05A solidão não é privilégio dos poetas e dos escritores. Não se está mais sozinho sendo-se escritor do que se pode estar em qualquer ato de comunhão da nossa raça. Algumas coisas na minha vida começam a ser depois de serem escritas, por exemplo, o amor. É incrível como o sistema é sempre o mesmo. Posso sentir uma certa confusão ou desassossego em relação a um vínculo, então escrevo, e o amor revela-se nas palavras e apercebo-me de que era essa magnitude, o estado de incerteza tão parecido com o amor. Um desejo diz-se mais facilmente do que se escreve. Escrever um desejo é um ato de confirmação. Eu acho que te vais apaixonar.
SPEAKER_02Eu nunca li nada dela, Camila Souza Vilhada.
SPEAKER_05Muito, muito bom. Ela é muito forte, é uma mulher sem dúvida muito forte. E pronto, é uma sugestão que eu deixo para os nossos ouvintes e um bocadinho de paranormal nesta ou deixamos isso para outras.
SPEAKER_02Já podemos deixar isso para outras notas. Eu estava a pensar porque acho que isto é este tema é bastante. Rico está ainda por cima, muito mais presente do que alguma vez esteve, eu acho, naquilo que é o léxico. De quem houve o futuro eu não direi, mas quem vai ouvir isto em podcast, eu ainda me lembro de entrevistar pessoas trans, por exemplo, entrevistar o poeta André Tecedeiro na rádio comercial e no dia seguinte receber mensagens de pessoas a dizer foi a primeira vez que ouviu uma pessoa trans. Ou também a primeira vez que ouviu um poeta. E esta ideia de que nós achamos que é uma coisa muito mais transversal e afinal de contas não é. Ou seja, pessoas que utilizam as palavras e que ocupam o espaço, ou seja, não é, não ficam apenas circunscritos a determinadas margens existem no centro das coisas. Essa é a verdadeira revolução, se quiseres, que é ter pessoas de todos os tips. É o dentista, a Tita Maravilha dizia isso numa entrevista que eu lhe fiz há pouco tempo, que é não, o dentista ser trans, a pessoa que está a conduzir o autocarro ser trans, não é apenas os artistas. Esta ideia de que não é nada de novo. Estas pessoas sempre existiram. E disso tu faz as várias culturas e existem os two spirits, por exemplo, na lógica nativo-americana, no América do Norte. Portanto, há esta coisa de que o sofrimento existe, mas depois também há outro lado da história, que é nas histórias que são queer, que é também não temos que ir sempre pela tragédia. Podemos contar histórias luminosas, agora é fundamental ouvir as histórias de todos, claro.
SPEAKER_05Todos nós devíamos ter um contabilista trans, um temos todas as pessoas. Pois, mas percebes, ou seja, é muito engraçado ter ido buscar esse exemplo da rádio comercial por não ser habitual dar palco a alguém trans, trans, poeta, trans.
SPEAKER_02Sim, não era, e depois. Mas para na importância disso. Sem dúvida, mas eu acho que isso aconteceu em 2021 e estávamos num lugar mais aberto do que hoje. O que para mim é muito revelador.
SPEAKER_05As pessoas assustaram-se com a abertura em demasia.
SPEAKER_02Será isso?
SPEAKER_05As pessoas têm medo de ultrapassar aquilo que definiram como o seu limite. E agora, até onde é que eu vou? And depois de passar o meu limite, quem é que eu sou?
SPEAKER_02Sim, o medo, o medo, o que é que acontece se eu pensar para lá da minha rua, não é? Sim, neste caso in particular I estamos a falar de uma percentagem muito pequena da população que é trans and se viu no centro de uma. Objeto de como aconteceu ao longo da história com outros grupos. Eles são o mal, eles estão a tentar desfazer a sociedade como ela é.
SPEAKER_05Nós escolhemos sempre grupos para poder perseguir, não é? Porque aí também estamos a exorcizar os nossos medos, acho eu.
SPEAKER_02Se tivermos um inimigo comum é mais fácil, sobretudo, ser controlados.
SPEAKER_05Maria, vamos ficar por aqui.
SPEAKER_02Ficamos por aqui hoje. Amanhã tenho de falar sobre vô Baiana. Vô Baiana é a minha pessoa preferida do momento e amanhã explico porquê. Até amanhã. Até amanhã.
SPEAKER_01Diário de Maria. De segunda a sexta na futura.
SPEAKER_05Olá Maria.
SPEAKER_04Bom dia. Já encarnando. Já encarnou, já abençoou em mim, já canalizei. Quem é você? Sou Vobaiana.
SPEAKER_02Vô Baiana é a figura a seguir por estes dias. Para quem está dormindo debaixo de uma pedra e não sabe. Há pessoas que dormem debaixo de pedras porque faz bem à coluna.
SPEAKER_05Não, mas há pessoas que dormem debaixo de pedras porque dormem com pessoas que são calhados, não é?
SPEAKER_02Sim. Às vezes não podemos ser tão exercícios. Bom, voa baiana para quem esteve mais distraído ou distraída, aqui toda a gente é bem-vinda. Há uma vidente brasileira que lançou. Tem alguma coisa nas dentes?
SPEAKER_05Não, vi dentes.
SPEAKER_02Ah, achei que estavas a fazer o momento do cartão de crédito. Não, tipo, tens aqui um bocado espinal. Sim, sim, sim, sim, mas não. Chama-se assiste um callback ao episódio 22 debaixo do. Estás a ver, debaixo do Diário de Marias. Isso está debaixo da língua. Pois está, o que é que isto querá dizer?
SPEAKER_05Isso aconteceu esta semana.
SPEAKER_02Quer dizer que vou receber alguma notícia? Quando eu começo a confundir programas, é sempre sinal que vou receber que há uma conta para pagar. Esperemos que não. Bom, vovó Baiana lançou um vaticínio.
SPEAKER_05Vô Baiana, vidente brasileira.
SPEAKER_02Vivente Brasileira, já tiveste a oportunidade de olhar para a vô Baiana. Vou baiana não é uma avó baiana.
SPEAKER_05Não é.
SPEAKER_02Eu preferia que fosse. Cabeloiro, muito filtro na cara e aparentemente 24 milhões de seguidores no Instagram. Achamos comprado.
SPEAKER_05Acho que o Sara Barba neste método.
SPEAKER_02Achamos que isto foi comprado. No entanto, ela estava muito afetada com o sonho que estava tendo. Porquê? Shou que durante a partida da Copa entre Brasil e Escócia.
SPEAKER_05Estamos tão heteros a falar do Mundial, não é?
SPEAKER_02Ela, vaticina, prevê que a seleção brasileira será abduzida em pleno jogo. Uma nave gigante aparecerá e ela. Aliás, eu tenho aqui na minha mão a informação.
SPEAKER_05Maria está neste momento a consultar o seu celular, não é? Procurando esse vídeo que se tornou viral de Vó Baiana.
SPEAKER_00Eu vou falar com vocês que eu saí de novo. Os alienígenas invadindo o campo de futebol em Miami. E via jogadores nitidamente sendo carregados pela primeira nave que chegava. Eu estava dentro dessa nave. Quando essa nave se levantava, chegava a nave mãe, uma nave muito maior. Levava milhares de pessoas no campo de futebol. Eu via muito grito, muito choro, muita lágrima, sofrimento. Eu vou falar com vocês que.
SPEAKER_02Não interessa agora.
SPEAKER_05Seria o 28, estávamos a jogar.
SPEAKER_02Muitas lágrimas, nunca vemos cá desse. Atenção, carteirista. Atenção, atenção. Atenção em pickpocket. Esta profecia, este sonho que abalou a vôba Baiana foi algo que atravessou a semana de Vó Baiana. E então chegou o momento da verdade.
SPEAKER_05Eu era o momento da revelação, mas estive a ver o jogo. Eu! Não é verdade.
SPEAKER_02Estive a ver o meu telefone. Estive a ver o jogo entre Brasil e Escócia e quando chegámos ao intervalo, e atenção, não estava sozinho. Há vários amigos meus e amigas que também estavam a ver, porque estávamos em rede à espera que Neymar fosse jogado do chão.
SPEAKER_04Não aconteceu.
SPEAKER_02Neymar nem terra. Ninguém foi levado na nave espacial. A Escócia levou 3 gols, portanto, já não basta estar oprimida pelo Reino Unido e não se conseguir emancipar e ser parte da Europa. Também levou na boca do Brasil. Mais uns termos hetero. E Vô Baiana fica um pouco descalça, sendo que Vô Baiana tinha estado no Matur por vários programas de Daytime brasileiro dizendo isto vai acontecer, isto vai acontecer, isto vai acontecer. Sorte de Vô Baiana, que depois é confrontada numa naive com isto. Ela também havia previsto os terremotos que aconteceram em vários pontos do globo, incluindo na Venezuela, onde há tanta gente que morreu, e que está desaparecida. E então a coisa, mais ou menos, ela não estava totalmente em rei. Mas o que teve graça é que isto passou para vários países, tipo nos Estados Unidos, as pessoas a dizer isto vai acontecer e não aconteceu. Como é que tu depois fazes um direto? Qual é a tua cara?
SPEAKER_05A minha primeira pergunta, com alguma perplexidade, é como é que tu, Rui Maria, vais parar esse universo de vôbayana?
SPEAKER_02Não te sei responder, mas eu acho que estava. Eu também segui atentamente a história de Mike Leão. Mike Leão é um ótimo tema também. Não sabes nada de Mike Leão? Tens de começar a estar. Nós só não estamos em sintonia. Mike Leão é um homossexual que vive no.
SPEAKER_05Mas agora só falamos dessas porcarias.
SPEAKER_02Vocês não têm outros temas. Só para se isto vocês estão a isto, é a Agenda gay. E é, também se podia chamar Agenda gay este programa. Bom, ele, o Mike Leão, ele estava no interior brasileiro e ele era com os seus bicinhos e estava lá no Serretão. É verdade, ele estava uma quinta no meio do nada. E não é que ele era um influenciador com 100 mil followers. Mais uma vez nós sempre falámos dos followers com uma medida. E ele vê uma luz no meio do nada. Como eu de resto já contei aqui no outro programa, que também havia uma luz, e filma as luzes e filma aparentemente uma nave espacial. Então, do dia para a noite, começou a ser perseguido, ganhou 3 milhões de followers, e as pessoas apareciam em casa dele, com ele a chorar, a dizer nós queremos ver o ovni. Mas o que eu acho extraordinário no Brasil é ele passou de traumatizado com as pessoas a bater-lhe à porta, mas mesmo as pessoas apareciam no meio da noite para tentarem ver se ele viu, porque depois publicou isto tudo, não é? 150 stories, e ele vai à televisão.
SPEAKER_05Mas que luz era essa?
SPEAKER_02Era uma coisa que girava com luzes, parecia uma nave mesmo.
SPEAKER_05Não era a feira popular.
SPEAKER_02Depois dizem que aquilo era um camping, que não era real, mas entretanto já lá foi o governo, tipo, todo o filme. E ele agora faz obviamente excursões ao sítio onde viu o OVNI, sempre que depois já tem um agente no guardanapo.
SPEAKER_05Exato.
SPEAKER_02Ele viu no céu. E então um homem foi lá, um especialista em ovniologia, e ele dizer: Esses ufólogos não têm respeito por ninguém, ufólogos. Chorando. E Mike Leão, que à semelhança de vô baiana, já transformou isto numa coisa boa. Oportunidade de negócio, já é a cara de hambúrgueres. Já começou a fazer 150 publicidades no Instagram dele. Então, ele aparentemente viu qualquer coisa, ela aparentemente fingiu de ter visto qualquer coisa, mas os dois lucram com isso, o que é uma coisa que é fascinante. Há este lado no Brasil de tudo pode virar uma piada e tudo pode virar um negócio. Estará na altura de termos o nosso negócio. Quem sabe? Eu lembro-me sempre quando fui fazer o Rock em Rio ao Brasil uma vez, chego e vejo a Anitta, que já começava a ser uma figura, a anunciar que.
SPEAKER_05Mas a Anitta vai à escola.
SPEAKER_02Não, mas Anitta com dois T's, e ela dizia: Prepara, que agora vai ser o Churraisco das Poderosas! E era um anúncio com a música dela, em vez de ser o Show das Poderosas, era o Churraisco das Poderosas. Portanto, logo o negócio e era por 23h44, compre maminha no pague mais por maminhas, não é?
SPEAKER_05Eu ia te pedir para fazeres mais um bocadinho a voz de mãe.
SPEAKER_04Mas estava no sertão esperando, é horrível os meus bichinhos.
SPEAKER_02Um deles apareceu morto! Sim, porque uma cabra apareceu morto e ele achou que tinha sido, eu acho que a cabra morreu sozinha, se calhar de susto. Há umas cabras que se assustam e caem para o lado. Já viste esses vídeos?
SPEAKER_05Já vi cabras a desfalecerem, mas.
SPEAKER_02Não, ela morreu mesmo, coitada. Mas o que eu achei? Mas ajuda lá para as pessoas a aparecerem lá e ele sem saber. Pois é aquela coisa de imagina que isto acontece a uma pessoa, a qualquer um de nós, imagina que tinha mesmo acontecido. Como é que tu, o teu mundo muda? E depois chamaste, como contaste às pessoas, tu abriste a porta para. Mas todo o tipo de gente aparecer em casa.
SPEAKER_05Tens que manter a narrativa, não é? Tens que manter, mesmo sabendo que. Mas ele acredita. Achas que Mike Leão acredita? Sim. Se tu tivesse que ser a cara, porque tu falaste de hambúrguer, se fosse a cara de algum produto, querias ser a cara de quê?
SPEAKER_02Eu sou a voz da Durex.
SPEAKER_05Não querias ser a cara da maminha, não é? Não, não. Gostava.
SPEAKER_02Tu és a cara da Durex. Na sua voz. A voz, a voz. Cara não. Gostou a voz da Durex, gostava. São sempre marcas de moda. Tipo Fendi e Fissano Ram.
SPEAKER_05Uma Fendi funda.
SPEAKER_02Mas nem me estava a ser a cara da Apple. Embora a Apple.
SPEAKER_05Não, não, não. Apple não.
SPEAKER_02Não, não, não, não. Pois não, não queria. Não queria.
SPEAKER_05Não, queres ser.
SPEAKER_02Tecnológicas não, é moda. Fia moda. Moda ou coisas do bem. Como pelasas?
SPEAKER_05Sequery.
SPEAKER_02Não gostavas?
SPEAKER_05Gostava.
SPEAKER_02Olha, sequer parelli até manhã. Até manhã, Maria. Adomani.
SPEAKER_05Isso eu ia pedir Mike Leão, por favor. Pode despedir-se de nós.
SPEAKER_02Nós agora vamos continuar a falar, mas depois falamos mais à manhã. É isso.
SPEAKER_01Diário de Maria. De segunda a sexta na futura.
SPEAKER_02Olá Maria Maria, boa quarta-feira.
SPEAKER_05Tenho pena que o Mike Leão já não esteja connosco hoje. Ele está sempre disponível nas redes sociais.
SPEAKER_04Foi um ônibus decorado, seja viu.
SPEAKER_05Olha, hoje gostava de falar de uma série Your Friends and Neighbours Apple TV. Não era estou a querer ser a cara da duas temporadas. Porquê que isto é importante? Porque o protagonista é o John Hamm que conseguiu sair.
SPEAKER_02Mad Men, para quem está perguntando.
SPEAKER_05Protagonista de Mad Men, coitado para sempre. Don Draper, não é?
SPEAKER_02Mas eu por acaso acho que ele se conseguiu emancipar, nem de toda a gente consegue.
SPEAKER_05Ele conseguiu com esta série, desculpa. É aí que. Mas bora, catorce o rabo. Eu acho que ele só conseguiu verdadeiramente com esta série. Esta série é importante porque ele é um protagonista de peso e ele ganhou mais peso, de facto. Ele está um homem bastante entroncado.
SPEAKER_02Ele é bastante pesado a todos os níveis.
SPEAKER_05Já não faz aquela cara de quando prova o seu whisky, lembras-te?
SPEAKER_02Sim. Eu os revi há pouco tempo tudo e fiquei com imensa vontade de voltar a fumar.
SPEAKER_05Eles não faças isso. Não, mas eles usam sempre para fumar. Eles bebiam às 8 da manhã, logo o whisky, e faziam aquela cara. Minha filha por acaso imita bem a cara de Zone Draper. Que série é esta? Duas temporadas vem uma terceira. Ricos, gente rica. Pobres, ricos que tanto têm. Gente rica que vive em Westmont Village. Cena habitual.
SPEAKER_02Westmont Village. É tipo um subúrbio rico no estado de Illinois.
SPEAKER_05O que é que temos aqui? O clube, os amigos, os IAT, os amigos que são infiéis com os vizinhos. O clássico foi apanhámos o vizinho com a vizinha do casal que mora a dois quarteirões, os carros, os relógios de coleção, o luxo sem fim, sem contar demasiado, mas vale a pena ver a série a personagem do John M a dada altura vai dar uma volta à sua vida e torna-se um bandido, um bandido, um criminoso, um cafageste. Um cafageste que comete pequenos delitos, pequenos grandes delitos, porque põe a mão na riqueza alheia, na caixa de rapé do outro. Temos rapé todas as semanas.
SPEAKER_02Tem que haver rapé e não tem riquecastrada.
SPEAKER_05É verdade. Quanto é que ela está?
SPEAKER_02Em Menorca.
SPEAKER_05São pessoas com muito dinheiro que não percebem sequer que um relógio de 40 mil dólares pode ter desaparecido. É muito engraçado que quando ele está a roubar estes objetos, o objeto aparece com o preço, coleção, edição limitada, aparece uma espécie de identificação do objeto. Portanto, logo aí a série destaca-se faz diferença, ficas a saber quanto é que custa um Patec Filipe, quanto é que custa, não sei, carros, não percebo nada, mas carros também não se roubam, roubam- coisas mais de meter no bolso. É mais uma série sobre ricos, um filão que parece já muito explorado, não é? À partida, porque nós só temos séries sobre ricos, ricos, brancos, bem sucedidos ou não, que fornicam uns com os outros. E é aqui que a pergunta surge, porque é que os pobres deixaram de ser interessantes na ficção? Porque não fazem sonhar, porque dos pobres já ninguém se ri, porque não é ok rirmos?
SPEAKER_02O fluxo está maior do que nunca, não é? Entre pobres e ricos. Eu acho que também há qualquer coisa que está aí. Eu estava-me só a lembrar que estavas a falar das coisas que ele rouba. Há um fenómeno das pessoas muito ricas nas mulheres que é pio jewelry. Joelharia só para usar em casa no pátio ou no jardim. Portanto, tipos de esmeraldas, diamantes que elas utilizam de trazer por casa. De trazer por casa, exatamente. A Nisia que colares trazer por casa, que é tanto dinheiro é tanto dinheiro que há coisas que são para o meu uso só em casa. Isto nem sequer é não é um showê, não sei o quê, ou show parro, blá blá blá. É, ou seja, a riqueza é tal que eles não dão por nada e também usam, há coisas que usam só este tipo de colares assim em casa e são coisas impagáveis, 40 mil euros, 50 mil euros, 30 mil euros, seja o que for. O ponto é, a tua pergunta eu acho que é muito válida e acho que tem a ver com esta questão da ficção. Há a ideia do sonho, não é? O que é que acontece nas novelas? Um pobre, um rico, ou uma pobre, ou uma rica. Ninguém quer ver o pequeno almoço do pobre. Ninguém quer ver, mas querem sonhar a aspiração que vão conseguir. Ainda existe esta ideia do conflito entre a família rica e a família pobre, ou a família rica tem uma empresa, mas ela é que vai herdar empresa, mas não devi. É sempre a mesma história. Ou seja, os arquétipos são sempre os mesmos. Nesta questão agora de tantas histórias sobre ricos, uma coisa é o Succession, série que eu amo. Sim, também quem me der que de repente fizessem mais e não vão fazer, que é a história, se não estou em erro, do Madoff, não é? Sim. Pronto. Quando eu vi o documentário sobre o Madoff, que também está na Netflix.
SPEAKER_05Também vi, falámos nisso.
SPEAKER_02Falámos disto, acho que no outro. Estamos a tocar um dedo no outro. Falámos disto, eu acho que não falámos daqui no programa.
SPEAKER_05O próprio documentário já é baseado no Succession.
SPEAKER_02Aliás, aquilo começa, quando eles viam o episódio de Succession e o pai morre, spoiler, eles dizem, nós não temos nenhum plano de contingência para a morte do pai. Madoff. E o que é que vamos fazer? Portanto, esta ideia de. Vais a Merdhoff. Sim, exatamente. Mas há aqui essa pergunta. Eu acho que os ricos, eu acho que há sempre uma fixação porque o fosse é cada vez maior. Também. Também. Fosse é cada vez maior. Nós continuamos a engolir as histórias em que saiu há poucos dias uma espécie de índice dos criadores de conteúdo mais eficazes em Portugal e são mil nomes. O primeiro e o segundo nome são pessoas que têm milhões e milhões de followers e cujas vidas são inatingíveis. Em Portugal. Estamos a falar, por exemplo, de Margarida Corsair, que é uma mieta muito bonita, ok, inatingível. Tem uma vida classe média alta, mas ela está num circuito que não é muito comum, não é? Porque ela é muito bonita, tem um namorado internacional, faz filmes em Espanha, a carreira dela descolou, tem 24 ou 23 anos. É boa atriz, é, eu acho que ela está a evoluir bem, portanto poderia ser aquela coisa que não tem talento nenhum, não é o caso, mas a vida dela é olhamos e vemos as coisas que têm vestidas, mas nós continuamos a seguir, não rejeitamos isso, ou seja, nós continuamos sempre interessados na riqueza, no fausto, no luxo, embora eu acho que de alguma forma isso vai dar a volta. Eu acho que isso nos vai cansar, porque é tão difícil estar viva, é tão difícil pagar as contas que é eu não quero voltar a ver um Aston Martin, não preciso saber destas.
SPEAKER_05Já nem sequer, a dada altura, já nem nos vai interessar a hipótese do sonho, porque nós estamos exauridos, fatigados. Eu estou cansada desse sucesso.
SPEAKER_02E queremos ouvir as histórias das classes trabalhadoras e as histórias de todos os dias, mas depois também há outro lado de um cinema que é um, por exemplo, um cinema muito duro, por exemplo, do Pedro Costa, que são cinemas muito difíceis de digerir, extraordinários, brilhantes, mas com imensa dor. Queremos estar sempre a ver dor? Pois a pergunta é essa: queremos estar expostos à pobreza, à miséria, ao horror, ao incesto, às coisas horríveis que acontecem.
SPEAKER_05Então é que estão as histórias da classe média no Correr da Manhã?
SPEAKER_02Estão cada vez mais desaparecidas porque a própria classe média está desaparecida. Portanto, o que vai acontecer é ricos e pobres, não é? Nós estamos muito mais perto de sermos miseráveis e estar a pedidinha na rua e não termos onde viver do que estamos perto de ser um milionário.
SPEAKER_05Será que quando deixarmos de, porque isso se cansa, como acabei de dizer, deixarmos de achar essa riqueza toda obscena, os ricos vão continuar a querer ser ricos.
SPEAKER_02Como se ficasse mal. Eu acho que não há problema em haver riqueza. O problema é e as pessoas gerarem riqueza e quererem ter vidas confortáveis.
SPEAKER_05A distribuição da riqueza.
SPEAKER_02É a distribuição, é isso.
SPEAKER_05Não é preciso. Não é preciso mesmo, não é?
SPEAKER_02Se traz-me àquilo que te dizia há pouco, que há pouco foram revelados pela primeira vez os impostos que o Rei da Inglaterra pagou. Já se sabia que o Príncipe William tinha pagado não sei quanto, mas Carlos de Terceiro da Inglaterra pagou 50 milhões em impostos. Ele paga o máximo, o teto máximo, sendo que não sabemos o objeto de tudo, não sabemos o que é que paga impostos ou não, do que ele imagino que isso esteja disponível para quem quiser ler. Mas ele pagou um preço por estar com Camila.
SPEAKER_05Era só para dizer Camila, porque começámos a semana a falar de outra Camila.
SPEAKER_02Sim, e eu que estou a rever The Crown que vou na quarta temporada.
SPEAKER_05Ainda vês todos os dias, confessa-me.
SPEAKER_02Ando a ver todos os dias.
SPEAKER_05Por causa das tiaras e das perrolas.
SPEAKER_02Mas estás a ver? Sou atraído por essa história. Sou atraído por aquele mundo que é. Eu acho que é as pessoas que. Eu tinha uma amiga que sonhava em ser princesa. Gostava imenso. Gostava imenso. Ela teria jeito para ser princesa.
SPEAKER_05E acaba de ser magra princesa, não.
SPEAKER_02Mas ela queria, ela saberia mover-se nesta lógica protocolar, mas o que eu acho que as pessoas se esquecem é quando vives nesse sistema, tu não tens uma vida que é tua. Ok que podes ser milionário e teres as tearas para usar. Mas quer dizer, houve quantas pessoas ao longo da história foram infelizes no amor porque não puderam escolher o seu casamento, porque não se puderam divorciar, ou que não puderam casar com a pessoa, por exemplo, a Princesa Margarida não casou com o amor da sua vida, a irmã da Rainha Isabel II, ou o Príncipe Carlos não casou com a Camila, casou com a Diana, não é? E portanto houve aquele desastre todo. As vidas não são esse sonho todo. Agora, sim, tem um dinheiro absurdo, a monarquia faz sentido.
SPEAKER_05Não faz sentido a monarquia.
SPEAKER_02Eu acho que é a distribuição da riqueza. Faz sentido pelas tiaras, não vou mentir.
SPEAKER_05Se pudéssemos distribuir as pérolas por toda a gente.
SPEAKER_02Não, mas é a história do Elon Musk, que vale 350 trilhões. Nunca ninguém custou, talvez o Gengue Scan ou umas figuras assim do passado comparativamente, mas ele poderia acabar com a fome no mundo e não o faz. E depois dirão, mas eu é a riqueza dele.
SPEAKER_05Não seria interessante haver um milionário que fizesse a diferença.
SPEAKER_02Mas há milionários que fazem a diferença, há pessoas que doam grande parte das suas fortunas, que quando morrem as deixam em fundações, ou mesmo doam tudo. Há vários casos desses. O que estavas a sugerir é que é interessante, que é quando é que vai ficar mal ser obscenamente rico.
SPEAKER_05Sim, eu acho que provavelmente.
SPEAKER_02Mas ser rico não é ter uma casa com piscina. Mas há pessoas que acham que sim.
SPEAKER_05Ser rico é ter muito património, não te lembras que tens um patec Filipe que custa 150 mil e que alguém levou por não por descuido, mas intencionalmente.
SPEAKER_02Sim, claro, claro. E não têm mal as pessoas a almejarem, querem ter vidas mais confortáveis e poderem fazer cumprir sonhos, não é? Mas depois há esta coisa muito obscena e estas histórias que continuamos a consumir que acrescentam a ideia de que é impossível, inatingível e andamos a pagar as nossas prestações das casas e achar que. e haver estas histórias de pessoas que têm mansões com heliporto. Acho divertido.
SPEAKER_05Eu acho que acabou de aterrar um lá em cima.
SPEAKER_02Eu por acaso ouvi.
SPEAKER_05Voltamos amanhã?
SPEAKER_02Eu tensiono voltar.
SPEAKER_05Um beijinho para Mike Leão, onde quer que esteja, no meio do site amanhã.
SPEAKER_01Diário de Maria, de segunda a sexta na futura.
SPEAKER_02Olá Maria, para quinta-feira, já há no verão, agora outra vez na canícola, hoje previsão de 38 graus para Lisboa.
SPEAKER_05Tu gostas de dizer canícola, não é?
SPEAKER_02Canícula enche muito bem a boca. Pois é, canícula e tem.
SPEAKER_05Não é a mesma coisa que calígola, mas anda ali perto.
SPEAKER_02Lutamos a calígula, também noto que tens uma fixação. Hoje, dia 2 de julho, dia ótimo, primeiro para estar com os pés do molho. Não estou a dizer na que. Ah, aquela coisa dos peixes. Tu parias os teus pés dentro daquelas coisas tailandesas com peixes a comer a pele.
SPEAKER_05Não, nem pensar. Eu não me lembro se já fiz, eu acho que já fiz. Tu já deves ter tido peixes a comerem teus pés, mas de outra forma, não é?
SPEAKER_02Não, fui à Tailândia com Raquel Strada.
SPEAKER_05Consegui! Olá, Raquel Estrada!
SPEAKER_02Fomos à Tailândia!
unknownOlá!
SPEAKER_02Fomos à Tailândia os dois juntos. Já contei esta história que utilizámos, fingimos que íamos casar, que tínhamos casado para ter benesses, e lembro-me de estarmos em Bangkok, cidade que íamos gostarmos muito, e a Raquel tinha muitas vezes o que ia fazer o cabelo de manhã e eu ia passear.
SPEAKER_05Como é que ela dizia?
SPEAKER_04Vou ali ao cabaleiro. Não avisa mal.
SPEAKER_02Eu não, não, está tudo bem.
SPEAKER_04Está bem, até já.
SPEAKER_02Duas horas depois, linda. E por cima tropical. Bom, isto para dizer que pus os pés e tenho esta ideia vaga, mas tu não podias.
SPEAKER_05Não. Eu já dormi com peixe, mas de signo.
SPEAKER_02Eu já namorei com peixe. Mas era desses peixes que eu estava a falar. Bom, a canícula acontece, boa altura para andávamos a dizer, a gozar um bocadinho com a Inglaterra e com a França, que estavam com muito. Eu não andava a gozar porque aquilo foi muito difícil para eles, coitados.
SPEAKER_05Aquelas casas pequenas no centro de Paris com aqueles telhados de zinco.
SPEAKER_02Só imagino as pessoas a fritar. Viste um homem fritar ovos na sua varanda?
SPEAKER_05Não vi.
SPEAKER_02Eu vi assustador. E depois as pessoas a passar muito mal, eu estamos a brincar, mas sobretudo as casas inglesas estão desenhadas para manter o calor dentro de casa, portanto não arrefesso de facto. Eu, quando vivi lá, achava que eles eram exagerados, mas depois percebi que o calor é mesmo diferente. Muita gente a dormir ao ar livre, não é? Sim, muito agressivo o que se viu. É uma boa altura para ler livros novos. Vou sugerir hoje Fruitfly, que é um livro de George Silver. George Silver, acho que estou a dizer bem o nome dele. Este livro é sobre um homem e uma mulher, uma mulher escritora que tem um bloqueio criativo e um homem gay trabalhador do sexo. Deixa-me confirmar que este é o nome dele. George Silver é o nome dele. Vou. Ele é bem giro. Estás a ver aqui? Eu acho giro. Pronto, Fruitfly é o. A tagline é Go gay, Go Sad, Go Dark.
SPEAKER_05Chama por ti.
SPEAKER_02Chama muito. Eu adorei o livro, é muito engraçado, mas não só é engraçado como está sempre a mudar o ponto de vista do narrador. Ora ela, ora ele. E portanto, cada capítulo é diferente porque tu estás sempre a ver o lado de cada um. Ela tem uma vida aparentemente perfeita, mas aquela coisa do a pessoa que põe os livros da Virginia Wolf na casa de banho, meios dobrados, para as pessoas acharem que ela esteve a lida, ela nunca liu o livro da Virginia Wolf. Escreveu um livro bom.
SPEAKER_05Voltamos sempre à mesma questão, que é tão fácil parecer interessante.
SPEAKER_02Tão fácil aparecer interessante. Ela é casada com o executivo de uma plataforma de streaming bem sucedido, o Homem Perfeito, depois ao longo do livro que ele desenrola e tu percebes com aquela relação tal longe de ser saudável.
SPEAKER_05À podridão!
SPEAKER_02Ah! E depois é a história dele, que é um rapaz que é adito a metafetaminas e outras coisas, e portanto faz sexo para e vende o seu corpo para poder continuar a consumir, e ela conhece-o e fica fascinada com ele, e então começa a fingir que é psicóloga, e vai até, vai a uma reunião de AI, quando sabe que ele vai só para ouvir as histórias dele, para sugar as histórias, está o tempo todo a fingir, ou seja, ela também começa a viver uma vida paralela e ela inscreve-se no Grinder e tira fotografias ao marido enquanto ele dorme e publica as fotografias no Grindr, e depois é convidada para uma festa e aparece, e de repente percebe que aquilo aí não é nada a cena dela e que aquilo é perigosíssimo. Uma festa dessas de CemS, CemSex é fazer sexo, é de resto um dos flagelos da comunidade gay atual, que é pessoas que estão a consumir durante três dias e não param. Sempre não querem que aquele dia acabe, não é? Portanto, consomem GHB, consomem várias drogas e depois aquilo continua uma espécie de maratona sexual. Muita gente vai trabalhar na segunda-feira, como se nada fosse, mas é uma adição dura. E o livro é sobre estas adições e sobre até onde é que vamos por uma boa história.
SPEAKER_05Portanto, ela encontra ela encontra aí a forma de desbloquear a sua falta de criatividade e fica viciada na vertigem que é a vida dele e ele é a vida dele, ele está a sobreviver só queremos viver a vida do outro?
SPEAKER_02Lá está, essa é a pergunta. Portanto, Fruitfly é um livro que eu adorei ler, está em todo lado, eu acredito que um dia seja adaptado à televisão porque é muito visual e.
SPEAKER_05Mas não está ainda, provavelmente não está traduzida em Portugal.
SPEAKER_02Não acho que não está traduzida em português, mas é vendido, por exemplo, comprei naquela livraria muito simpática em Lisboa chamada Good Company, que fica ali perto da Caixas já depósitos, numa esquina, e que só tem livros em ingleses. Exatamente.
SPEAKER_05Boa companhia.
SPEAKER_02Portanto, é um bom, eu acho que é uma boa sugestão para quem para a canícula, embora tenha algum calor.
SPEAKER_05Tu passas bem com a canícula.
SPEAKER_02Passo, eu normalmente tenho bastante calor, mas eu acho que ter 40 graus em Lisboa, por mais que seja impossível de digerir, nós no limite estamos habituados, não é nós sabemos o que é. Eu acho que é muito mais grave nestes países onde eles não estão habituados e de repente são surpreendidos por 45 graus. Mas eu acho que isto vai começar a acontecer cada vez mais.
SPEAKER_05Dormes vestido.
SPEAKER_02Inês. Desculpa, Maria. Sim, mas nestas alturas do ano talvez não.
SPEAKER_05Talvez não. Nem uma peça de roupa. Por acaso?
SPEAKER_02Trazes-me um tema importante para cima da mesa.
SPEAKER_05Saltou água para cima do equipamento, mas não é importante.
SPEAKER_02O equipamento.
SPEAKER_05E como é que está o teu equipamento hoje?
SPEAKER_02Olha, o meu equipamento estava. O que eu não gosto é quando estou numa fase de quero impressionar a pessoa com quem estou a dormir, estou a conhecê-la melhor, e é inverno e esta pessoa dorme nua e eu acho então que também tenho de dormir nu. Não.
SPEAKER_05E vem aí outro amigo Delite.
SPEAKER_02Ai, pois é.
SPEAKER_05Portanto, nesta altura dormes com o equipamento coberto, ainda assim.
SPEAKER_02Sim. Eu tenho muito frio à noite.
SPEAKER_05Até amanhã. Acabou.
SPEAKER_02Acabou. Não é possível.
SPEAKER_05É possível. Foi tão rápido.
SPEAKER_02Quando nos estamos a divertir, eu tenho boa.
SPEAKER_04Como é que estão os bichinhos no sertão? Não tem ido muito, não é? Estão esperando o ovni. Aquela luz que nunca se apaga.
SPEAKER_02É a luz que nunca se apaga. Até manhã.
SPEAKER_01Diário de Maria de segunda a sexta na futura.
SPEAKER_05Olá Maria. Está a passar o avião das 10h32?
SPEAKER_04Oi.
SPEAKER_05Ainda em Mike Leão está na minha vida para sempre agora.
SPEAKER_02Ele continua a fazer o que se chama no Brasil publiche, que são anúncios, ele não para. Eu acho ótimo. Tudo tem a ver com aliens, tudo tem a ver com OVNIs. Eu, se não seguem Mike Leão, M A Y Kleão, por favor, façam-no.
SPEAKER_05Achas que poderá haver uma semana em que tu não falas de OVNI, seres abduzidos, naves que vão aterrar. É este ano, não é?
SPEAKER_02Supostamente era agora em julho.
SPEAKER_05Mantens essa espera, em julho.
SPEAKER_02Era em julho, por isso é que nós já estamos em julho, não é? E aquilo que me ficava na cabeça quando eu entusiasmei, entusiasmei-me convobo a Iana, porque pensei, olha agora, imaginei o que seria de facto uma nave espacial aparecer no meio de um jogo do Mundial.
SPEAKER_05O que é que nós faríamos à nossa vida?
SPEAKER_02Como é que isso mudaria a nossa vida? Deve ser presos à televisão, sem dúvida, mas se calhar faríamos uma vida diferente de gente, se temos de ser abduzidos a qualquer momento. Será que CMTV conseguiu um exclusivo? Com um Elien, de certeza que teve a haver um Elien. Também gostei, e quero só trazer esta nota: que as manhãs da CMTV são feitas por Luciana Abreu, Lucy, Lucy que publicou.
SPEAKER_05Ou você já contracionou com Lucy?
SPEAKER_02Já, ela entrou no Filho da Mãe e foi um grande episódio em que eu e ela somos um casal. Bom, Luciana tem muitos talentos, no entanto, ainda tem que aprender uma coisa como apresentadora. Ela fez um post a dizer É verdade, muito triste isto do Terremoto, but the show must go on. E ao vídeo dela a cantar e divertida de manhã, e lamento imenso. E aí isto a Luciana abriu se me cruzasse com ela. Olha, isto o terremoto é um bocado triste.
SPEAKER_05Mas let's go on!
SPEAKER_02É pronto?
SPEAKER_05O que eu ando a perder. Mas felizmente porque é que nós estamos a fazer este programa? Porque me trazes esse sabedoria.
SPEAKER_02E tu traz-me também sabedoria. Sabedoria o que é que só a idade traz?
SPEAKER_05Pois é, por falar em idade, o meu pai fez 90 anos.
SPEAKER_02Muitos parabéns.
SPEAKER_05Muitos parabéns ao Sr. Menezes e há dias, a propósito deste aniversário, porque passei um fim de semana a observá-lo. Nós escrevi uma crónica sobre isso, sobre as perguntas que nós nunca fazemos aos nossos pais e sobre os silêncios que nunca são digeridos e que nunca são partilhados. Os pais, eu dizia na crónica que os pais levam uma vantagem em relação aos filhos porque os pais viram neles o medo, o primeiro sorriso. E nós, filhos, nunca conseguimos ver totalmente os pais. Claro que há aqui um efeito protetor, os pais não querem que os filhos saibam determinadas things. I devo dizer que a minha filha também serviu para eu refletir, não é? Se eu escrevo estas cronicas também aproveito para me resolver, não é? But a minha filha sabe. Sabes que a minha filha sabe tudo sobre a minha vida. Ela podia fazer o tudo sobre a minha mãe. Aquilo que eu não posso partilhar com algumas pessoas a Maria Inês sabe. Ela também faz parte de Diário de Maria.
SPEAKER_02Mas isso foi uma escolha consciente tua de não. Ou seja.
SPEAKER_05Sabes que eu sou muito obcecada sempre com a verdade, não é? Isto às vezes é quase doentio porque nós nunca sabemos a verdade toda em relação aos outros e nós próprios às vezes temos que contornar a verdade até para não sermos cruéis, até para não nos magoarmos a nós e aos outros, mas eu sou um bocadinho obsessiva com a verdade. Eu acho que inconscientemente partilhei desde sempre a minha vida toda com ela.
SPEAKER_02Não querendo que houvesse entre vocês zonas mal explicadas.
SPEAKER_05Mal explicadas, não fosse, não queria que ela me idealizasse, ou seja, se ela me idealizar ainda bem porque está a idealizar-me com a minha imperfeição, não é? Mas sim, não queria que ela tivesse.
SPEAKER_02Ou seja, a mãe és mãe dela, mas és uma pessoa. E há um momento, eu acho que isso é um momento, deves também ter vivido isso, como quem está a vir, não é? Quando nós nos apercebemos que os nossos pais são pessoas e não são figuras. Sim, que isso aconteceu-me tarde, sabes? Aconteceu-me já quase nos 20. Perceber que eles têm falhas, que eles escondem coisas que têm dores. Têm dores, eu dores sempre percebi que tinham e acho que era perspicaz ao ponto de perceber isso tudo, e como tive na minha história familiar, doenças das minhas irmãs, e aquilo foi sempre muito revelador das nossas dinâmicas e das dores. Ter um filho doente é a família toda doente, sobretudo quando é a anorexia, que é à mesa, a doença é à mesa. Todos os dias és relembrada da doença, não és capável. Um dia poderemos falar sobre isso, sobre como a anorexia é uma doença particularmente é uma espécie de flirt com a morte, porque é uma coisa básica da tua sobrevivência que tu consegues controlar o nível de capacidade de força para tu conseguires eu não vou comer, que é uma coisa básica a retração da partilha, aquilo que é a mesa significa partilha, da conversa aos alimentos, é a subtração dessa partilha. E não só, é a vida, é tu conseguires controlar-te e ao teu corpo de uma maneira que é para lá de eu não consigo imaginar sequer, mas ou melhor, consigo porque vi e vi uma anorexia infantil e uma anorexia já quase adulta. E são dois momentos muito diferentes, mas isto para dizer que esses são acontecimentos bomba, dinamite, que revela, revelam, todos nós temos isso nas nossas vidas a morte de alguém, uma doença, uma traição, um divórcio, todas essas coisas são uns espelhos em que nós nos vemos, mas que do outro lado são as pessoas que nós idealizamos ou não. E o que tu dizias sobre o teu pai, eu acho muito curioso, porque é um homem de outra era, o meu pai viveu muitas vidas e muitas dores que tu se calhar nem imaginas, ou ele foi comunicando ao longo do tempo?
SPEAKER_05Nesta fase final da vida apercebi-me de coisas muito graves pelas quais ele passou e que de certa forma o definem. E portanto, se eu tivesse sabido isto mais cedo, também eu tinha compreendido melhor. Percebes a importância de revelarmos aos nossos filhos aquilo porque passamos, quem somos, porque tu podes passar a vida toda numa teia de incompreensões várias, sem nunca chegar ao que foi a essência do teu pai ou da tua mãe, porque ele nunca se revelou para te poupar, para te poupar, para te proteger.
SPEAKER_02Há coisas que eu só soube sobre o meu histórico familiar há um ano, coisas dos meus avós, ou coisas que aconteceram, coisas que aconteceram antes até, e na minha lógica familiar esta coisa de estamos a falar do lado do meu pai, por exemplo, de pessoas que perderam uma vida inteira, desapareceu aquela vida que ele tinha em Angola e uma vida muito feliz, muito segura, mas ao mesmo tempo também muito privilegiada, porque eram brancos num contexto colonial português, portanto um dia também podemos falar sobre isso, mas para o meu pai a pátria dele é Angola. O meu pai de esquerda queria construir a Angola do futuro, não a construiu, vive até hoje com essa mágoa. Mas isso ele nunca escondeu de nós. Eu sempre percebi que ele tinha essa tristeza. Minha mãe trae outras dores.
SPEAKER_05Mas isso ainda assim é vago, percebo. É importante às vezes chegar ao dia em que doeu e onde é que doeu.
SPEAKER_02Mas as pessoas que nasceram nos anos 50 não têm o mesmo vocabulário para poder relir. E o teu pai nasceu nos anos 40, 30, 40, portanto, não têm o mesmo vocabulário, não têm o mesmo vocabulário, não te conseguem passar, 30. Sim, mas a minha avó que morreu com 93 nasceu em 1930 e morreu há 5 anos, para aí dá de ser mais ou menos a mesma década. Imagina, foi há quase 100 anos.
SPEAKER_05Já viste a impotência para verbalizar a dor. Tu podes ficar soterrado na tua dor. Isto é assustador, não é?
SPEAKER_02Quantas ferramentas não estás instruído e depois podes ter imensa capacidade de amor, mas depois talvez não saiba exprimir. Isto nos homens é muito particular.
SPEAKER_05E continua a acontecer, não é? Ninguém nos diz na escola que podemos partilhar as nossas dores, ou o que é que é ok dizer, ou chorar, e chorou em frente a toda a gente.
SPEAKER_02Eu há pouco tempo tive assim um não vou expor muito aqui, mas era alguém que tive um date com uma pessoa que cuja cara parecia o Ans Day Adams, não tinha emoções. E eu na altura falámos sobre isto e rimos com ele faz parte da graça dele, e ele dizia que eu não consigo exprimir. E não é um defeito, simplesmente, e depois quando falei mais com ele, me contou coisas da vida dele, percebi de onde é que aquilo vinha, e ele também, ou seja, ele faz essa reflexão. Se calhar há 10 ou 15 anos essa pessoa não faria reflexão nenhuma. Fim, não é? E acho que neste momento as pessoas estão muito mais disponíveis, porque a terapia também passou a ser uma coisa também aspiracional. Toda a gente tem que ir à terapia. Terapia faz muito bem, mas não temos que passar 45 anos na terapia. A terapia deve servir para nos potenciar, melhorar, ajudar a curar, mas não é como ir ao ginásio.
SPEAKER_05Sobretudo, eu gosto quando Deus se manifesta lá em cima, não é? A ira de Deus, o Deus do Antigo Testamento. Há um molde de uma certa apatia que se perpetua. Há pessoas que vivem nessa apatia e que nem sabem que podem. Não conseguem. Não conseguem manifestar quente e frio. Essa apatia é uma defesa, mas às vezes nem sequer é consciente.
SPEAKER_02É como alguém que está a insultar alguém ou ofender alguém, mas nem se apercebe que o que está a dizer é mau ou cruel. Nunca lhe foi dito que era.
SPEAKER_05A crueldade inconsciente tem perdão? Ora, isto é um tópico interessante para a próxima semana.
SPEAKER_02Onde eu já estarei com o pé em Madrid na segunda-feira, não, mas depois mais está aí.
SPEAKER_05O que é que vai fazer a Madrid, Maria?
SPEAKER_02Vou finalmente gravar aquela série de que falei onde me scanaram a cara. São vários dias porque tenho provas de roupa, tenho provas, vão ter que me pintar o cabelo outra vez. Vou ter que ficar cruela de vila outra vez. Fiquei um bocado triste porque já não tenho 20 anos e o cabelo demora a recuperar.
SPEAKER_05Fico à espera de fotografias suas.
SPEAKER_02Entraremos, mas segunda-feira ainda cá estou e depois falaremos como sempre diário de Maria, que não se esqueçam quem estava a vir agora de manhã. Há um compacto para os mais preguiços.
SPEAKER_05Como eu gosto de compactos.
SPEAKER_01Até manhã. Até manhã. Se uma Maria incomoda muita gente.
SPEAKER_05Olá Maria.
SPEAKER_01Olá Maria. Duas Marias incomodam muito mais.
SPEAKER_05Muita areia neste caminhão, que sou eu também.
SPEAKER_01E que caminhão? E caminhão Maria Pego. Rui Maria Pego e Inês Maria Menezes trazem-nos o seu diário cheio de inquietações. Se há um livro para abrir, tem que ser o nosso diário. Diário de Maria, de segunda a sexta na futura. Maria vai com as outras. Eu?