Juro Composto
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A ética do carácter nos sete hábitos
Use Left/Right to seek, Home/End to jump to start or end. Hold shift to jump forward or backward.
Stephen Covey vendeu mais de quarenta milhões de exemplares com uma tese simples e desconfortável: a eficácia que dura não nasce de truques de personalidade, mas do carácter – daquilo que somos, não daquilo que mostramos. Nesta conversa percorremos os sete hábitos, da proatividade à escuta empática, e a lógica que os une: a vitória privada antes da vitória pública, e a mudança que começa sempre de dentro para fora, na forma como vemos o mundo antes daquilo que fazemos nele.
Vamos fazer um pequeno exercício mental para arrancar com a nossa exploração de hoje. Imaginemos o seguinte cenário: entramos numa sala, as luzes estão baixas, houve-se uma música suave, tocar ao fundo, e há flores por todo o lado.
SPEAKER_01Certo. O típico ambiente um bocado pesado, não é?
SPEAKER_00Exatamente. Vemos familiares, vemos colegas de trabalho, amigos de longa data sentados ali em absoluto silêncio. Caminhamos devagarinho até à frente da sala, espreitamos para dentro do caixão e o que vemos somos nós próprios. É o nosso funeral.
SPEAKER_01Ora bem, é de uma clareza brutal logo a abrir.
SPEAKER_00É intenso, não é? A questão que se coloca de imediato aqui é quando aquelas pessoas subirem ao púlpito para falar, o que é que vão dizer genuinamente sobre nós? Será que vão elogiar o facto de respondermos a e-mails às três da manhã de um domingo? Lá está. Ou vão falar da nossa integridade, de como fomos amigos presentes e parceiros leais.
SPEAKER_03É um exercício muito desconfortável, mas corta imediatamente com todo o ruído superficial da nossa vida. Porque quando visualizamos o fim absoluto, a nossa bússola moral calibra-se de forma automática. Certo? Ninguém quer ser lembrado apenas como alguém que foi muito eficiente a apagar fogos no escritório.
SPEAKER_00Claro que não.
SPEAKER_03E que material?
SPEAKER_00Sem dúvida. Estamos a falar dos apontamentos de um verdadeiro monstro das vendas, publicado originalmente em 1989, o famoso Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, do Stephen Covey, um livro que vendeu mais de 40 milhões de exemplares.
SPEAKER_03É uma obra monumental, e o que é fascinante aqui é a distinção furoz que ele faz logo de início.
SPEAKER_00Sim, porque quando olhamos para a asseção de um cócios ou de desenvolvimento pessoal numa livraria, aquilo hoje em dia parece um menu de fast food. Tudo promete rapidez.
SPEAKER_03Pois é, são os teis cinco truques de persuasão para vencer reuniões ou posturas para parecer um líder alfa.
SPEAKER_00Exato, a gratificação instantânea, mas o Cóvei descontrói isso através da diferença entre a ética da personalidade e a ética do caráter. A ética da personalidade foca-se na casca. Exatamente, é a técnica superficial, o sorriso ensaiado, aquela manipulação um bocadinho cínica da percepção pública. E claro que isso pode gerar alguns resultados a curto prazo.
SPEAKER_03Não se sustenta. Não se sustenta de todo. O verdadeiro motor de eficácia a longo prazo reside na ética do caráter. Estamos a falar dos alicerços profundos, pá. Honestidade, coragem, paciência, aquilo que somos de dentro para fora, quando de ninguém está a ver.
SPEAKER_00Ou seja, a tese central é que qualquer esforço para mudar os nossos resultados é inútil se tentarmos apenas mudar as nossas ações periféricas. Temos de mudar primeiro a lente através da qual vemos o mundo, certo?
SPEAKER_03Os nossos paradigmas.
SPEAKER_00Os paradigmas, exato. Os mapas mentais com que interpretamos a realidade. E olha, deixa-me desconstruir isto com uma analogia que acho que clarifica tudo. É como tentar navegar pelas ruas do Porto usando o mapa de Lisboa.
SPEAKER_03Boa sorte com isso.
SPEAKER_00Pois. Não interessa se conduzimos com uma motivação incrível ou se estamos super positivos e eficientes a virar o volante. Se o mapa for o errado, vamos simplesmente chegar ao destino errado, ainda mais depressa.
SPEAKER_03É uma imagem perfeita. Se o paradigma estiver errado, o entusiasmo não corrige a falha de navegação. A atitude positiva só vai acelerar o erro. É por isso que qualquer mudança real exige em primeiro lugar uma mudança de paradigma.
SPEAKER_00Que tem de vir de dentro.
SPEAKER_03Tem de vir de dentro para fora. Não podemos tentar consertar o mundo ou as equipas à nossa volta sem primeiro corrigirmos o nosso mapa interno. E essa jornada começa com a transição da fase de dependência, que é o tomas conta de mim, para a independência. O eu consigo sozinho.
SPEAKER_00Exatamente. O estádio em que assumimos o comando, o primeiro hábito, que é o ser proativo.
SPEAKER_03Espera aí, deixa-me fazer uma pausa rápida porque sinto que a palavra proativo foi completamente sequestrada hoje em dia.
SPEAKER_00Não achas que se tornou apenas naquele jargão corporativo para trabalhar mais horas sem ser pago? Tipo, veste a camisola a ser proativo e resolve-me este problema no fim de semana?
SPEAKER_03Sim.
SPEAKER_00Então como é que ele defina a proatividade real?
SPEAKER_03É o reconhecimento vital de que os seres humanos não são máquinas de estímulo resposta. Entre o que nos acontece, uma crítica de um chefe, a economia que cai, o trânsito e a forma como reagimos a isso, existe uma fração de segundo.
SPEAKER_00E é aí que reside a tal liberdade de escolha.
SPEAKER_03Nem mais. É recuperar o poder e recusar culpar o passado ou as circunstâncias. As pessoas reativas operam presas no círculo de preocupação, que é tudo o que as inquieta, mas sobre o qual têm zero controle.
SPEAKER_00É o famoso doom scrolling das redes sociais. Ficar ali horas a ler notícias terríveis, a absorver ansiedade sobre coisas que não podemos mudar. O que nos leva ao segundo hábito, o começar com o fim em mente. Pois, porque a imagem que o covey usa do perigo de passar a vida inteira a subir uma escada de forma altamente eficiente, apenas para chegar ao topo e descobrir que a escada estava encostada à parede errada.
SPEAKER_03É aterrorizante, francamente.
SPEAKER_00Epá. Fomos super eficientes na direção errada. E depois de definir o destino, temos de executar no dia a dia. É o terceiro hábito. Primeiro, o mais importante. E aqui a nossa biologia joga muito contra nós.
SPEAKER_03Como assim a biologia?
SPEAKER_00Nós adoramos o urgente. Vivemos reféns daquilo. O telefone a tocar, a notificação no ecrã, o e-mail muito urgente. Tudo isto liberta dopamina no nosso cérebro.
SPEAKER_03Há claro, dá-nos aquela ilusão de produtividade imediata. É um ciclo viciante. E a grande distinção que ele faz entre o urgente e o importante.
SPEAKER_00O famoso segundo quadrante.
SPEAKER_03Exato. As coisas importantes, mas não urgentes, como construir relações profundas, planear a longo prazo, fazer exercício físico. O quão fácil é vivermos reféns dos e-mails, ignorando a disciplina necessária para proteger o que realmente constrói uma vida. Ninguém nos liga às 10 da noite em pânico porque não fomos ao ginásio, pois não?
SPEAKER_00Não, mas no entanto é o que vai ditar a nossa saúde daqui a 20 anos. Dominando estes três primeiros hábitos, atingimos a tal independência, não é? A vitória privada.
SPEAKER_03Certo, ficamos firmes sobre os nossos próprios pés.
SPEAKER_00O problema, no fundo, é que a vida real exige interação. Não operamos sozinhos no vácuo. Como é que passamos dessa vitória privada para a vitória pública, para os grandes resultados que só se atingem com os outros?
SPEAKER_03Isso obriga-nos a olhar para a interdependência. O nós conseguimos juntos. Precisamente. Pensa numa relação como uma conta no banco. Ações como honestidade, empatia e o cumprimento de promessas são depósitos. O saldo sobe.
SPEAKER_00E os levantamentos?
SPEAKER_03O desrespeito, as falhas de comunicação, o quebrar compromissos e o saldo dita a qualidade da relação. Se a confiança está alta, podes até cometer um agafe que a pessoa perdoa.
SPEAKER_00Aqui é que a coisa fica mesmo interessante. E o que é que acontece quando uma relação entra em falência técnica e emocional, quando o saldo está a zero.
SPEAKER_03Quando o saldo está a zero, caminhas sobre ovos, não há margem para erros. Um pequeno deslize, um atraso de cinco minutos, não é visto como apanhei trânsito, é visto como uma falta de respeito enorme.
SPEAKER_00Tudo se torna uma crise gigantesca.
SPEAKER_03Exatamente. O que demonstra porque é que a independência isolada nunca é suficiente. Se não soubermos gerir esta conta bancária com os outros, esbaramos de uma parede.
SPEAKER_00E para financiar essa conta e atingir a interdependência, entramos nos três hábitos seguintes. A começar pelo pensar em ganhar-ganhar.
SPEAKER_02Que é o grande antídoto para a nossa típica mentalidade de escassez.
SPEAKER_00Aquela ideia de que, para eu ter sucesso, para eu comer uma fatia de bolo, tu tens obrigatoriamente de ficar com menos bolo.
SPEAKER_03É. O achar que a vida é um jogo de soma zero. Mas a mentalidade de abundância diz-nos que há o suficiente para todos. O pensar ganhar-ganhar não é ser ingênuo ou ceder facilmente. É insistir até em encontrar soluções onde todas as partes ganham. É a base de qualquer relação duradoura.
SPEAKER_00Mas para encontrar essas soluções onde todos ganham, deparamos-nos com o obstáculo mais doloroso que existe, a escuta. O hábito 5. Procure primeiro compreender, depois ser compreendido. E a distinção aqui é feroz, porque a maioria de nós houve apenas para responder, não é?
SPEAKER_03É o que chamamos de escuta autobiográfica. O outro está a falar e nós já estamos a preparar o nosso conselho na cabeça.
SPEAKER_00Ou a pensar naquela vez em que nos aconteceu o mesmo.
SPEAKER_03A escuta empática é o oposto, é entrar no quadro de referência do outro.
SPEAKER_00Mas deixa-me fazer o papel de advogado do diabo. A ouvir de forma tão profunda não será um bocado paralisante? Imagina, estamos no meio de uma crise urgente, os servidores da empresa foram abaixo. Se eu for praticar escuta empática com cada pessoa da equipa, o barco afunda-se, não?
SPEAKER_03É uma objeção clássica, pá. Mas se ligarmos isto ao panorama geral, percebemos que investir esse tempo inicial previne a ineficácia crónica.
SPEAKER_00É a limpar as defesas para podermos construir o passo seguinte, que é o hábito 6, a sinergia. A sinergia é usar os instrumentos diferentes, a bateria forte, o contrabaixo subtil, o saxofone imprevisível, para criar uma harmonia que uma pessoa sozinha num palco, por mais independente que fosse, nunca conseguiria fazer. Bem, chegados a este ponto, tenho de dar um suspiro figurativo, pá, porque praticar seis hábitos a este nível de profundidade exige uma quantidade monumental de energia vital. Como é que a nossa máquina humana não entra em colapso completo no meio de tudo isto?
SPEAKER_03E é aí que entra o sétimo e último hábito: a manutenção da máquina, o afiar a serra. O covéi partilha uma andota visual muito engraçada. Imagina um lenhador exausto.
SPEAKER_00A soar em bica.
SPEAKER_03Exato. A tentar cortar uma árvore há horas. Ele está demasiado ocupado a serrar freneticamente para perceber que a serra está completamente romba. Alguém sugere, porquê que não paras um pouco e afias a serra? Ele responde irritado.
SPEAKER_00Não vês que estou demasiado ocupada a cortar a árvore?
SPEAKER_03É literalmente isso. É o absurdo das nossas vidas.
SPEAKER_00Mas olha, o que mais vejo no nosso ritmo frenético moderno é que afiar a serra, seja dormir oito horas, fazer exercício ou até ler um livro, é frequentemente rotulado nas empresas como um luxo egoísta ou uma enorme falta de tempo.
SPEAKER_03É um preconceito gigantesco investir em nós mesmos não é um luxo, é a própria capacidade de produzir. Cové diz que temos de renovar as quatro dimensões da vida a física, a mental, a social e emocional e a espiritual.
SPEAKER_00Porque sem isso todos os outros hábitos desgastam-se.
SPEAKER_03Colapsam. A isto chama-se a espiral ascendente. Aprender, comprometer-se e agir. Começamos de novo, mas a um nível mais alto de cada vez.
SPEAKER_00É de uma genialidade enorme se olharmos para o panorama geral. Os sete hábitos são apenas uma história contínua, no fundo. Dominar a nós próprios, com o mapa correto, que é a Vitória Privada, aprender a construir de forma genuína com os outros, a tal vitória pública, e cuidar do próprio instrumento que permita a ação.
SPEAKER_03Será possível que num mundo onde todas as técnicas e atalhos ficam obsoletos em meses, a ética do caráter de que falava Cové em 1989 seja literalmente a única âncora que nos resta para não nos perdermos?
SPEAKER_00Uau! É um pensamento provocador incrível e concordo com enorme entusiasmo. Se o chão muda tão depressa, a nossa fundação interna tem de ser de ferro. Fica o desafio para quem nos ouve, não apenas de reterem esta informação, mas de desenharem hoje mesmo o vosso mapa interno. Não esperem pelo vosso próprio funeral. Ficamos por aqui nesta nossa exploração de hoje e até à próxima.