Diário de Marias

Hã Solo

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

Use Left/Right to seek, Home/End to jump to start or end. Hold shift to jump forward or backward.

0:00 | 11:39

Marias divagam sobre pessoas indecisas perante cardápios, discutem sobre a beleza de fazer coisas e viagens a solo, e observam um vizinho desnudo na varanda...

SPEAKER_01

Diário de Maria de segunda a sexta na futura, Maria, aqui esta semana está a passar, a correr. A correr, não é? Agora fui eu a fazer berruitagem, não é?

SPEAKER_00

Ao mesmo tempo, quando diz berruitagem, imagino a palavra peritagem. Seria o único? Bom dia. Diário de Maria, ontem falávamos sobre onde é que estamos a ser ouvidos? Olha, ainda me outro dia recebi uma mensagem da única ouvinte que temos no Qatar, curioso, dizendo sou eu! Sim, sim. Tu não partilhaste isso com o que? Esqueci-me de mandar. Mas ela disse com muita alegria: quando viemem ao Qatar, que é uma coisa que acontecerá já para a semana, achas que dá para ir de Flix Plus? Acho que é possível. Inês Maria, maior fã de FlixPus em Portugal. É verdade. Eles poderiam patestinar nus. Ou só a ti.

SPEAKER_01

As nus ou com a culpa?

SPEAKER_00

Queria aqui, estava a tentar descobrir esses downloads, porque somos ouvidos no mundo inteiro e nem sempre Se all stats. Então, teremos do que? De sempre ou nos últimos 30 dias? Nos últimos dias. Ou sete. Sete. Então, somos ouvidos em 45 países e territórios, 325 cidades. Olá a todos aqueles que nos ouvem em Colmenarejo, em Madrid, Estrada, em Pontevedra. Pontevedra? Não sei. Monticello Conte Otto, na província de Vicenza, e Addison, em New Jersey. Portanto, ficas fascinada. Acusem-se. Acusem-se. O nosso top para estes últimos sete dias está Portugal, Reino Unido, Espanha, Espanha, muito forte, claro.

SPEAKER_01

Eslandas a aprender espanhol, não é?

SPEAKER_00

Claro, Países Baixos, França, Suécia, Suíça, Alemanha e Brasil. Com pena, Islândia não está no top.

SPEAKER_01

Olha, nós tínhamos chegado a falar de solo, já lá vamos, como se diz nos noticiários, já lá vamos, primeiro, até já último. Gostava a lembrar-me de nem ser a propósito porque tu disseste que eres dos últimos de sempre, dos últimos 30 dias, sete, e eu disse sete, porque eu sou, eu estava a pensar ao mesmo tempo, não é? Porque sabemos que isto funciona como terapia para as duas, não é? Aquelas pessoas que ficam a pensar nas escolhas que fazem, quando trazem o cardápio, o menu a imenta e dizem estou indeciso, repita lá de novo o que é que disse, mas pode ser sem e com e eu digo, número 7. Eu não perco tempo na escolha, não é?

SPEAKER_00

Isto é muito interessante. Pois não respeito muito, isto é horrível que eu vou dizer. Acho pouco atraente alguém que não consegue escolher num restaurante e faz 10 perguntas, mas isto como é que é? Mas o molho é como? E depois como é que é? E depois tenho estes legumes têm certo.

SPEAKER_01

Tem intolerância. Ah, então, e acha que pode ser pouco escaldado?

SPEAKER_00

Pouco escaldado em chave na fria. É um turno. Embora também tenha algumas intolerâncias, sobretudo religiosas, mas eu revelava-me aqui. Não, mas eu acho que essa coisa da falta de capacidade de escolha não me atrai muito.

SPEAKER_01

Eu gosto de tipo, não é exatamente assim, mas é quase como pôr o dedo na lista e dizer quero este. Um bocado ir pela aventura, não é? Não te deixares limitar.

SPEAKER_00

Há pessoas que comem sempre o mesmo. Há pessoas que vão aos sítios e comem sempre a mesma coisa. Eu estou a falarmos, por exemplo, eu e tu já vemos muitas vezes a um restaurante cá em Lisboa, que é o Papa Sorda, que adoramos. Eu confesso que muitas vezes cedo e como as mesmas coisas. Porque adoro. E não vou lá todos os dias, portanto. Por exemplo, gosto dos filetes de pesgalo.

SPEAKER_01

Muito bem.

SPEAKER_00

É o que pedes também?

SPEAKER_01

Não, lembrei-me que tu pedes filetes de pesgalo por algum motivo.

SPEAKER_00

Pesegalo, que adoro. E peço também o bife. Muitas vezes. Adoro o bife. Adoro o bife.

SPEAKER_01

Tu tens gostos de macho. De macho. Heteronormativo. O que é isso? O que é isso? Pedir um bife não há. Mas então eu deveria pedir o quê? Uns filetes de sardinha panados, coisas primeiro estivais, não é? Festivais, estivais, sei lá, um maçor de um badejo, não, nunca vi badejo. Que um badejo? Um badeijo e um peixe. Mas nunca vi na vi na imenta de mas pedir outras coisas, não sei, questão na.

SPEAKER_00

Se me disseste, eu tocava badeijos.

SPEAKER_01

Queria dar-me um badeijo. Um badeijo ou dois? Trago um badejo ou dois.

SPEAKER_00

Olha, um badeijo também é um bom tema para desenvolvermos, sim, sim.

SPEAKER_01

Mas sim, eu lembro-me disso, quando nos conhecemos, e jogavam que éramos um casal, eu tinha gostos heteronormativos. Eu lembro perfeitamente de achar que tu tinhas gostos heteronormativos. Ainda não se falava do hetronormativo.

SPEAKER_00

Não sabíamos o que era. Não sabíamos. Não sabíamos o que era. É possível porque também tenho vindo a abrir o meu paladar, não é? Meu paladar abriu, como sabemos quando se fica homossexual, que não se é, não é? Fica-se. Fica-se. Também o paladar abre.

SPEAKER_01

Quando é que apanhaste a homossexualidade?

SPEAKER_00

Ah, eu diria que foi num verão que foi-me correntar.

SPEAKER_01

Eu pensei que ias falar daquela mordida do Peixe-aranha e já fui apanhado. Ai, que é isto? Fui apanhado pela homossexualidade.

SPEAKER_00

Rui Maria fortaleceu os estereótipos de sítio aqui.

SPEAKER_01

Ai, não acredito. Alerta CM, Rui Maria, apanha a homossexualidade. Apanhou uma sexoção numa praia.

SPEAKER_00

Eu tenho onde é que apanhou a homossexualidade? Bom, eu tinha aí de dar um mergulho. O calor às vezes faz-me ter que me refrescar e pisei um peixe aranha e desde aí gosto de homens.

SPEAKER_01

A sua voz mudou desde aí, não mudou, Rui Maria?

SPEAKER_00

Sim, eu já não. Não, estamos a ter a tipar muito. O que é que eu acho? Ah, estavas a falar sobre os gostos internormativos no contexto da restauração.

SPEAKER_01

Sim, mas podemos sair para as celebrações a sol.

SPEAKER_00

Mas é também, por exemplo, já fui a muitos sítios sozinho porque ninguém queria vir comigo.

SPEAKER_01

Eu gosto de ir sem ti. Também gosto de ir sem ti.

SPEAKER_00

Viajar sozinho, já fui à Islandesa. A primeira viagem que eu fiz sozinho, eu fui estudar espanhol, olha, para Barcelona sozinho uma vez.

SPEAKER_01

Tudo nos está a empurrar por Lacalha, não é?

SPEAKER_00

Lacalha como. A série é re, derrei tudo. Lash catch up.

SPEAKER_01

Divia que estás lipsiquinho, tanto que percebes o fosso que há entre nós, não é?

SPEAKER_00

Mas viajar sozinho é muito bom porque te faz refletir verdadeiramente sobre porque é que estás nos sítios e aquela ideia do ai eu viajo porque eu preciso de, tenho que ir para a Vali descobrir-me. Não, primeiro os demónios vão sempre contigo, os demónios não ficam agora ali na estação de serviço do Vale do Conde, não é?

SPEAKER_01

Eu nunca viajei sozinha. Nunca? Nunca A lun e porque a viagem é algo para se fazer acompanhado para mim, não é? Porque eu já vivo suficientemente dentro de mim. Pois podia querer expandir-me, mas gosto dessa expansão a dois, a quatro, a dez.

SPEAKER_00

Eu percebo e eu vou partilhando com as pessoas que me são próximas, que me são caras ao longo das viagens que faço sozinho, mas eu não tenho muita paciência. Primeiro acho que viajar é muito revelador da dinâmica. Há muitas pessoas de quem gostamos com quem não podemos viajar. Sou a pena nunca mais queremos falar na vida e lhes queremos dar com uma cadeira. E isso é também um equilíbrio periclitante.

SPEAKER_01

A sedência não te agrada, não é?

SPEAKER_00

Não muito.

SPEAKER_01

Enquanto vejo um senhor em tronco nu repara naquela varanda.

SPEAKER_00

Ai, deixa-me pôr os óculos.

SPEAKER_01

Rui Maria neste momento coloca os seus óculos com várias dioptanias.

SPEAKER_00

Embora seja um homem já posso dizer a expressão intradote.

SPEAKER_01

Rui Maria volta a olhar.

SPEAKER_00

Eu volto a olhar porque eu estou sempre com a minha antena localizada.

SPEAKER_01

Ele está a fumar, não é?

SPEAKER_00

Pois, então já não já não dura muito. Quando viajo sozinho, tenho esta oportunidade de olhar para o outro e observar muitíssimo. Mas também me observar a mim.

SPEAKER_01

Para, eu estou aqui e estou a observar o outro, ali na varanda.

SPEAKER_00

Agora estou de costas. Já não está tanto calor esta semana, graças a Deus. Graças a ele.

SPEAKER_01

Mas no entanto a casa daquele homem deve permanecer quente.

SPEAKER_00

Daí ele se está despido à janela.

SPEAKER_01

Marias, olhavam de novo. Cobiçando.

SPEAKER_00

Cobiçando, cobiçando o corpalheiro. Mas eu gosto de viajar sozinho, gosto de jantar sozinho.

SPEAKER_01

Sim, tu vais a espetáculos sozinho.

SPEAKER_00

Adoro ir ao teatro sozinho, adoro ir ao cinema sozinho. E foram conquistas.

SPEAKER_01

Eu acho que reter. Claro que no fim é bom partilhar a experiência, né? Perceber se vimos a mesma coisa. Mas eu gosto muito, agora já não vou há muito tempo sozinha a um espetáculo, concertos, teatro, mas gostava de ter uma. Gostava. Eu fui para aí duas vezes ao talho na minha vida, em Lisboa. Eu não frequento talhos e tu.

SPEAKER_00

Eu também, olha, vou pouco ao talho. Não sei muito bem o que perguntar, acho que tem muita escolha.

SPEAKER_01

Pois é. Nunca sabemos se a carne é boa. Se a carne pode ser efetivamente fraca.

SPEAKER_00

E mais do que isso, eu não percebo nada de cortes.

SPEAKER_01

Pois é. Se é de do acenço, se é da vazia.

SPEAKER_00

Não percebo. Lombo, lombo conheço. Tu és um homem do lombo. Sou um homem do lombo.

SPEAKER_01

Agora não falámos verdadeiramente desta importância de separar.

SPEAKER_00

Eu acho que é uma ponte para ti mesma, não é? Esta ideia de estares sozinha, ok, deparas-te com a falta de não posso partilhar com ninguém o que eu estou a ver, o que eu estou a viver, mas ao mesmo tempo vives na plenitude aquilo que tu queres fazer. O que é muito aliciente.

SPEAKER_01

Mas nós não nos validamos pela partilha. Sim.

SPEAKER_00

Mas ao mesmo tempo também te podes validar na descoberta de te chegares. De ser suficiente.

SPEAKER_01

Ih, chegámos ao fim da semana, amanhã voltamos.

SPEAKER_00

Amanhã voltamos. Amanhã, hoje é quinta-feira, amanhã este é o fim da semana. Amanhã seis tu quem sabe o que poderá acontecer. É melhor ouvir.

SPEAKER_01

Será que aquele homem vai voltar à veranda?

SPEAKER_00

Será que vai tirar o resto do que tem vestido? Deixa-me olhar outra vez.

SPEAKER_01

Ah, desapareceu? Desapareceu.

SPEAKER_00

Não me avisaste.

SPEAKER_01

Até amanhã, Maria. Até amanhã.