Diário de Marias

Deu-me uma Shyamalan

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

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Marias reflectem sobre o síndrome do Caranguejo australiano, a importância de sair da Vila, o chá de tanchagem, e como para inventar uma nova vida podemos até forjar a Morte.

SPEAKER_01

Diário de Marias de segunda a sexta na futura, olá Maria Olá Maria, boa segunda-feira a todos os ouvintes da futura, hoje os dois com vozes profundas, pois vivemos fins de semana tremendos, alucinantes deixa-me que te diga que tem sido de facto um exercício porque é que estás com esse cabelo? Então, eu cometi o erro.

SPEAKER_02

Deixa-me dizer que tu estás metade de loiro, metade de cabelo escuro.

SPEAKER_01

Numa alusão a Cruella de Vil.

SPEAKER_02

É essa a intenção?

SPEAKER_01

Sim.

SPEAKER_02

Ah, é mesmo?

SPEAKER_01

Era a minha inspiração. Cruella de ville, Cruella de Ville. Teatro musical. Sentiu naumatas onde estão. Aqui não. Bom, eu fiz este cabelo para o Rinoceronte, peça, espetáculo, que fiz com o Teatro da Garagem há 3 ou 4 meses.

SPEAKER_02

Aqui atrasado?

SPEAKER_01

Aqui atrasado. E fiz uma audição para uma série com este cabelo. E não é que provavelmente a razão porque fiquei, não foi o meu talento. Mas uma das razões foi que gostamos muito deste cabelo. Então eu fui escolhido, entretanto, o meu cabelo voltei ao normal, não é? Fiquei moreno outra vez, tive de o rapar, etc. E tive de voltar a pintar para dar corpo à personagem que ele se criou.

SPEAKER_02

Isso no fundo é um bocadinho como aquelas pessoas que querem fantasiar na cama, não é? E pedem-te para usares não a ti.

SPEAKER_01

Uma bola de ténis na boca?

SPEAKER_02

Ou assim, ou aquelas pessoas que usam óculos e podem ser secretários.

SPEAKER_01

Todas as secretárias, todas as secretárias têm óculos, como sabemos.

SPEAKER_02

Todas as bibliotecárias, não é?

SPEAKER_01

É sempre como um casaquinho de malha.

SPEAKER_02

Na cama pode ser a mais, não é?

SPEAKER_01

Se for na Suécia, talvez não.

SPEAKER_02

Mas é um bocadinho isso, portanto, fantasiaram contigo assim Cruella de Vil e pediram-te para continuares a ser Cruella de Ville.

SPEAKER_01

Sim, portanto, quando cheguei a Madrid fui de imediato levado para um fitting, coisa que fui contando aqui na semana passada, como tu dizias aqui há atrasado, e o fitting, isto era uma produção grande com muitos profissionais, e portanto consegui tirar umas fotografias que não posso nunca mostrar a ninguém, porque assinei o quê?

SPEAKER_02

Um acordo de confidencialidade.

SPEAKER_01

Lá está. Nós já temos o nosso próprio léxico neste programa. Contrato de confidencialidade já é um dos termos mais deles.

SPEAKER_02

Há uma semana sem acordo de confidencialidade, nem sem a palavra Bruxa.

SPEAKER_01

Bruxo Bruxo fui lá, fui levado e fui logo a tratar do cabelo, portanto, acordei às quatro e meia da manhã e depois fui logo levado para fazer este tratamento e pronto, depois fiquei alguns dias à espera de filmar e sexta-feira finalmente filmei. Não, se pode dizer o quê?

SPEAKER_02

Percebem, porque há aqui um acordo de confidencialidade, mas que ele fez alguma coisa, fez. É certo que fez.

SPEAKER_01

Fiz e foi muito feliz com nomes conhecidos com nomes que enchem a boca, confesso. Não, mas fiquei muito contente a representar o meu país. Entretanto, quando acabei, ou seja, foi um momento muito bom, trabalhei com alguém com quem sempre quis trabalhar e tive uma sensação de que acontece mais vezes isto, isto pode ser mal interpretado, mas acontece mais vezes isto, que é eu não tenho medo. Ou seja, estou muito, fico nervoso um bocadinho no início para explicar quando se vai filmar uma cena, ou quando se vai trabalhar numa cena em cinema ou em televisão, normalmente faço uma coisa que é o blocking, que é marcar a cena. Onde é que as câmaras vão estar, onde é que nós vamos movimentar, e eu fiquei um bocadinho nervoso quando vi esta personagem entrar pela porta e depois passou-me.

SPEAKER_02

Esta pessoa cujo nome não podemos revelar.

SPEAKER_01

Cujo nome jamais será pronunciado até estrear a série em 2027. Acho eu, que é quando estreará, não sei.

SPEAKER_02

Eu também não posso dizer que sei, não é?

SPEAKER_01

Não, tu não sabes nada.

SPEAKER_02

Eu não sei nada.

SPEAKER_01

Nem eu sei. Eu nem estive lá. Bom. E não tive medo. E foi muito curioso, porque acho que grande parte dos nossos medos e das nossas capacidades de acreditar no nosso próprio potencial vivem do contexto, sobretudo. Se eu achar que na minha rua não há nada para além da minha rua, eu acredito que a minha rua é o único ecossistema que existe. Sem saber que há outras ruas ao pé, onde eu se calhar serei mais feliz. E acho que muitas vezes, infelizmente em Portugal, temos esta coisa de pensar pequeno, achando que conhecemos tudo o que cá na nossa rua. Quando há muitas outras maneiras de poder trabalhar, e portanto, forçosamente, há outros olhos olhando para nós que nos veem de outra forma.

SPEAKER_02

Estava-me a lembrar daquele filme do Chay Amelan, A Vila.

SPEAKER_01

Ah, sim, a vila é um ótimo exemplo disso.

SPEAKER_02

É, não é? É, desculpa. Vamos lembrar, há uma comunidade que vive como se fosse amish?

SPEAKER_01

Amis não têm eletricidade e vivem naquela coisa. Mas tu não sabes, tu só percebes que é uma comunidade no fim. Porque o filme é todo acontece nesta vila e no fundo, como aquelas pessoas não sabem que existe um mundo para além da vila.

SPEAKER_02

Imagina, alguém fica doente e não pode ter tratamento porque não há mais, só existe aquele mundo.

SPEAKER_01

Imagina eu com os meus amigos de elites e podia me dar uns galhos para mastigar, provavelmente.

SPEAKER_02

Uns galho.

SPEAKER_01

Mastiga aqui este galho.

SPEAKER_02

Sim, sim. Já olhou, fiz chamar outras coisas. Enquanto para o chato de tanchagem é recomendado por uma bruxa, que é o segundo termo que nós usamos: a miúdia. Mas a vila de facto é um bom exemplo porque nós, quando não saímos da vila, ficamos confinados à vila e o nosso pensamento também muito enviesado e estreitado, não é?

SPEAKER_01

Tu a crescer em Mindele sentias isso?

SPEAKER_02

Não, é diferente, talvez, porque como acho que já contei aqui também, tu sabes, não é? Nós fomos durante muito tempo sempre as pessoas que foram para Mindelo. Eu acho que as pessoas nem sabiam de onde é que nós tínhamos vindo. Mas nós fomos durante décadas os senhores da Casa Nova, isto tem muita piada, também podia ser uma série. Já tinham passado 40 anos, ainda éramos os senhores da Casa Nova porque tínhamos vindo de outro lugar.

SPEAKER_01

E portanto nunca me vi é muito curioso o olhar sobre vocês é aqueles que vieram de fora, apesar de já cá estarem há 40 anos.

SPEAKER_02

Sim, sim. Acho que nunca me senti limitada, mas tem graça, porque estávamos a falar já, entretanto, já saltámos do Chayamalan, já passámos para mim dele e estava a lembrar-me dos anos que foram muitos em que eu escrevi o Sexo e a Cidália, que era aquele pseudónimo bastante despodurado, picante. Picante, picante, uma palavra que já não se usa. Gostava que se houvesse mais. Ah, é muito picante. Que cena picante. E repara, eu fui muito livre nos primeiros tempos, porque ninguém sabia que eu era a Cidália. Aliás, a maior parte das pessoas achavam que era um homem. E depois, quando a pouco e pouco começaram a saber que era eu, eu comecei a refriar. Eu lembro-me perfeitamente de ter como referência, quando a minha mãe me disse a tia Maria do Céu já sabe que tu és a Cidália. Eu passei a escrever-se manalmente a cronatura. Então, a pensar, o que é que a tia Maria do Céu vai achar sobre isto? Portanto, nós todos temos várias Tias Maria do Céu na nossa vida, não é? Tu cá em Portugal e em Lisboa, porque é onde vivemos, acabas por te sentir um bocadinho limitado por este olhar de comunidade, comunidade de privilégio. Eu gosto sempre de sublinhar isto: vives, mas onde conheces toda a gente, onde toda a gente sabe que tu és conhecido anda conhecida.

SPEAKER_01

E há uma leitura pré-determinada, portanto, mesmo que até haja disponibility para te ver de outra maneira pontualmente, acho que existe. I think nós temos instints muito básicos de comunidade and precisamos de rotular para nos sentirmos mais calmos, não é? Eu já percebi mais ou menos como é que isto funciona. Tem alguns amigos assim que veem logo isso. Mas essa coisa do anonimato, porquê que eu fui estudar para fora de Portugal? Porque se eu tivesse estudado em Portugal, eu teria sofrido três vezes mais, porque não me conseguiriam ver descolar da pele daquilo que me tinham atribuído antes. Ele tocou agora nas flores. Parece eu com os guizos quando é Natal e eu vou lá para fora e as minhas esturinhas acreditam no Pai Natal e levavam-nos guizofa. Sou eu e contra as coisas. Sim, falo, eu sou um Pai Natal alemão.

SPEAKER_00

Alô, Viguete! Alô, Freio Bendita!

SPEAKER_01

Porque está com si bem este ano, com os óculos de só porque vim das Caribas. Posso contar porque as minhas irmãs não ouvem o Diário de Marias, as minhas irmãs são as minhas sopras.

SPEAKER_02

Mas o anonimato dá essa força. Mas teres o triplo trabalho para provar que és talentoso e não és só filho ou sobrinho de novo.

SPEAKER_01

Mas da mesma maneira que para ti, eu acho que acontece isso nos países pequenos. Eu acho que falámos disto no outro dia, que é aquele síndrome, tenho amigos australianos que estudei com eles na escola que me falavam sempre do síndrome australiano dos caranguejos, que é os australianos são assim: um balde está cheio de caranguejos, e os caranguejos estão todos ainda a sair do balde, e os australianos, em vez de ajudarem o outro caranguejo a sair, portanto, se um sai, os outros vão poder sair, puxam-no para baixo.

SPEAKER_02

Já agora não sai ninguém.

SPEAKER_01

É um bocado isso, que é a ideia de alguém se evidenciar é péssima. Em vez de ser uau, é um bocadinho também, podemos extrapolar isto para o Cristiano Ronaldo, que é uma figura muito pouco consensual, hoje em dia então mais do que nunca, mas há sempre 23 leituras a mais sobre o Cristiano Ronaldo, porque primeiro temos muito poucos acontecimentos do género, mas temos logo imensas opiniões.

SPEAKER_02

Também porque é que todos temos públicas as nossas opiniões sobre o Cristiano Ronaldo.

SPEAKER_01

Sim, não querem saber.

SPEAKER_02

Deixem o homem ser independentemente de gostar ou não gostar, quero lá saber, não é?

SPEAKER_01

Pois, mas decidimos. O anonimato tem essa beleza de tu poderes de facto forjar a opinião que quiseres, não é? Aquela coisa que aconteceu, vou mudar de terra e vai tudo mudar. Hoje em dia isso já não existe. Porque tens uma pegada digital que te segue onde é muito mais de tens que se calhar forjar a tua própria morte. Forgarias a tua própria morte para recomeçar noutro sítio.

SPEAKER_02

Muito interessante.

SPEAKER_01

Como é que te chamarias noutro sítio? E Naida. É um bom livro, é sem Neida.

SPEAKER_02

Escusado será dizer que na vila alguém descobriu que havia vila após a vila.

SPEAKER_01

Sim, que havia uma autostrada a passar ao lado, se bem me lembro.

SPEAKER_02

Um muro, não era uma autostrada, uma estrada assim. É muito interessante. Era um filme a rever.

SPEAKER_01

Sim, um filme a rever.

SPEAKER_02

É o conselho de Marias para hoje, para esta semana.

SPEAKER_01

Reveja a vila de Mnight Simalion. Shamalayan.

SPEAKER_02

Ai, tal, deu-me uma chamalain.

SPEAKER_01

Tu sabes que eu não sei o que é que aconteceu, que eu até tive que me sentar. Deu-te uma chamalagem. Deu-me uma chamalaia.

SPEAKER_02

E qual é esse chá? Como é que se chama esse chá?

SPEAKER_01

Tanchagem. É um chá para as questões respiratórias. Danchagem.

SPEAKER_02

Onde é que tu foste comprar isso? Ou contamos amanhã.

SPEAKER_01

Foi à Ervanar em Angolana. Posso contar?

SPEAKER_02

Amanhã contas.

SPEAKER_01

Até amanhã.

SPEAKER_02

Até amanhã, Maria.