Juro Composto

Psicologia - lidar com dinheiro

Nuno Mendes Season 1 Episode 4

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0:00 | 20:52

Porque o sucesso financeiro depende menos do que sabemos e mais de como nos comportamos – Morgan Housel, em resumo. 

Há um porteiro que morreu com oito milhões de dólares e um executivo de Harvard que faliu na crise. A diferença entre os dois não foi inteligência nem diploma – foi comportamento. É daqui que parte Morgan Housel em «The Psychology of Money».

Neste resumo percorremos a tese central do livro: ganhar e gerir dinheiro tem pouco a ver com o que sabemos e quase tudo a ver com a forma como nos comportamos. Falamos do peso silencioso da sorte e do risco, da magia dos juros compostos – que exige tempo, não brilhantismo –, da diferença entre ficar rico e manter-se rico, e da pergunta que quase ninguém faz: quanto é «suficiente»? No fim, fica a ideia mais subversiva de todas – o maior dividendo que o dinheiro paga não é o consumo, é o controlo sobre o próprio tempo.

Um episódio para quem quer repensar a relação com o dinheiro antes de pensar em estratégias e fórmulas. Porque, como diz Housel, ninguém é maluco nas suas decisões financeiras.

#literaciafinanceira

SPEAKER_00

Olá e bem-vindos a mais um Deep Dive. Hoje vamos mergulhar num conjunto de notas e numa síntese bastante detalhada do livro A Psicologia do Dinheiro.

SPEAKER_01

Exato, o famoso livro do Morgan Housel, publicado em 2020.

SPEAKER_00

Esse mesmo. E o nosso objetivo hoje é um bocado ambicioso. Queremos, no fundo, desconstruir aquela ideia feita de que o sucesso financeiro é, sei lá, um produto de folhas de cálculo perfeitamente alinhadas e de matemática pura. Exatamente. Para quem nos ouve e não conhece, com 92 anos, and ele teve uma vida super humilde.

SPEAKER_01

Trabalhou como mecânico numa bomba de gasolina, não foi?

SPEAKER_00

Exato, mecânico durante 25 anos andou porteiro numa das lojas da JCPenney. Nunca teve um salário alto, nunca herdou fortunas, viveu sempre de forma muito pacata. Mas aqui é que está o choque. Quando ele morreu, o testamento revelou que ele tinha acumulado cerca de 8 milhões de dólares.

SPEAKER_01

8 milhões. A varrer chãos e arranjar carros.

SPEAKER_00

Pois. E ele não ganhou loteria, atenção. Ele até mesmo pouco que conseguiu e investiu de forma paciente ao longo de décadas. As notas contrastam logo isto com o Richard Fuscon. Completamente. O Richard Fuscon era um executivo da alta finança, formado na Universidade de Harvard, com um currículo brilhante na gestão de grandes fortunas. Certo. que o Fuscon, apesar de toda essa educação de elite e de todo o Estatuto, acabou por declarar falência pessoal.

SPEAKER_01

É um contraste demolidor. E o que isto ilustra também é que as finanças pessoais são, talvez, a única área profissional no mundo onde uma história destas pode acontecer.

SPEAKER_00

Claro, ou fazer uma cirurgia de coração aberta.

SPEAKER_01

Exatamente. O conhecimento técnico específico nessas áreas é um muro que não para saltar. Mas no dinheiro, nas finanças, o comportamento e a paciência conseguem de forma sistemática ultrapassar a inteligência pura.

SPEAKER_00

E é que entra aquela crítica à educação financeira tradicional, não é? Porque as fontes mostram que o sistema trata o dinheiro como um problema de engenharia.

SPEAKER_01

Pois é, assumem que as pessoas são máquinas racionais.

SPEAKER_00

Exato. Nas aulas ensinam-nos que, se derem a uma pessoa à fórmula perfeita de investimento, a pessoa vai simplesmente otimizar os seus ganhos de forma fria.

SPEAKER_01

O que, como sabemos, está completamente desfasado da realidade. Ninguém toma as decisões financeiras mais importantes a olhar para um gráfico num escritório fechado e isolado do mundo. As decisões a sério, aquelas que mudam a vida, acontecem à mesa de jantar. Tomam-se sob enorme stress, talvez com medo de perder um emprego. Ou então sob a euforia de quando os mercados estão todos a subir.

SPEAKER_00

Ou até porque quererem impressionar os vizinhos.

SPEAKER_01

O fator emocional é brutal.

SPEAKER_00

Isso faz-me pensar numa analogia. Estudar finanças na escola é um bocado como estudar a engenharia de uma ponte.

SPEAKER_01

Ok, estou a perceber a ideia.

SPEAKER_00

Porque na engenharia da ponte tu calculas a gravidade, a resistência dos materiais e é tudo muito rígido, tudo previsível ali no papel. Mas gerir dinheiro, na vida real, de quem nos ouve, é mais como navegar num pequeno veleiro no meio do oceano.

SPEAKER_01

Muito boa comparação.

SPEAKER_00

Pois porque a teoria ensina-te a posição das velas, mas não te prepara de todo para uma tempestade do nada, para o pânico de ver a água entrar no barco. Tens de ajustar as tuas velas, consoante os ventos emocionais, constantemente. Ah, isso é fundamental.

SPEAKER_01

Sim, porque quando nós vemos as escolhas de consumo ou de investimento dos outros, muitas vezes pensamos, ah, que decisão tão idiota!

SPEAKER_00

Especialmente decisões que parecem autodestrutivas.

SPEAKER_01

Porquê? Porque são baseadas na lente única através da qual essa pessoa o mundo.

SPEAKER_00

Pela experiência de vida dela.

SPEAKER_01

Imagina alguém que cresceu nos anos 70 ou 80, com taxas de inflação loucas e crises constantes. A percepção de risco dessa pessoa vai ser completamente diferente, vigeralmente diferente. Sim, é como se ficássemos formatados a achar que o mundo vai funcionar sempre dessa maneira.

SPEAKER_00

Se nós todos tomamos decisões com base num contexto histórico e familiar que não escolhemos, como é que nós podemos tentar julgar os erros financeiros das outras pessoas? Ou tentar criar uma regra universal para todos?

SPEAKER_01

É uma excelente questão. E a resposta das fontes passa muito por termos de cultivar uma grande humildade. Porque é muito fácil, de fora, ter a arrogância de dizer eu nunca faria isso. Eu sou mais inteligente que este tipo.

SPEAKER_00

Claro, com a obra feita é fácil falar.

SPEAKER_01

Pois. Mas a verdade é que se nós tivéssemos nascido na mesma exata época, com a mesma família, e tivéssemos os mesmos traumas com dinheiro, a probabilidade de fazermos exatamente o mesmo erro é gigante. E se aceitamos isto, somos logo empurrados para os dois fatores mais invisíveis disto tudo.

SPEAKER_00

A sorte e o risco. E é fascinante como os textos descrevem a sorte e o risco, não como opostos, mas como irmãos. São as duas faces da mesma moeda. Mas é desconfortável admitir isto, não é? A nossa sociedade é obcecada pela ideia de mérito absoluto.

SPEAKER_01

Sim, adoramos a narrativa de que fomos nós que fizemos tudo sozinhos.

SPEAKER_00

Queremos acreditar que o sucesso é sempre 100% suor. Mas o material desmonta isto de forma dura, usando a história do Bill Gates.

SPEAKER_01

A história da escola dele, certo?

SPEAKER_00

Obviamente ninguém nega o talento e a ética de trabalho do Bill Gates, o homem é um gênio, mas a matemática por trás do início da história dele é absolutamente louca.

SPEAKER_01

Estatisticamente surreal.

SPEAKER_00

Sim, porque no final da década de 60, ele andava na escola secundária de Lakeside in Seattle.

SPEAKER_01

Nos anos 60? Imagina.

SPEAKER_00

Imagina a probabilidade. O nível de sorte para um miúdo inteligente como o Gate, se calhar ali, na altura exata em que aquela máquina chegou, é uma vantagem quase irreplicável.

SPEAKER_01

Pois. Exatamente o mesmo talento. Eles até tinham planos de fundar uma empresa juntos. Queriam fazer coisas enormes. But antes de sequer acabarem o liceu, o Kent sofreu um acidente terrível enquanto fazia montanhismo e morreu.

SPEAKER_00

Uau, é mesmo de uma pessoa ficar sem palavras.

SPEAKER_01

Pois o Gates teve a sorte extrema de um em um milhão. O Kent apanhou com o risco extremo e fatal de um em um milhão. Tiveram o mesmo esforço, a mesma paixão, e acabaram em desfechos totalmente ditados por forças estatísticas que nenhum deles controlava.

SPEAKER_00

Hum, eu percebo, mas tenho de ser advogada do diabo aqui, porque sinto que temos de fazer este pushback. Se a sorte tem assim um peso tão desproporcional nas nossas vidas e nos grandes resultados, isso não corre o risco de passar uma mensagem bué desmotivadora para quem nos ouve?

SPEAKER_01

Em que sentido?

SPEAKER_00

No sentido em que, se as coisas dependem tanto da sorte ou do acaso, nós estaremos a tirar valor ao trabalho árduo, parece quase uma justificação para alguém dizer que não vale a pena tentar porque não sou um sortudo.

SPEAKER_01

Percebo perfeitamente o teu ponto, mas a ideia do autor não é de todo anular o esforço ou o mérito. O que ele aponta é um erro estrutural na forma como analisamos o sucesso. O perigo é confundir sorte com competência.

SPEAKER_00

Ok, explica melhor.

SPEAKER_01

O problema começa quando tentamos criar um manual de instruções a partir das pessoas que estão nos extremos. O autor diz que idolatrar bilionários e tentar copiar as suas rotinas matinais, achando que se acordarmos às quatro da manhã também vamos fundar uma Microsoft é uma ilusão muito perigosa.

SPEAKER_00

Porque não podemos copiar as anomalias que eles viveram.

SPEAKER_01

Nem as anomalias do mercado, nem a sorte deles. Portanto, a lição prática não é desistir, mas sim procurar inspiração em padrões amplos e não naqueles casos raríssimos que estão completamente fora da curva.

SPEAKER_00

E isso liga-se com aquela falácia do viés de sobrevivência, não é?

SPEAKER_01

Exatamente. O nosso cérebro adora histórias de sobreviventes. Como os falhados nos escrevem biografias, nós assumimos que tomar grandes riscos é sempre recompensado, o que é mentira.

SPEAKER_00

E perante isto, se a sorte não se controla e se o risco esconde desastres que não vemos, que ferramenta nos resta na prática? Sobreviver.

SPEAKER_01

A diferença abismal entre o processo de ficar rico e o processo de manter-se rico. São opostos. Ficar rico, acumular capital inicialmente, exige otimismo, audácia e muitas vezes assumir grandes riscos.

SPEAKER_00

Mas manter essa riqueza.

SPEAKER_01

Manter a riqueza exige medo. Que número é que te chamou mais a atenção?

SPEAKER_00

O facto de que a esmagadora maioria da fortuna dele, estamos a falar de mais de 80 mil milhões de dólares, foi acumulada depois do seu 65o aniversário.

SPEAKER_01

É um dado infeccionante.

SPEAKER_00

Mas como é que isto faz sentido? Porquê que o grande salto aconteceu depois dele entrar na idade da reforma?

SPEAKER_01

E a matemática fria dos juros compostos. Os juros não crescem numa linha reta, crescem numa curva exponencial. O grande segredo do Buffsett não foi ter bons retornos anuais, foi o facto de ele ter começado a investir quando tinha 10 anos de idade. Exato. Ele não interrompeu o processo durante 70 ou 80 anos. Ele deixou a máquina dos juros compostos trabalhar interrompidamente. Numa curva dessas, os ganhos absolutos nas últimas décadas são tão estupidamente grandes que eclipsam tudo o que ele ganhou na juventude. Portanto, o brilhantismo não está em ser um adivinho do mercado. Não, está em garantir que ele nunca foi forçado a sair do jogo. Ele sobreviveu a, sei lá, umas 14 recessões sem falir. Faz sentido.

SPEAKER_00

Ficar rico é quase um sprint cheio de adrenalina, mas manter-se rico é uma maratona super aborrecida onde o único objetivo é não tropeçar - uma excelente forma de pôr a questão. Mas na prática, como é que uma pessoa psicologicamente passa desta mentalidade de otimismo para ganhar para uma cena de paranoia calculada para não perder? E fazer isto sem entrar em pânico constante.

SPEAKER_01

O segredo está em construir o que o autor chama de margem de erro. Ou margem de segurança. Isto não é viver com medo, é, no fundo, fazeres os teus planos financeiros, assumindo logo à partida, que uma parte do plano vai correr mal.

SPEAKER_00

Assumir que o pior pode acontecer.

SPEAKER_01

Sim. O objetivo é garantir que ficas imune ao risco de ruína. O risco de ruína é aquele risco que, se correr mal, aniquila o teu capital todo e tira-te do jogo para sempre. A ideia é preferir retornos consistentes e seguros, em vez de andar a perseguir retornos mirabolantes que te podem destruir.

SPEAKER_00

Mas para conseguirmos ter essa disciplina toda ao longo de décadas, temos primeiro de resolver um problema psicológico brutal. Temos de saber definir onde é que está a linha de chegada, o que é o suficiente.

SPEAKER_01

Ah, o suficiente, o grande drama humano.

SPEAKER_00

É mesmo. Porque as fontes avisam que a ganância deita tudo a perder. sempre esta tendência perigosa de movermos constantemente a fasquia.

SPEAKER_01

Exato. O objetivo afasta sempre que chegas.

SPEAKER_00

Pessoas que têm uma boa estabilidade financeira arriscam aquilo de que precisam e que têm para tentar ganhar algo de que não precisam, pelo Estatuto. por ego.

SPEAKER_01

uma citação no material que eu acho brilhante. Diz que a poupança é a diferença entre o teu ego e o teu rendimento.

SPEAKER_00

Isso é muito forte.

SPEAKER_01

É fortíssimo porque nós fomos todos educados a usar o dinheiro como um sinal luminoso para os outros. Vemos um objeto caro e achamos que transmite sucesso.

SPEAKER_00

A clássica cena do carro desportivo.

SPEAKER_01

Exatamente. O livro usa esse exemplo. Quando tu vês alguém a conduzir um Ferrari na rua, tu quase nunca olhas para o condutor e pensas, Uau, aquele tipo é incrível. Tu projetas a ti próprio. É invisível. São os carros não comprados, as viagens ostensivas não feitas, é a ausência de ansiedade.

SPEAKER_00

que isso levanta um problema bué prático, a meu ver. Num mundo que nos bombardeia constantemente com anúncios, com redes sociais onde uma enorme pressão para estourar o que temos, como é que justificamos emocionalmente poupar dinheiro sem ter uma compra planeada? Digo isto porque, psicologicamente, o nosso cérebro interpreta não gastar como privação, e nós odiamos estar privados de algo.

SPEAKER_01

Pois, e a forma de ultrapassar isso é mudares completamente o que tu achas que estás a comprar com essa poupança.

SPEAKER_00

Como assim?

SPEAKER_01

Quando tu poupas por poupar, tu não estás a deixar o dinheiro a ganhar pó. Tu estás, na verdade, a comprar flexibilidade, estás a comprar opções contra os imprevistos da vida. O dividendo supremo de dinheiro não é comprar coisas materiais, é comprar controle absoluto sobre o teu próprio tempo.

SPEAKER_00

Ter a capacidade de acordar de manhã e dizer hoje vou fazer o que eu quiser com quem eu quiser.

SPEAKER_01

Isso mesmo. É a diferença entre estares preso a um trabalho que odeias, porque precisas do dinheiro do mês que vem, ou teres margem para poderes mudar de vida.

SPEAKER_00

Mas repara, para chegar a essa liberdade temporal, nós temos de investir. Temos de pôr o dinheiro a render. E é que a volatilidade entra na equação, o que a cabo da inteligência emocional de qualquer um.

SPEAKER_01

Sem dúvida, os mercados sobem e descem.

SPEAKER_00

Pois, e veres o teu dinheiro cair 20% num mês, o pânico é imediato.

SPEAKER_01

É natural, porque nós enquadramos essas quedas de forma errada. O autor diz que o cérebro humano olha para a queda de um investimento como se fosse uma multa. E nós associamos as multas a erros. Achamos que fizemos a janeira.

SPEAKER_00

Então como é que devemos olhar para isso?

SPEAKER_01

Devemos olhar para a volatilidade não como uma multa, mas como o preço do bilhete de admissão.

SPEAKER_00

Uau, adoro essa analogia. Tipo, se eu quiser ir andar numa montanha russa, eu pago um bilhete. E eu sei perfeitamente que em cima vou levar grandes solavancos, vou ter quedas a pique.

SPEAKER_01

Exato. E não sais a meio da viagem achar que estás a ser castigado, pois não?

SPEAKER_00

Claro que não, é a experiência pela qual paguei. Isso de facto muda tudo na forma como lidamos com as oscilações, torna tudo mais específico. Mas, para sermos totalmente rigorosos com as notas, não podemos falar maravilhas, certo?

SPEAKER_01

Não, temos de analisar as fragilidades.

SPEAKER_00

Quais são as grandes críticas ou limitações apontadas a este livro?

SPEAKER_01

algumas bastante pertinentes. A primeira tem a ver com a ideia de saber qual é o jogo que cada um joga. As regras do livro são desenhadas para o investidor de longo prazo. Não servem de nada para quem faz trading a curto prazo, por exemplo.

SPEAKER_00

Ah, isso é importante. Não tem dicas práticas.

SPEAKER_01

Zero. É um livro quase filosófico sobre como pensar o dinheiro, mas não te diz o que fazer. Não nada sobre otimização de impostos, como alocar ativos específicos ou como usar certos produtos financeiros. Um viés tremendo, porque o livro assume aquela premissa de que o mercado no longo prazo vai sempre recuperar e continuar a bater recordes. Mas isto baseia-se sobretudo no século XX americano.

SPEAKER_00

Que foi, convenhamos, uma época de hegemonia económica absolutamente excepcional.

SPEAKER_01

Totalmente irrepetível, muito possivelmente. Portanto, assumir que essa resiliência vai acontecer noutros mercados geográficos pode dar um falso sentido de segurança.

SPEAKER_00

É questão da desigualdade. Porque esta tese toda baseia-se em controlar o ego e poupar parte do rendimento. Mas não será que isto é o reflexo de um privilégio tremendo?

SPEAKER_01

É uma excelente perspectiva.

SPEAKER_00

Porque, repara, se alguém está numa situação financeira super precária, em que o salário nem chega para pagar a renda e a comida no final do mês. Dizer a esta pessoa que o problema dela é comportamental ou que é falta de inteligência emocional, não sou um bocado alienado da realidade. Mm.

SPEAKER_01

Sou aí, é de facto a fronteira mais dura desta filosofia. As fontes validam essa crítica. O livro assume tacitamente que existe uma linha de base financeira estabilizada.

SPEAKER_00

Que rendimento disponível, não é?

SPEAKER_01

Sim. O livro é escrito para pessoas que têm rendimento excedentário e que, em vez de o pouparem, o estão a esbanjar em símbolos de statuto por causa de más decisões.

SPEAKER_00

Ou seja, não serve para resolver a pobreza estrutural.

SPEAKER_01

De todo, para quem sofre de verdadeira privação material, o problema não é emocional, é a falta de dinheiro puri duro. O livro é essencialmente um guia para evitar que pessoas que passaram a linha da sobrevivência boicotem o seu próprio futuro por causa do ego.

SPEAKER_00

Faz todo o sentido fazer essa distinção. Portanto, para quem nos ouve e assumindo que estão nessa posição de conseguir poupar algo, o que é que levamos daqui? Empoderamento. Não precisamos de ser uns crânios da economia.

SPEAKER_01

Exato. Precisamos é da calma para deixar os juros fazerem a sua magia, da paciência para lidar com as quedas do mercado e, claro, da tal coragem intelectual para definir o nosso suficiente. O temperamento vence sempre o talento a longo prazo.

SPEAKER_00

É fascinante. Uma consistência quase aborrecida acaba por ganhar aos impulsos geniais.

SPEAKER_01

Aguentar o custo emocional, pagar o budeto da montanha russa e não saltar do comboio ao meio.

SPEAKER_00

Bem, e para fecharmos a reflexão de hoje, queria lançar aqui uma provocação a partir disto tudo. Uma coisa para quem nos ouve pensar.

SPEAKER_01

Força, venha ela.

SPEAKER_00

Se a maior riqueza que o dinheiro nos pode dar é a paz de espírito e a verdadeira liberdade de controlar o nosso tempo, não achas que é super irónico como tantas vezes agimos ao contrário? Porque andamos todos numa busca estressante e incessante por otimizar cada céntimo, a olhar todos os dias para aplicações do banco e do mercado. E será que isso não nos está ironicamente a roubar exatamente a paz e o tempo que andamos a tentar comprar?

SPEAKER_01

Uau, é uma excelente questão, de facto. Porque a grande revelação destas notas é que durante anos achamos que gerir finanças era gerir números, mas na verdade estivemos sempre a gerir-nos a nós mesmos. Como Ronald Reid provou, às vezes a ferramenta mais lucrativa que podemos ter é simplesmente a nossa calma. Obrigado a quem esteve desse lado e até à próxima análise profunda.