Diário de Marias
Maria está no meio deles. Rui Maria Pêgo e Inês Maria Meneses falam dos seus dias, que se fazem de concertos, exposições, filmes, pensamentos obscuros, desabafos e pequenos delitos entre amigos.
Diário de Marias é um encontro diário na rádio, dez minutos que pedem sempre por mais.
De segunda a sexta na Futura, 10.30, com extensão nas plataformas digitais.
Diário de Marias
Desnascer
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Marias regressam em força e plenas de bagagem. Início pós-férias com pensamentos agrícolas, o Bem e o Mal, os poemas de Manuel António Pina e o espectáculo de Vítor Hugo Pontes com canções de Garota Não.
Diário de Maria de segunda a sexta na futura Maria, Maria, estamos de volta. Que alegria, Maria. Como é que está? Foi um mês e picos.
SPEAKER_00Foi um mês e picos, mas saudades valentes.
SPEAKER_02O corpo lateja com saudades tuas, Maria.
SPEAKER_00Parte do corpo.
SPEAKER_02O joelho. O joelho, muito bem.
SPEAKER_00Como é que foi este período de poesio para renascer agora com ideias férteis?
SPEAKER_02Bom, o repouso fez muito bem, também fiz uma certa triagem do ponto de vista da semente, porque há pessoas que investem muito no trigo e depois cansam o solo. Sim, sim, sim, sim. Fiz uma separação, como também faço na reciclagem. Obrigado por perguntares. É muito importante reciclar, mas cuidado com a volta. Nunca falámos do Volta.
SPEAKER_00Ainda não pratiquei.
SPEAKER_02Volta deixa-me. Agora já calmou, mas houve uma fase.
SPEAKER_00Volta a Portugal em garrafa.
SPEAKER_02Em garrafa. Não, eu fiquei, acho uma ideia que funciona noutros países, aparentemente, em Portugal, criou um certo pânico e caos, que foi, as pessoas começaram a atacar com as suas lixo, já calmaram. Mas pronto, acho extraordinário porque de repente tu estás a pagar mais 10 centimos na tua embalagem, e se não fores à máquina de volta, não recuperas esses 10 centimos. Portanto, já estás a apagar a mais uma coisa que incentiva a reciclagem.
SPEAKER_00Mas conseguimos imaginar filas de portugueses.
SPEAKER_02Eu já vi.
SPEAKER_00Tu já viste realmente?
SPEAKER_02Já, já vi, já vi, não só em Lisboa, mas em outros lugares outros pontos do país onde há máquinas de volta. Nós também fizemos o volta, não é?
SPEAKER_00Estamos aqui Estamos aqui com a nossa volta.
SPEAKER_02Como foram as tuas férias?
SPEAKER_00Foram muito boas, foi um período de total repouso, apaziguamento, pacificação, com uma outra interferência, porque nós não vivemos sem interferências, não é? Diria que foi um período, eu vou agarrar nesta palavra que tu usas muito, foi um período do bem.
SPEAKER_02Se eu e a Isabelinha, a Silabelinha, que também diz que é tudo do bem.
SPEAKER_00Pronto, eu queria agarrar nessa coisa do bem e do mal. Depois já vamos às nossas agendas culturais, não é?
SPEAKER_01Sim, sim.
SPEAKER_00Eu acho tão redutor às vezes resumirmos as pessoas ao bem e ao mal. Esta pessoa é do bem ou esta pessoa é do mal. Isso é uma visão muito manicaísta do mundo, já que já não se justifica, porque nós somos todos muitas coisas, e sobretudo, somos coisas diferentes, em dias diferentes. O Rui não acha, a Maria não acha.
SPEAKER_02Maria, eu concordo em absoluto consigo. Há uma tendência, eu acho que é uma coisa quase infantilizada, não é? E também muito filha da lógica da doutrina cristã, de que há pessoas que são do bem, pessoas que são do mal. Eu acho que nós somos todos tudo e temos toda a capacidade de parecer homicidas. Acho que todas as pessoas têm o potencial para esse tal bem e para esse tal mal. Portanto, fico sempre naquela do, ah, não, mas eu já disse isto, aquela pessoa tem uma energia do mal, ou é? Parece-me do mal, mas tem a ver para onde aquela pessoa se orienta. Por exemplo, eu não quero pessoas na minha vida que se orientam para o caos. Eu acho que graça há algum caos na personalidade, na maneira de ser, mas há uma diferença quando as pessoas provocam caos para magoar, para magoar o outro, ou porque estão sistematicamente a precisar de uma espécie de guião de film that ocupa as suas vidas. Eu tenho tendência para querer uma vida mais pacificada, como dizias. Agora tenho pulsões terríveis e qualquer pessoa que se debruze sobre. Ao longo desta semana, por exemplo, falaremos de Macbeth. A ambição pode ser que é muito mal vista nas mulheres, há muitas pessoas que falam de Lady Macbeth como sendo a grande causadora do caos do Macbeth. E não é. O Macbeth já tinha em si a pulsão inicial para a violência e para a conquista. Mas a ambição é muito mal vista. No entanto, todas as coisas podem ser mal vistas se forem mal utilizadas e como ter poderes, não é?
SPEAKER_00Tudo desagou e se resume a Eva, não é? No fundo, é sempre a mesma história.
SPEAKER_02Ela estava com um ratinho, não é? Se não estivesse com um ratinho no ombro mesmo, não seria um papagaio, não era? Não, papagaios é só sobre o meu carro, mas tanto a fotografia, Fezes ácidas que destruíram.
SPEAKER_00Meu Deus, tive que esperar um mês e meio para ouvir a expressão Fezes ácidas de novo.
SPEAKER_02Por que te leva este primeiro dia do resto das nossas vidas de Diário de Maria's nova temporada para este lugar entre o bem e o mal? Tens pensado muito nisso?
SPEAKER_00Não, porque nós vamos confessar, tivemos uma conversa prévia Sim, nós falamos fora do programa. Nós falamos fora do programa e às vezes apanho-te a dizer aquela pessoa é do bem, aquela pessoa é do mal. E eu fiquei a pensar nisso, porque as nossas conversas também servem para isso. Queridos ouvintes, esperemos que estas nossas conversas também sirvam para vocês próprios aprofundarem mais as vossas dúvidas, pensamentos, cristiúnculas. Dei por mim ali mesmo, Maria, pôr a máquina na luz. Sim, com o avental posto. Pensar seremos só isso, seremos só do mal e do bem, ou não seremos nós feitos de, não seremos nós um puzzle por montar?
SPEAKER_02Há um lado também de uma certa escravidão que pode ser associada a eu sou do bem. Ou seja, aquelas pessoas que são sempre bondosas e eu também não acredito muito nisso. Ou seja, quando eu quero dizer uma pessoa é do bem ou do mal, o que eu quero dizer é aquela pessoa orienta-se para uma determinada força. E eu acredito que nós somos responsáveis todos os dias pela nossa alegria e pela nossa participação no mundo. E o mundo já está tão conflituoso, tão agressivo, tão mordaz, tão pouco, tão literal. É uma das coisas que mais me assusta é a literalidade dos argumentos e da falta de ironia, da falta de camadas, não há nuances. Muitas vezes eu também tenho comportamentos e opiniões que eu percebo, ok, eu preciso pensar um bocadinho sobre isso, porque a minha primeira reação é de ataque, por exemplo, e acho que isso tem a ver com esta sopa em que estamos a viver.
SPEAKER_00Nós as duas somos epidérmicas, Maria, não nos podemos esquecer. Olha, eu fui ver um espetáculo que me deixou altamente sintonizada com essa ideia do bem, que foi o Falsas Histórias Verdadeiras, uma pina colagem Pontes, o atual diretor do Teatro São João no Porto, Teatro Nacional também, não é? Entretanto entrevistei o Vítor Augupontes no Fala Com Ela, uma conversa que irá provar ainda. Ele faz espetáculos lindos. Ele faz espetáculos lindos. Este debruça-se sobre o universo do Manuel António Pina, poeta, escritor.
SPEAKER_02Com música de Garota não, não é?
SPEAKER_00Com música com canções absurdamente bonitas da Garota não, impressionante dramaturgia, não é fácil colar poemas, histórias infantis, crónicas, um elenco sublime. Pedro Frias, que está nesse elenco, gosto muito dele, porque a vingança se serve frias por vezes também. Portanto, só tenho coisas boas a dizer deste espetáculo que abriu a nova temporada do CCB, foi um ajudou à festa, digamos, e durante o espetáculo houve-se um poema do Manuel António Pina que eu queria dizer é pequenino e que, como tu sabrás, uma vez que a minha pequena filha foi, não tão pequena assim, uma vez que foi para a faculdade, mas deixou esta casa onde nos encontramos, e tu agora és a minha filha Maria, que se chama Ana quer, e diz, e é dedicada obviamente à filha dele. A Ana quer nunca ter saído da barriga da mãe, cá fora está-se bem, mas na barriga também era divertido. O coração ali à mão, os pulmões ali ao pé, ver como a mãe é do lado que não se vê. O que a Ana mais quer ser quando for grande e crescer é ser outra vez pequena. Não ter nada que fazer se não ser pequena e crescer e de vez em quando nascer e voltar a desnascer. Porque é um bocadinho isto tudo que nós queremos, muitas vezes queremos desnascer, não é?
SPEAKER_02Não estar cá temporariamente nós termos crescidos.
SPEAKER_00Eu sinto muito, caramba, eu vou fazer 55 anos daqui a dois meses, ou lá quando é.
SPEAKER_02Não sei bem.
SPEAKER_00E às vezes penso, isto é ser adulto. Isto é ser adulto, isto custa tanto, dói.
SPEAKER_02Aquela piada do don't grow up, it's a trap, não é? É uma armadilha.
SPEAKER_00É uma armadilha, sim. Ainda me dói todos os dias ser adulta.
SPEAKER_02Sabes que eu quis sempre ser adulto. O meu sonho era ser adulto. Ter as conversas dos adultos, ter a vida dos adultos e percebi através também do trabalho no teatro que era fundamental eu ter a criança que todos temos que lateja. Livre. Se não estiver livre, não consegues brincar e jogar e espantaste-te porque esta coisa de ser adulto, aquela adultez de responsável, sabes, tens sempre a resposta. Quando aquilo que nós sabemos é que é mentira, não tem respostas nenhumas, não é? Imagino para ti agora, com a saída de tua filha, também Ala Maria, com a saída da outra Maria te sintas agora, não estás ainda com o síndrome de ninguém vazio, ou estás?
SPEAKER_00Ainda passou há pouco tempo, não é? Mas acho que não, acho que pensei que ia ter, acho que me preparei durante as férias, portanto as férias se calhar não foram tão apacificadoras quanto isso que passei passado a olhar para paredes a ver fotografias antigas férias a pensar nisso e quando chegou o momento e agora sinto que estou perto, portanto.
SPEAKER_02Há qualquer coisa muito bela numa. Eu não sei se tens seguido o trabalho do podcast da Opera Winfrey. Eu acho que ela vai picando coisas que me interessam. Porque gosto muito da maneira como ela faz aquilo e ela há pouco tempo fez um. Está a fazer um programa sobre os filhos e sobre as filhas. E um dos episódios que eu estou a ver agora é sobre as filhas e é, no fundo, a ideia de que os pais são embaixadores dos filhos na Terra e que os filhos não são deles. Eu nunca fui pai, ainda não fui pai, portanto eu não sei o que é que significa não queres ter propriedade ou alguma propriedade sobre o teu filho, mas no fundo é disso que se trata, não é? É como se fosse uma espécie de guia, mas no fundo a escolha a vida é dos teus filhos, não é? Portanto, neste momento a tua filha Maria Marinês está a fazer o seu caminho.
SPEAKER_00Sim, é como se eu tivesse feito uma entrega. Como é que se chamam aquelas empresas FedEx?
SPEAKER_02És a FedEx da tua filha.
SPEAKER_00Sim, sim. Portanto, eu entreguei aí agora a encomenda, está a entrega, a dada altura nós recebemos, não é? Recebemos o bebê nos braços e agora foi entregue. Foi entregue. Código 8216. E é com isto que nos vamos.
SPEAKER_02Ainda bem que falas de pais e filhos, porque amanhã falarei do novo espetáculo de Tiago Rodrigues, que seria no Festival da Avignon, se não estou em erro, e que está para assistir na Cultura Gesto, completamente escotado, mas quem sabe conseguirá um bilhete. Eu consegui através da internet no Instagram. Portanto, quem sabe? Amanhã falamos disso sobre como as relações entre pais e filhos, num futuro distante, são no fundo iguais.
SPEAKER_00Até manhã, Maria. Até amanhã.