Prelo
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Habitar o Hábito: o método gradual e radical para fazer da escrita uma prática regular
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#121 – É possível escrever com regularidade e não perder a mão do desejo original da escrita? É possível transformar a escrita em um ofício, e inventar com a liberdade do tempo livre? Como fazer isso?
Neste episódio, Tiago Novaes propõe uma reflexão sobre como transformar a escrita num hábito prazeroso, consciente e enraizado.
A partir de experiências pessoais e conceitos da psicologia e da psicanálise, ele compartilha caminhos para construir um sistema criativo sustentável — sem culpa, sem metas inalcançáveis, mas com presença e profundidade.
🌱 Ideal para quem quer retomar (ou finalmente começar) o romance que vive dentro de si.
🎧 Dê o play e venha habitar o hábito.
Seja bem-vinda, seja bem-vindo ao episódio 121 de Prelo. É uma alegria estar aqui conversando com você e a gente vai falar sobre a ideia de habitar o hábito. Uma historinha. Eu tive um recesso agora de duas semanas e recessos... para escritores... as férias para escritores são muito engraçadas... porque... quando o escritor trabalha... ele lê e escreve... quando o escritor tira férias... ele lê e escreve... só que dentro de um outro espírito... dentro de uma outra perspectiva... e é interessante como muitas vezes... estar ocupado... Fica no caminho de, de fato, produzir alguma coisa que seja substancial e importante. Eu estava com muita saudade de escrever. Primeiro semestre, você que me acompanha já sabe, eu mudei de país, mudei de cidade dentro do país, ou seja, foram duas, três mudanças. Muito trabalhoso, muito gratificante, por um lado, evidentemente. Eu passei o semestre também dando um curso, oferecendo um curso que eu... Um curso novo e o fato desse curso ser um curso online põe mais exigências. Ou seja, tem uma questão técnica, tem uma questão de equipe que não existe quando você está diante de uma turma presencialmente. E isso já é um problema. algo a mais, então mudar de país, aprender um idioma novo, dar um curso novo, tudo isso ficou, foi inevitável, ficou no lugar da escrita, eu escrevi, eu escrevi nesse semestre, escrevi bastante até, mas estava assim, querendo chegar num lugar, querendo essas férias, e essas férias foram incríveis, porque eu escrevi, escrevi pra caramba, li muito, li demais e li a partir desse outro lugar e eu sempre fico, não é a primeira vez que isso acontece eu sempre fico com essa pergunta que é será que a gente conseguiria trabalhar como se estivesse de férias fazendo as coisas que a gente faz será que a gente consegue de algum modo trabalhar de maneira não alienada fazendo o que gosta e gostando do que faz eu acho que é um desafio é um desafio que existe desde que eu abri essa formação E eu acho que é muito interessante isso. Mas é uma pergunta que tem a ver, que passa pela questão da alienação, né? Pela questão da... Quando você transforma o teu desejo num projeto, né? O que que se perde aí? O que que se ganha? E como que a gente faz pra não perder? Pra manter o espírito iniciante, né? De que a gente fala tanto. E ao mesmo tempo... a gente está numa efeméride, uma efeméride do meio do ano. É muito interessante porque as pessoas se queixam de exercer a sua democracia, de participar democraticamente apenas a cada dois anos das eleições. E, no entanto, qualquer mudança de esquina, qualquer dia que começa, é uma oportunidade de a gente rever se a gente está no caminho certo. É disso que a gente fala também. Então, a pergunta que eu faço a você é como está a tua escrita? Como está o teu romance? Como está o teu projeto? Aquele projeto que, eventualmente, você começou já há alguns anos e vai, não vai. E você escreve um pouco aqui, um pouco ali. Quanto você fez esse ano? E o que você vai fazer nesse semestre novo? Como você vai criar as condições? para que esse livro exista. Porque, olha, para muita gente que faz minhas formações, eu me vejo obrigado a dizer... o seguinte atestado, e que é, poxa, você já não ficou demais numa zona limítrofe ali, do fazer, não fazer, da experimentação, do molhar a pontinha do pé na piscina? Será que não é o caso da gente se jogar na piscina? Então é disso que a gente vai falar. Olá, você seja muito bem-vinda, seja muito bem-vindo, você está no Prelo. Fabuladores, confabuladores, digníssimos beletristas, sejam bem-vindas, sejam bem-vindos ao prelo de número 121. A gente está falando de hábitos, né? Acho que existem dois métodos, essencialmente, para a gente construir hábitos na nossa vida. Por que os hábitos são importantes? Porque os hábitos, eles são o meio... pelo qual você vai chegar onde você quer chegar. No caso da literatura, ainda tem uma questão que é o hábito é a melhor maneira de você construir um prazer desimpedido em relação ao que você gosta de fazer. A gente não escreve para ter publicado, a gente escreve porque a gente gosta de escrever. A gente não escreve apenas pensando no prazer, e é um prazer enorme você ter um livro, dois livros, três livros, falar, debater, participar, ter uma vida de autora, ter uma vida de autora, isso é fantástico, maravilhoso, eu não estou diminuindo isso, mas o prazer de fazer... ele precisa estar presente. É disso que a gente estava falando antes da vinheta. E a gente tem basicamente dois caminhos aí. A gente tem dois caminhos para escrever, para que a escrita faça, enfim, parte da nossa vida. E quando eu falo a escrita, uma escrita que seja... Porque tem gente que escreve, escreve muito, mas nesse escrever, mas nesse muito, perde um pouco a noção das prioridades. O que eu tô falando é de você se sentar, escrever um romance, mergulhar no mundo que você quer criar, sabe? Construir esse mundo a partir de dentro, né? Construir os seus hábitos a partir de dentro, né? Pra mim é isso que importa, sabe? Porque é isso, muita gente que escreve um livro vem da academia, tá cheio de responsabilidades... intelectuais, autorais. E essas coisas, não raro, se intrometem no processo. Num processo de fabulação, num processo de invenção, num processo de esvaziamento necessário para que você possa criar algo novo, para que o novo possa surgir dentro do teu texto. Essas coisas são muito importantes. E eu acho que a gente tem dois caminhos. Dois caminhos para poder fazer parte, para poder morar dentro da escrita, para poder habitar o hábito, habitar o hábito que é o título desse episódio, é o nome desse episódio. Primeiro é o gradual, o segundo é o radical. O que é o gradual? É aquele incremento diário, é aquela ideia de eu vou escrever um pouquinho, um dedinho por dia. O radical é eu vou fazer da minha vida a minha literatura. Eu vou me mergulhar de cabeça aqui e eu só vou sair de diante da minha tela, do meu caderno, quando eu estiver absolutamente exausta. E vou fazer isso todos os dias até sair com o livro disso. Até sair com o livro disso. A questão que eu queria comentar é o seguinte. O gradual... Ele tem um risco. Qual que é o risco do gradual? O gradual, ele... tem uma certa tendência, pode não acontecer. Porque se for muito gradual, ele mingua para a irrelevância. Ou seja, você escreve ali uma hora aqui, uma hora ali, e depois no outro dia você já não escreve, no outro também não, aí de repente você escreveu meia hora, aí no outro você revisa um pouquinho do que você escreveu na semana anterior. É isso que eu chamo de um gradual minguando para a irrelevância. O que é o radical? Mais uma vez. Radical tem a ver com raiz. Tem a ver com mergulhar fundo. Tem a ver com uma imersão mesmo. A gente está falando de uma imersão. A imersão é importante. A imersão... Ela não pode estar ali o tempo todo, se você é como eu, você tem responsabilidades, eu tenho turmas, tenho estiprelo para montar, eu tenho aulas para dar, enfim, eu tenho responsabilidades que não são únicas e exclusivamente escrever o meu livro. E, sinceramente, se eu só tivesse o meu livro para escrever, vamos dizer que eu não tivesse nenhuma outra responsabilidade, só tivesse o meu livro, eu duvido que eu ficaria só no livro, sabe? Eu ia criar outras coisas para fazer. acho que porque eu tenho outros interesses porque é bom ficar de pé de vez em quando porque é bom socializar socializar é muito bom inclusive para a escrita e a gente vai falar disso e porque existe uma tendência do radical deslizar para o gradual o gradual tem a tendência de minguar para a irrelevância e o radical tem a tendência de deslizar para o gradual e o gradual que brota do radical é bom O gradual que brota do radical é bom. Vou dar um exemplo, que é esse exemplo recente, que é o das férias. Você tem 15 dias. No meu caso, eu escrevi todos os dias, ou quase todos os dias desses 15 dias. Foi muito bom. Foi muito bom mergulhar de cabeça nesse projeto, nesse livro. Passei tardes lendo para o livro, estudando. E de manhã eu escrevia, escrevia, parava... E saia para correr, voltava, escrevia mais um pouco. E aí na parte da tarde eu ia ler algumas coisas que tinham a ver com aquilo. Eu tinha ideias, escrevia mais um pouco. É uma coisa que a gente pode fazer em umas férias. É uma coisa que a gente pode fazer em um fim de semana. É uma coisa que a gente pode fazer aos sábados de vez em quando. Construir um espaço de imersão. Construir um espaço de imersão. Logo mais a gente vai ter uma semana do romance. Uma semana do romance é um espaço de imersão. É um espaço de imersão que nos prepara para uma escrita mais gradual. Esses espaços de imersão são muito bons porque eles enraizam. Radical tem a ver com isso, tem a ver com raiz, porque eles enraizam o hábito em você. E justamente esses hábitos que são enraizados a partir da imersão radical, eles têm muito menos tendência a se alienarem, a se esquecerem de si mesmos. Por quê? Porque você já fez desse hábito a sua casa. Você já fez esse hábito a sua casa. Não é um fazer por fazer. É muito comum isso também. Um fazer por fazer. Aquele sujeito que vai lá, toca um... Uma música, de vez em quando, ele nem cresce, nem ganha, nem perde com aquilo. E quando a gente fala de escrever um livro, a gente fala desse suspiro, dessa vontade, desse sonho bonito. Quando a gente lê um livro da Clarice, o que é aquele livro se não um sonho? Muito grande, muito profundo, muito verdadeiro, muito genuíno. E aquilo não nasce de um desejo alienado. E não nasce de um hábito alienado. E a questão é justamente essa. A gente precisa continuar sonhando grande e executando devagar. A escrita é vagarosa. É a brincadeira do budismo. Sonhos de um samurai, vida de artesão. Todo escritor, de algum modo, sonha. É como o Fernando Pessoa. Guardo em mim todos os sonhos desse mundo. E a vida é de artesão. É muito bonito isso. Isso tem a ver com montar um sistema. A gente não cria um hábito, a gente monta um sistema, se a gente quer realmente fazer as coisas que a gente quer fazer, que é escrever de assim de anão, escrever com regularidade, o objetivo, as metas, isso normalmente a gente perde isso, o sistema não, o sistema ganha. E o que é o sistema? É não apenas fazer o que você deseja fazer, mas trabalhar as condições daquilo que você faz e antecipar os contratempos. Identificar o que você quer, quebrar esse querer em hábitos e repetir todo dia isso. Vou dar um exemplo que não tem a ver com a literatura. Então, esse exemplo... Eu quero perder 5 quilos, vamos dizer. Quero perder 5 quilos. Eu ganhei alguns quilos nesses últimos anos. E isso me faz muito feliz. E eu sei que... Bom, primeiro, perder rápido não adianta. Eu fui fazer uma pesquisa ali sobre Ozempic. Descobri que 92%, 85% dos usuários, de quem toma o medicamento... Engorda depois. É um remédio caro. E uma outra condição é que depois dos 45, perder peso é outra coisa. O metabolismo funciona de outra forma. Você vê, a coisa passa pela lucidez. Você fazer as coisas que você quer fazer, passa por ser lúcido. Passa por enxergar o mundo tal como ele é. Passa por se enxergar tal como... tal como você é, e passa por você deixar de lado as falsas promessas. as falsas promessas... a miragem... que insistem... em te colocarem diante de você... tem muita coisa... muito barulho... esse barulho da miragem... as promessas... a promessa de conveniência... de facilidade... de rapidez... que estão no caminho... estão no caminho dessa lucidez... de fato... então vamos voltar para o nosso exemplo... quero perder 5 quilos... tenho mais de 45 anos... E eu sei que eu sou o culpado, então eu vou criar um sistema que seja simples. A simplicidade nos ajuda a implementar alguma coisa diante de um cenário complexo. Então, eu não vou ficar contando calorias, eu não vou ficar... contando pontos de carboidratos, proteínas, gordura, tantas frutas ou tantas... Não, não vou. Ah, não, não pode comer fora. Não, assim, não vou. Eu não quero complicar uma coisa, uma vida que já é complicada, certo? Então, sei lá, eu penso em algumas coisas. Pessoalmente, gente, eu não sou nutricionista, tá? Tô usando um exemplo voltado pra mim, né? E que tem a ver comigo, não tem a ver com... Sabe, acho que cada um sabe do que te faz bem e do que não te faz bem. Então, pra mim, um jejum intermitente, deixar o teu estômago descansar da comida durante 13 horas, você vê, não é 16 horas, 13 horas, me faz muito bem. Ou seja, eu me sinto mais leve, eu sinto que quando eu como a digestão é mais tranquila. Eu não me sinto tão pesado, eu não sinto aquele torpor que costuma acontecer quando você come uma coisa muito pesada. Então, esse jejum de intermitente de 13 horas me ajuda a comer menos, um pouco, né? Comer mais devagar. Eu vou percebendo essas coisas. Segunda coisa, atividade física. Quatro vezes por semana. Segunda, terça, quinta, sexta. Corrida na segunda, academia na terça. Corrida na quinta, academia na sexta. Você vê que fácil. Atividades complementares, exercícios complementares. Maravilha. Segunda, terça, quinta, sexta, todo dia jejum. Então, se eu terminei de comer às oito, no dia seguinte eu vou começar a comer às nove da manhã. É isso que significa jejum intermitente. Não é muito. Não precisa baixar aplicativo. Não tem nenhuma invenção. Alguns suplementos para o metabolismo. Porque o metabolismo desacelera. Então, tomar um suplemento Ashgandha. Quem que já ouviu falar em Ashgandha? É um lance que eu fiz uma pesquisa. É uma descoberta recente. Tomar um suplemento de magnésio. Alguma coisa assim. Nada muito... mirabolante, né? E o que é mais difícil, cortar o álcool e o doce. Nossa, aí complica demais. Por quê? Porque quando eu bebo, eu tenho vontade de comer doce. E porque no dia seguinte eu não consigo fazer atividade física. Então, tudo... vai por terra quando eu bebo. E porque, no meu caso, eu gosto muito de beber um vinhozinho, assim, eu não bebo muito. Mas, cada vez mais, o álcool tem um efeito muito pesado sobre mim. É um outro dado da realidade, não é um dado da realidade fácil, mas embora eu seja que é difícil cortar o álcool, ele tem um efeito sobre mim que não é legal, né? Se eu tomo um copo, eu não sou o mesmo no dia seguinte, né? E aí, como que eu me preparo pra isso? Porque você fala assim, nossa, eu adoraria tal coisa. Ah, mas tal coisa eu já não consigo abrir mão, né? Só que é condição, às vezes, é condição. No meu caso, eu sei que não é nem tanto doce, né? O doce é meio que vai na esteira do álcool, né? É... Por quê? Porque eu sinto necessidade de botar aquela glicose, aquele açúcar depois de beber, porque eu fico tão... Enfim. Então, algumas coisas, né? Ou seja, é criar condição. Qual que é criar condição? Ter em casa aquela cervejinha zero álcool. Hoje em dia tem até vinho zero álcool. É uma coisa de louco. Uma coisa que eu gosto muito e que tem aquele ar de cerveja pra mim é o ginger beer, que é uma cerveja de gengibre que você pode inclusive fazer em casa se você quiser. Existem gente que gosta de produzir fermentados em casa. É uma coisa bacana. É uma cerveja de gengibre que tem às vezes 0.5, ou seja, é insignificante. É como se eu não estivesse bebendo álcool de fato. Segunda coisa, subir no cavalo rápido, ou seja, nunca cometer o mesmo erro duas vezes seguidas, entendeu? Então, eu acho que é legal você se permitir um escape de vez em quando. Eu não sou radical, a minha questão não é moral, sabe? Então, uma vez por semana, beber um pouquinho, eu não vejo que isso, pra mim, não é um problema, tá? É... O problema não é o deslize, é a desistência. É o desânimo que se segue ao deslize. Isso com a literatura acontece. Ah, eu não escrevi ontem, então eu não vou escrever hoje. Ah, e aí começa, ah não, minha vida é muito ocupada. Aí você vai criando aqueles argumentos na sua cabeça. Não, não dá, é difícil. Não, nossa, ontem foi difícil escrever. Logo hoje eu já não escrevi, então amanhã... E aí por aí vai. É isso, não deixar o deslize, o equívoco, virar um novo hábito. Isso é importante. Outra questão é uma questão da identidade também. Quem é esse sujeito que... quando era jovem, em geral, quando ia encontrar amigos, ia encontrar a mesa do bar, com os copos na mão, com garrafas de cerveja na mão, ou seja, criar uma identidade, essa ideia de criar uma identidade em torno de hábitos dos quais você queira se livrar. É importante pensar nisso, o que é parte de você, o que não é parte de você. Algumas pessoas que eu conheço, estão envelhecendo muito rápido, ou seja, estão perdendo, vamos dizer, o corpo está pesado, está pesando, não estou nem falando de peso, estou falando de metabolismo, estou falando de que se você bebe muito, isso é um veneno, de fato, para você, você vai perdendo energia, você vai perdendo humor, a sua sociabilidade vai ficando cada vez mais amarrada à sua dependência, e é complicado mesmo, eu acho que aí a gente puxa para esse outro para essa outra questão. Que é... Essas pessoas que tinham, vamos dizer... Fico pensando naquela figura. Eu não conheço muito ela. Não tenho como falar muito dela. Mas o João Gordo. Lembra do Rato do Porão? Que emagreceu, que parou de beber. Eu acho que ele deve ter feito outras coisas. E que mudou. Virou outro cara. Virou outro sujeito. O programa do Gordo. Se bem que o Jô Soares sempre foi gordo. Mas o Faustão. Esses caras que tinham... A própria figura, a própria persona tinha a ver com os hábitos alimentares dele. E mais uma vez, não quero vilanizar nada, mas para mim, um certo peso me faz mal, me deixa bem, me tira energia mesmo. A coisa tem mais a ver com saúde, energia, humor, sociabilidade do que qualquer outra coisa. Tem aquele jogador de basquete, o Magic Johnson, quem se lembra dele? Ele era um baita jogador e depois ele virou empresário. Isso a gente enxerga de fora, parece uma coisa simples e não é. O cara depois virou um empresário de sucesso tremendo, tão bom quanto ele era jogador de basquete. E é uma mudança que não é simples isso. E é interessante pensar no quanto que a gente pode retrabalhar os nossos hábitos. E mais uma vez, é uma incorporação de cada vez. Por que a coisa mexe com a nossa identidade? Por que a coisa mexe com quem a gente é, essencialmente? Encontrar esse ser... que está para além do parecer, porque a identidade alcoólica, etílica, é um parecer, no fim das contas. É uma persona, não é quem você é. Ninguém é aquilo que bebe. Enfim, você entende o que eu quero dizer. Então, você poder pensar, a minha mudança do semestre vai ser essa. com paciência, com simplicidade. E é isso, é interessante, porque eu segui outros caminhos que não o da psicologia comportamental. Psicologia comportamental era um braço muito forte na faculdade de psicologia da USP, onde eu me formei. E eu segui outros caminhos, mas tem uma discussão interessante da psicologia comportamental e das mudanças de hábito, que é Todo hábito é uma solução de um problema. Essa solução tem consequências positivas e tem consequências negativas. Ou negativas. E você tem um loop do hábito. Você tem uma circularidade. Então, sei lá, eu passo na frente do bar ou encontro amigos. Você tem ali um... uma sugestão, um efeito sugestivo. Isso me provoca um desejo, isso me provoca uma fissura. Essa fissura, esse desejo, provoca uma resposta. Essa resposta pode ser um pensamento, pode ser uma ação. E essa resposta tem uma recompensa. Então, estou no bar, tenho vontade de beber... imediato, porque eu sempre vou lá, sempre bebo a mesma coisa, então eu vou lá, bebo uma cervejinha, duas, três, cinco, e isso tem uma recompensa, isso, vamos dizer, me faz relaxar, depois me atrapalha o meu sono, ou seja, tudo isso tem efeitos, e tem os efeitos depois também, que não é bem a recompensa, certo? Para que a gente possa incorporar um hábito, existem praticamente quatro grandes métodos. E cada um conversa com um desses elementos do loop do hábito. Sugestão, desejo, resposta, recompensa. Dentro do ponto de vista da perspectiva da psicologia comportamental que pauta muitos livros hoje em dia. Isso, por exemplo, está no hábitos atômicos, que faz um sucesso tremendo, ainda está na lista dos mais vendidos. Faz um sentido de por que está na lista dos mais vendidos, porque tem aí algo do qual a gente pode depreender. Eu não acredito que a gente tem que ficar mergulhado nessa coisa muito meta, meta hábito, sabe? Mas eu acho que a gente pode aprender com isso. Então, primeira lei da incorporação do hábito é tornar... Esse hábito que a gente quer incorporar é algo evidente. Ou seja, montar uma estratégia de implementação. Você ter um plano claro daquilo que você quer, daquilo que você vai fazer, como que você vai fazer, onde e quando esse hábito vai acontecer. Muitas vezes não falta motivação para a gente, falta clareza. Vou repetir, muitas vezes não falta motivação, falta clareza. Então... nos ajuda demais, muitas vezes, declarar aquilo que a gente vai fazer. Então, eu vou escrever às segundas, quartas e sextas, durante duas horas, todos os dias, das sete e meia da manhã às nove e meia da manhã. Vou acordar às sete da manhã e vou me arrumar um pouquinho e vou escrever até às nove e meia da manhã. Vou me trancar no escritório durante esse tempo. Meu celular não vai ficar no meu escritório. Meu celular vai ficar na sala, vai ficar no quarto, vai ficar em qualquer outro lugar. E tornar isso claro. Dizer isso em voz alta. Repetir isso pra você em voz alta. Não subestimar. O pessoal subestima. Eu já disse isso. O pessoal superestima aquilo que pode fazer em uma semana e subestima o quanto que um ano é capaz de fazer. Então a primeira coisa é tornar evidente. Segunda coisa, tornar atraente. Em geral, é... Os hábitos saudáveis ou os hábitos derivados de uma vontade maior têm resultados indiretos. Então, o fato de eu perder 5 quilos... E aí pensando, mais uma vez, não se trata dos 5 quilos. Se trata de entrar nas roupas que eu tenho e cair bem nessas roupas, enfim... Você entendeu o que eu quero dizer. O resultado não é imediato. Então, você precisa criar seduções. Ou seja, você precisa tornar o fazer sedutor. O fazer sedutor. Tem algumas coisas, por exemplo, que nos ajudam a criar um fazer sedutor. Então, em primeiro lugar, ter alguém que me dá uma estimulada, que chama a minha atenção. Tem alguém que te lembra todo começo de semana. Olha ali, nenhum dia sem uma linha. O que é que você vai fazer essa semana? Isso nos ajuda a tornar estimulante fazer determinada coisa. E aí, por exemplo, para mim, escrever é prazeroso. É uma coisa gostosa. Mas esse gatilho ajuda. Segundo lugar, ritualizar. Ritualizar não significa, gente, neurotizar, tá? Embora muitas vezes o sintoma neurótico se expresse por meio de longos e infrutíferos rituais. Mas o que eu tô falando é criar uma sequência de passos, né? Então, todo dia que eu vou escrever, eu acordo, eu vou no banheiro, eu faço um café, eu sento, eu pego esse café, vou pro meu escritório, né? Agora eu tenho um escritório. Eu tenho um tatame, um tatamezinho, eu escrevo no chão, escrevo de pernas cruzadas no chão, ponho um travesseiro no meu colo, ponho um laptop sobre esse travesseiro e reviso o que eu fiz na véspera e prossigo a partir daquilo que eu estava fazendo. É um ritual, você vê, é um ritual. Eu retomei isso de forma mais forte, como eu disse, nesse intervalo de 15 dias, nessa minha imersão das férias. Agora eu estou fazendo isso... Em 15 dias... Eu já não estou pensando muito... Não é uma questão de... Vou fazer... Mas eu tenho outras responsabilidades... Aliás... Isso é uma outra coisa importante... É o seguinte... Você... Isso acontece demais... A pessoa acorda e fala... Eu tenho coisas para fazer... Eu tenho coisas urgentes para fazer... A gente tem que criar um sistema... para que essas coisas não nos atrapalhem. Pessoas muito ansiosas, eu sou um sujeito meio ansioso, eu quero resolver as coisas. Eu tenho essa questão, eu quero resolver. Eu tenho um problema, eu não descanso até resolver. Mas se você é um escritor, isso é um baita de um problema, porque é isso, o problema vai surgir o tempo todo. Se você se deixar pautar pelos incêndios, você nunca vai escrever, né? Então... A ideia de um ritual... De deixar o celular apagado... De aproveitar aquele embalo do sono... No meu caso é o sono... Para você pode ser o fim da tarde... A noite... Você pode gostar de escrever... Quando você já resolveu todas as coisas... E o filho foi dormir... A esposa foi dormir... O marido foi dormir... Enfim... Pode ser a tua... No meu caso... É muito bom quando eu acordo e eu tento não sair daquele, sabe assim, se me vem um pensamento, você tem que, poxa, você tem que preparar tal coisa, imagina, seu dia vai ser difícil hoje, vai ser cheio. Falar, eu vou dar, eu vou dar conta, eu vou ter que dar conta depois, depois eu me viro, entendeu? Eu vou me permitir uma pequena irresponsabilidade e que no final é uma grande responsabilidade. ser autoral ser artista às vezes demanda um certo um certo desapego e sempre as coisas se resolvem depois, sempre você vai se virar alguma coisa vai ficar para o dia seguinte você vai criar maneiras de abreviar determinadas tarefas porque é isso, você pode falar eu vou ter que aprender a fazer determinada coisa que eu faço em 3 horas em 1 hora Quando a gente tem um filho, uma filha, a gente tem que fazer essas coisas na vida. A gente aprende a fazer em meia hora aquilo que a gente tomava o dia inteiro. A mesma coisa com o teu livro, com o teu romance. Terceira coisa, recompensas. Isso nos ajuda muito a tornar atraente. Não é algo que eu faça muito, porque como eu disse, eu tenho muito prazer em escrever, mas nos ajuda você... se você sente que é uma coisa que te atrai... então pense assim... seu livro vai ter 50 mil palavras... a cada 5 mil palavras que você escreveu... você vai comer em um lugar legal... você vai comer em um restaurante bom... em uma lanchonete que você gosta... você vai sair para comer... nem que seja um pastel na feira... sei lá... alguma coisa que você vai estipular para você... e que vai te dar prazer... você vai se gratificar... a cada 10 mil palavras... Sei lá, você vai tirar um domingo, um sábado, que você costumava limpar a casa, arrumar tudo, fazer as comidas da semana, você vai ser irresponsável e vai... vai tirar o dia. Você vai no cinema, vai tomar um milkshake, vai passear na livraria, vai encontrar um amigo, um amigo, vai fazer um café da manhã de duas horas, você vai fazer uma tarde de sessão de podcasts, vai sair para dançar, vai botar um vinil na vitrola para tocar, enfim, essas coisas que fazem o dia ser teu. por exemplo, ou vai sair pra caminhar no parque, você vai passar a manhã na bicicleta, sabe? Te dá essa recompensa, né?
UNKNOWNÉ...
SPEAKER_00E quando você estiver ali no rubicão do livro, no meio do caminho, sei lá, 25 mil palavras, você vai passar um fim de semana na praia, entendeu? Sei lá, ou um dia na praia. Você entende o que eu quero dizer, né? Poder, a partir das tuas condições, do que você pode, do que você quer, você vai se dar esses pequenos... Mais uma vez, escrever é muito bom, gente. Muito bom. Quando a gente mergulha, quando a gente não neurotiza demais, é muito bom, né? Mas essas recompensas não custam nada, custam pouco, mas elas são muito gratificantes. Em último lugar, tornar atraente, como se não bastasse, socializar o hábito. Como que eu posso fazer para me expor a um grupo que tem os hábitos que eu preciso? Então, se eu quero cada vez mais, vamos dizer, praticar atividades físicas quando eu não tenho hábito, Eu tenho o hábito da corrida da academia, que eu tenho desde os 30 anos. A corrida desde os 38, ou seja, já faz 8 anos que eu corro. Mas socializar é sempre bom. Então, fazer parte de uma formação, de uma comunidade escrita, ter o hábito regular de ler para aprender, ter o teu texto lido, comentado, tudo isso sedimenta demais os nossos hábitos. Aquilo que a gente quer reiterar, aquilo que a gente quer consolidar. É uma maneira de habitar o hábito. Bom, falamos de tornar a coisa evidente, tornar a coisa atraente. Em terceiro lugar, tornar fácil. Tornar fácil. O que significa tornar fácil? Vou contar uma história que eu já devo ter contado em outro episódio, mas que é muito interessante. Sujeito, professor de fotografia da Universidade da Flórida, um cara chamado Jerry Wilsonman, turma de 70 alunos, dividiu a turma dele em dois grupos. O primeiro... precisava se dedicar a tirar a foto perfeita. Mas para isso, essa turma iria estudar muito, iria partir para teoria, para os vídeos, para leitura de livros, tudo para tentar tirar a foto perfeita. O enfoque era sobre uma foto, ou seja, tirar a melhor foto possível. Esse outro grupo, a turma dele foi dividida em dois, o segundo grupo foi orientado a sair para fotografar. O sujeito falou, o professor falou, quero que vocês façam, que vocês tentem tirar o maior número de fotos possível, saia para fotografar, fotografar, saia sempre com a câmera, saia sempre com a câmera, sempre fica tirando foto, editando, tirando foto, editando, e assim por diante. No final do ano, ele montou um concurso. Concurso da melhor fotografia. Que foi submetido a um júri, foi submetido ao voto popular e tal. E as melhores fotos estavam no primeiro grupo ou no segundo grupo, na sua opinião? No primeiro grupo, que é o grupo que... enfatizava a teoria, teoria, teoria, vídeos, a foto perfeita, a leitura de livros e assim por diante. Ou o segundo grupo que precisava fazer, fazer, fazer. Claro que eles estavam trocando, eles estavam fazendo o curso do professor. Isso foi fundamental. Mas o enfoque era a prática. As obras, as fotografias premiadas estavam praticamente todas no segundo grupo. O que eu quero dizer com isso? O que eu quero dizer com isso é tornar fácil não significa estimular você a só fazer coisas que são fáceis. Isso é uma besteira. É você, por meio da frequência, tornar mais fácil de fazer aquilo que é originalmente mais complexo e mais difícil. A vida recompensa a ação ao planejamento. Vou dar um exemplo. É muito mais fácil você ler do que escrever. Ler é muito prazeroso. Escrever é prazeroso também, mas é mais fácil ler do que escrever. E como são atividades vinculadas, as pessoas costumam ler porque têm medo de escrever. Ah, não, eu queria ler, escrever, mas eu estou... Ah, não sei, não estou muito legal. Aquela coisa, né? E por isso que a gente tem que se lançar a escrita com intensidade, com mergulho, para tornar isso mais fluido. Ou seja, o comparecimento. Abrir um caderno e uma caneta no café da manhã. Olha só, essa ideia... De você... Você pode... Ou seja, se você estiver num dia ruim... Você tem que, no mínimo, abrir um caderno e uma caneta no café da manhã ou à noite... E ficar ali 20 minutos, longe do celular... Pensando com a caneta na mão. Entendeu? E pensei lá... Eu vou escrever uma frase. Escrevi uma frase. Não me importa se é boa... se não é boa... sabe... uma, duas... sabe... essa é uma maneira de tornar... mais fácil... aquilo que é mais complexo... outra coisa que a gente subestima... é ter um uso para cada canto da nossa casa... não digo um quarto... mas assim... você ter o teu cantinho... do descanso... usar a cama para dormir... por exemplo... ter um cantinho da leitura... Tem um cantinho da escrita. Eu já falei para você que eu tenho um tatame. Eu não sei se eu já cheguei a falar disso, mas tem um tatame onde eu escrevo nesse tatame. Eu leio e escrevo nesse tatame. Ou seja, é uma atividade mais... Agora, eu trabalho na mesa, a mesa, não estou em cima da mesa, eu trabalho a mesa, eu me sento para trabalhar na mesa, em cima de uma cadeira, eu tenho aqui caneta, caderno, tenho HD, tenho meu microfone aqui, estou em uma mesa, com o computador na frente. é um outro espaço porque é uma outra disposição mental uma outra disposição subjetiva isso é importante a ideia é que você torne mais fácil, mais intuitivo ou seja, estreitar o caminho entre você e o comportamento que você quer fazer e o hábito que você quer segmentar ou seja, ter menos passos entre você e o teu caderno entre você e o teu livro E, inversamente, criar pequenos constrangimentos, pequenas dificuldades perante as coisas que você quer deixar de fazer. Então, como eu falei, a coisa do álcool, se eu não tiver álcool em casa, eu não vou beber. E se eu deixar uma cerveja zero álcool lá na geladeira, aí eu começo a estimular esse bebê, essa cerveja de gengibre, essa cerveja zero álcool e tal. Ou seja, eu vou criando estímulos pra essa mudança de hábito em último lugar tem a ver justamente também com essas recompensas que a gente procura tornar satisfatório aquilo que a gente quer fazer Se um comportamento é recompensador, tem uma recompensa, ele é repetido. Se o comportamento não é recompensador, ele não é repetido. Essa é a fórmula da ciência comportamental e a psicanálise vai de encontro a isso em certos sentidos. Ela nasce disso. Por que o sofrimento é gratificante? Por que as pessoas fazem coisas que lhe fazem mal, coisas que provocam dor? O comportamentalismo leva dos 150 anos para... querer começar a resolver essa pergunta. É um papo para outro prelo isso, mas em certo sentido é bom que a gente fique com uma provocação que é a neurose, ela nasce, dentre outras razões, por uma recompensa excessivamente adiada. Quem lê um artigo, tem um artigo muito bom do Freud, um artigo curtinho, chamado Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna. Ele vai falar da construção da neurose a partir de um recalque, de uma repressão muito forte. E, inversamente, a psicose, ela nasce de uma circunstância em que essa recompensa, ela é sempre imediata. Então, você não tem uma constituição, você não tem um espaço da falta para o sujeito se constituir. Não sei em que lugar você se posiciona em relação a isso, qual é a sua leitura sobre isso, mas existe algo que é um jogo entre curtir o tempo e curtir a espera. Né? antecipar as coisas também pode ser prazeroso. E a história da civilização é uma história de curtir a espera. Literalmente, no caso da agricultura, você precisa primeiro semear, leva tempo para você colher. Eu falei em outro momento da fermentação. A fermentação é a cultura dos probióticos que vão trabalhando, transformando a matéria. E isso é muito interessante. Inclusive a narrativa, a ficção, uma maneira de enxergar ela é que a ficção, a narrativa, é um modo que a gente encontrou, que o ser humano encontrou, de gratificar uma recompensa adiada. Olha que interessante. Mas dito isso, é preciso também reconhecer que quando a gente tem um sinal do nosso progresso, isso nos ajuda muito. Ou seja, anotar ali Pode ser bobo, gente, mas eu acho que muitas vezes a gente precisa dessas pequenas gratificações. Ter um sinal visual do progresso, anotar as palavras que você escreveu naquela semana num post-it no computador, deixar isso em letra garrafal ali, grudada no post-it, pode te ajudar. Você fala, nossa, semana passada eu escrevi... duas mil palavras, três mil palavras, sabe, se eu for escrever mais três mil essa semana, pode ser, isso pode, sabe, assim, cada vez eu tô mais adiante, né, em um mês eu tenho o quê? Dez mil palavras, doze mil palavras, né, em quatro, cinco meses eu tenho um livro, né, a primeira versão de um livro, isso é muito bom, rastrear esse progresso é como você pegar a estrada e chegar a cada vilarejo, eu fiz o caminho de Santiago, setecentos e oitenta quilômetros Agora... em cada cidade que eu chegava... eu me sentia recompensado... era um prazer descobrir aquela cidade... eu saí dos Pirineus... onde eu estou agora... nesse momento justamente... saí dos Pirineus... você chega em Pamplona... chega em Burgos... chega em... Roncesvalles... você vai avançando... vai avançando... o cenário vai mudando... a geografia vai mudando... é um pouco como... você ir anotando... as palavras... você escreveu naquela semana. A quantidade de palavras. Aquilo vai falar da qualidade do teu escrito? Não, evidente que não. Mas vai te dar um pouco esse índice do progresso e isso é gratificante. Isso te ajuda a prosseguir. Agora, em último lugar, antes da gente encerrar, eu acho que é muito importante a gente sempre se lembrar de escrever por prazer. De que você está escrevendo para você. Claro que a gente escreve para o outro. Claro que a gente quer ser amado, claro que a gente quer ser reconhecido, mas originalmente a gente escreve para a gente. Quando você começa a burocratizar demais o processo da escrita, eu sugiro que você volta, volta, volta, volta. Se lembra por que você está fazendo aquilo. Ah não, porque, nossa, esse livro, por causa disso eu tenho que ler tal coisa, tenho que ler... Não! Faz de conta, é claro que... Todos nós, para escrever bem, a gente precisa estudar e aprender. Mas se você está se sentindo desanimada, pensa que aquilo que você tem, que você guarda dentro de si, é o bastante. É claro que isso precisa ser mobilizado. É claro que precisa ser mobilizado. Mas que você vai ter tempo suficiente depois para revisar. para tirar as partes que não te agradam, para reescrever parágrafos que não são bacanas. Mas aí você já vai ter esse original pronto. É isso, trocar com os colegas, crescer no ofício. É importante que você enfatize a sua trajetória, o caminho que você percorre, e não o ponto de chegada. E não uma comparação arbitrária com qualquer outra pessoa. e que a motivação que você quer encontrar não surge antes do trabalho. Ela vem com o trabalho. É o trabalho que vai criar essa motivação. Ela não vem antes, não precede essa vontade. Quando você fala, não estou com muita vontade, é claro que você não está escrevendo. A motivação surge durante o processo. Ao fim de uma sessão, ao fim de uma semana... escrevendo... relendo aquilo que você está fazendo... e falando... bom... tem imperfeições aqui... mas vou avançar... eu estou em movimento... estar em movimento... é muito poderoso... é isso que vai te dar a energia... é isso que vai te dar... esse é o elã... é daí que brota o elã... pessoal... é isso... essa é uma conversa que eu acho que... pode se estender ainda muito... Mas fica o convite para que você participe desse processo imersivo, radical e passional em direção ao teu projeto, ao teu romance, a essa ficção maravilhosa que você está produzindo e que já existe dentro de você. Um grande abraço e até mais.
UNKNOWNTchau! E aí