Diário de Marias

Não m'acredito

Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses

Use Left/Right to seek, Home/End to jump to start or end. Hold shift to jump forward or backward.

0:00 | 11:12

Acreditar muda tudo? Marias avaliam a força das suas crenças, o poder do efeito placebo e a importância de um sim.

SPEAKER_00

Diário de Marias de segunda a sexta na futura, ora, quarta-feira, quarta-feira, há uma expressão que eu gosto no norte que é eu não me acredito.

SPEAKER_01

Eu adoro essa expressão, eu não me acredito, eu não me acredito, mas isto pode esconder.

SPEAKER_00

É, eu passo muito tempo a ver, por isso tão perigoso descobri que o meu tempo de telefone estava em 8 horas e 37 horas. Imagina a quantidade de coisas que não andando.

SPEAKER_01

Agora é que brincas?

SPEAKER_00

Não brinca nada, eu paguei tudo. Paguei todas as apps, estou em detox.

SPEAKER_01

Mas para dizer que a dizer uma a silenciar, outra em detox.

SPEAKER_00

Qualquer dia não temos nada para dizer, será possível? Bom, eu não me acredito. Pode também ser uma coisa perigosa. Nefasta nociva, pois significa que não temos crença em nós mesmos também. Eu não me acredito em mim. Eu não me acredito, eu não acredito naquilo que está a acontecer na cidade.

SPEAKER_01

Mas tu acreditas bastante em ti?

SPEAKER_00

Acredito bastante em mim.

SPEAKER_01

Eu também acredito em ti.

SPEAKER_00

Eu também acredito em ti, mas foi forjado no confronto com quem não acredita, ou quem não acreditou. O meu ponto é, eu falo sobre esta importância da crença, porque há aquela frase do Henry Ford que pronto, que teve algumas coisas como lançar a Ford e a linha de montagem, essas coisas assim importantes.

SPEAKER_01

Mas nós podemos gostar de linhas de montagem.

SPEAKER_00

Acho que não, acho que já saiu de moda. Artesanal, artesanal. Ah, claro, mas ele dizia uma frase qualquer gente, daquelas citações, que é whether you think you can or you can't, either way you're right. Portanto, acredites ou não, das duas maneiras estás, tens a certeza, estás certo. E este programa que eu ontem falava da Opera and Free era esta coisa de como, bom, podemos falar do efeito placebo, as pessoas que acham que tomam uma coisa e acreditam piamente que aquela pílula de açúcar os vai curar.

SPEAKER_01

Uma pílula, pílula.

SPEAKER_00

Uma pílula de açúcar. Mas há uma coisa muito importante e às vezes melhoram. E às vezes melhoram, é verdade. Esse é o poder da fé também, a sugestão da fé e da crença em nós mesmos. E ela dizia que, segundo a Oprah Intry, falando da sua própria história, que não foi ela desejar que algo fosse, não foi ela trabalhar imenso para que algo fosse, foi ela acreditar desde sempre que tudo aquilo aconteceria, no sentido de que a ela não lhe estava vedado, o que tendo em conta o seu contexto era extraordinário, não é? Não lhe estava dada o sucesso, não lhe estava dada a educação, não lhe estava dado o acesso. Ela conta esta história, pode ser uma mitificação, pode ser uma mentira dada a altura, mas o ponto dela, o argumento dela, e entrevista um homem sobre isto, agora não tenho o nome aqui, sobre como a nossa crença é o que esculpe tudo, é o que decide tudo, a crença em nós e a crença nos outros.

SPEAKER_01

Mas repara, isto é um bocadinho como ao futebol, não é? Tu sabes que eu me tornei a fanática de novo depois deste Mundial. É muito engraçado o que acontece ali dentro das quatro linhas, perante a magia do esférico.

SPEAKER_00

Como o meu pai me diz, estás no domínio do esférico.

SPEAKER_01

Agora tornava realmente esta pessoa. Tu percebes, imagina, há ali um derrotismo evidente quando a equipa está a perder 2-0 e de repente a equipa consegue marcar um gulo e as coisas já ganham outra forma e depois já há o empate.

SPEAKER_00

É um fogo.

SPEAKER_01

Ou seja, a partir de uma certa altura é preciso que algo aconteça para que essa crença se fortaleça porque senão essa magia nunca vai acontecer. Ou seja, o que terá acontecido a Oprah, que é dela que continuamos a falar, é que a dada alto as coisas começaram a acontecer.

SPEAKER_00

Pois é.

SPEAKER_01

But I don't think. Ou seja, I tenho sido as coisas têm me acontecido realmente, não é? But I nunca pensei Eu vou conseguir ser isto, ou eu não vou conseguir ser isto. Eu nunca pensei realmente sobre as coisas. Ando é verdade que nunca tive nenhuma ambição, eu já lá estava. Imagina, neste caso, a rádio, não é?

SPEAKER_00

Mas não tinhas em ti uma semente de desconfiança.

SPEAKER_01

Eu não sentia nem que sim que não. A questão é que como eu comecei com 16 anos lá na rádio, não é? Em Vila do Conte, e aquilo era uma espécie de brincadeira que começou a ser levada a sério. Eu nunca tive tempo para pensar. Como tu sabes, há pouco tempo houve um episódio, uma espécie de incidente que me fez pensar bastante no que eu tinha conseguido ou no que eu não estava a conseguir. Eu acho que foi a primeira vez que.

SPEAKER_00

Mas não todos chegamos às prateleiras mais altas de Leroy Merlin.

SPEAKER_01

Tu tens de deixar isso ir nem com uns cadotes. Eu agora ando sempre com um miniscado.

SPEAKER_00

Aliás, tens aqui no programa pedido para não trazer. Fecho feito. Desculpa.

SPEAKER_01

Mas é isso, eu nunca pensei muito, foi como se eu tivesse sido abalroada pela velocidade.

SPEAKER_00

Pelas oportunidades. Eu acho que comentei isto do outro dia.

SPEAKER_01

Tu és uma figura pública, eu sou uma mais ou menos.

SPEAKER_00

És uma mais ou menos pública? Eu diria que no meu caso em particular é a primeira vez que eu senti, a primeira vez que me disseram que eu tive alguma coisa, por si filhos dos meus pais, eu tinha 11 anos. Entrei no quadro de honra e disseram só tiveste estas notas porque a tua mãe é conhecida. E a minha mãe tinha ficado conhecida um bocado do dia para a noite com um programa que ficou muito conhecido.

SPEAKER_01

A tua mãe, de certa forma, a Opera, precisa.

SPEAKER_00

Pois, mas lá está, mas a minha mãe também tem uma fé inabalável nela mesma, é curiosa. Curioso isso.

SPEAKER_01

Se eu começar a ter uma fé.

SPEAKER_00

Onde é que tu vais parar?

SPEAKER_01

Onde é que eu vou parar?

SPEAKER_00

Imagina que tinhas. Onde é que quis parar? O ponto aqui, o que eu estava a tentar trazer para o diário e para quem nos ouve é até que ponto é que as nossas crenças mais fundamentais decidem tudo. Se é verdade que alguém, há aquela frase que acho que é daquele filme como é que é Qualquer coisa do Wallflowers, que é we accept the love we think we deserve. Nós aceitamos o amor que aceitamos que merecemos. A crença é, eu não aceito mais descer.

SPEAKER_01

As vantagens de ser invisível.

SPEAKER_00

The perks of being a wallflower.

SPEAKER_01

Exato. Eu tenho essa fotografia duas vezes no meu Instagram de acharmos que temos o amor que merecemos.

SPEAKER_00

É uma crença. Portanto, nós estamos a falar de sucesso ou as ambições.

SPEAKER_01

Portanto, quando cenário que se repete em muitas vidas, quando temos alguém tóxico e mau nós achamos que não merecemos muito mais do que aquilo. Isso aqui é terrível.

SPEAKER_00

Mas lá está, é porque reforça uma crença de que não mereces mais. Portanto, quando contava aquele episódio de aos 11 anos ter ouvido isso, a expectativa seria talvez que eu achasse que me tudo é de vida e o Filho da Mãe, aquela série que eu escrevi, era sobre Brilhante. Eu vou ser uma estrela porque eu mereço. Mas aqui não é ser uma estrela, não, é tens que combater com a desconfiança que existe sobre ti. Essa é parte da minha história, não é? Eu ter que provar de alguma maneira de que posso estar naquela sala, de que posso fazer aquele programa. Hoje em dia já não penso nisso. E foi muito curioso, porque quando estive a fazer aquela série em Madrid que te falava que te falei tanto A coro de confidencialidade NDA ter aquela pessoa a olhar para mim que nunca direi o nome Acho que é tão giro e ele dizer-me que tinha adorado e que tinha, obviamente ele estava a ser simpático, mas o meu ponto é, houve ali um momento de ah, a minha crença é válida, eu posso acreditar que pertenço aqui, e a minha agente inglesa, curiosamente, dizia-me, eu estava a lhe contar como é que tinha corrido, ela dizia, Eu nunca tive um cliente que me falasse dentro estas coisas, e dizia, não, porque eu tenho provavelmente um mindset imigrante, quando está no Reino Unido todas estas vitórias são muito importantes. E ela dizia-me, but you belong. Tu não tens que procurar. E isto era uma sensação de que, por exemplo, dizer isto alto pode ser logo interpretado como lá está ele, dizia que eu não sei o quê. Não, é só não estás a alucinar. Por exemplo, eu fiz uma audição para uma série enorme, inglesa, e eu ia trabalhar com uma das pessoas que eu mais admiro no mundo. E eu fiz a audição, nunca mais soube nada, passaram oito meses. Até que desculpe uma pessoa que eu conheço que falou com alguém nessa produção, era o mesmo diretor de casting do The Crown para uma série inglesa. Mas não era o The Crown. E eu descobri que eu tinha ficado na final para aquela personagem. Mas nunca ninguém me tinha dito. Eu tinha passado esses oito meses a achar que estava a alucinar, que não podia ter uma carreira internacional, que era uma estupidez, que nunca vou trabalhar fora, porque estupidez eu tenho a ficar quieto, se calhar vou voltar só a ser apresentador.

SPEAKER_01

Bastava teres tido acesso mais cedo a esse.

SPEAKER_00

A essa informação, e esse é o meu ponto. Até que ponto é que ter uma informação? Não muda tudo.

SPEAKER_01

Pois muda, claro. Não foste escolhido, sabes porquê? Não?

SPEAKER_00

Porque escolheram um espanhol mais conhecido do que eu e que era uma figura com importância. Ou porque escolheram outra pessoa, mas eu não soube nunca que durante aquela produção toda a gente teve a lutar por mim. E era uma coisa da BBC, eu não fazia ideia. É engraçado como esses dados às vezes mudam tudo. Eu tive um momento que saí de um filme em que eu quase caí, quase que fiquei de joelhos no meio da sala, a chorar de Ah, eu não estou a perder a cabeça. Afinal de contas, até posso sonhar, até posso acreditar que isto um dia até vai acontecer. E para quem estudou em Inglaterra e está naquele circuito e não tens nenhum sim, só tens nãos, não, eu saí da escola, mandei 200 e-mails à gente, tive três respostas, dois nãos e um talvez. O que é um contraste obviamente com Portugal e com as minhas hipóteses em Portugal, mas para dizer que é importante que alguém regue a tua crença.

SPEAKER_01

Queres que eu regue agora?

SPEAKER_00

Quero. Não, mas vou para um bocadinho mais.

SPEAKER_01

Até amanhã, Maria.

SPEAKER_00

Até amanhã.

SPEAKER_01

Amanhã vamos falar. Vou começar por falar de The Bear. Até amanhã. Até amanhã.