Ondas Impressas

Embalagens Flexíveis

May 06, 2020 Tânia Galluzzi Season 1 Episode 7
Ondas Impressas
Embalagens Flexíveis
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Ondas Impressas
Embalagens Flexíveis
May 06, 2020 Season 1 Episode 7
Tânia Galluzzi

Vamos dar um mergulho no universo das embalagens flexíveis. Com a participação de Aislan Baer, da ProjetoPack, discutimos os reflexos da pandemia como o aumento na procura por embalagens flexíveis na Europa e Estados Unidos e a mudança na forma como a sociedade está vendo o plástico, o atual estágio da indústria brasileira e tendências que devem ser acompanhadas. 

Show Notes Transcript

Vamos dar um mergulho no universo das embalagens flexíveis. Com a participação de Aislan Baer, da ProjetoPack, discutimos os reflexos da pandemia como o aumento na procura por embalagens flexíveis na Europa e Estados Unidos e a mudança na forma como a sociedade está vendo o plástico, o atual estágio da indústria brasileira e tendências que devem ser acompanhadas. 

Tânia Galluzzi:   0:03
Olá, militantes da impressão, aqui Tânia Galluzzi

Hamiton Costa:   0:16
Bom dia! Boa tarde! Boa noite! Eu sou Hamilton Costa

Tânia Galluzzi:   0:21
Hoje nós vamos dar um mergulho no universo das embalagens flexíveis. Para quem não está acostumado com o termo, embalagem flexível é qualquer envoltório ou saco, normalmente de plástico, mas também pode ser de papel, impresso em flexografia, rotogravura ou impressão digital. Para dar alguns exemplos, o pacote de café, a ração do seu gato, o refil do seu xampu. Todos esses produtos chegam até a gente acondicionados em embalagens flexíveis. E para falar desse setor a gente vai conversar com a Aislan Baer, fundador e CEO da ProjetoPack e Associados, consultoria especializada no segmento de embalagens flexíveis e rótulos e também editor da  ProjetoPack em Revista. A gente vai conversar sobre os reflexos da pandemia, como o aumento na procura por embalagens flexíveis e a reabilitação do plástico, sobre o atual estágio da indústria brasileira, tendências que devem ser acompanhadas e outras cositas mas. Oi, Aislan! Tudo bem?

Aislan Baer:   1:26
Tudo bem, tudo bem, Tânia, Hamilton, é um prazer. Sabe que eu sou um adorador da mídia impressa e todas as suas vertentes no sentido de mídia. Está sendo muito interessante essa experiência com podcast, sou  totalmente virgem nesse assunto.

Hamiton Costa:   1:46
Seja bem-vindo

:   1:50


Tânia Galluzzi:   1:51
Somos todos

:   1:54


Tânia Galluzzi:   1:56
Essa entrevista tem um sabor especial para mim. Há exatos 11 anos, em abril de 2009, eu entrevistava Lourenzo Baer, pai do Aislan, para a seção História Viva da Revista Abigraf. Lorenzo fez parte daquele célebre grupo de italianos que veio para São Paulo em mil novecentos e setenta e um com o objetivo de formatar a Escola Senai de Artes Gráficas, futura Theobaldo De Nigris. Como está seu pai, Aislan?

Aislan Baer:   2:27
Tá bem, está trabalhando em mais um livro. Ele está recluso, escrevendo, está aproveitando a quarentena porque aí os filhos não vão lá para amolar. Ele pode trabalhar tranquilo, pode escrever com toda a calma do mundo.  Está lá terminando mais um livro que, na visão dele, é o maior legado que deixa no mundo editorial, depois daquele livro da Produção Gráfica. Então, é um pouco mais tipológico, explicando um pouco mais o porquê que a mídia impressa tem seu espaço e a internet não vai tomar o lugar, é um complemento. Então, está explicando isso no livro também. Estou curioso e ele não me deixa ver.

Hamiton Costa:   3:15
É bom você citar isso, porque o Produção Gráfica ainda é procurado. Não sei que site que eu entrei e estava lá, em destaque,  o Produção Gráfica. Manda um abraço pra ele. Convivi muito com ele na época que eu era presidente da ABTG, nos encontrávamos muito no Senai, enfim, bons tempos, boas pessoas.

Tânia Galluzzi:   3:36
E no final das contas, você acabou seguindo os passos dele. Porque o cerne do trabalho da ProjetoPack é a disseminação do conhecimento, a formação de pessoas. Resumidamente ,conta pra gente o que você tem feito.

Aislan Baer:   3:51
A ProjetoPack é uma empresa que a gente começou há mais ou menos há dezesseis anos e todos os serviços da ProjetoPack são exatamente o que você disse,  têm o intuito de transmissão de conhecimento. A gente tem uma revista técnica que está há catorze, quinze anos no mercado, a ProjetoPack em Revista. Ela é uma revista 100% técnica, com assuntos inerentes especialmente ao campo das embalagens flexíveis, que é o maior mercado onde a gente atua. Quando a gente começou voltados muito a esse segmento. A nossa consultoria, a gente imagina, creio eu, é uma consultoria de uma certa expressão no segmento de impressão e  que atua em todos os setores, todos os processos e sistemas, com uma equipe de mais de quarenta pessoas, entre caras de flexo, roto, offset e digital. Obviamente, o maior mercado consumidor de impressão é o de embalagens. Então, por conta disso, a gente também tem um viés muito grande em embalagens e rótulos. Eu não dissocio embalagem de rótulo.  E a gente faz eventos técnicos, seminários, congressos nacionais e internacionais, também é transmissão de conhecimento, e cursos, treinamento que são, digamos, extensões da consultoria. Então, muitas vezes, você vai começar a fazer um trabalho de melhora da performance do cliente através da consultoria, mas ele tem uma boa equipe, ele tem uma equipe capacitada, só falta algum conhecimento adicional, específico. E aí o treinamento é uma ferramenta mais interessante.

Hamiton Costa:   5:25
Também aí da revista, que se falou . A revista neste ano está com viés muito interessante, que é muito de sustentabilidade.  Nesse último número, ele vem até, a própria embalagem dela você pode plantar, gerar alguma árvore. É isso mesmo?

Aislan Baer:   5:47
A gente fez um projeto com dois convertedores importantes, uma Camargo e a Lamine, agora Artvac, onde cada envelope, são seis edições ao ano. Então cada envelope tem uma parte da resposta para sustentabilidade. Então, por exemplo, a primeira edição do ano, a gente falava sobre a redução da espessura dos materiais. A gente fez um envelope com uma espessura ridiculamente fina. A gente fala sobre a questão do plástico, da reciclagem da utilização do plástico pós-consumo nas embalagens. Então uma das edições, o envelope tem um percentual de material pós-consumo. A gente fala sobre a compostabilidade. Então, esse que o Hamilton está dizendo, uma das edições, exatamente a do meio do ano, o envelope é feito de plástico compostável, vai como a semente, e, depois de ler a revista, a pessoa vai lá e planta a semente com o envelope e, hipoteticamente, o envelope não é uma barreira à vida, ele vai se deteriorar e a semente deve germinar. Então, assim, na verdade, a ideia é como a gente é uma consultoria e tem um trânsito maior do que a maioria das revistas, eu tô no cliente, assessorando o cliente na fábrica, a gente pode se dar o luxo de fazer essas experiências, usar a revista como um laboratório de ideias. E este ano a ideia era essa, explorar as várias facetas da sustentabilidade, a utilização de material pós-consumo, utilização de papel, utilização de materiais vindos de fontes renováveis. Então uma das edições vai ter um envoltório feito com plástico feito do etanol, da cana de açúcar.  A ideia é mostrar que existem várias soluções.

Tânia Galluzzi:   7:42
Acho que foi a introdução perfeita e para a gente falar então dos assuntos que a gente vai abordar. E para começar a falar em embalagem flexível, vou pegar uma informação que você divulgou falando sobre o aumento na demanda por embalagens flexíveis na Europa e nos Estados Unidos do durante a pandemia. Fala um pouco sobre isso. De quanto foi esse aumento e por que ele ocorreu ou está ocorrendo.

Aislan Baer:   8:08
Hoje você tem um ponto importante assim que eu sempre gosto de salientar. Há pouca informação confiável por parte mesmo das instituições, das associações globais que fazem esse mapeamento, das empresas de pesquisa, elas pegam um pedacinho. Mas você consegue identificar um trend, uma tendência, um caminho claro. Então, as associações de embalagens flexíveis, tanto europeia quanto americana, têm apontado crescimento na ordem de 5, 5.5  CAGR no ano (Compound Annual Growth Rate, Taxa de Crescimento Anual Composta), durante o período da quarentena. É evidente que parte disso é porque as pessoas, estando em suas casas, elas não deixam de consumo de se alimentar, não deixam de cuidar da higiene pessoal, tem até uma demanda nova, excessiva, por manter o lar limpo e descontaminado. Então, tudo isso gera embalagem flexível. O principal vetor é que as pessoas param de comer na rua. Todo mundo tem que voltar a se reinventar como cozinheiro em casa. E aí as embalagens de comida processada, já pré-pronta, a lasanha do microondas, o pacote de biscoito. Tudo isso acaba sendo um grande aliado no âmbito de quem parou de cozinha por bastante anos e estava vivendo de comer em restaurantes.

Tânia Galluzzi:   9:39
Você acham, vocês dois, vocês acham que isso vai acontecer no Brasil? Você já tem alguma informação, Aislan, desse aumento pela demanda por embalagens flexíveis aqui no Brasil, por conta da covid?

Aislan Baer:   9:51
O que eu tenho conversado com os clientes, nós de consultoria assim, evidente, aqui teve um lockdown abrupto, especialmente em São Paulo. Assim como grande parte do mundo, mas ainda estamos engatinhando. É um mercado que sentiu. Então, a gente teve queda, na verdade. Não sei ainda dar um palpite de qual percentual de queda. Um ponto está claro. Aqui o mercado, ele é multifacetado, ele é muito segmentado. Existem as grandes campeãs multinacionais e algumas poucas nacionais gigantescas. E o resto é um mercado muito fragmentado, empresas de pequeno e médio porte. Então, essas não vão vender para os top 10 brand owners, aí,não vai vender na Nestlé, na Unilever. Eles vão vender nos pequenos, nos pequenos negócios, que foram impactados, porque é que a gente vive uma crise diferente, na verdade. O convid do Brasil é diferente do covid do resto do mundo. Você tem um sobreposição de crises. Você tem uma crise política e é evidente que o comportamento econômico vai ser também bem diferente. Então, você tem uma crise sanitária, uma crise do petróleo que afeta diretamente a cadeia termoplástica, as resinas. E você tem a crise política. Então, a gente está vivendo um tricampeonato. Então, acho que a gente sem dúvida caiu, caiu. Só não sei que quantifica ainda exatamente um palpite preciso porque embalagem flexível só um negócio semântico, porque se tem embalagem do varejo, e o shopping center tá fechado. Então, empresas que estão conectadas ao varejo sentiram. Você tem o cara que vende embalagem para o pessoal de delivery. Esse está feliz da vida. Você tem o cara que tem um viés mais na área cosmética. Se as pessoas estão saindo menos de casa, você tem uma redução do consumo de cosmético. Em compensação, você tem mais produto  higiênico, tudo isso é multifacetado o mercado.

Tânia Galluzzi:   12:02
E é muito cedo para falar

Aislan Baer:   12:03
É muito cedo

Hamiton Costa:   12:05
Se eu puder dar um palpite nisso, eu abrir aqui na minha frente. Quem entrar no site internacional da Heidelberg (https://www.heidelberg.com/global/en/products/pmi_climate.jsp) , a  Heidelberg está pondo um reporte mundial sobre o convid na indústria gráfica. Põe dois mapas múndi, um para a impressão comercial e outro para embalagens e rótulos. Ele põe cor por países ou por região em função de decréscimo, onde está sendo mais severo e menos severo. E bate bate com o que você fala, os Estados Unidos estão numa  produção em alta de embalagem em geral, não dá para identificar o que é flexível ou não. Boa parte da Europa também, Canadá e algumas outras regiões um pouco menos, mas ainda assim em verde, que eles colocam como cor positiva. E o Brasil está laranja, não está nem vermelho que estaria pior, recessão ou diminuição. Está laranja, tentando chegar no amarelo para chegar no verde.  Então, eu acho que é a soma desses impactos que você falou. Mas para quem nos está ouvindo, quiser entrar, entra no site da Heidelberg Internacional, vocês vão ver o mapa mundi com esses dois mundos, embalagem de um lado e impresso comercial do outro, é muito interessante. Eles vão atualizando semanalmente.

Tânia Galluzzi:   13:28
Maravilha. Falando ainda de um outro reflexo da convid que você tem destacado, Aislan, é a mudança na forma como a sociedade enxerga o plástico. Encarado como vilão ambiental até o início deste ano, de repente plástico voltou a ser valorizado, sobretudo nos produtos de uso único, justamente pelo fato de serem descartáveis. Ontem, dia 27 de abril, você publicou uma notícia sobre uma carta aberta da European Plastics Converters à comunidade europeia defendendo o adiamento da diretiva de uso único em plástico. Explicando, em março de 2019, o Parlamento Europeu havia aprovado uma legislação para banir em toda a União Europeia uma série de produtos plásticos descartáveis, incluindo cotonetes, canudos, copos, pratos e talheres, que entraria em vigor em 2021. Em resposta à carta, esse banimento foi adiado por mais um ano. Então, agora, 2022. Vocês acham que esse adiamento pode provocar uma discussão menos política e mais técnica sobre o assunto, daqui para frente?

Aislan Baer:   14:42
Sem dúvida. Toda a indústria, de forma geral, tem um grande componente de lobby político. Com a indústria do plástico, que movimenta alguns vários bilhões de dólares, isso não é diferente. Imagino eu, com menos conhecimento desse segmento, que a indústria de celulose e papel padece dos mesmos problemas que a o do plástico, em proporções diferentes, talvez. Mas o ponto é: as empresas e as pessoas têm sistematicamente o hábito de discutir os efeitos e não a causa dos problemas. E com plástico, para mim, é um exemplo crasso desse fenômeno. Então, não sei se vocês acompanharam recentemente em algumas matérias ou no própria internet. Já tem foto de gente coletando máscaras do mar, do rio, máscaras que são estão sendo utilizadas para as pessoas sobreviverem aí a a pandemia. Ou seja,  por que ninguém vai lá agora e proíbe o uso de máscaras?  Por que não tem sentido, porque isso é um efeito, não é a causa. É a educação do cara que está jogando a máscara onde não deveria, a educação do cara que tá jogando o canudo onde não deveria. Agora, isso não anula o fato de que a indústria do plástico, como um elemento que se deteriora muito amorosamente, não deva agir no sentido dos três erres, reduzir, reutilizar e reciclar. Isso não anula o fato. O ponto é que o fato do plástico não se deteriorar não é a causa, é um efeito. Quem jogou o clássico lá? A gente você entender, criar uma sistemática de reciclagem, de coleta. Esse assunto é muito espinhoso. Eu acho que a crise da pandemia vai ser uma oportunidade de repensar o papel do plástico. Estava se condenando sem avaliar que coisas como o cuidado com a vida e com a higiene etc. e com a transmissão, propagação viral e ou bacteriológica, ou qualquer outro agente que seja contra a saúde humana, o plástico tem um papel fundamental. Eu sempre falo para os grandes ativistas aí do verde, que até o ar que está passando pela cânula do respirador do carinha que está no leito, é de plástico a cânula, sem plástico o cara não vai respirar e morre.

Tânia Galluzzi:   17:21
Eu quero pegar um gancho dessa linha que vocês está falando, explorar um pouco mais isso, o teu conhecimento. Um dos dados usados por essa Comissão Europeia, que defende o banimento dos descartáveis, é que mais de 70% do lixo marinho é composto por plástico. Diante dessa realidade, há quem sonhe com o mundo sem plástico. Vocês acham que é possível um mundo sem plástico? E mais do que isso, vocês acham que é algo economicamente viável?

Hamiton Costa:   17:51
Eu acho que pó-covid, as Gretas Thunberg vão falar mais alto, vai ser ainda mais difícil explicar.

Aislan Baer:   18:00
De novo. A gente não pode cair na armadilha daquilo que nós mesmos criticamos. Eu critico os extremismos. Então, seu eu disser que não deva existir um esforço global de reduzir agentes contaminantes no planeta que se deterioram muito amorosamente, isso é um contrassenso. Eu acho que tem que existir um esforço consciente, convergente e global nesse sentido. Agora, deve existir um esforço ainda maior por educar. Eu tinha dito num artigo,  acho que foi no ano passado, escrevi um artigo onde já estão fazendo uma pesquisa. E existe uma lei, um projeto de lei, já algo até antigo, que impõe uma educação ambiental na escola, principalmente nos mais jovens, ali na fase da escola. E foi feita uma pesquisa pelo próprio governo. E mais da mais de 60% dos jovens não sabe identificar a cor da lata do lixo, da coleta seletiva, para que que é. Então, assim, é um pouco hipócrita, a gente esquecer esse fenômeno da educação e falar que a culpa é material, ou seja, isso que eu acho que é crítico. Agora, depois dessa pandemia toda, vai ter sim uma reconsideração de alguns aspectos. Por exemplo, as grandes redes de varejo nos Estados Unidos, na Europa, perceberam isso, poxa, os materiais retornáveis são uma fonte de propagação, disseminação do vírus. Então é melhor fazer o negócio one way mesmo. Usou, descartou, é menos contaminação. Isso não significa que o cara que vai fazer o carrier bag, a sacolinha do supermercado, não possa fazer a o mais fina possível, mais resistente possível, com a melhor relação peso/produto. Ele não foi desonerado de pensar no ambientalmente no negócio, mas todo esse papel social do plástico precisa ser colocado na balança na hora de se tomar decisões de âmbito político. Todo mundo na hora da eleição quer pagado do ativista verde, do Thunberg etc Mas ninguém quer colocar a mão, por exemplo, no B.O. que é arrumar o sistema de reciclagem dos lixões. Porque isso não é tão visível, não da tanto voto. Então, o problema é muito sistêmico. O que a gente não pode esquecer e eu tenho clientes de todas as esferas, mais eu me posiciona. Eu sei que os caras às vezes ficam bravos comigo, mas é que a embalagem flexível, e aí o plástico está conectado a isso, é a melhor solução em termos de peso da embalagem versus peso do produto , de economia, de facilidade de transporte, de unitização. Você imagina, quanto quanto não se gasta, se a gente pensa no âmbito da pegada de carbono, por exemplo, um caminhão que transporta uma quantidade de garrafas ou latas, quanto não transporta de evento, versos um caminhão com a mesma quantidade de bobinas de material flexível. Tudo hoje é achismo. O principal ponto, por exemplo, uma coisa que ninguém fala. Todo mundo fala da pegada de carbono, então uma solução é melhor ou pior. Existe uma norma ISO para calcular qual é a pegada de carbono que uma embalagem deixa no planeta? Não, porque muito sofisticado. Mas aí eu falo assim: se estou comparando alho com bugalho, como é que posso dizer que a minha solução melhor ou pior? Essas coisas talvez sejam um pouco mais racionalmente colocadas na pauta para que o cara avalie todo o footprint não só um aspecto.

Hamiton Costa:   22:09
Pondo um pitaco aí, você tem absoluta razão no que se está falando. Mas como a gente é incentivador e fã da impressão, estamos no universo da impressão.  Evidentemente cada um defende o seu lado, cada um defendendo seu segmento, o seu mercado. Todo o pessoal que está ligado ao papel, ao cartão e etc, reforçando a questão contra o plástico, claro, pensando na predominância do seu segmento. Eu sou muito mais agnóstico em relação a isso, porque, para mim é tudo indústria gráfica,ainda que o convertedor possa não se entender tanto assim, mas ele é a indústria gráfica. Então, eu vejo um crescimento tanto de um lado quanto de outro, eu vejo como algo positivo, não como algo negativo. Então, não pegar um segmento e batalhar contra o outro. A gente está olhando a indústria como um todo e faz parte da indústria, é muito legal que seja assim.

Aislan Baer:   23:08
Outro ponto importante também e que pouca gente fala. Vamos pensar sob o prisma econômico, estratégico do convertedor. Estar refém de uma só cadeia produtiva também é um risco. Haja vista o petróleo negativo, certo,  já haja vista o spread cambial, uma série de coisas. Então, por exemplo, se eu sou conversador é interessante também pulverizar as minhas estruturas  comercialmente falando para que não seja refém de uma sua cadeia. Celulose papel tem seus problemas, termoplásticos tem outro, alumínio tem outro. Agora, se eu tenho uma matriz diversificada até um determinado ponto em que mesmo diversificando não perca o foco, mas eu tenho um head natural estratégico do meu negócio.

Tânia Galluzzi:   23:58
Vamos continuar nessa linha. Estão, voltando às embalagens flexíveis, fazendo um balanço, então, do que você tem ouvido dos seus clientes, você já citou um pouco antes o que você tem ouvido deles. Mas, como a indústria brasileira de embalagens têm se saído frente a convid?

Aislan Baer:   24:15
Para mim uma coisa é clara. Depois que acabar o covid, e eu não sei quanto tempo isso vai levar, porque tem "n" desdobramentos. Mas a indústria não vai ser mais reconhecível como a gente vê hoje. Vai ter bastante empresa quebrada. Os fortes, os grandes, os gigantes vão sair mais fortalecidos,  obviamente, e os pequenos e médios vão sofrer, geralmente os médicos. Os pequenos ainda têm condição de desligar,  de fechar a porta e voltar quando a crise passa e aí, entre mortos e feridos, salvam-se a maioria. Agora, os médios não. Eles têm uma infraestrutura tal de custo que é muito difícil. E o setor de embalagens, de forma geral, embalagens, rótulos e etiquetas, eles têm um fôlego, um capital de giro, muito pequeno, são empresas alavancadas no crédito bancário e em outros agentes econômicos, factoring.  Então, o crédito obviamente secou, por "n" razões,  inadimplência, o monopólio bancário, a ineficiência da máquina pública em cobrar dos bancos. Ou seja, as empresas estão sem giro e, portanto, estão na derrocada. Agora, caras muito grandes têm fôlego. Se não tem o fôlego, digamos, em espécie, no seu caixa, tem matéria-prima estocada. Portanto, conseguem resistir durante um período maior. Ou seja, vai ter reshape no mercado. Mas a gente tem hoje no mercado de etiquetas e rótulos no Brasil  aproximadamente 1.100, 1.200 empresas, eu estimo que entre 15 a 20%até o final do ano que vem vão, se não quebrarem, estarão em sérios apuros. Muito perto disso. É uma cifra grande. Embalagens imagino que é na faixa de uns 10%, entre 8 e 10% das empresas devam fechar suas portas. Embalagens flexíveis, né. Vai ter muita quebradeira, sim. Muitas empresas que não se recuperarão. Portanto, o único caminho delas é o aporte de investimento, fusão ou coisa do gênero. Portanto, acredito que é um momento essa atividade de fusões aquisições deve crescer bastante. Compra de oportunidade. Os grandes estão produzindo a plena carga. Os médios estão cambaleando e os pequenos, aqueles que são de um nicho específico, produzindo regionalmente uns vão quebrar em outros vão conseguir estancar, aquela coisa do tipo fecha o galpão e quando passar isso eu, o volto e retomo de onde parei com certa dificuldade, mas vão conseguir. Espero que esteja equivocado nos meus números. Mas não é. Tenho visto os clientes e realmente a crise é séria. Até uma outra coisa interessante, que vale um comentário, é qual seria o racional para a gente entender o comportamento do mercado nesse momento de crise. Poder tentar resgatar o que aconteceu em 2008 depois da quebradeira do subprime. Recentemente eu peguei todas as ações das empresas de embalagem de capital aberto na bolsa e fiz um gráfico, ali, para poder entender quanto é que elas deterioraram de valor no pós-subprime. Então, elas perderam mais ou menos 50% do seu valor de mercado somado em seis meses. Demorou 31 meses até que o mercado voltasse ao patamar original e dali fosse uma crescente. Realmente o mercado quadruplicou de valor de 2011 para cá. Até o presente momento, as mesmas empresas, porque não teve grandes novos entrantes na bolsa no setor de packaging em contêineres, as empresas perderam na faixa de 20% em dois meses e meio. O ponto é que é uma curva de queda e de recuperação diferente, porque em 2008 a crise era puramente financeira. Então desligou a chave, acabou a confiança, tudo desmoronou. Aqui, tem idas e vindas das esperanças de um tratamento, das esperanças de reabrir a economia. Você tem  mais gráfico de serra. Então, parece que acharam que a vacina, as empresas recuperam uma parte do valor.  Acredito que tudo isso, pelo menos no curto prazo, segura um pouco o mercado. Essas idas e vindas, apesar do mercado estar declinante como foi 2008, mas ele não tá uma montanha russa, uma diagonal como foi 2008. Importante,  Hamilton na pergunta da Tânia, que eu acho que é legal também, porque que, além da gente estar passando por uma tripla crise, a gente tem a questão política que a Europa e os Estados Unidos não estão vivendo na dimensão que nós aqui estamos. Agora, tem outro componente, o petróleo, ao menos no mercado norte-americano e em parte europeu, ele jogou o preço da resina termoplástica para baixo. Houve uma redução do custo da principal matéria-prima de embalagem flexível. Ao passo que aqui não só não houve, como houve um aumento, porque a disparidade cambial, o dólar subiu na altura, além de tudo tem essa questão.

Tânia Galluzzi:   29:57
Agora vão mudar um pouco o foco. Vamos imaginar que eu trabalhe em um fabricante de embalagens flexíveis, eu trabalhe na produção. O que está acontecendo de interessante, que está em pesquisa e em desenvolvimento, que eu devo ficar atento, que eu devo acompanhar?

Aislan Baer:   30:14
Como a gente falou agora há pouco. O mercado todo está se realinhando esta se reinventando. Algumas visões de negócio mudaram radicalmente. Uma delas é que existia uma dicotomia muito clara entre o mercado de rótulos e etiquetas e o mercado de embalagens flexíveis. Então, um cara de etiquetas, nas máquinas banda estreita, fazendo lotezinhos etc. E o de banda larga  diametralmente oposto. Hoje não. Você a tecnologia permite a redução dos lotes. Eu acho que isso é inexorável. A personalização em massa, que inclusive tem feito com que a impressão digital exponencialmente, tenha ganho mercado ao longo dos anos. A personalização em massa é um vetor que faz com que a indústria se reinvente. O setup hoje é o gargalo de todo o mundo, especialmente dos fabricantes de embalagens e rótulos. Então, hoje você tem operações de rótulo com máquinas de banda estreita atendendo embalagens flexíveis. Então, o pessoal de rótulo é um pouco mais, entre aspas, versátil, nesse sentido.  E embalagens precisa também abrir os horizontes, entender um pouco mais o que está acontecendo, buscar tecnologia para poder reduzir o tempo, a automação. Você vê a quantidade de eventos e informações a respeito da indústria 4.0. É óbvio que isso é irrefreável. Há uma série de iniciativas dos fabricantes das máquinas em colocar conceitos da indústria 4.0, que com certeza vai ser potencializado com o lockdown, com o mundo tentando gerir negócios e fábricas remotamente precisam de mais dados, precisam de máquinas mais conectadas, precisam de processos mais inteligentes. A única coisa, eu sei que o Hamilton tem muito mais conhecimento, está muito mais conectado a esse universo do que eu. Mas eu, como como consultor crítico do cenário, eu vejo que as iniciativas ainda não são coesas. Então, você tem um cara correndo por um lado do carro, correndo por outro. As coisas ainda estão não estão convergentes.

Tânia Galluzzi:   32:37
Você apontou duas tendências, que valem a pena. Flexibilidade e automação. E aí a indústria 4.0. Mas, às vezes a gente fala de indústria  4.0 e fica um conceito meio vago. Estou entendendo que flexibilidade, processos mais flexíveis, e automação são duas tendências que a gente deve ficar bem atento.

Aislan Baer:   33:04
Eu acho que e-commerce é também uma força que não tem como ser desprezada, então, que muda a embalagem na sua essência, embora eu tenha lido muitos artigos interessantes a respeito, ainda para mim não está claro qual é o nível do impacto que o e-commerce vai produzir na embalagem.

Tânia Galluzzi:   33:28
Na embalagem primária e na secundária.

Aislan Baer:   33:32
Então, quer dizer, a partir do momento que compro uma embalagem e, em vez do shelf appeal é o apelo na tela do meu computador, do meu dispositivo móvel, muda bastante a figura. Não que depois que o consumidor receba o produto com a embalagem, ele não tenha que ter a mesma experiência tão boa de uso,  mas isso já diminui uma série de aspectos, como, por exemplo, a compra por impulso, que é muito conectada ao shelf appeal e o cara não está lá.  É um outro tipo de apelo, um apelo muito mais eletrônico da plataforma e da forma como o produto é colocado numa vitrine virtual do que efetivamente no ambiente de compra.  Agora, e eu acho que esse é o principal,  é a forma de enxergar ou negócio. Eu acho que as empresas que resistirem ao qual corona, especialmente no nosso setor, vão perceber que não dá mais para tocar um negócio gráfico com um viés só comercial ou só de produção. E sim, financeiro. Tem que ter uma gestão financeira sólida. Acho que talvez muitas empresas, porque se tenha uma média de vida das empresas pequenas e médias, são empresas relativamente novas,  10 a 15 anos de existência. Um bebê. É a primeira vez onde elas encontraram uma adversidade onde o cara foi no banco e não tem crédito. E agora, que faço? Então, talvez isso mude e fique o mindset do gestor, do empresário dessas convertedoras para começar a entender que o business tem sim que ter todo um planejamento comercial estratégico. Sim, tem que ter um olhar para uma produção enxuta, de baixo custo, de alta eficiência. Mas, se não tiver uma gestão financeira sólida, não tem crise que não detone o caixa, que não faça com que o cara fique vulnerável.

Tânia Galluzzi:   35:36
Nessa linha de tendências e de inovação. Vocês escreveram um artigo juntos sobre a nova indústria da impressão, que está no livro do Hamilton, Gráfica, uma Indústria em Transformação. Explica pra gente, expliquem para a gente, o que é que é a nova indústria da impressão.

Hamiton Costa:   35:55
É a  soma de tudo isso. Aliás, eu tenho recebido um input na últimas semanas extremamente gratificante, e você, Aislan, é parte disso, de muitos empresários e até associações, mais fora do Brasil do que no Brasil, porque aqui no Brasil a gente é santo de casa, lá fora a gente é guro e aqui santo de casa. O pessoal levanta e fala. Hoje mesmo, numa entrevista com pessoal o México. Eles pegaram o meu livro e falaram: as respostas do pós-covid estão aqui, como é que você sabia disso? Não sei. Pergunta por Aislan. Essa nova indústria da impressão faz parte disso, ou seja, ela se expande muito além do que a gente considera indústria gráfica hoje em todas as aplicações e todas as novas possibilidades de impressão.

Aislan Baer:   36:45
É inconteste  o fato de que as pessoas estão consumindo informação de uma forma diferente. A prova disso é esse podcast. Eu acho que a indústria gráfica ela tem um potencial infinito de expansão. Talvez você perca leitores, consumidores da informação na mídia impressa que foram para uma outra plataforma. Mas, em compensação, você tem caras que estão buscando personalização em massa das coisas. Tem caras que estão buscando fontes de energia barata. Todas as aplicações que existem na face da Terra acabam passando pela impressão. Não é à toa que  eu acabei seguindo os passos do meu pai, eu vi nesse ramo, o ramo mais versátil que existe. Então, a gente faz consultoria, por exemplo, para empresas que produzem painel solar impresso, bateria de celular impressa, móveis, comunicação visual,

Tânia Galluzzi:   37:48
E isso é a nova indústria da impressão? 

Hamiton Costa:   37:55
Todas essasas aplicações, mais toda a parte da embalagem também.

Aislan Baer:   38:00
Eu já tive contato no passado não tão longínquo com uma empresa americana chamada Sellink, onde os caras estavam desenvolvendo uma impressora para imprimir tecido ósseo, ou seja, tem um original que precisa ser replicado, é impressão. Da mesma forma como z gente está redefinindo uma série de conceitos para humanidade. Esse é o ponto. Eu não vi ainda isso, ninguém discutido filosoficamente numa Drupa, por exemplo, que eu acho que é um ambiente interessante. A gente não tem rediscutido,coisas do tipo o que ética, qual é o fronteira, qual a fronteira daquilo? Eu acho que teria que discutir a própria indústria gráfica, porque para mim eu entendo que a indústria gráfica é a replicação, entre aspas, no sentido positivo, do meme, da unidade menor de conhecimento, em alguma coisa de forma fidedigna, certo, igual original, what you see what you get. Então, a indústria gráfica, ela é parte, ela está no epicentro disso. Talvez ela tem que ser rediscutida, ela tem que ser ampliada, ela tem que ser revisitada,

Tânia Galluzzi:   39:08
Gente estouramos todos os tempos que a gente podia. Aislan, muitíssimo obrigada por dividir sua experiência com a gente. Foi um papo ótimo.

Aislan Baer:   39:17
Legal, foi divertido. Obrigado a todos, depois manda o link aí para a gente

Tânia Galluzzi:   39:25
Lógico, pode deixar. E manda um beijo para o seu pai.

Aislan Baer:   39:31
Um abraço a todos!

Tânia Galluzzi:   39:33
Pessoal, estamos esperando os comentários e sugestões de vocês. Falem com a gente pelo Instagram, LinkedIn ou pelo email [email protected] 

Tânia Galluzzi:   39:44
Até o próximo, gente, daqui a 15 dias tem mais!