Diário de Marias

Bruitage

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

Use Left/Right to seek, Home/End to jump to start or end. Hold shift to jump forward or backward.

0:00 | 13:56

Marias falam do último de dia de NOS Alive e do último grito em Nigiris.

SPEAKER_00

Diário de Maria de segunda a sexta na futura.

SPEAKER_02

Olá Maria, sim. Quem és tu hoje?

SPEAKER_01

Quem és tu? Eu sou alguém que sobreviveu à Nosa Life. Convém dizer a todos aqueles que ouvem o futuro que estão habituados a este tipo de dinamismo. Festivais, nós já não vamos para novos, não é? Uns mais novos do que os outros.

SPEAKER_02

Porque eu sou muito mais nova que Rela, não é?

SPEAKER_01

Não, e tens e tens um tanque, és um carro de assalto festivaleiro. Eu confesso que a minha Shimite está mais tímida e portanto eu temi não ter a pujança necessária para viver o último dia de Nós alive no palco principal Florence and the Machine, antes Lorde, que aparentemente ninguém gosta, mas eu gosto e tenho pena porque acho que ela desde que ela era amiga de David Bowie e da Tilda Swanton, eu pensei que as coisas iam correr bem e não correram assim tão bem.

SPEAKER_02

Mas depois ela parou, não é? Parou lá dos anos.

SPEAKER_01

Parou, eu acho que ela deve ter tido. Ela fala sobre isso que teve um distúrbio alimentar e que teve depressão e pronto, e depois porque ela conseguiu muito, ela aos 14 anos teve o seu primeiro hit, o Royals, e portanto a vida dela neozelandesa, não imagino que seja transformador. Ela começou a fazer tours aos 17 anos. E aquilo que eu senti no Alive foi divertido ir, adorei, para quem provavelmente nos segue aos dois sabe que já fizemos 255 festivais em trabalho ou só a curtir a viver esses festivais. But eu acho que mais do que nunca gostei de ver duas coisas. Primeiro, que durante os buraca, que eram os cabeças de cartaz, houve uma alegria que eu não via coletiva há muito tempo, mas também se calhar tem ido a poucos festivais, não sei, de total abnegação e entrega àquele momento de estarmos todos a fingir que estamos em 2007 e os tempos eram mais simples.

SPEAKER_02

Mas isso não acontece de cada vez que uma banda resolve voltar aos palcos?

SPEAKER_01

É possível, sim. Mas os buracos, como é música de dança, eu acho que se calhar é uma coisa a Madonna há pouco tempo, agora na sua tour Express Tour sobre o seu novo album dizia que as pessoas maltratavam um bocadinho o dance floor and a música de dança, dizendo que é vazia and superficial, não percebendo que a dança and the espaço do club é um espaço quase sagrado de resistência ando, safe space. And I vi nos burac foi a total desinibição. Ou seja, mesmo muitas pessoas que são mais contidas and I think in Portugal é muito isso, as pessoas estão sempre a ver de fora nos festivais.

SPEAKER_02

Eu acho que o buraco também fica desinibido, não é? Quem nunca?

SPEAKER_01

Ah, é? Mas um buraco financeiro. As pessoas estavam desinibidas e isso foi bom, mas confesso que antes disso não senti a mesma coisa. Eu há muito tempo, eu confesso que os festivais me vão cansando porque fiz muito tempo e só vou quando gosto mesmo muito. E fui desta vez porque estava com vontade de ver algumas pessoas, mas senti muita gente desligada da música que estava a ver.

SPEAKER_02

Mas nós temos vindo a falar disso, não é? Dos festivais serem montras de outfits do dia, e portanto onde é que estão, claro que lá pelo meio estão as pessoas que gostam verdadeiramente da música, não é? Mas o que nos salta à vista, ou então nós temos as pessoas erradas nas nossas redes sociais, são essas pessoas que se preparam dos pés à cabeça. Eu não acho mal, não é?

SPEAKER_01

Não acho divertido que as pessoas se montem, mas que ao menos que estejam a ver os concertos também, não é? Sendo que, sei lá, eu andei por vários sítios, mas era uma noite com Pixies também que eu não consegui ver.

SPEAKER_02

E atenção, as tendas VIP vieram matar um bocado este amor pela música.

SPEAKER_01

Mas existem há anos, enfim, também, não é?

SPEAKER_02

Existem há anos, mas este culto caiu no microscope, mas este culto do VIP também é interessante. Este fosse no fundo nós e eles costumava usar as tendas VIP para fazer um xixi mais digno, pronto, mas eu podia estar no terreno desde que não houvesse um declive muito grande, porque é que eu ia estar na tenda?

SPEAKER_01

Ainda me lembro de eu ser bastante mais novo e estamos no Primavera Sound e tu estás com o Pedro Ramos, timonero nesta rádio, e me arrancar si eu desta rádio e me arrancarem de uma tenda VIP, vocês os dois, dizendo sai daqui, anda a divertir-te, porque eu estava a ver, já não sei o que, ou a falar com alguém, e esta ideia de que os festivais. Se calhar, imagina, ou safari colos, aqui tem Safari Cola, não posso ir embora. Mas a primavera devolveu um bocadinho essa sensação do festival na cidade que era divertido, não vou há muito tempo, portanto não sei como é que está, mas há esta coisa da curiosidade de viver outras coisas, de partilhares aquele momento com outras pessoas que não conheces lado nenhum, e se estás nesses circuitos onde conheces toda a gente também perde a graça, não é?

SPEAKER_02

Claro, tu já sabes que na tenda VIP vais encontrar as pessoas que tu conheces. Qual foi a última vez que tiveste uma conversa interessante entre concertos? Vou pensar que é entre concertos e não durante concertos, com alguém que não conhecias e disseste: estou surpreendido com esta pessoa.

SPEAKER_01

Falei com um rapaz, por acaso no sábado, mas depois percebi que era namorado de uma que eu conhecia. E achei isto é interessante até, nunca eu tinha visto. E depois percebi que era namorado de alguém que eu conhecia.

SPEAKER_02

Sim, mas nem todas as conversas são com o intuito.

SPEAKER_01

Falar com todos os homens com esse objetivo.

SPEAKER_02

Então para que é que compraste o preparado?

SPEAKER_01

Para atrair alma gêmea. Porque não tenho resultado.

SPEAKER_02

Bom, e vieste desse festival mais.

SPEAKER_01

Solto?

SPEAKER_02

Não. Sou mais.

SPEAKER_01

Foi um pouquinho.

SPEAKER_02

Com mais mundo, com mais.

SPEAKER_01

Não. Eu diverti-me na live, vi muitas pessoas que já não vi há algum tempo, foi, se calhar alguns ouvintes também foram. Depois cheguei a casa uma hora e meia depois, que é o que também acontece, mas foi bom, já não ia terminar às quatro e meia depois do festival há algum tempo.

SPEAKER_02

Ora, este é um dia que não me levaria por nada.

SPEAKER_01

Tu já não queres ir, já não tens vontade.

SPEAKER_02

Eu não tenho muita vontade de ir a festivais, não é? Pelo cansaço. O calorama é aqui perto e dá para vir a pé, o que é muito simpático. Depois de escolher ver, para mim é importante escolher ver determinados concertos, dá para vir a pé, mas com esse cartaz de buraca são sistema Florence e Lorde nem que me pagassem diamantes.

SPEAKER_01

Não, mas sei lá, eu viria à Zara Larson, acho que preciso.

SPEAKER_02

Houve concerto de Nick Cave, não é? Tenho que ser de perder concertos de Nick Cave, mas não, já estou no meu cupão de festivais, não quer dizer que eu não posso sair.

SPEAKER_01

Tens o teu cupão bem cheio? Bem cheio e tu. Também eu também já vi muitas pessoas que eu queria muito ter visto, não é? E antigamente eu estava mais dentro desse circuito, hoje em dia não sinto a mesma pulsão e sentir-me já muito crescido.

SPEAKER_02

Só há uma pessoa que me faria estar junto ao palco de mini Saia, mini saia não vai acontecer, ou shorts, shorts, esperando 3 ou 4 horas chá de Adu. Se o Chá de Adu anunciasse uma digressão, eu iria longe para vê-la.

SPEAKER_01

Eu também iria. Lauren Hill não?

SPEAKER_02

Não, não se compara, não é?

SPEAKER_01

Não se compara, mas sei lá, também tem um carisma que só ela cresce.

SPEAKER_02

Grace Jones, que vai chegar. Fiona Apple também, mas ficar horas ao sol, não sei. Não, mas isso já não, isso eu não tenho paciência. Maria, nós nunca sabemos como vamos acordar, não é?

SPEAKER_01

Sem dúvida, os estados de alta.

SPEAKER_02

E quais chamamentos vamos responder? Eu estou francamente desiludida porque esta semana, ok, falámos de contrato de confidencialidade ou acordo, falámos já, já pronunciámos o termo bruxa, mas ainda não falámos de.

SPEAKER_01

Raquel Estrada.

SPEAKER_02

Ah, também, também não falámos.

SPEAKER_01

Não.

SPEAKER_02

Olá, Raquel. Olá! Voz grave.

SPEAKER_01

Não, porque estou com a voz cansada de gritar.

SPEAKER_02

UFOs.

SPEAKER_01

UFOs, não, mas embora o Pentágono tenha liberdade de mais imagens. Não me digas. Eles não pensem que eu não reparei, que eu reparei.

SPEAKER_02

Tu ainda foste a única pessoa, eles estão.

SPEAKER_01

Eles mandam diretamente para mim. Às vezes há pessoas que perdem e-mails e nesses e-mails, às vezes, estão informações deste calibre. E eu não deixo isso passar. No entanto, não me ocupei muito disso. Estive muito focado no meu trabalho. Sabes como é que eu sou com o trabalho, não é? Eu entrego-me de corpo e alma. E neste caso, sei lá, estive em Madrid, a Madrid, onde fui jantar sozinho, para celebrar a minha feito. E estava a achar estranho estar a conseguir, mas em todos os restaurantes de.

SPEAKER_02

Depois de um dia de intensas filmagens, árduas.

SPEAKER_01

Acordei às 6 da manhã, já estava no 7, pronto, às 8h30 da manhã, e saí do 7 a um 5, pumba, pumba, pumba, a dar-lhe o tempo todo.

SPEAKER_00

Eu vim que querer parar, mas não poderia. Mentira. Aqueles quando têm que fazer a resetting das câmaras, podes comer o bananinha, trazem-te o almoço, estava na rolling area.

SPEAKER_02

Quando saes, portanto, depois das 5 pensaste, eu vou festejar isto devidamente. És que escolhes aparentemente um bom restaurante?

SPEAKER_01

Sim, estava na dúvida porque pensei, quanto dinheiro é que eu quero gastar, quer ir ao Michelin, não fui desta vez.

SPEAKER_02

Quanto é que estavas disposto a gastar?

SPEAKER_01

Estava na dúvida. Eu ainda pondrei isso para os 100, mas depois pensei, não, calma, calma, também vou sozinho. Então fiquei-me bastante menos do que isso. E encontrei um japonês perto do meu hotel.

SPEAKER_02

Um homem, mas um.

SPEAKER_01

Sim, um restaurante japonês. Casar homens japoneses muito bonitos. Pois é, concordo. E eu, tuca, tuca, tuca por ali acima.

SPEAKER_02

Salt, saltos?

SPEAKER_01

Não, fui por acaso não estava. Mas atravessei.

SPEAKER_02

Gosto de que faças berruitas sempre durante estas.

SPEAKER_01

Como é que faço? Eu sou um radialista, que é uma palavra que eu odeio. Já gostas mais? Five com a impressão.

SPEAKER_02

Não, mas quando me perguntam é mas chati, se isto me perguntarem o que é que eu faço afinal?

SPEAKER_00

Palhaço.

SPEAKER_02

Mulher palhaço, sou mulher palhaço.

SPEAKER_01

Sou mulher palhaço. No outro dia houve um homem que me perguntou isso e eu disse clown. E ele não achou graça. E eu pensei, nunca poderemos fazer mais nada. Como é que eu posso fazer um balãozinho com um animal? Não vai dar. Não vai dar, não é? Olha, é um canicho. Restaurante. Restaurante. O restaurante era um japonês que marquei facilmente e pensei, isto é estranho, sexta-feira, oito da noite, e atravessei a cidade.

unknown

Salto.

SPEAKER_01

Calha para interçar. E fui e cheguei ao restaurante, o restaurante estava vazio. Sabemos o que se diz de restaurantes vazios. Isto aqui não pode ser bom. Mas eu pensei, era não tenho outra solução. Estou esfeimado. Aqui vou. Entrei.

SPEAKER_02

Estavas também exaurido, pronto.

SPEAKER_01

Exaurido e esfeimado, sim, sim. Sentei-me e eu estava muito confiante no meu espanhol nestes dias. Estava sempre a falar com este tom. E sentei-me e comecei a olhar para a carta. A carta tinha reinterpretações de sushi. É logo que começamos. Sabes do que é que estou a falar? É para lá da fusão. É a reinterpretação. Então pedi uns boquerones, que não são boquerones normales, porque tenham outra cosa.

SPEAKER_02

Gosto de espanhol.

SPEAKER_01

Me encanta. Eu estou a praticar para falar em Madrid, in outros cities. Então pedi várias coisas e depois pedi vários niguiries e disse surpreenda-me. Surpreenda-me. Ele trouxe-me um niguiri de sardinha.

SPEAKER_02

Um vulgar niguiri de sardinha.

SPEAKER_01

Sim, e era ótimo. Sabemos que os niguiriis se comem ao contrário. Adoro sardinha, atenção. Eu também, mas por acaso não adoro comer nos santos, mas naquilo que estamos.

SPEAKER_02

Mas isso é porque ficamos todas besuntadas, não é? Calma, calma.

SPEAKER_01

Sabemos que o nigiri se come ao contrário. A parte do arroz é para cima do céu da boca, tipo em direção ao céu da boca, a parte mais suculenta é que fica na língua. E então fica surpreendidíssimo e depois perguntei porque é que não está aqui ninguém. Hombre, porque a Espanha está rogando. A Espanha estava a jogar o Mundial.

SPEAKER_02

Tu eras a única pessoa em Madrid que não sabia que Espanha estava a jogar.

SPEAKER_01

Bélgica. A serra dos mundiais. Pronto, e entretanto, jantei com muita. Vi um vinho ótimo. Terras de Seguron. Muito bueno. Me encantou.

SPEAKER_02

Um copito, dois copitos.

SPEAKER_01

Dois copitos, porque estava me sentindo um pouco friski. Mas pronto, depois fui sozinho para casa. E foi isso. Celebrei sozinho. É importante celebrarmos sozinhos. Também é importante e vamos falar sobre isso amanhã. Amanhã celebre connosco.

SPEAKER_02

Até amanhã, Maria. Até