Diário de Marias

Um galgo chamado Marlene

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

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Marias olham para a população canina no seu histórico, reflectem sobre gémeos e analisam as razões para a desqualificação de futuras almas...Gémeas. 

Pergunta para o fim-de-semana: se quem amámos fosse hoje melhor pessoa... Voltaríamos?

SPEAKER_00

Diário de Marias de segunda a sexta na futura, e cá estamos nesta sexta-feira. Depois de uma semana em que divagamos sobre isto e sobre aquilo, eu não vivi intensamente, tenho vivido pouco intensamente, porque me permito apenas a estar planar, sim.

SPEAKER_01

Hoje é um dia importante, as minhas irmãs fazem 34, não, 33 anos gémias, fala-se pouco dos gémios, mas eu acho que se calhar temos ouvinte gémios ou gémias e acho sempre que é mesmo um milagre e deve ser uma. Ou seja, eu tenho irmãs, eu já era crescido, já tinha 5 anos quando as minhas irmãs nasceram para ter a ideia de houve um mundo sem elas, não é? Mas tu imaginas que passas pela vida sempre com alguém, não é? Tipo, toda a tua vida, toda a tua leitura do mundo é também através de outra pessoa. As minhas irmãs tinham uma língua delas quando eram pequeninas.

SPEAKER_00

Como é que foi ser irmão de gémias?

SPEAKER_01

Malício. De início dizem que eu sofri bastante afogá-las, não é? Sim, tentei matá-las várias vezes, abanava-as muito e depois diziam que não podia ser.

SPEAKER_00

Não, Rui Maria, se não. Não, um ganiteiro.

SPEAKER_01

A Matilde não pode ser atirada do sofar. Pobre Matilde, já com traumatismo ucraniano aos seis meses, estou a inventar. Mas lembro-me de a minha mãe dizia que tinha quatro bebês em homem simultâneo, que eram os duas gémias, o meu cão pequeno e eu.

SPEAKER_00

Sempre houve cães lá em casa.

SPEAKER_01

Sempre. O primeiro cão que tive era um galgo chamado Marlene. Para quem mordias.

SPEAKER_00

Desculpa, que revolução!

SPEAKER_01

Mas sabias isto?

SPEAKER_00

Um galgo chamado Marlene.

SPEAKER_01

E um cocker spanel chamado Zappa.

SPEAKER_00

Isso pode ser um livro de ficção que vai ganhar um grande prémio de literatura à revolução. Deite agora aqui, usa um galgo chamado Marlène.

SPEAKER_01

Um galgo chamado Marlene, sim.

SPEAKER_00

Eu assim, de repente, mais interessado no Galgo do que nas tuas irmãs. Desculpa, fala-me um pouco do que é.

SPEAKER_01

Era cinzenta, não tenho grande memória, mas eu mordi-lhe e Gal deixava.

SPEAKER_00

Tu é que me mordiava?

SPEAKER_01

Eu mordia a Marlène e a Marlene deixava. Marlene e as pessoas, na altura, portanto, final dos anos 80, início dos anos 90, minha mãe passeava Marlene na rua, a minha mãe tinha 26 anos e trabalhava, pensou na Rádio Renascença.

SPEAKER_00

E o porquê do nome?

SPEAKER_01

Não sei. Marlene Dietrich?

SPEAKER_00

Ruth Marlene?

SPEAKER_01

Mais Marlene Dietrich do que Ruth Marlene, sem desprimor. Para Ruth Marlene, eles olham para a direita e pisca, pisca. A minha mãe atravessava a estrada e as pessoas iam comer ao seu, tem que lá comer ao seu cão.

SPEAKER_00

Percebo? Tem que dar de comer ao seu cão já. Não percebiam a Gbelta, a Marlene que se passeava.

SPEAKER_01

Não, Marlene até um pouco achar aquilo demais, não é? Porque ela fazia questão de se conter.

SPEAKER_00

Marlene então também sofreu com a chegada das gémias.

SPEAKER_01

Eu não me lembro se Marlene ainda era viva. Quando as gémias chegaram, nós tínhamos um Golden Retriever que era o Luca. Luca que era um príncipe. Não, mas era um príncipe. Era um cão que parecia uma pessoa. Tive alguns assim. Pois também tivemos um Xiao que foi oferecido.

SPEAKER_00

Também há pessoas que se parecem com cães.

SPEAKER_01

Tínhamos um cão chamado Shogun que se pabava muito e que andava sempre à pancada com os outros cães do bairro. Era um roceiro.

SPEAKER_00

Tu podias atravessar a tua vida lembrando-te.

SPEAKER_01

Dos meus cães todos. Tive um cão com epilepsia, que era o azeitona. Foi mordido na cabeça quando era pequenino.

SPEAKER_00

E não foste tu?

SPEAKER_01

Não, foi o cão do meu tio Jorge, que o mordeu porque foi uma história um bocado triste. Nós nos. Olha, eu e as minhas irmãs queríamos muito um cão, pequenino, novo. Então, os meus pais, a minha escola, uma das nossas professoras teve uma ninhada, melhor, cadê ela dela? Teve uma ninhada de cães e, acho que se não me engano, a Luísa Vien e teve os cães e nós ficámos com um dos cães. Mas era segredo e era presente de Natal. O cão foi azeitona passar 23 a casa do meu tio. Jorge. E o cão dele atacou a azeitona e mordeu na cabeça. Então eu recebemos no Natal o cão dentro de uma caixa, tipo em. como se fosse um presente, não é? Meteram-me dentro da caixa. Não, todo cozido. Não é verdade. Cheio de coitado sem se mexer e nós sem podemos trocar muito no cão, não é? Porque o cão, eu tinha pai, aquele lá, 10.

SPEAKER_00

Cremos sem defeito.

SPEAKER_01

Queremos que ele brinque, ele não brinca. E ele era muito engraçado e tinha Pelepsia depois um dia que desapareceu. Fugiu de casa. Já farto, provavelmente. Claro.

SPEAKER_00

Estes miúdos dão-me cabo da cabeça.

SPEAKER_01

Tive um cão chamado Benoron.

SPEAKER_00

Benuron.

SPEAKER_01

E depois tive o Trufa, tive o Bento. O Bento acho que chegaste vagamente a saber que existia. Sim, sim. Vive a minha casa. Tivemos várias atualmente. Tenho o Blanco e o Bosco.

SPEAKER_00

Muito bem.

SPEAKER_01

Mas Marlene. Marlene foi a única cadela. Porque desde aí que não tivemos mulheres. Forte.

SPEAKER_00

Bom, onde é que nós íamos mesmo? Havia um bocadinho.

SPEAKER_01

Nós falámos de gémios e de como há sempre um génio solar, isto está mesmo provado, um génio sol e um génio Lua. Há sempre um desequilíbrio, é como se fossem metades.

SPEAKER_00

Sem revelar mais, mas isso nas tuas irmãs é evidente.

SPEAKER_01

É, é. Uma é mais interior, outra tem uma personalidade mais expansiva, mas é uma coisa que eu acho que é menos marcado em géneros diferentes. Quando é o mesmo género, ou se são gémios desigóticos, ou então gémios verdadeiros, não é? E isto deve ser muito estranho ser um gémios verdadeiros, minhas irmãs não são, que é alguém igual a ti. Tipo as gémias Ana Moreira e Margarita Moreira. As tuas irmãs são falsas. Tu achas muito parecidas?

SPEAKER_00

Acho. Eu não acho assim muito, são parecidas. Mas lá mal que tu, apesar de tu convives com elas há 33 anos, não é?

SPEAKER_01

Pois é, é se por menor. Mas sim, acho os gémios um tema muito interessante. Fala-se pouco, eu acho.

SPEAKER_00

Achas que chegou a ser traumatizante para ti?

SPEAKER_01

Claro, eram dois bebés em vez de um.

SPEAKER_00

Já não te bastava um, não é?

SPEAKER_01

Dois.

SPEAKER_00

Lembras-te? Não te deves lembrar do momento em que te disseram que ias ter não um, mas dois.

SPEAKER_01

Levaram-me. Não, a minha mãe achou quando lhe disseram que o médico disse-lhe Estou aqui a ver dois corações. E uma mãe disse, não acredito que o bebê tem dois corações! Como se tivesse um problema de saúde grave. Não, não eram.

SPEAKER_00

Seria alguém que hoje a tua mãe poderia entrevistar.

SPEAKER_01

Exatamente.

SPEAKER_00

Com dois corações e há gente que cresce sem coração nenhum.

SPEAKER_01

Como é que se atreve? Não eram dois bebés. E eu lembro-me de ter 4, 5 anos e de ir ver a minha mãe ao hospital e de chorar muito porque achei que ela ia morrer. Não ia ter as minhas irmãs. Alguma queda para o drama?

SPEAKER_00

Alguma, alguma.

SPEAKER_01

Mas nunca pensaste em ter gémios? Passou-te pela cabeça quando estavas grávida de marinês que poderiam ser dois?

SPEAKER_00

Nunca me passou pela cabeça. Imagina se eu já não queria muito ser, nunca tinha pensado nessa situação. Não querias ser mamãe? Não queria ser mamãe, portanto de repente atirarem um galeteiro para casa seria complicado, não é? Até porque eu não tive muito apoio para cuidar, para criar a minha filha, não é? Imagina duas. Bom, mas percebo que seja fascinante perceber as temperaturas diferentes de cada um ou de cada uma. Os temperamentos que por vezes se fundem.

SPEAKER_01

Se fundem e depois há grandes cismas. Os gémios têm grandes sismas e depois há fases. Há umas fases em que, por exemplo, nós dizíamos as gémias para tudo fosse uma unidade.

SPEAKER_00

Exato, sem nome.

SPEAKER_01

E faziam umas birras enormes.

SPEAKER_00

Também vestiais de igual, não, felizmente.

SPEAKER_01

Não, quando eram muito pequeninas, sim, mas depois mais não. Elas tinham as duas muita personalidade, portanto, não. Mas os bonecos tinham que ser sempre a dobrar, é sempre tudo a dobrar. E eu também queria bonecas. E tu dizias, eu não sei. Não é mais possível. Mas isto para dizer que se calhar esta ideia, há pessoas que os meus pais diziam sempre que a minha mãe é a filha única, and my pai tem a irmã. Jorge. Jorge. Andseriam é que nós não tivéssemos irmãs. Eu já tinha uma irmã, Sofia, butsemos irmãs as idade. And I think it's very important to have irmãs, no entertainment. Fantasei much in seriously. Ainda hoje era muita gente. Hoje já não.

SPEAKER_00

Irmãs who are mães.

SPEAKER_01

Carolina vai ter um bebê, Matheus já teve. Sou o tio Rui Maria. Tu gostaste de ter irmãos, também fantasiaste com a Cilha Única?

SPEAKER_00

Eu gosto muito de. Eu sou a irmã mais nova, eu gosto sobretudo gosto muito mais do meu irmão hoje do que quando éramos miúdos. O meu irmão tem uma diferença de seis anos e estava naquela idade Parva, não é? Sempre à minha frente, embora tenha sido precioso para me munir de conhecimentos vários culturais, artísticos e outros, não sei quais. Mas sim, eu aproximei-me muito do meu irmão, sobretudo depois da morte da minha mãe, e portanto o meu irmão.

SPEAKER_01

Só ele é que percebe o tamanho da tua dor, não é? Será isso?

SPEAKER_00

E do meu humor. Ele tem um humor muito semelhante e portanto gostamos de trocar galhardetes.

SPEAKER_01

Mas também é por aí, não é? A partilha na dor na dor, na alegria, mas esta coisa de não tens que arcar com a dor toda sozinha, não é?

SPEAKER_00

Primeira vez que dizemos o verbo arcar neste programa. Mas sim, nunca pensei muito nisso, nessa questão de ter irmãos, até porque depois de mim não houve mais nada, não é? Mais ninguém.

SPEAKER_01

Não queria haver mais ninguém que foste tu.

SPEAKER_00

Claro, eu no fundo era o galgo chamado Marlene. E pronto. Queria dizer mais qualquer coisa, mas não consigo lembrar-me.

SPEAKER_01

Tinha a ver com irmãos, com gémios? Com gémios, com génitos.

SPEAKER_00

Não sei.

SPEAKER_01

Imagina que as minhas irmãs tinham nascido ciamesas. E que estavam ligadas Verdadeiramente pela bochecha. A Palenad é mais fácil de cortar. Mas de vez em quando há aquelas histórias de alguém que casou só com uma delas, não é? Então de repente estão irmãs de ciamesas e ele casou só com uma da esquerda. E vivem vidas a três. E ela nem quer, coitado da outra, nem queria estar ali. Imagina, nem gosto de ele.

SPEAKER_00

Sante esse tema muito Fascina-me lenciano. Ah, não, já sei o que é que para terminar, porque não temos muito mais tempo. Temos todo o tempo. O que é que acontece? Imagina que tu encontravas depois desse banho de alma gémia.

SPEAKER_01

Há pouco falámos, falámos no outro dia, não falámos hoje.

SPEAKER_00

Falámos no início da semana, já não me lembro quando, mas falaste de um banho que atrai a alma gêmea. E se esse homem, vou imaginar que é um homem, te aparece lindo, lindo, interessantíssimo, mas diz Rui.

SPEAKER_01

Já vivi coisas semelhantes. Alguém que dizia Rui. Teria que ser forte, mas também teria que abrir a porta à possibilidade, não é? Teria que ser surdo.

SPEAKER_00

Rui! Olhar para baixo, Rui, anda a beber o café.

SPEAKER_01

Pois, há coisas que desqualificam, mas eu acho que quando o amor é real e, obviamente, depois de tomar este banho.

SPEAKER_00

Real?

SPEAKER_01

Obviamente que sim. Se calhar os erros são um dos fatores que poderia ponderar. Isto tem tudo para correr bem. Mas não vai correr. Não sei, Inês, eu tenho que também começa a ficar entradio, não é? Tenho que começar a abrir um bocadinho o meu leque, ou não?

SPEAKER_00

Não.

SPEAKER_01

Ou será que tem que ser ainda mais exigente?

SPEAKER_00

Mais exigente.

SPEAKER_01

Então imagina que, como tu quando andas na rua e pisas sem querer, uma pastilha elástica, este bem alma gêmea faz com que pessoas se colhem a mim na rua e colam homens que não são recomendáveis. O que é que desqualifica na tua opinião um homem logo?

SPEAKER_00

Não cheirar bem.

SPEAKER_01

Não lavar as mãos.

SPEAKER_00

Quando vai à casa de banho. Não aceitar esquivar-se à conta.

SPEAKER_01

Esquivar-se à conta? Do que jantar? Sim. Mas tem que ser sempre a pagar. Não, para partilhar. Achar estranho, estava a achar muito século XIX.

SPEAKER_00

Inventaram um pretexto para.

SPEAKER_01

Ai, acho isso horrível. Sim, sim. Não tem dinheiro e.

SPEAKER_00

Não, esquecimos a carteira. Esquecimos a carteira.

SPEAKER_01

Ninguém faz isso hoje em dia. Faz. Esqueci uma carteira quando tens tudo no telefone. É verdade. Agora foi um bocado século XX.

SPEAKER_00

Podíamos chegar aqui o resto de cara.

SPEAKER_01

Desconificação, mais do que nunca. É importante também dizer uma coisa estou a sentir a vibrar. Alguém que não consegue pousar o telefone e olhar-te nos olhos.

SPEAKER_00

Já te aconteceu? Já.

SPEAKER_01

Já aconteceu. Eu houve uma fase que eu tive assim um, curiosamente, uma. Posso contar aqui, não faz mal. Um romance de verão em Nova York com um homem chamado, não vou fazer o nome, mas que é jornalista e é palestiniano. E na altura tinha muito pouca informação sobre a Palestina e provavelmente teve tido disparates. Entretanto, fui aprendendo. Ele há pouco tempo esteve preso no Kuwait. Ele é jornalista e trabalhou para a Algezira, para a CNN, etc. E lembro-me que ele, embora fosse muito interessante e fascinante, não parava de mexer no telefone o tempo todo. Eu já estava a almoçar com ele e ele estava só a olhar para o telemóvel. Não, era mesmo falta de interesse. Aliás, era um vício, eu acho que ele tinha um vício no telemóvel, como muitos de nós temos, mas ele não conseguia parar. Eu acho que ele também se transformou num homem mais interessante do que era, provavelmente à época, isto foi há mais de 10 anos. Mas lembro-me que ao ver aquilo pensei, isto é coisa mais tens que regar as relações, tens que ser capaz de investir. Eu já não estou numa fase em que acho graça, opa, não consegue responder mensagens, sabes como é que ele é ali o ato? Não, eu só não quero saber.

SPEAKER_00

Isso era um tema interessante até para a escrita, o cinema, e se todas as pessoas com quem andamos fossem agora melhores pessoas, nós voltaríamos. Vamos deixar esta pergunta assim no ar. Todos vamos pensar na pequena comunidade Maria de Deus. As Marias vão pensar nisso. E se todas as pessoas com quem andámos fossem agora melhores pessoas voltaríamos a andar com elas?

SPEAKER_01

Bom fim de semana. Bom fim de semana, parabéns às minhas irmãs, Matilda e Carolina. E a todos os gémios e gémias. Ascendentes gémios. Eu também. Joaca! Não sabia, já falámos isto outro dia. Ascendentes gémios, as duas. Marias. Tchau.