Diário de Marias

Diário de Marias, a Oitava Semana

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

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Depois de reformarem a palavra "canícula", Marias debruçam-se sobre novos universos. O síndrome do Caranguejo, "A Vila" de M.Night Shyamalan, sittings em casamentos, o NOS Alive, viagens e vidas a solo, pessoas indecisas, fricções entre gémeos e a descoberta de um galgo chamado Marlene. Tudo cabe nas páginas deste diário com novas entradas, de 2a a 6a, na Futura Rádio de Autor e plataformas.

SPEAKER_03

Diário de Marias de segunda a sexta da futura Maria, boa segunda-feira a todos os ouvintes da futura, hoje os dois com vozes profundas, pois vivemos fins de semana tremendos, alucinantes, deixa-me que te diga que tem sido de facto um exercício.

SPEAKER_06

Porquê é que estás com esse cabelo?

SPEAKER_03

Então, eu cometi o erro.

SPEAKER_06

Deixa-me dizer que tu estás metade de loiro, metade de cabelo escuro.

SPEAKER_03

Numa alusão a Cruella de Vil.

SPEAKER_06

É essa a intenção? Sim. Ah, é mesmo?

SPEAKER_03

É, era a minha inspiração. Cruella de ville, Cruella de Ville. Teatro Musical. Senti o náumatas onde estão. Aqui não. Bom, eu fiz este cabelo para o Rinoceronte, peça, espetáculo, que fiz com o Teatro da Garagem há três ou quatro meses.

SPEAKER_06

Aqui há atrasado.

SPEAKER_03

Aqui há atrasado. E fiz uma audição para uma série com este cabelo. E não é que provavelmente a razão porque fiquei, não foi o meu talento. Mas uma das razões foi que gostamos muito deste cabelo. Então eu fui escolhido, entretanto, o meu cabelo voltou ao normal, não é? Fiquei moreno outra vez, tive de o rapar, etc. E tive de voltar a pintar para dar corpo à personagem que eles criam.

SPEAKER_06

Isso no fundo é um bocadinho como aquelas pessoas que querem fantasiar na cama, não é? E pedem-te para usares não a ti, Maria.

SPEAKER_03

Uma bola de ténis na boca?

SPEAKER_06

Ou assim, ou aquelas pessoas que usam óculos e podem ser secretários, todas as secretárias têm óculos, como sabemos. Todas, as bibliotecárias, não é?

SPEAKER_03

É sempre como um casequinho de malha.

SPEAKER_06

Na cama pode ser a mais, não é?

SPEAKER_03

Se for na Suécia, talvez não.

SPEAKER_06

Mas é um bocadinho isso, portanto, fantasiaram contigo assim com a Cruella de Vill e pediram-te para continuares a ser Cruella de Ville.

SPEAKER_03

Sim, portanto, quando cheguei a Madrid, fui de imediato levado para um fitting, coisa que fui contando aqui na semana passada, como tu dizias aqui há atrasado, e o fitting, isto era uma produção grande com muitos profissionais, e portanto consegui tirar umas fotografias que não posso nunca mostrar a ninguém, porque assinei o quê?

SPEAKER_06

Um acordo de confidencialidade.

SPEAKER_03

Lá está. Nós já temos o nosso próprio léxico neste programa. Contrato de confidencialidade já é um dos termos mais utilizados.

SPEAKER_06

Há uma semana sem acordo de confidencialidade, nem sem a palavra Bruxa. Bruxo.

SPEAKER_03

Bruxo. Fui lá, fui levado e fui logo a tratar do cabelo, portanto, acordei às quatro e meia da manhã e depois fui logo levado para fazer este tratamento. E pronto, depois fiquei alguns dias à espera de filmar e sexta-feira finalmente filmei.

SPEAKER_06

O que é, percebem? Porque há aqui um acordo de confidencialidade, mas que ele fez alguma coisa, fez. É certo que fez.

SPEAKER_03

Fiz e foi muito feliz. Com nomes conhecidos. Com nomes que enchem a boca, confesso. Não, mas fiquei muito contente a representar o meu país. Entretanto, quando acabei, ou seja, foi um momento muito bom, trabalhei com alguém com quem sempre quis trabalhar e tive uma sensação de que acontece mais vezes isto, isto pode ser mal interpretado, mas acontece mais vezes isto, que é eu não tenho medo. Ou seja, estou muito, fico nervoso um bocadinho no início para explicar quando se vai filmar uma cena, ou quando se vai trabalhar numa cena em cinema ou em televisão, normalmente fazes uma coisa que é o blocking, que é marcar a cena. Onde é que as câmaras vão estar, onde é que nós vamos movimentar, e eu fiquei um bocadinho nervoso quando vi esta personagem entrar pela porta e depois passou-me.

SPEAKER_06

Esta pessoa cujo nome não podemos revelar.

SPEAKER_03

Cujo nome jamais será pronunciado até estrear a série em 2027. Acho eu, que é quando estreará, não sei.

SPEAKER_06

Eu também não posso dizer que sei, não é?

SPEAKER_03

Não, tu não sabes nada.

SPEAKER_06

Eu não sei nada.

SPEAKER_03

Nem eu sei. Eu nem estive lá. Bom. E não tive medo. E foi muito curioso, porque eu acho que grande parte dos nossos medos e das nossas capacidades de acreditar no nosso próprio potencial vivem do contexto, sobretudo. Se eu achar que na minha rua não há nada para além da minha rua, eu acredito que a minha rua é o único ecossistema que existe, sem saber que há outras ruas ao pé, onde eu se calhar serei mais feliz. E acho que muitas vezes, infelizmente em Portugal, temos esta coisa de pensar pequeno, achando que conhecemos tudo o que cá na nossa rua. Quando há muitas outras maneiras de poder trabalhar, e portanto, forçosamente há outros olhos olhando para nós que nos veem de outra forma.

SPEAKER_06

Estava-me a lembrar daquele filme do Chay Amelin, A Vila.

SPEAKER_03

Ah, sim, a vila é um ótimo exemplo disso.

SPEAKER_06

É, não é? É, desculpa. Vamos lembrar, há uma comunidade que vive como se fosse?

SPEAKER_03

Amis não têm eletricidade e vivem naquela coisa. Mas tu não só percebes que é uma comunidade no fim. Porque o filme é todo acontece nesta vila e no fundo, como é que elas pessoas não sabem que existe um mundo para além da vila.

SPEAKER_06

Imagina, alguém fica doente e não pode ter tratamento porque não há mais, só existe aquele mundo.

SPEAKER_03

Imagina eu com os minhas amigolites e iam dar uns galhos para mastigar, provavelmente.

SPEAKER_06

Uns galho.

SPEAKER_03

Mastiga aqui este galho.

SPEAKER_06

Sim, sim. Já olhei, eu fiz chamar outras crianças.

SPEAKER_03

Enquanto pai puxado de tanchagem, recomendado por uma bruxa.

SPEAKER_06

Que é o segundo termo que nós usamos: a miúde. Mas a vila de facto é um bom exemplo porque nós, quando não saímos da vila, ficamos confinados à vila e o nosso pensamento também muito enviesado e estreitado, não é?

SPEAKER_03

Tu crescer em Mindele sentias isso?

SPEAKER_06

Não, é diferente, talvez, porque como acho que já contei aqui também, e tu sabes, não é? Nós fomos durante muito tempo sempre as pessoas que foram para Mindele. I asked as pessoas nem sabiam de onde é que nós tínhamos vindo. But nós fomos durante decades os senhores da Casa Nova. Isto é muita piada, também podia ser uma série. Já tinham passado 40 anos, ainda éramos os senhores da Casa Nova porque tínhamos vindo de outro lugar.

SPEAKER_03

Mas é muito curioso o olhar sobre vocês é aqueles que vieram de fora, apesar de já cá estarem há 40 anos.

SPEAKER_06

Sim, sim. Acho que nunca me senti limitada, mas tem graça, porque estávamos a falar já, entretanto já saltámos do Chia Malan, já passámos para mim dele e estava a lembrar-me dos anos que foram muitos em que eu escrevi o Sexo e a Cidália, que era aquele pseudónimo bastante despodurado, picante. Picante, picante, uma palavra que já não se usa. Gostava que se houvesse mais. Ah, é muito picante, cena picante. E repara, eu fui muito livre nos primeiros tempos, porque ninguém sabia que eu era a Cidália. Aliás, a maior parte das pessoas achavam que era um homem. E depois, quando a pouco e pouco começaram a saber que era eu, eu comecei a refriar. Eu lembro-me perfeitamente de ter como referência, quando a minha mãe me disse, a tia Maria do Céu já sabe que tu és a Cidália. Eu passei a escrever-se manalmente a cruzar a pensar o que é que a tia Maria do Céu vai achar sobre isto. Portanto, nós todos temos várias tias Maria do Céu na nossa vida, não é? Tu cá em Portugal e em Lisboa, porque é onde vivemos, acabas por te sentir um bocadinho limitado por este olhar de comunidade, privilégio. Eu gosto sempre de sublinhar isto: comunidade de privilégio where vives, but conheces toda a gente, a gente sabe que tu és conhecido anda conhecida.

SPEAKER_03

E há uma leitura predeterminada, portanto, mesmo que até haja disponibilidade para te ver de outra maneira pontualmente, acho que existe. I think nós temos instints very básicos ofrece andar para nos sentirmos mais calmos, não é? Eu já percebi mais ou menos como é que isto funciona. Tem alguns amigos assim que veem logo isso. Mas essa coisa do anonimato, porquê que eu fui estudar para fora de Portugal? Porque se eu tivesse estudado em Portugal, eu teria sofrido três vezes mais, porque não me conseguiriam ver descolar da pele daquilo que me tinham atribuído antes. Ele tocou agora nas flores. Parece eu com os guizos quando é Natal e eu vou lá para fora e as minhas sobrinhas acreditam no Pai Natal e uns guizofos, sou eu. E encontra as coisas. Sim. Eu sou um pai natal alemão.

SPEAKER_00

Alô, Vigues! Alô, Freia Francisca Bendita!

SPEAKER_03

Porque está a Roncibeste e Ana, com os óculos de só porque vim das Caribas. Posso contar porque as minhas irmãs não ouvem o Diário de Marias, as minhas irmãs nas minhas sobrinhas.

SPEAKER_06

Mas o anonimato dá essa força. Mas teras o triplo trabalho para provar que és talentoso e não és só filho ou sobrinho de novo.

SPEAKER_03

Mas da mesma maneira que para ti, eu acho que acontece isso nos países pequenos. Eu acho que falámos disto no outro dia, que é aquele síndrome. Tenho amigos australianos que estudei com eles na escola que me falavam sempre do síndrome australiano dos caranguejos, que é um australianos são assim: um balde está cheio de caranguejos, e os caranguejos estão todos a tentar sair do balde. E os australianos, em vez de ajudarem o outro caranguejo a sair, portanto, se um sai, os outros vão poder sair, puxam-no para baixo.

SPEAKER_06

Impedir agora não sai ninguém.

SPEAKER_03

É um bocado isso, que é a ideia de alguém se evidenciar é péssima. Em vez de ser wow, é um bocadinho também podemos trapelar isto para Cristiano Ronaldo, que é uma figura muito pouco consensual, hoje em dia mais do que nunca, mas há uma certa, há sempre 23 leituras a mais sobre o Cristiano Ronaldo, porque primeiro temos muito poucos acontecimentos do género, mas temos logo imensas opinions.

SPEAKER_06

Também porque é que todos temos públicas as nossas opiniões sobre o Cristiano Ronaldo. Parem!

SPEAKER_03

Sim, não quer saber.

SPEAKER_06

Deixem o homem ser independentemente de gostar ou não gostar, quero lá saber, não é?

SPEAKER_03

Pois, mas decidimos, o anonimato tem essa beleza de tu poderes de facto forjar a opinião que quiseres, não é? Aquela coisa que aconteceu, vou mudar de terra e vai tudo mudar. Hoje em dia isso já não existe, porque tens uma pegada digital que te segue onde é muito mais de. Se calhar forjar a tua própria morte. Forgarias a tua própria morte para recomeçar noutro. Como é que te chamarias noutro sítio? E a Neida? É um bom livro, essa Ineida.

SPEAKER_06

Escusado será dizer que na vila alguém descobriu que havia vila após a vila.

SPEAKER_03

Sim, que havia uma autostrada a passar ao lado, se bem me lembro.

SPEAKER_06

Um muro, não era? Ua autostrada, uma estrada assim. Sim. É muito interessante. Era um filme a rever.

SPEAKER_03

Sim, um filme a rever.

SPEAKER_06

É o conselho de Marias para hoje, para esta segunda-feira.

SPEAKER_03

Reveja a vila de Amnight Shimalion.

SPEAKER_05

Ai, tal, deu-me uma chamalayan que tu.

SPEAKER_03

Tu sabes que eu não sei o que é que aconteceu, que eu até tive que me sentar. Deu-te uma chamalagem. Deu-te, deu-me uma chamala.

SPEAKER_06

E qual é esse chá? Como é que se chama esse chá?

SPEAKER_03

Tanchagem. É um chá para as questões respiratórias.

SPEAKER_06

Onde é que tu foste comprar isso? Ou contamos amanhã?

SPEAKER_03

Fui a Irvanaria Angolana. Posso contar?

SPEAKER_06

Amanhã contas.

SPEAKER_03

Até manhã.

SPEAKER_06

Até amanhã, Maria.

SPEAKER_01

Diário de Maria de segunda a sexta na futura.

SPEAKER_06

Olá Maria.

SPEAKER_03

Olá Maria, boa terça-feira.

SPEAKER_06

Tressou?

SPEAKER_03

Tressou e ter solhos, não é?

SPEAKER_06

Não estão muito em voga os terceiros.

SPEAKER_03

Às vezes tenho, eu descobri que tinha uma alergia a pessoas com narizes grandes, imagina agora que não tinha nada a ver.

SPEAKER_05

Mas eu sou intolerante.

SPEAKER_03

Sou intolerante a narigudos, por acaso não, até acho bastante interessante. Isso é um bom tema. Falámos de grooming masculino a acabar a semana passada, não falámos sobre coisas que nos atraem em homens. Um nariz grande é um risco.

SPEAKER_06

Pode ser se falarmos de um Adrian Brodie, mas não pode ser se falarmos de um Gerardé Pardia, não pode ser batatudo.

SPEAKER_03

Sabes que há um ator chamado José Fidaldo que tinha problemas de respiração e portanto fez um nose job, um rinopolismo e batatou? Eu achava, eu continuo a achar bonito, mas ele tinha um narigão, e isso era de facto algo que deixava muita gente com chama Lions com nariz em risco, não é? Com nariz em riste, e o nariz é uma coisa importante, gosto de pessoas com pestanas, homem demasiado pestanudo, eu sou um bocado pestanudo, não é? Já chego eu e pronto, e reparo que não falar de sandálias esta semana. Não falemos de sandálias, mas viveste um casamento este fim de semana.

SPEAKER_06

Eu vivi, mas não te esqueças que ontem falaste na Hervanária Angola, não te foste?

SPEAKER_03

Pois é.

SPEAKER_06

Foste comprar o chá de tanchagem.

SPEAKER_03

O chá de tanchagem que trouxe num cantilo para ir bebendo ao longo deste diário de Marias esta semana. É o chá que me acompanha, para deixar o meu sistema respiratório.

SPEAKER_06

Ao que vens. É um bocadinho que dizes.

SPEAKER_03

Estás a dizer que é homossexual a minha Rafa.

SPEAKER_06

É um bocadinho homossexual.

SPEAKER_03

É a agenda gay. Eu quando posso, meto. É o cantil gay. Sim, cantil gay e está ali.

SPEAKER_06

Essa é um verbo, não é? Eu cantilguei.

SPEAKER_03

Tu cantilgaste, nós cantilgamos toda a noite.

SPEAKER_06

Fala-me da ida, então há.

SPEAKER_03

Cheguei a Ervenária Angolana, não sabia o que esperar, descobri no Google Maps, entrei e uma senhora de cabelo farso estamos a falar da zona do ali perto do mercado de arroios, onde há um sírio libanês bastante bom. Nós conhecemos e entrei na Ervanária Angolana e deparei-me com imensas coisas que me deixaram logo entusiasmado. Vinha à procura do chá de tanchagem, minha senhora, Osu, sim, sim, tem chá de tanchagem? Tem, e havia validíssimos taparues, tipos de chá de tanchagem, entre outras coisas. Mas o que apanhou o meu olho foi o olho, mas contra ele me preparei. Pois olhei, havia uma espécie de banca de incensos para o santo, e preparadozinhas para banhos, banhos para atrair o amor, banhos para a saúde financeira e a prosperidade, banhos para todo o tipo de coisas, e eu confesso que não resisti e comprei dois pacotes: um para arranjar a minha alma gêmea e outro para comprar para esta parte da prosperidade. Perguntei como é que eu faço isto? Eu que provavelmente agora a esta hora estão a perguntar na Rádio Futura: como é que isto se faz? Então vos explico. Disse-me, não arranja um taperão de plástico, tem que ser algo, por exemplo, como cerâmica.

SPEAKER_06

Houve essa advertência.

SPEAKER_03

Porque o microplástico afeta muito a prosperidade, ferva, este preparado, em pouca água, em alguma água, porque depois vai ter que deitar do pescoço para baixo. Portanto, faz o seu banho, faz a sua higiene prévia prévia e depois deixa cair sobre si este banho que tem este preparado mágico para atrair a prosperidade e o amor. É um bocadinho aquela lógica do nunca fiz.

SPEAKER_06

Mas ao mesmo tempo.

SPEAKER_03

Não, são dias diferentes. Não se pior que isto há para três vezes, porque eu achei um bocado caro. 9€.

SPEAKER_06

Tu achaste caro?

SPEAKER_03

Achei caro porque acho que a prosperidade tem que ser mais barata.

SPEAKER_06

Então tu vais atrair coisas a triplicar. Pronto. Às vezes eu não especifiquei o quê, não é?

SPEAKER_03

Sim, deixemos ficar por aí. Mas achei que a Ervanária Angolana tinha muitas opções e um Baiaja.

SPEAKER_06

A Ervanária Angolana.

SPEAKER_03

Um Baiaja dá-me vontade de arrancar esta guia do meio.

SPEAKER_06

Se nos ouvem aí.

SPEAKER_03

Olá, Ervanária Angolana. Dá para ver no site que tachás é que têm.

SPEAKER_06

Neste momento, esta Maria que se apresenta junto a mim com o seu cantilegay já se banhou em prosperidade.

SPEAKER_03

Não banhei porque estive em Madrid, onde estavam aproximadamente 47 graus.

SPEAKER_06

Viajaste com os chazes?

SPEAKER_03

Viajei, ele veio-me o meu mal de porão para vos chá. E tive que fazer o chá no hotel. Mas o chá de tanchagem. Eu achava que era transagem, mas porque achei que disse uma carina de um cavalo.

SPEAKER_06

E qual é a diferença maior em ti?

SPEAKER_03

Sinto os pulmones mais leves.

SPEAKER_06

Certo. Depois queria muito que o trouxesse aqui o teu relato de viva voz de todas as coisas.

SPEAKER_03

Mas parece um bocadinho que estou a fazer promoção ao banho mágico. E isto cada um sabe si.

SPEAKER_06

É verdade, abraçamos a mudança. Falavas aí do casamento onde eu estive no fim de semana. Que é lindo.

SPEAKER_03

Adoro o Convento de São Paulo. Serra Serra Dossa ou Serra da Ossa?

SPEAKER_06

Serra Serra Dossa? Ainda a Saragoça. Desculpa. Reguemos. Bebi Martini e Rosso. É muito engraçado porque quando me perguntavam Martini e Bianco, Martini e Rosso, há sempre um certo picante em dizer rosso, não é?

SPEAKER_03

Rosso. Eles estive a idade, mas não. As bebidas denunciam se aquela pessoa vai ser interessante ou não de conversar, na tua opinião. Tu que estiveste em a menacavaqueira, com uma expressão que me dá vontade de entrar este tempo. Estive. Mas as bebidas que as pessoas escolhem.

SPEAKER_06

Sabes que eu por uma bandeja alcoólica fico muito indecisa, não é? Eu ponho o meu dedito indicador junto ao lábio e sou capaz de ficar a olhar e a dizer não sei, não sei. E depois apenas escolhi o Martini Rosso. Mas isto para falar de, e já não temos muito tempo, Maria, um casamento com muita gente, muita diversidade. Eu aplaudo a diversidade, não é? Obrigada, obrigada. Viva! Há uma coisa, porque tu ontem falavas em nervosismo, ficar com receio, há uma coisa que eu estava a pensar e depois não desenvolvi, porque me deu uma chaia malan, não é? Chama a Lion Alaian, eu fico nervosa com o sitting, eu não sei se acontece aos nossos ouvintes, mas não saber quem é que vou ter ao meu lado deixa-me muito nervosa e apreensiva, porque se apanhar uma seca do caraças, eu não tenho ali ponto de fuga, percebes? Eu adoro saídas de emergência. Eu sou uma mulher que adora saídas de emergência, a aeromoça.

SPEAKER_03

És uma mulher de saída de emergência. Sou uma mulher de saídas de emergência. Portanto, quando entras no lugar de cochinas, eu também sou uma mulher de cochia. Cosquia de frango. Aquela prisão de cochia. Estabelecimento de prisional de coxias. Bom, essa questão das saídas de emergência é algo que fazes sempre, tipo ver onde é que é uma saída de emergência.

SPEAKER_06

Sim, sobretudo depois de ter tomado umas substâncias que me deixaram um pouco com a mente paralisada, mas isso já foi há muitos anos. Mas o seating, de volta ao seating, para não desenvolvermos muito, pode ser uma tragédia. Pode ser uma agonia em câmara lenta. Ficar ao lado de alguém que é um secador, não é?

SPEAKER_03

Mas é pior estar ao lado de uma pessoa que seja um secador porque é um secador ou pessoas que não têm curiosidade pelo outro. Esta é um bocado a conversa que me atravessa à semana. Eu pensei muito sobre isto no fim de semana que estive numa live, falarei disso amanhã, mas esta sensação de que se tu não tens curiosidade pelo outro, não consegues estabelecer uma conversa que vale a pena. E nós os dois falamos com pessoas profissionalmente, fazemos programas de conversas. Tenho sempre esta sensação de que se as pessoas não têm curiosidade pelo outro, o secador só se amplia. Pode ser só uma pessoa que gosta de selos, de filologia, mas pode ser curioso, pode ter paixão por isso.

SPEAKER_06

Há uma diferença, eu evito ao máximo essas pessoas que não têm curiosidade nenhuma no outro, são as pessoas que eu deixo. Eu não estaria de fora da minha arca de Noé, sem dúvida, mas com essas pessoas que não têm curiosidade no outro, pelo menos eu posso continuar entretida com o meu Martini e Rosso. Eu e o meu roço. Como dizer isto, manter-me séria. Com as pessoas que me dão seca, que falam muito e que são aborrecidas, eu fico imediatamente sóbria. Percebes?

SPEAKER_03

Sim, retira-te do momento e de repente não consegues reparar em mais nada cena chatice.

SPEAKER_06

Entre o secador e as pessoas que não têm curiosidade nenhuma no outro, ainda assim, pelo menos essas que não têm curiosidade em mim, continuam a deixar que eu seja eu, eu e o meu roço.

SPEAKER_03

Quem te está seca invade-te. Sim.

SPEAKER_06

E anula a minha euforia, nem que seja momentânea.

SPEAKER_03

Mas o que é que te está seca verdadeiramente?

SPEAKER_06

Pessoas que falam muito e com todas as vogais muito pronunciadas, não é? Que falam sem parar dos seus projetos, das suas viagens.

SPEAKER_03

A criptomoeda não dá.

SPEAKER_06

Pessoas que falam dos seus projetos, não sei, pessoas que não se riem, sobretudo, não é? Pessoas que não. Eu própria estou a falar e já me estou a rir, o que acontece aqui, não é? Imagina, tirar para a mesa uma palavra, foi a palavra roço, não é? E eu rir-me com isto e olho em volta na mesa e há mais duas ou três. Não, há duas ou três pessoas que também se riram. As outras é como se não fizessem parte da tua equipa e tu à medida que vais vivendo vais escolhendo as pessoas que fazem parte da tua equipa. Pode ser um disparate como este.

SPEAKER_03

Eu acho que isso faz todo o sentido. Porque não falam a tua língua, portanto é uma espécie de desperdício de energia, não roçam em ti, nem contigo. É isso.

SPEAKER_06

Quem não roça connosco.

SPEAKER_03

Não pode ir longe. Roçadeira também é algo importante, mas cuidado, que está calor, não podemos usar a nossa roçadeira a todas as horas. É um alerta. Tu usas a miúdos minha roçadeira. Tenho usado pouca minha roçadeira. Confesso que eu sei que também me tinhas receitado um hidrocolon semana passada, no meu dia de filmagens, não tive oportunidade, porque sei-me de cedo. São ter ido fazer um hidrocolon, que seria em espanhol, não é? Hidrocolon e um clister para quem está perdido. Mas a importância de encontrar pessoas que estão disponíveis para se rir contigo é um bocadinho como amar alguém e essa pessoa não me cabe na cabeça amar alguém e não ter conversa com ela para sempre. Pessoas que estão juntas e não falam. E não é aquela coisa de é muito bom termos silêncios. Não, não é isso, não é sermos felizes no silêncio, não há temas para desenvolver.

SPEAKER_06

É muito bom ter silêncios, mas há 15 dias que não falamos.

SPEAKER_03

É muito bom termos silêncio também hoje. Voltamos amanhã.

SPEAKER_06

Desde o Natal que não falávamos, não é? Alguém reparar um casal reparar que desde o Natal que não falávamos. Bom, amanhã voltamos, vais falar de uma live.

SPEAKER_03

Vou falar do Nós a Live e falaremos de silêncios, pois também eles merecem programas para si. Até manhã, Maria.

SPEAKER_06

Até manhã.

SPEAKER_01

Diário de Maria. De segunda a sexta na futura, Maria.

SPEAKER_06

Sim, quem és tu hoje?

SPEAKER_03

Quem és tu? Eu sou alguém que sobreviveu à Nossa Life. Convém dizer a todos aqueles que ouvem o futura que estão habituados a este tipo de dinamismo, festivais, nós já não vamos para novos, não é? Uns mais novos do que eu tive. Não, e tens um tanque, és um carro de assalto festivaleiro. Eu confesso que a minha Shimite está mais tímida e, portanto, eu temi não ter a pujência necessária para viver o último dia de nós em live no palco principal Florence and the Machine, antes Lorde, que aparentemente ninguém gosta, mas eu gosto e tenho pena porque acho que ela desde que ela era amiga de David Bowie e da Tilda Swanton, eu pensei que as coisas iam correr bem e não correram assim tão bem.

SPEAKER_06

Mas depois ela parou, não é? Parou lá dos anos.

SPEAKER_03

Parou, eu acho que ela deve ter tido. Ela fala sobre isso que teve um distúrbio alimentar e que teve depressão e pronto, e depois, porque ela conseguiu muito, ela aos 14 anos teve o seu primeiro hit, o Royals, e portanto a vida dela neozelandesa, não imagino que seja transformador. Ela começou a fazer tours aos 17 anos. E aquilo que eu senti no Alive foi divertido ir, adorei, para quem obviamente que nos segue aos dois sabe que já fizemos 255 festivais, em trabalho ou só a curtir a viver esses festivais. Mas eu acho que mais do que nunca gostei de ver duas coisas. Primeiro, que durante os buraca, que eram os cabeças de cartaz, houve uma alegria que eu não via coletiva há muito tempo, mas também se calhar tem ido a poucos festivais, não sei, de total abnegação e entrega àquele momento de estamos todos a fingir que estamos em 2007 e os tempos eram mais simples.

SPEAKER_06

Mas isso não acontece de cada vez que uma band resolve voltar aos palcos.

SPEAKER_03

É possível, sim. Mas os buracos, como é música de dança, eu acho que se calhar é uma coisa a Madonna há pouco tempo, agora na sua tour sobre o seu novo album, that maltratavam um bocadinho the dance floor and the música de dança, dizendo que é vazio and superficial, não percebendo que a dança and the espaço do club are a espaço quase sagrado resistência ando safe space a dança tem a lot of the desinibility. And I think the buraca was a total desin. I think in Portugal é muito triste, as pessoas estão sempre a ver de fora. Ah, é? Mas um buraco financeiro. As pessoas estavam desinibidas e isso foi bom, but confesso que antes disso não sentia a mesma coisa. Eu há muito tempo, eu confesso que os festivais me vão cansando porque fiz muito tempo e só vou quando gosto mesmo muito. E foi desta vez porque estava com vontade de ver algumas pessoas, mas senti muita gente desligada da música que estava a ver.

SPEAKER_06

Mas nós temos vindo a falar disso, não é? Dos festivais serem montras de outfits do dia, e portanto onde é que estão, claro que lá pelo meio estão as pessoas que gostam verdadeiramente da música, não é? Mas o que nos salta à vista, ou então nós temos as pessoas erradas nas nossas redes sociais, são essas pessoas que se preparam dos pés à cabeça. Eu não acho mal, não acho que é isso.

SPEAKER_03

Acho que é divertido que as pessoas se montem, mas que ao menos que estejam a ver os concertos também, não é? Sendo que sei lá, eu andei por vários sítios, mas era uma noite como Pixies também que eu não consegui ver.

SPEAKER_06

E atenção, as tendas VIP vieram matar um bocado este amor pela música.

SPEAKER_03

Mas existem há anos, isso enfim também, não é?

SPEAKER_06

Existem há anos, mas este culto caiu no microfone por algum motivo, mas este culto do VIP também é interessante. Este fosse no fundo nós e eles eu costumava usar as tendas VIP para fazer um xixi mais digno, pronto, mas se eu podia estar no terreno, desde que não houvesse um decelive muito grande, porque é que eu ia estar na tenda.

SPEAKER_03

Ainda me lembro de ser bastante mais novo e estamos no primavera sound e tu estás com o Pedro Ramos, Timonero, nesta rádio, e me arrancar si eu desta rádio e me arrancarem de uma tenda VIP, vocês os dois, dizendo sai daqui, anda a divertir-te, porque eu estava a ver, já não sei o quê, ou a falar com alguém, e esta ideia de que os festivais, se calhar, imagina, ou Safari Cola, eles aqui têm Safari Cola, não posso ir embora, mas a primavera devolveu um bocadinho essa sensação do festival na cidade que era divertido. Não vou há muito tempo, portanto não sei como é que está, mas há esta coisa da curiosidade de viver outras coisas, de partilhares aquele momento com outras pessoas que não conheces lado nenhum, e se estás nesses circuitos onde conheces toda a gente, também perde a graça, não é?

SPEAKER_06

Claro, tu já sabes que na tenda VIP vais encontrar as pessoas que tu conheces. Qual foi a última vez que tiveste uma conversa interessante entre concertos? Vou pensar que é entre concertos e não durante concertos, com alguém que não conhecias e disseste, estou surpreendido com esta pessoa.

SPEAKER_03

Falei com um rapaz, por acaso, no sábado, mas depois percebi que era namorado de uma que eu conhecia. Isto é interessante até nunca eu tinha visto. E depois percebi que era namorado de alguém que eu conhecia.

SPEAKER_06

Sim, mas nem todas as conversas são com o intuito a falar com todos os homens com esse objetivo. Então para que é que compraste o preparado?

SPEAKER_03

Para atrair alma gêmea. Porque não tenho resultado.

SPEAKER_06

Bom, e vieste desse festival mais.

SPEAKER_03

solto?

SPEAKER_06

Não. Um pouco minhas com mais mundo, com mais.

SPEAKER_03

Não. Eu diverti-me na live, vi muitas pessoas que já não vi há algum tempo, foi, se calhar alguns ouvintes também foram. Depois cheguei a casa uma hora e meia depois, que é o que também acontece, mas foi bom. Já não ia terminar às quatro e meia depois do festival há algum tempo.

SPEAKER_06

Ora, este está um dia que não me levaria por nada.

SPEAKER_03

Tu já não queres ir, já não tens vontade.

SPEAKER_06

Eu não tenho muita vontade de ir a festivais, não é pelo cansaço. O calorama é aqui perto e dá para vir a pé, o que é muito simpático. Depois de escolher ver, para mim é importante escolher ver determinados concertos, dá para vir a pé, mas com esse cartaz de buraca Sonsistema Florence e Lorde nem que me pagassem.

SPEAKER_03

Não, mas sei lá, eu certeza. Eu deveria usar a Larson, acho que estiver.

SPEAKER_06

Houve concerto de Nick Cave, não é? Tenho que ser de perder concertos de Nick Cave, mas não, eu já tenho o meu cupão de festivais, não quero dizer que eu não posso sair.

SPEAKER_03

Tens o teu cupão bem cheio? Bem cheio e tu. Também eu também já vi muitas pessoas que eu queria muito ter visto, não é? E antigamente eu estava mais dentro desse circuito, hoje em dia não sinto a mesma pulsão e sentir-me já muito crescido.

SPEAKER_06

Só há uma pessoa que me faria estar junto ao palco de Mini Saia, mini saia não vai acontecer, ou shorts, shorts, esperando 3 ou 4 horas chá de Adu. Se o Xade Adu anuncias uma digressão, eu iria longe para vê-la.

SPEAKER_03

Eu também iria. Lauren Hill não?

SPEAKER_06

Não, não se compara mais.

SPEAKER_03

Não se compara, mas sei lá, também tem um carisma que só ela corre.

SPEAKER_06

Grace Jones, que vai chegar.

SPEAKER_03

Se Apple também veria.

SPEAKER_06

Fiona Apple também, mas ficar horas ao sol, não sei. Não, mas isso já não, isso eu não tenho paciência. Maria, nós nunca sabemos como vamos acordar, não é?

SPEAKER_03

Sem dúvida, os estados de alta.

SPEAKER_06

E quais chamamentos vamos responder? Eu estou francamente desiludida porque esta semana, ok, falámos de contrato de confidencialidade ou acordo, falámos já, já pronunciámos o termo bruxa, mas ainda não falámos de Raquel Estrada. Ah, também, também não falámos.

SPEAKER_03

Não.

SPEAKER_06

Olá Raquel. Olá! Voz grave.

SPEAKER_03

Não, português com a voz cansada de gritar.

SPEAKER_06

UFOs.

SPEAKER_03

UFOs, não, mas embora o Pentágono tenha liberdade de mais imagens. Não me digas. Não pensem que eu não reparei, que eu reparei.

SPEAKER_06

Tu ainda foste a única pessoa, eles provarem.

SPEAKER_03

Eles mandam diretamente para mim. Às vezes há pessoas que perdem e-mails e nesses e-mails, às vezes, estão informações deste calibre. E eu não deixo isso passar. No entanto, não me ocupei muito disso. Estive muito focado no meu trabalho. Sabes como é que eu sou com o trabalho, não é? Eu entrego-me de corpo e alma. E neste caso, sei lá, estive em Madrid, em Madrid, onde fui jantar sozinho, para celebrar o meu feito. E estava a achar estranho estar a conseguir.

SPEAKER_06

Mas em todos os restaurantes depois de um dia de intensas filmagens, árduas.

SPEAKER_03

Acordei às 6 da manhã, já estava no 7, pronto, às 8h30 da manhã, e saí do 7 a um 5, pumba, pumba, pumba, a dar-lhe o tempo todo.

SPEAKER_02

Eu vim que querer parar, mas não podia. Mentira. Aqueles quando têm que fazer resetting das câmaras, podes comer o bananinha, trazem tudo o almoço, estava na rolling aria.

SPEAKER_06

Quando sais, portanto, depois das 5 pensaste, eu vou festejar isto devidamente. És que escolhes aparentemente um bom restaurante?

SPEAKER_03

Sim, estava na dúvida porque pensei, quanto dinheiro é que eu quero gastar, quer ir um Michelin, não fui desta vez.

SPEAKER_06

Quanto é que estavas disposto a gastar?

SPEAKER_03

Estava na dúvida. Eu ainda pondrei isto para os 100, mas depois pensei, não, calma, calma, também vou sozinho. Então fiquei-me, foi bastante menos do que isso. E encontrei um japonês perto do meu hotel. Um homem, mas um restaurante japonês. Caso há homens japoneses muito bonitos. Pois é, concordo. E eu tuca, tuca, tuca por ali acima.

SPEAKER_06

Salt, saltos?

SPEAKER_03

Não, fui por acaso não estava. Mas atravessei.

SPEAKER_06

Gosto que faças berruitas sempre durante estas.

SPEAKER_03

Como é que faço? Eu sou um radialista, que é uma palavra que eu odeio. Já gostas mais? Tive com a impressão.

SPEAKER_06

Não, mas quando me perguntam, é, mas chati, se isto me perguntarem o que é que eu faço afinal?

SPEAKER_02

Palhaço.

SPEAKER_05

Mulher palhaço, sou mulher palhaço.

SPEAKER_03

O que fazes? Sou mulher palhaço. No outro dia houve um homem que me perguntou isso. Eu disse, clown. E ele não achou graça. E eu pensei, nunca poderemos fazer mais nada. Como é que eu posso fazer um balãozinho com um animal? Não vai dar. Não vai dar, não é?

SPEAKER_00

Olha, é um caniche.

SPEAKER_03

Like my dog. Restaurante. Restaurante. O restaurante era um japonês que marquei facilmente e pensei, isto é estranho, sexta-feira, oito da noite, e atravessei a cidade.

SPEAKER_06

Salto.

SPEAKER_03

Calha para interçar. E fui e cheguei ao restaurante, o restaurante estava vazio. Sabemos o que se diz de restaurantes vazios. Isto aqui não pode ser bom. Mas eu pensei, era não tenho outra solução. Estou esfeimado. Aqui vou. Entrei.

SPEAKER_06

Estavas também exaurido, pronto.

SPEAKER_03

Exaurido e esfeimado, sim, sim. Sentei-me e eu estava muito confiante no meu espanhol nestes dias. Estava sempre a falar com este tom. E sentei-me. E comecei a olhar para a carta. A carta tinha reinterpretações de sushi. É logo que começamos. Sabes do que eu estou a falar? É para lá da fusão. É a reinterpretação. Então pedi uns boquerones, que não são boquerones normales, porque tinha outra cosa. Me encanta. Estou a praticar para a gente in Madrid and in other cities. Surpreenda-me. Surpreenda-me trouxe-me um niguiri de sardinha.

SPEAKER_06

Um vulgar niguiri de sardinha.

SPEAKER_03

Sim, e era ótimo. Sabemos que os niguiriis se comem ao contrário. Adoro sardinha, atenção. Eu também, mas por acaso não adoro comer nos santos, mas naquilo que estáis.

SPEAKER_06

Mas isso é porque ficamos todas besuntadas, não é? Calma, calma.

SPEAKER_03

Sabemos que o nigiri se come ao contrário, a parte do arroz é para cima do céu da boca, tipo em direção ao céu da boca, a parte mais suculenta é que fica na língua. E então fica surpreendidíssimo e depois perguntei porque não está aqui ninguém. Hombre, porque a Espanha está rogando. A Espanha estava a jogar o Mundial.

SPEAKER_06

Tu eras a única pessoa em Madrid que não sabia que Espanha estava a jogar.

SPEAKER_03

Como é que Bélgica? Pois eu esqueci-me que tu és uma fã. A serre rima dos Mundiais. Pronto, e entretanto, jantei com muita. Vi um vinho ótimo terras de Seguron. Muito bueno. Me encantou.

SPEAKER_06

Um copito, dois copitos.

SPEAKER_03

Dois copitos, porque estava me sentindo um pouco frisky. Mas pronto, depois fui sozinho para casa e foi isso. Celebrei sozinho. É importante celebrarmos sozinhos. Também é importante e vamos falar sobre isso amanhã. Amanhã celebre connosco.

SPEAKER_06

Até amanhã, Maria.

SPEAKER_01

Até Diário de Maria, de segunda a sexta na futura.

SPEAKER_06

Olá Maria, esta semana está a passar.

SPEAKER_05

A correr.

SPEAKER_06

A correr, não é? Agora fui eu a fazer berruitagem, não é?

SPEAKER_03

Ao mesmo tempo, quando diz berruitagem, imagino a palavra peritagem. Seria o único? Bom dia. Diário de Maria, ontem falávamos sobre onde é que estamos a ser ouvidos?

SPEAKER_05

Estamos novas da geografia.

SPEAKER_03

Olha, ainda no outro dia recebi uma mensagem da única ouvinte que temos no Qatar, curioso, dizendo sou eu! Sim, sim. Tu não partilhaste isso com o que? Esqueci-me de mandar. Mas ela disse com muita alegria que quando viem ao Qatar, que é uma coisa que acontecerá já para a semana, achas que dá para ir de Flix Plus? Acho que é possível. Inês Maria, maior fã de Flix Plus em Portugal. É verdade. Eles poderiam patrocinar nus. Ou só a ti.

SPEAKER_06

As nus ou com a roupa?

SPEAKER_03

Queria aqui, estava a tentar descobrir esses downloads, porque somos ouvidos no mundo inteiro e nem sempre Se all stats. Então, queremos do que? De sempre ou nos últimos 30 dias? 7 dias. Ou 7. 7. 7. Então, somos ouvidos em 45 países e territórios, 325 cidades. Olá a todos aqueles que nos ouvem em Colmenarejo, Madrid, Astrada, em Pontevedra, não sei. Monticello Conte Otto, na província de Vicenza, e Edison, em New Jersey, portanto, fica com coisas fascinadas. Acusem-se. Acusem-se. O nosso top para estes últimos sete dias está Portugal, Reino Unido, Espanha, Espanha, muito forte, claro.

SPEAKER_06

Islandas a aprender espanhol, não é?

SPEAKER_03

Claro, Países Baixos, França, Suécia, Suíça, Alemanha e Brasil. Com pena, Islândia não está no top.

SPEAKER_06

Olha, nós tínhamos ficado de falar de celebrações a solo a solo, já lá vamos, como se diz nos noticiários, já lá vamos, primeiro, até já do último ano. Estava a lembrar-me de nem sei a propósito, porque tu disseste que eras dos últimos de sempre, dos últimos 30 dias, sete, e eu disse sete, porque eu sou, eu estava a pensar ao mesmo tempo, não é? Porque sabemos que isto funciona como terapia para as duas, não é? Aquelas pessoas que ficam a pensar nas escolhas que fazem, quando trazem o cardápio, o menu em menta e dizem estou indeciso, repita lá de novo o que é que disse, mas pode ser sem e com e eu digo, número 7. Eu não perco tempo na escolha, não é?

SPEAKER_03

Isto é muito interessante. Pois não respeito muito, isto é horrível que eu vou dizer. Acho pouco atraente alguém que não consegue escolher num restaurante. E faz 10 perguntas, mas isto como é que é? Mas o molho é como? E depois como é que é? E depois tenho estes legumes têm excesso.

SPEAKER_06

Tenho intolerância. Ah, então, e acha que pode ser pouco escaldado?

SPEAKER_03

Porque escaldado em chave na fria. É um turn-off. Embora eu também tenha algumas intolerâncias, sobretudo religiosas. Mas imagina, eu revelava-me aqui. Não, mas eu acho que essa coisa da falta de capacidade de escolha não me atrai muito.

SPEAKER_06

Eu gosto de, tipo, não é exatamente assim, mas é quase como pôr o dedo na lista e dizer quero este. Um bocado ir pela aventura, não é? Não te deixas limitar à pessoa.

SPEAKER_03

As pessoas comem sempre o mesmo. Há pessoas que vão aos sítios e comem sempre a mesma coisa. Eu estou a falarmos, por exemplo, eu e tu já vimos muitas vezes a um restaurante cá em Lisboa, que é o Papa Sorda, que adoramos. Eu confesso que muitas vezes cedo e como as mesmas coisas. Porque adoro. E não vou lá todos os dias, portanto. Por exemplo, gosto dos filetes de pesgalo.

SPEAKER_06

Muito bem.

SPEAKER_03

É o que pedes também?

SPEAKER_06

Não, lembrei-me que tu pedes filetes de pesgalo por algum motivo.

SPEAKER_03

Pesegalo, que adoro. E peço também o bife. Muitas vezes. Adoro o bife. Adoro o bife.

SPEAKER_05

Tu tens gostos. De macho. Heteronormativo. O que é isso?

SPEAKER_06

O que é isso? Pedir um bife no.

SPEAKER_03

Mas então eu deveria pedir o quê?

SPEAKER_06

Uns filetes de sardinha para nados, coisas primeiro estivais, não é? Festivais, sei lá, um maçor de um badeijo, não, nunca vi badejo, não. Que um badejo? É um badejo e um peixe. Mas nunca vi na vi na imenta de mas pedir outras coisas, não sei, questão na.

SPEAKER_03

Se me disseste, eu tocava badejo.

SPEAKER_06

Queria dar-me um badeijo. Um badeijo ou dois, trago um badejo ou dois.

SPEAKER_03

Olha, um badejo também é um bom tema para já desenvolvermos, sim, sim.

SPEAKER_06

Mas sim, eu lembro-me disso, quando nos conhecemos, que julgavam que éramos um casal, eu tinha gostosos heteronormativos. Eu lembro perfeitamente de achar que tu tinhas gostos heteronormativos. Ainda não se falava do hetronormativo.

SPEAKER_03

Não sabíamos o que era. Não sabíamos. Não sabíamos o que era. É possível porque também tenho vindo a abrir o meu paladar, não é? O meu paladar abriu, como sabemos quando se fica homossexual, que não se é, não é? Fica-se. Fica-se. Também o paladar abre.

SPEAKER_06

Quanto é que apanhaste a homossexualidade?

SPEAKER_03

Ah, eu diria que foi num verão que foi-me a correntar.

SPEAKER_06

Eu pensei que ias falar daquela mordida do Peixe-Aranha e disse.

SPEAKER_05

Ai, ai, já fui apanhado. Ai, o que é isto? Fui apanhado pela homossexualidade.

SPEAKER_03

Rui Maria fortaleceu os estereótipos nesse sítio aqui.

SPEAKER_05

Ai, não acredito. A alerta CM, Rui Maria, apanha a homossexualidade. Apanha a homossexualidade numa praia.

SPEAKER_03

Então, onde é que apanhou a homossexualidade? Bom, eu tinha ido dar um mergulho. O calor às vezes faz-me ter que me refrescar e pisei-me para a aranha e desde aí gosto de homens.

SPEAKER_06

A sua voz mudou desde aí, não mudou, Rui Maria?

SPEAKER_03

Sim, eu já não. Não, estamos a esterotipar muito. O que é que eu acho? Ah, estavas a falar sobre os gostos entronormativos no contexto da restauração.

SPEAKER_06

Sim, mas podemos sair para as celebrações a solo.

SPEAKER_03

Mas é também, por exemplo, já fui a muitos sítios sozinho porque ninguém queria vir comigo.

SPEAKER_06

Eu gosto de ir sem ti. Também gosto de ir sem ti.

SPEAKER_03

Viajar sozinho, já fui à Islandia. A primeira viagem que eu fiz sozinho, não, eu fui estudar espanhol, olha, para Barcelona sozinho uma vez há muito tempo.

SPEAKER_06

Mas está a empurrar por Lacalha, não é?

SPEAKER_03

Lacalha? A série é re, derrei tudo, é re é, lash ketchup.

SPEAKER_06

Eu ia colocar Gipsy Kings, já não percebes o fosso que há entre nós, não é? Viajar a sinopse.

SPEAKER_03

Mas viajar sozinho é muito bom porque te faz refletir verdadeiramente sobre porque é que estás nos sítios e aquela ideia do ai eu viajo porque eu preciso de, tenho que ir para Vali e descobrir-me. Não, primeiro os demónios vão sempre contigo, os demónios não ficam agora ali na estação de serviço.

SPEAKER_06

Vale do Conde, não é? Nunca viajei sozinha. Nunca? Nunca, a lado a lado nenhum, nunca, e porque a viagem é algo para se fazer acompanhado para mim, não é? Porque eu já vivo suficientemente dentro de mim, pois podia querer expandir-me, mas gosto dessa expansão a dois, a quatro, a dez.

SPEAKER_03

Eu percebo e eu vou partilhando com as pessoas que me são próximas, que me são caras ao longo das viagens que faço sozinho, mas eu não tenho muita paciência. Primeiro acho que viajar é muito revelador da dinâmica. Há muitas pessoas de quem gostamos com quem não podemos viajar. Sou a pena nunca mais lhe queremos falar na vida e lhe queremos dar com uma cadeira.

SPEAKER_06

A sedência não te agrada, não é? Enquanto vejo um senhor em tronco nu rapara naquela varanda. Rui Maria neste momento coloca os seus óculos com várias dioptries.

SPEAKER_03

Posso dizer a expressão intradote?

SPEAKER_06

Rui Maria volta a olhar.

SPEAKER_03

Eu volto a olhar porque eu estou sempre com a minha antena localizada.

SPEAKER_06

Não está a fumar, não é?

SPEAKER_03

Pois, então já não dura muito. Quando viajes sozinho, tenho esta oportunidade de olhar para o outro e observar muitíssimo, mas também me observar a mim.

SPEAKER_06

Para, eu estou aqui e estou a observar o outro, ali na varanda.

SPEAKER_03

Agora estou de costas. Já não está tanto calor esta semana, graças a Deus. Graças a ela tinha.

SPEAKER_06

Mas no entanto a casa daquele homem deve permanecer quente.

SPEAKER_03

Daí ele está despido à janela.

SPEAKER_06

Marias olhavam de novo. Cobissando.

SPEAKER_03

Cobiçando, cobiçando o corpalheio. Mas eu gosto de viajar sozinho, gosto de jantar sozinho.

SPEAKER_06

Sim, tu vais a espetáculos sozinho.

SPEAKER_03

Adoro ir ao teatro sozinho, adoro ir ao cinema sozinho. E foram conquistas.

SPEAKER_06

Eu acho que reter. Claro que no fim é bom partilhar a experiência, não é? Perceber se vimos a mesma coisa. Mas eu gosto muito, agora já não vou há muito tempo sozinha a um espetáculo, concertos, teatro, mas gostava de ter uma. Gostava. Eu fui para aí duas vezes ao talho na minha vida, em Lisboa. Eu não frequento talhos e tu.

SPEAKER_03

Eu também, olha, vou pouco ao talho. Não sei muito bem o perguntar, acho que tem muita escolha.

SPEAKER_06

Pois é, nunca sabemos se a carne é boa. Pode ser efetivamente fraca.

SPEAKER_03

Pois pode, e mais do que isso, eu não percebo nada de cortes.

SPEAKER_06

Pois é. Se é de do acém, se é da vazia.

SPEAKER_03

Não percebo. Lombo, lombo, conheço. Tu és um homem do lombo. Sou um homem do lombo, isto. Eu acho que é uma ponte para ti mesma, não é? Esta ideia de estás sozinha, ok, deparas-te com a falta de não posso partilhar com ninguém o que eu estou a ver, o que eu estou a viver, mas ao mesmo tempo vives na plenitude aquilo que tu queres fazer. O que é muito aliciente.

SPEAKER_06

Mas nós não nos validamos pela partilha.

SPEAKER_03

Sim, mas ao mesmo tempo também te podes validar na descoberta de te chegares de ser suficiente.

SPEAKER_06

E chegámos ao fim da semana, amanhã voltamos.

SPEAKER_03

Amanhã voltamos, amanhã hoje é quinta-feira, amanhã é o fim da semana, amanhã seis-tu. Quem sabe o que poderá acontecer é melhor ouvir.

SPEAKER_06

Será que aquele homem vai voltar à varanda?

SPEAKER_03

Será que vai tirar o resto do que tem vestido? Deixa-me olhar outra vez.

SPEAKER_06

Ah, desapareceu? Desapareceu.

SPEAKER_03

Não me avisaste.

SPEAKER_06

Até amanhã, Maria. Até amanhã.

SPEAKER_01

Diário de Marias de segunda a sexta na futura.

SPEAKER_06

E cá estamos nesta sexta-feira. Depois de uma semana em que divagamos sobre isto e sobre aquilo, eu não vivi intensamente, tenho vivido pouco intensamente, porque me permito apenas achar. Planar, sim.

SPEAKER_03

Hoje é um dia importante, as minhas irmãs fazem 34, não, 33 anos gémias, fala-se pouco dos gémios, mas eu acho que se calhar temos ouvinte gémios ou gémias, e acho sempre que é mesmo um milagre e deve ser uma. Ou seja, eu tenho irmãs, eu já era crescius, já tinha 5 anos quando as minhas irmãs nasceram para ter a ideia de houve um mundo sem elas, mas tu imaginas que passas pela vida sempre com alguém, tipo, toda a tua vida, toda a tua leitura do mundo é também através de outra pessoa, porque as minhas irmãs tinham uma língua delas quando eram pequeninas.

SPEAKER_06

Como é que foi ser irmão de gémias?

SPEAKER_03

Malício dizem que eu sofri bastante.

SPEAKER_06

Trias afogá-las, não é?

SPEAKER_03

Sim, tentei matá-las várias vezes, abanava-as muito e depois diziam que não podia ser.

SPEAKER_06

Não, Rui Maria, não é um ganheiro!

SPEAKER_03

A Matilde não pode ser atirada do sofar. Pobre Matilde, já com traumatismo ucraniano aos seis meses, estou a inventar. Mas lembro-me de a minha mãe dizia que tinha quatro bebês simultâneo, que eram os duas gêmeas, o meu cão pequeno e eu.

SPEAKER_06

Sempre houve cães lá em casa.

SPEAKER_03

Sempre. O primeiro cão que tive era um galgo chamado Marlene. Quem eu mordias?

SPEAKER_05

Desculpa, que revelação!

SPEAKER_03

Mas sabias isto?

SPEAKER_05

Um galgo chamado Marlène.

SPEAKER_03

E um Cocker Spanel chamado Zapa.

SPEAKER_06

Isso pode ser um livro de ficção que vai ganhar um grande prémio de literatura a remoção. Deite agora aqui, usa um galgo chamado Marlène.

SPEAKER_03

Um galgo chamado Marlene, sim.

SPEAKER_06

Eu assim de repente mais interessado no galgo do que nas tuas irmãs. Desculpa, fala-me um pouco do que eu.

SPEAKER_03

Em cinzenta, não tenho grande memória, mas eu mordi-lhe e ela deixava.

SPEAKER_06

Tu é que mordiaste?

SPEAKER_03

Eu mordi a Marlène e a Marlene deixava. Marlene e as pessoas, na altura, portanto, final dos anos 80 e início dos anos 90, minha mãe passeava Marlène na rua, a minha mãe tinha 26 anos e trabalhava, pensou na Rádio Renascenço.

SPEAKER_06

E o porquê do nome?

SPEAKER_03

Não sei. Marlene Dietrich?

SPEAKER_06

Ruth Marlene?

SPEAKER_03

Mais Marlene Dietrich do que Ruth Marlene, sem desprimor. Sem desprimor. Para Ruth Marlene, eles olham para a direita e pisca, pisca. A minha mãe atravessava a estrada e as pessoas diam que lá comer ao seu cão.

SPEAKER_06

Percebo? Tem andar de comer ao seu cão já. Não percebiam a Isbelta, Marlene que se passeava.

SPEAKER_03

Não, Marlene até um pouco achar aquilo demais, não é? Porque ela fazia questão de se conter.

SPEAKER_06

Marlene então também sofreu com a chegada das gémias.

SPEAKER_03

Eu não me lembro se Marlene ainda era viva.

SPEAKER_06

Quando as gémias chegaram.

SPEAKER_03

Não, quando as gémias chegaram, nós tínhamos um Golden Retriever que era o Luca. Luca, que era um príncipe. Não, mas era um príncipe. Era um cão que parecia uma pessoa. Tive alguns assim. Pois também tivemos um Xiao Xiao que foi oferecido. Com cães. Sim, que são verdadeiros cães. Tínhamos um cão chamado Shogun que se babava muito e que andava sempre à pancada com os outros cães do bairro. Era um arroceiro.

SPEAKER_06

Tu podias atravessar a tua vida lembrando-te dos meus cães todos.

SPEAKER_03

Tive um cão com epilepsia, que era o azeitona. Foi mordido na cabeça quando era pequenino.

SPEAKER_06

E não foste tu.

SPEAKER_03

Não, foi o cão do meu tio Jorge, que o mordeu porque foi uma história um bocado triste. Nós nos, olha, eu e as minhas irmãs queríamos muito um cão, pequenino, novo, então os meus pais, a minha escola, uma das nossas professoras teve uma ninhada, melhor, a cadela dela, teve uma ninhada de cães, e acho se não me engano, a Luísa Vienna, e teve os cães, e nós ficámos com um dos cães, mas era segredo e era presente de Natal. O cão foi azeitona passar 23 a casa do meu tio. Jorge. E o cão dele atacou a azeitona e mordeu na cabeça. Então eu recebemos no Natal o cão dentro de uma caixa, tipo em. como se fosse um presente, não é? Meter-no dentro da caixa. Não, todo cozido. Não é verdade. Cheio de coitado, de sem-se mexer, e nós sempre podemos trocar muito no cão, não é? Porque o cão, eu tinha pai e aquilo lá. 10?

SPEAKER_05

Queremos ter defeito!

SPEAKER_03

Queremos que ele brinque, ele não brinca. E ele era muito engraçado e tinha PDP depois um dia de que desapareceu. Fugiu de casa. Já farto, provavelmente. Claro.

SPEAKER_06

Os miúdos dão-me cabo da cabeça.

SPEAKER_03

Tive um cão chamado Benoron. Depois tive o Trufa, tive o Bento, porque o Bento acho que chegaste vagamente a saber que existia. Viveu a minha casa. Tivemos várias atualmente, tenho o Blanco e o Bosco.

SPEAKER_06

Muito bem.

SPEAKER_03

Mas Marlene. Marlene foi a única cadela. Porque desde aí que não tivemos mulheres.

SPEAKER_06

Bom, onde é que nós íamos mesmo? Havia um pouco de novo.

SPEAKER_03

Nós falamos de gémios e de como há sempre um génio solar, isto está mesmo provado, um génio solo e um génio Lua. Há sempre um desequíbrio, é como se fossem matados.

SPEAKER_06

Sem revelar mais, mas isso nas tuas irmãs é evidente.

SPEAKER_03

É, uma é mais interior, outra tem uma personalidade mais expansiva, mas é uma coisa que eu acho que é menos marcado em géneros diferentes. Quando é o mesmo género, ou se são gémios desigóticos ou então gémios verdadeiros, não é? E isto deve ser muito estranho de ser um gémios verdadeiros, minhas irmãs não são, porque é alguém igual a ti. Tipo as gémias Ana Moreira e Margarida Moreira. As tuas irmãs são falsas. Tu achas muito parecidas?

SPEAKER_06

Acho Eu não acho assim muito, são parecidas, é. Mas não, apesar de tu convives com elas há 33 anos, não é?

SPEAKER_03

Pois, é super menor. Mas sim, acho os gémios um tema muito interessante. Fala-se pouco, eu acho.

SPEAKER_06

Achas que chegou a ser traumatizante para ti?

SPEAKER_03

Claro, eram dois bebés em vez de um.

SPEAKER_06

Já não te bastava um, não é?

SPEAKER_03

Dois.

SPEAKER_06

Lembras-te, não te deves lembrar do momento em que te disseram que ias ter não um, mas dois.

SPEAKER_03

Levaram-me. Não, a minha mãe achou quando lhe disseram que o médico disse-lhe, estou aqui a ver dois corações.

SPEAKER_05

E a mãe disse, não acredito, o bebê tem dois corações!

SPEAKER_03

Como se tivesse um problema de saúde grave. Não, não eram.

SPEAKER_06

Seria alguém que hoje a tua mãe poderia entrevistar.

SPEAKER_03

Exatamente. Com dois corações.

SPEAKER_06

E há gente que cresce sem coração nenhum.

SPEAKER_03

Como é que se atreve? Não eram dois bebés. E eu lembro-me de ter 4, 5 anos e de ir ver a minha mãe ao hospital e de chorar muito porque achei que ela ia morrer. Não ia ter as minhas irmãs. Alguma queda para o drama?

SPEAKER_06

Alguma, alguma.

SPEAKER_03

Mas nunca pensaste em ter gêmeos? Passou-te pela cabeça quando estás grávida marinês que poderiam ser dois?

SPEAKER_06

Nunca me passou pela cabeça. Imagina se eu já não queria muito ser, nunca tinha pensado nessa cara. Não querias ser mamãe? Não queria ser mamãe, portanto de repente a tirarem um galheteiro para casa seria complicado, não é? Até porque eu não tive muito apoio para cuidar, para criar a minha filha, não é? Imagina duas. Bom, mas percebo que seja fascinante perceber as temperaturas diferentes de cada uma ou de cada uma. Os temperamentos que por vezes se fundem.

SPEAKER_03

Se fundem e depois há grandes cismas. Os gémios têm grandes sismas. E depois há fases. Há umas fases em que, por exemplo, nós dizíamos as gémias para tudo fosse uma unidade. Exato, sem nome. Faziam-me e faziam umas birras enormes.

SPEAKER_06

Tua mãe vestiais de igual, não, felizmente.

SPEAKER_03

Não, quando eram muito pequeninas, sim, mas depois mais não. Elas tinham as duas muita personalidade, portanto não. Mas os bonecos tinham que ser sempre a dobrar, é sempre tudo a dobrar. E eu também queria bonecas. E tu dizias, não é mais possível. Mas isto para dizer que se calhar esta ideia, há pessoas que os meus pais diziam sempre que a minha mãe é filha única, and o meu pai tem um irmão. Jorge. Jorge. Ands não queriam era que nós não tivéssemos irmãs. Eu já tinha minha irmã, a Sofia, butriam que nós tivéssemos irmãs as proximidades de idade. And I asked it to have irmãs, no entertainment. Fantasiei muitas vezes em ser filho único. Hoje já não, hoje é um dia tão especial que são os anos delas.

SPEAKER_06

Irmãs que por sua vez are mães.

SPEAKER_03

Carolina vai ter um bebê, a Matheus já teve. Sou o tio Rui Maria. Tu gostaste de ter irmãos, também fantasiaste com a Sifia Única?

SPEAKER_06

Eu gosto muito de eu sou a irmã mais nova e eu gosto sobretudo muito mais do meu irmão hoje do que quando éramos miúdos. O meu irmão tem uma diferença de 6 anos e estava naquela idade parva, não é? Sempre à minha frente, embora tenha sido precioso para me munir de conhecimentos varios culturais, artísticos e outros, não sei quais. Mas sim, eu aproximei-me muito do meu irmão, sobretudo depois da morte da minha mãe, e portanto o meu conhecimento.

SPEAKER_03

Só ele é que percebe o tamanho da tua dor, não é? Será isso?

SPEAKER_06

E do meu humor. Ele tem um humor muito semelhante e portanto gostamos de trocar galhardetes.

SPEAKER_03

Mas também é por aí, não é? A partilha na dor na dor, na alegria, mas esta coisa de não tens que arcar com a dor toda sozinha, não é?

SPEAKER_06

Primeira vez que dizemos o verbo arcar neste programa. Mas sim, nunca pensei muito nisso, nessa questão de ter irmãos, até porque depois de mim não houve mais nada, não é? Mais ninguém.

SPEAKER_03

Não queria haver mais ninguém que foste tu.

SPEAKER_06

Claro, eu no fundo era o galgo chamado Marlene. E pronto. Queria dizer mais qualquer coisa, mas não consigo lembrar-me.

SPEAKER_03

Tinha a ver com irmãos, com gémios? Com gémios, com génitos. Não sei. Imagina que as minhas irmãs tinham nascido ciamesas. E que estavam ligadas Verdadeiramente pela pucheicha, a Palenadica, sim. A Palenática é mais fácil de cortar. Mas de vez em quando há aquelas histórias de alguém que casou só com uma delas, não é? Então de repente estão irmãs de ciamesas e ele casou só com uma da esquerda. E vivem vidas a três. E ela nem quer, coitada da outra, nem queria estar ali. Imagina, nem gosto de tudo.

SPEAKER_06

Muito lenxiano. Ah, não, já sei o que é que, para terminar, porque não temos muito mais tempo. Temos todo o tempo. O que é que acontece? Imagina que tu encontravas depois desse banho de alma gêmea.

SPEAKER_03

Há pouco falámos no outro dia, não falámos hoje.

SPEAKER_06

Falámos no início da semana, já não me lembro quando, mas falaste de um banho que atrai alma gêmea. E se esse homem, vou imaginar que é um homem, te aparece lindo, lindo, interessantíssimo, mas diz Rui.

SPEAKER_03

Já vivi coisas semelhantes. Alguém que dizia Rui. Teria que ser forte, mas também teria que abrir a porta à possibilidade, não é?

SPEAKER_05

De ser surdo.

SPEAKER_03

Teria que ser surdo.

SPEAKER_05

Rui.

SPEAKER_03

Ande a beber o cara olhar para baixo.

SPEAKER_05

Rui, anda a beber o café.

SPEAKER_03

Pois, há coisas que desqualificam. Mas eu acho que quando o amor é real e, obviamente, depois tomar este bem.

SPEAKER_06

Real?

SPEAKER_03

Obviamente que sim. Se calhar os erros são um dos fatores que poderia ponderar. Isto tem tudo para correr bem. Mas não vai correr. Não sei, Inês, eu tenho que também começa a ficar entradote, não é? Tenho que começar a abrir um bocadinho o meu leque, ou não?

SPEAKER_06

Não.

SPEAKER_03

Ou será que tem que ser ainda mais exigente?

SPEAKER_06

Mais exigente.

SPEAKER_03

Então imagina que, como tu quando andas na rua e pisas sem querer, uma pastilha elástica, este bem alma gêmea faz com que pessoas se colem a mim na rua e cola homens que não são recomendáveis. O que é que desqualifica, na tua opinião, um homem logo?

SPEAKER_06

Não cheirar bem.

SPEAKER_03

Não lavar as mãos.

SPEAKER_06

Quando vai à casa de banho. Não aceitar esquivar-se à conta.

SPEAKER_03

Esquivar-se à conta? Do que jantar? Sim. Então tem que ser sempre ele apagar. Não, para partilhar.

SPEAKER_06

Inventar um pretexto para.

SPEAKER_03

Ai, acho isso horrível. Sim, sim.

SPEAKER_06

Não tem dinheiro e esquecimos a carteira.

SPEAKER_03

Ninguém faz isso hoje em dia, faz. Esqueci a carteira. Quando tens tudo no telefone. É verdade. Agora foi um bocado século XX.

SPEAKER_06

Podíamos chegar aqui o resto de.

SPEAKER_03

Desqualificação, mais do que nunca, é importante também dizer. Uma coisa estou a sentir a vibrar. Alguém que não consegue pousar o telefone e olhar-te nos olhos.

SPEAKER_06

Já te aconteceu? Já.

SPEAKER_03

Já aconteceu. Eu houve uma fase que eu tive assim um, curiosamente, uma. Posso contar aqui, não faz mal? Um romance de verão em Nova Iorque com um homem chamado, não vou fazer o nome, mas que é jornalista e é palestiniano. E na altura tinha muito pouca informação sobre a Palestina e provavelmente deve ter dito disparates, entretanto fui aprendendo. Ele há pouco tempo esteve preso no Coet. Ele é jornalista e trabalhou para a Al Jazeera, para a CNN, etc. E lembro-me que ele, embora fosse muito interessante e fascinante, não parava de mexer no telefone o tempo todo. Eu hoje estava a almoçar com ele e ele estava só a olhar para o telemóvel.

SPEAKER_06

Mas era um tico nervoso, já pensou?

SPEAKER_03

Não, era mesmo falta de interesse. Aliás, era um vício, eu acho que ele tinha um vício no telemóvel, como muitos de nós temos, mas ele não conseguia parar. Eu acho que ele também se transformou num homem mais interessante do que era, provavelmente à época, isto foi há mais de 10 anos. Mas lembro-me que ao ver aquilo pensei, isto é a coisa mais tens que regar as relações, tens que ser capaz de investir. Eu já não estou numa fase em que acho graça, opa, não consegue responder mensagens, sabes como é que ele é ali o ar? Não, ele só não quer saber.

SPEAKER_06

Isso era um tema interessante até para a escrita, o cinema, e se todas as pessoas com quem andamos fossem agora melhores pessoas nós voltaríamos, vamos deixar esta pergunta assim no ar. Todos vamos pensar todos na pequena comunidade Maria as Marias vão pensar nisso e se todas as pessoas com quem andámos fossem agora melhores pessoas voltaríamos a andar com elas?

SPEAKER_01

Bom fim de semana, parabéns às minhas irmãs e a todos os gémios e gémias Ascendentes Gémios Eu também outro dia me lembro Ascendentes gémios, as duas pois Marias Tchau Se uma Maria incomoda muita gente Olá Maria Olá Maria Duas Marias incomodam muito mais areia neste caminhão que sou eu também E que caminhão E que caminhão Maria Pega Rui Maria Pego e Inês Maria Menezes trazem-nos o seu diário cheio de inquietações Se há um livro para abrir tem que ser o nosso diário Diário de Marias de segunda a sexta na futura Maria vai com as outras Eu