Diário de Marias
Maria está no meio deles. Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses falam dos seus dias, que se fazem de concertos, exposições, filmes, pensamentos obscuros, desabafos e pequenos delitos entre amigos.
Diário de Marias é um encontro diário na rádio, dez minutos que pedem sempre por mais.
De segunda a sexta na Futura, 10.30, com extensão nas plataformas digitais.
Diário de Marias
Marias Vaidosas
Use Left/Right to seek, Home/End to jump to start or end. Hold shift to jump forward or backward.
Já dizia Carly Simon, "You're so Vain... You probably think this song is about you, don't you?" Terçou e Marias discutem a vaidade visitando figuras como Lili Caneças ou Oprah Winfrey.
Diário de Marias de segunda a sexta na futura, bom dia Maria, bem-vinda!
SPEAKER_00Bem-vinda, bem-vinde, bem-vindo. Aqui todos são bem-vindes. Diário de Marias terça-feira, ontem falávamos, fechávamos o programa, falando de vaidade, isto a propósito eu ter dito que silenciei muitas pessoas. Antes silenciar do que executar.
SPEAKER_01Sim, executar não está ainda nos meus planos, não é? Ainda, mas com.
SPEAKER_00Imaginei-te vestida de ninja num telhado snipando.
SPEAKER_01Ai, eu adorava-se. Tu percebes isso?
SPEAKER_00Eu vejo isso em ti. Eu já tinha só muito tempo. Snipeando por aí fora. A vaidade é motivo de snipe-pans, na tua opinião. A vaidade, ou seja, a minha pergunta é ter um bocadinho de vaidade interessante. Maria, nós somos vaidosas. Somos Maria vaidosas, que era de que resta um blog de uma pessoa assim.
SPEAKER_01Não sabia, não sabia.
SPEAKER_00Era Maria vaidosa. Esta ideia da vaidade como uma coisa até saudável.
SPEAKER_01O que é que tu entendes por vaidade?
SPEAKER_00Há uma coisa vaidosão, uma coisa vai de zona, que é uma coisa um bocado beta. Uma coisa vai de zona de gostares de vestir bem, teres atenção ao teu aspecto, acho isso a vaidade natural. Pois, mas depois há umas figuras que têm egos tão grandes e são tão vaidosas que não cabem na porta. E a questão é: uma vaidade excessiva pode ter graça ou invalida uma relação de qualquer tipo?
SPEAKER_01Nós sem dizer nomes, não é? Porque nós somos ouvidos por muita gente, muita gente, e não convém dizer nomes, não queremos fazer inimigos porque ainda não é agora que eu vou ser sniper, não é? Podes dar-me um exemplo? O que é essa vaidade extrema? Um ego insuflado.
SPEAKER_00Há pouco tempo falámos de olha, como é que ele se chama? Roberto Cavalli?
SPEAKER_01Quem? O designer?
SPEAKER_00Sim, ou o Carl Egerfeld. Vai desão. Máximo. Ao ponto de se, não me esqueço de Chopette, gata de Carl Egerfeld, que um dia talvez herde aquilo que tem para receber.
SPEAKER_01Gata ou cavela?
SPEAKER_00Gata? Gata Chopete.
SPEAKER_01Desculpa não ter decorado este.
SPEAKER_00Não fixa, não fixa. Ainda por cima, os nossos amigos para todos têm uma secção especial em Iniciativa Liberados e seu partido que lançaremos em setembro ou outubro de 2026. Ser muito vaidor, a dada altura eu acho que há uma ideia de uma mitificação da pessoa para poder resistir aos avanços de uma certa sofruguidão. Sim, vontade à sua volta, não é? Curiosidade extrema. Ou seja, mas depois há aquelas figuras e é legítimo. E licaneças é uma figura vaidosa, por exemplo.
SPEAKER_01É legítimo criar uma persona para te defenderes muitas vezes dessa sofreidão social.
SPEAKER_00Sim, mas ser muito vaidusão e tudo ser sobre si é que é aí onde a porca torce o rabo, não é? Chamaste? Tu? Porca?
SPEAKER_01Sim, eu percebo.
SPEAKER_00Por exemplo, ter um date com alguém muito vaidusão dá-me vontade de uma tirada, não sei, que é cair da cadeira abaixo. Porque normalmente essas pessoas não têm muito sentido de humor. Sobre elas mesmas.
SPEAKER_01Deteta-se facilmente o vaiduzão ou a vaiduona, achas que sim? Acho que primeiro não têm grande humor.
SPEAKER_00Não.
SPEAKER_01Deixam-nos pendurados porque não se riem e.
SPEAKER_00São surdos perante assuntos que não tenham a ver diretamente com eles ou elas, não é? Eu tenho uma pessoa em mente a ver se tu consegues ler na minha cabeça quem é esta pessoa. Não vou dizer. Nunca direi, nunca direi. Mas é uma figura que eu já entrevistei, que tu também penso que já entrevistaste num passado distante, que tudo gira à sua volta.
SPEAKER_01Mas eu já percebi quem é.
SPEAKER_00Pronto, mas há uma isto é de tomar educação, nem sequer incluir as pessoas dizendo quem é. Mas o meu ponto é, não se põe em causa os méritos da pessoa em si. Há qualquer coisa na maneira como se atravessa a sala, como as conversas têm que ir dar a si, e se não são sobre esta figura, porque é que sequer sempre de casa.
SPEAKER_01Mas não queria voltar a falar do impacto das redes sociais, mas as redes sociales.
SPEAKER_00Mas isto é uma coisa ancestral, isto não tem a ver com redes sociais. Há pessoas que precisam ser o centro. Sigo no leão, provavelmente. Mas o que eu quero dizer com isto é será um bocadinho de vaidade que tem graça? Uma vaidade que seca tudo à volta, não sei se tem.
SPEAKER_01Mas claro que não tem. Qual é a nossa sorte? Ou qual é a nossa escolha? Não estarmos próximos dessas pessoas. Parece que às vezes nos esquecemos, ou esta simples coisa de ter silenciado dezenas de pessoas que às vezes me irritavam.
SPEAKER_00Sentiste-te culpada por silenciar?
SPEAKER_01Não, nada, nada. E acredita que ando menos irritada por causa disso. Porque era ruído. Eu ando a tentar evitar ao máximo o ruído à minha volta de várias maneiras. E aquilo era ruído desnecessário. Eu não aprendi nada com aquelas pessoas, vi a vaidade onde outros veem as tais causas e isso ainda me irrita mais. Zero culpa, zero culpa. Sinto-me melhor. Vou de férias, não tarda, vamos, Maria.
SPEAKER_00Parecia um anúncio da Nutribalance. Desde cortei com estes açúcares. Nutribalance que faliu, acho eu, entretém.
SPEAKER_01Acho que sim. Cuidado com o que estás a dizer.
SPEAKER_00Não, se calhar não, se calhar Limal.
SPEAKER_01Mas olha, não é. Limal dos Cajagogu.
SPEAKER_00O quê?
SPEAKER_01Não tu lembras do Limal, que era o vocalista, claro que não, porque isto era anos 80.
SPEAKER_00Não.
SPEAKER_01Limal era o vocalista dos Cajajagugu. Chai, chai. Não, ok.
SPEAKER_00Eu sei algumas coisas, mas esta não.
SPEAKER_01E sabes muito, mas.
SPEAKER_00Mas eu também silencio algumas pessoas.
SPEAKER_01Entretanto, não perdi peso apesar de ter silenciado essas pessoas, não?
SPEAKER_00Não, mas sentes que a tua lente está mais limpa.
SPEAKER_01Apesar de usar estes óculos que me escondem.
SPEAKER_00Mas eu vim a caminho daqui hoje, terça-feira, a ouvir o podcast de Oprah Winfree. Que ela é um podcast bom.
SPEAKER_01Sucesivamente vaidosa.
SPEAKER_00É um bom tema. Ela é. Ela abre o programa falando do poder da crença, que é um tema que eu quero levar para amanhã, para quarta-feira. Que eu acho que quarta-feira é um dia de crenças. Sou assim, sou de crenças. E ela abre o programa falando. Ah, eu estou tão feliz, estou tão feliz, porque estou sou o número 1 da lista da Forbes das self-made people, self-made women. É número um da lista da Forbes. Como sabemos, todas estas listas em Portugal são ridículas, mas se nós fizermos o zoom out para mercados maiores, talvez sejam, não deixam de ser, sei lá, demonstrações de influência, não é? E é sempre alguém, podia ser eu e tu sentados, nós os dois sentados num gabinete a dizer pode ser o número um, é isto.
SPEAKER_01Isto era muito mais divertido, não é?
SPEAKER_00Podemos fazer uma lista de influência.
SPEAKER_01Podemos fazer.
SPEAKER_00Podemos uma lista de qualquer coisa para a semana.
SPEAKER_01Então vamos analisar, porque ela abre o programa. É a própria mitificação, não é? A Oprah tem imenso mérito mérito. Foi uma mulher que, evidentemente, escapou à pobreza extrema. Abuso, histórias complicadíssimas, tem de facto talento.
SPEAKER_00Extraordinária comunicadora.
SPEAKER_01Ou seja, agora vamos analisar o facto dela ter começado o podcast com essa felicidade.
SPEAKER_00Mas o ponto dela. Desculpa interromper-te, diz isto.
SPEAKER_01Não, uns poderão ver isso como vaidade. Se fôssemos nós, Maria, não é? Nós em inúmeros.
SPEAKER_00Mas podíamos ser nós, olha, eu a ser vaidoso. O ponto é, no caso dela, é a escala, mas ela é uma extraordinária comunicadora. O que ela está a dizer é I did it, eu fiz isto, e por isso é que hoje vamos falar da importância da crença. Porque ela diz Eu nunca acreditei que eu não estava destinada a coisas maiores do que a minha realidade. Eu nunca acreditei que ia fazer como a minha mãe ia ter que ferver a roupa porque não tinha a máquina de lavar a roupa. Eu nunca acreditei quando ela dizia É bom que aprendas Oprah Gail a pôr a roupa no Stendhal porque vais fazer isto a seguir a mim E ela pensou, Eu nunca vou pôr roupa no Stendhal Gail, não é amiga? É curioso que seja o nome dela também. Ah, elas são ambas Gail Não sei se elas são Gail juntas, mas há esse rumor Eu sei que há esse rumor Agora éramos pressados pela Oprah era um grande problema Elas são as duas Gale Acho que sim, ou para Gail aparentemente é o nome dela, não sei, ela disse isto no programa, mas isto para dizer Eu acho extraordinária Mas isto tinha tudo a ver com o poder da crença e como é que acreditamos nas coisas Mas nós podemos fazer Lá está ela a falar dela mesma, lá está ela a vender a sua história como uma história de sucesso, o sucesso Mas há qualquer coisa, eu percebo o que ela quer dizer o salto dela é inimaginável bilionária, uma pessoa que não tinha roupa para vestir Para ir à escola Mulher negra abusada por um tio Tipo nível de extraordinário Portanto Qual é o mal dessa pessoa ter vaidade?
SPEAKER_01Sim, e o que é que ela ia fazer? Ia tapar Imagina teres o top da Forbes e dizes Ai não, eu não vou falar disto porque receio que me considerem possam considerar peixe A modéstia é uma coisa útil A falsa modéstia Eu odeio a falsa modéstia, não é? Eu prefiro mil vezes Mourinhos e óperas do que falsos modestos Ai sei lá, não vou usar Eu acredito, eu nem sei como é que isto me aconteceu, este tipo de coisas de pessoas que estão há 20 anos a trabalhar para. Tu sabes que, sobretudo dentro de uma certa intelectualidade, faz tudo por tentar ofuscar esse brilho em volta deles, mas eles precisam desesperadamente desse brilho e dessa notoriedade, não é?
SPEAKER_00Mas é uma pulsão natural, eu acho que atravessa a história A diferença é que é hoje em dia mais mercantilizável do que nunca Mas a vaidade A vaidade que te cega é um problema Uma vaidade saudável eu acho só acho que redica no mesmo lugar que a autoestima Eu vaidosa me confesso, não é?
SPEAKER_01Só não sei se aqueles que estão à beira da cegueira conseguem detectar essa cegueira Mas amanhã vamos continuar a nossa conversa Amanhã, quarta-feira, há crenças Falaremos do poder da crença Muito bem, minha crença Adeus, uma crença dentre todos nós Até amanhã