Diário de Marias

SOS Banheira

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

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Segunda-feira com meditações sobre os professores, exames, banheiras abandonadas na vegetação e a liberdade pós ocultação de chatos no Instagram.

SPEAKER_01

Diário de Marias de segunda a sexta no futura.

SPEAKER_00

Olá Maria, boa segunda-feira.

SPEAKER_01

Boa segunda-feira, tenho que dizer também.

SPEAKER_00

Convém que é para as pessoas saber onde é que estão.

SPEAKER_01

Eu gosto daquelas pessoas que ainda dizem Olá, bem-vindos a mais uma Eu gosto de dizer bem-vindos.

SPEAKER_00

Dizia uma coisa muito irritante para algumas pessoas que era bem-vinde porque eu gosto de incluir. Gosto destes óculos. Estes óculos fazem de sempre parecer mais misteriosa do que às vezes és.

SPEAKER_01

Estes óculos que as pessoas não estão a ver?

SPEAKER_00

Estes óculos que são redondos, pretos, com um rebordo de tartaruga e por baixo brancos. Ficas-me a lembrar aquela senhora dos Incredibles.

SPEAKER_01

Ah, não, espera, pensei que era a Iris Upfeld. Também disseram este fim de semana, mas é muito curioso porque eu já tinha estes óculos há algum tempo, comecei a usá-los mais frequentemente por causa de um problema de saúde. Conversa de velhas. E agora tenho usado simplesmente. São ótimos para me esconder, de certa forma. Estes óculos são para me esconder.

SPEAKER_00

Dirias que são uma viseira?

SPEAKER_01

Sim, uma viseira. Nunca tinha pensado nisso.

SPEAKER_00

Já não usamos a palavra viseira, houve uma fase em que viseira fazia parte do léxico de todos os dias, não é? O tempo da pandemia de graça freitas.

SPEAKER_01

Um léxico ancestral.

SPEAKER_00

Sim, sim. Saudades de Graça Freitas e de quando as pessoas sabiam o que estavam a fazer quando dirigiam Task Forces nos últimos dias temos vindo a ver como ter falhado. Eu gostava de ter falado sobre os exames, mas não sei o suficiente.

SPEAKER_01

Também, apesar da minha filha poder ter sido uma vítima, não é? Quer dizer, foi, mas apesar de tudo as notas saíram, mas há quem não esteja nas mesmas circunstâncias. Mas mais uma vez vejo os professores sempre, eu digo isto muitas vezes ou então tive muita sorte, tirando dois ou três calhordas que me apareceram na vida enquanto professores, não como namorados, nunca tive nenhum namorado professor. Eu tenho melhor a dizer sobre os professores. Acho que nesta altura, de há uns anos para cá, são verdadeiros heróis do que fazem, porque muitos deles ainda conseguem fazer diferente. Isso é muito transformador na vida de um aluno. E mais uma vez viu-se primeiro, vi coisas inacreditáveis de gente em tom jocoso, a duvidar da ansiedade de alguns professores que tinham que corrigir 10 mil exames 10 mil exames, não é? Eu imagino que tenham passado por uma situação muito complicada, ninguém lhes vai agradecer, especialmente, não é? E essa má organização ficou tão visível, não é?

SPEAKER_00

E foram acusados de ser resistentes àquilo que é alguns professores, isto está a correr lá porque alguns professores resistem como se ainda percebem fosse uma profissão que fosse uma coisa para fazer a metro, não é? Com um point of vista que eu considero interessante, but I say much about como é que alguém seria sempre melhor um professor who conhece aquele aluno corrigir aquele exame, porque consegue vê-lo no seu todo ando só uma pessoa random. E sempre foi assim, também sempre foram acredito que os meus exames das provas globais não tivessem sido corrigidos na escola, não lembro como é que foi, mas já foi há muitos anos. Sei que tive 12% a ver porque soube fazer a esquadria e pouco mais e copiei, copiei nesse ensino em fisicoquímica.

SPEAKER_01

Escreveu, felizmente, não é?

SPEAKER_00

Sim, copiei em fisicoquímica, só agora vinham buscar aqui a casa, não é?

SPEAKER_01

Rui Maria de ti, alerta CM.

SPEAKER_00

Ele copiou na prova de fisicoquímica, mas também convenhamos que é uma disciplina um pouco chata.

SPEAKER_01

Mas tu sabes que me preocupa verdadeiramente o estado das coisas, começo a pensar que quem é que de facto pode querer ser professor, que professores vamos ter no futuro?

SPEAKER_00

Acho que as pessoas que transformaram as nossas educações e toda a gente tem um professor ou dois que foram que ensinaram a pensar, não é?

SPEAKER_01

Várias para casa.

SPEAKER_00

Eu também. E essa ideia do que é o acicatar do espírito crítico. Como é que há espírito crítico se basta pôr três coisas num chat GPT e de repente já sabes a resposta para todas as perguntas que a humanidade já enfrentou. Ou seja, eu acho que estamos numa zona muito complicada e não premiar quem toma conta dos miúdos, ainda por cima as crianças e os adolescentes passam mais horas na escola do que em casa. Certo ou não?

SPEAKER_01

Sim, isso acontece com o ensino, acontece com a saúde no public, não é? Se formos a olhar para isto com olhos de ver e de uma forma séria, os pilars of a sociedade tremem, estão tremulos, estão frágeis, estão fragilizados, não é? E portanto, não sei como é que vai ser nos próximos anos, mas acho que qualquer pessoa. Isto não tem a ver com a esquerda nem com a direita, tem a ver com estar atento ao que se passa e ficar assustado, já para não falar do raio do clima, não é?

SPEAKER_00

Vem de trazer esse tema para cima da mesa. Ai, tema porque grande alegria de não estar em 200 graus, como tem estado, por exemplo, em Madrid ou noutros lugares onde temos ido, mas a sensação que me dá é que este é a antecâmara do que viveremos, ou seja, daqui a 20 anos o que é que será um verão, não é? E eu lembro-me sempre, lembras-te quando aqueles manifestantes do Climaximo que pararam à A V, fizeram aquela coisa no chão, sim, não foi há muitos anos, foi há 3 ou 4 anos e eram miúdos que cortaram à A5 a caminho do túnel do Marquês, fazendo então uma manifestação contra os combustíveis fósseis, etc. E lembro-me dos recomentários das pessoas, muitas pessoas metiam muito tiradas porque estavam a chegar a tirar o trabalho, ou porque não tinham escolhas, estavam trancadas no trânsito, mas ninguém vê a beleza de querer lutar contra um sistema porque obviamente são 9 da manhã e tu queres chegar ao trabalho ou tens coisas para fazer e estão ali uns miúdos a travar o caminho. Eu percebo isso tudo e não quero dizer que eu subscreva todas as iniciativas que este grupo fez, mas há qualquer coisa muito estranha quando todos os adultos são um bocado displicentes com a juventude que querem ainda mudar alguma coisa acreditando que é no sistema que temos que mudar o sistema, porque o sistema já nos faliu, obviamente.

SPEAKER_01

Dá trabalho ver a fotografia toda, não é?

SPEAKER_00

Falhou, aliás, sim.

SPEAKER_01

É isso. Queria falar porque estamos aqui a conversar, eu vim de mais um fim de semana no norte, quando eu digo norte, isto inclui Porto Mendelo, Vila de Conde e na viagem de regresso. Isto aconteceu há duas semanas, no meio assim de uma vegetação já muito seca, há uma banheira. Eu comecei a pensar uma banheira vazia que foi ali deixada, e se tu reparares há várias banheiras abandonadas no meio da vegetação. Eu sempre pensei, porque é que as banheiras, banheira, se há uma banheira e foi abandonada, por favor liga para. Pode ter a ver com as chuvas quando caem. Já é muito raro.

SPEAKER_00

Ah, para os animais.

SPEAKER_01

Para os animais, não achas que pode ser isto? Ou serei eu a tentar a poesia na banheira?

SPEAKER_00

Eu acredito que possa ter a ver com isso e também com o facto das casas já não suportarem banheiras. Ou seja, se calhar as casas de banho são mais pequenas e já não podes ter uma banheira maciça. Eu adoro banheiras.

SPEAKER_01

Eu também adoro banheiras.

SPEAKER_00

Adoro banheiras, adoro banhos, mas isso que relatas mais uma vez uma iniciativa que poderia estar linkada à iniciativa Liberace, SOS banheira. Porque há muitas banheiras que provavelmente não têm em casa.

SPEAKER_01

Bela questão.

SPEAKER_00

Isto não tem em casa?

SPEAKER_01

Em tempos as casas tiveram banheira, hoje em dia são as banheiras que não têm em casa. Isto diz muito do que estamos a ver.

SPEAKER_00

Eu diria que isto é voltando à vaca fria, que foi uma vaca que esteve a tomar banho uma banheira destas.

SPEAKER_01

Foi uma vaca que esteve a beber da banheira, não é?

SPEAKER_00

Claro, e que se refrescou, torna-se complexo, fingir. Eu acho que mais do que nunca. Quer dizer, não sei se se calhar tu tens uma memória parecida.

SPEAKER_01

Sacos de elefante.

SPEAKER_00

Não, de outros tempos onde havia muitas colisões. Eu acho que eu pus agora uma coisa no telefone que me impede de ver o Instagram bloqueia, mas apps eu não consigo mesmo abrir. Eu já tentei de várias maneiras, eu não consigo. E dar-te conta o tempo todo da fricção que existe. Antigamente acho que nós não estávamos sempre tão sintonizados, não é? E agora deparamos sempre com tudo.

SPEAKER_01

Eu ocultei imensas pessoas. Ocultei imensas pessoas.

SPEAKER_00

Silenciaste?

SPEAKER_01

Silenciei, não é a ocultar. Silenciei imensas pessoas e digo-te que comecei a respirar melhor. Porque havia coisas que me irritavam, havia vaidades disfarçadas em causas humanas.

SPEAKER_00

O meu tema para amanhã é a vaidade.

SPEAKER_01

Vamos a ela. Para já, se tiverem e souberem de banheiras abandonadas, por favor, comunicem-nos. Eu agora, se não tivesse nada que fazer e se tivesse dinheiro acumulado, inventava a profissão de fotógrafa que persegue banheiras na vegetação árida. Até amanhã, Maria.

SPEAKER_00

Até manhã, Maria.